sábado, 18 de fevereiro de 2012

Aprender a olhar para as estrelas

Um dos meus livros chamou-se Remendos e Arranjos, contendo crônicas, contos e poesias. Os contos contavam a relação entre um mestre e seu aprendiz. Aqui a primeira história.


O aprendiz olhou para as sombras e viu que lá estava seu mestre. Ele falava com alguém.
- Não tem sentido esconder-se na noite. Você não praticou nenhum crime, nem tem a forma tão horrorosa que tenha medo de assustar alguém.
- Não é por minha forma, ou por um crime praticado que me escondo. Acontece que as pessoas têm medo de seus próprios pensamentos. Sentem até algum prazer em saber que o que pensam é somente delas. E quando olhamos um rosto e vemos um sorriso maroto e atravessado, já o sabemos: ela está pensando algo que não compartilha com os demais.
Foi se aproximando e a forma foi desaparecendo na noite.
- Com quem falava, Mestre?
- Ninguém, pequeno menino. Ninguém.
- E porque “ninguém” precisaria dizer o que nós sentimos quando estamos pensando em alguma coisa que não queremos repartir?
- Ah. Tu escutastes? Pois é.
- É o que, Mestre?
- Era a morte.
- A morte!!!
- Sabia que irias assustar-te. Mas ela não é tão tenebrosa assim.
- Cruzes, Mestre, então o que ela é?
- Ela é a única certeza que temos na vida.
Durante um pouco tempo, somente ouviam os grilos reclamando do meio da grama.
- É verdade. Mas o que ela queria com o senhor?
- Um dia temos que nos encontrar com ela.
- Mas tem que ser agora? Vais nos deixar?
- É uma longa história. Vamos sentar ali adiante e eu explico.
Acomodados de encontro a uma pedra, podiam ver o céu, os desenhos que ninguém conseguia reproduzir; o sussurro da brisa nas árvores, que nenhum instrumento era capaz de executar, e o gemido dos pequenos animais da noite, que formavam uma perfeita sinfonia.
- A morte vem, pequeno menino, mas muitas vezes não quer nos levar. Ela acaba nos preparando para continuar a caminhada. Se não temos a perspectiva da nossa finitude, então podemos nos tornar difíceis, envelhecer incomodando os outros, ou enchendo-os de conselhos que não somos capazes de praticar.
Ficou em silêncio para poder desfrutar do calor do pequeno corpo alojado ao seu lado e da natureza que parecia envolvê-los e harmonizá-los com o céu, a terra e o ar. Olhou para o lado, o pequeno aprendiz ressonava. Meu discurso está se tornando enfadonho. Tenho que me concentrar mais em silêncios do que em discursos!
As estrelas no céu piscavam. Uma delas pareceu mostrar o rosto do menino ao seu lado, que cintilava e perguntava:E porque devemos silenciar mais?”
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