terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Caindo na gandaia, no Carnaval

Vamos combinar, o que se vê no Carnaval da televisão tem todo o direito de ser considerado o "maior espetáculo do Mundo". Um espetáculo magnífico que pode ser considerado uma superprodução, em todos os sentidos: enche os olhos com cor e movimento, abunda (em todos os sentidos) a coreografia e dá um sentido de brasilidade como nenhum outro povo na Terra consegue fazer.
Claro que é um espetáculo com acertos e com erros, mas que o final é deslumbrante, nem o mais cético dos seus críticos consegue negar. Além da manifestação cultural, existem muitos interesses financeiros que mobilizam a ânsia de um povo de entrar na avenida e mostrar que, apesar de todos os seus sofrimentos, compensa com o samba no pé (que não é exatamente o meu caso - no máximo conseguiria ser um daqueles que empurram os carros alegóricos).
Ver crianças que veneram o samba, até idosos que não se constrangem em derramar lágrimas por suas Escolas, dá um sentido de pertença que não se encontra em outras manifestações culturais, inclusive religiosas.
Acompanhei dois repórteres que foram desafiados a se preparar para, em 40 dias, saírem como mestre sala e porta bandeira. Os dois reconheceram que tiveram que se superar, física e emocionalmente. A repórter chegou a desmaiar na avenida, mas não desistiu. E quando desfilaram, a emoção estava no olhar de cada um deles, que reconheceram ser o espetáculo apenas a ponta de toda uma convivência de uma comunidade.
Não discuto o espetáculo comercial, mas reconheço que o espetáculo popular meche com a população. Não é apenas aqueles que vão para a avenida, mas também aqueles que curtem pela televisão. Quando uma escola samba e atravessa na nossa tela, nossos corações se enchem de alegria e de satisfação: somos brasileiros, portanto, quando o samba arranca, a emoção movimenta nossos corpos e, nem que seja em espírito, também caímos na gandaia!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Para ser e fazer feliz


Noveleiro de férias, acompanho Fina Estampa, na Rede Globo, tentando ter um entretenimento para aquela hora da antiga novela das oito, mas também observando perfis humanos diferenciados. Desde dezembro, chamou-me a atenção o personagem Paulo (Dan Stulbach), que rejeitou a filha de sua esposa, Esther (Julia Lemmertz), gerada em laboratório, ao ponto de separar-se e criar uma autêntica aversão à menina Vitória.
O grande lance foi quando, para solucionar um problema gerado pelo fato de que a médica Danielle (Renata Sorrah) resolveu brincar de deus e utilizou esperma e óvulo de pessoas de sua relação para a fecundação, era necessário que Esther voltasse de um “exílio” para defender, com unhas e dentes, a sua maternidade.
Resultado, engambelou Paulo que, ao acordar, estava junto com seu “desafeto” e um mapa de atividades para cuidar da menina, desde uma simples mamadeira, até trocar as benditas e carregadas fraldas.
Com certeza, não poderia ser qualquer ator para fazer a transformação: do absoluto repúdio até, gradativamente, ver-se envolvido pelo bebê, com acertos e erros, mas com a capacidade regenerativa que uma nova vida pode causar.
Em alguns capítulos, o comportamento de Paulo chegava a ser doentio, possivelmente pela própria incapacidade de gerar um filho e vendo que, de outra forma, sua esposa havia conseguido a realização. Não entro na discussão da fecundação, mas do quando é necessário, para que tenhamos sanidade mental, a capacidade de estar aberto nas relações, em especial naquelas mais duradouras, como as familiares e afetivas. Do contrário, somos capazes de atormentar até mesmo aqueles que julgamos amar.
Há sempre uma chance, em algum momento, de refazermos caminhos, redescobrindo o jeito perdido de chegar a um coração: pode ser um pouco mais complicado do que uma mamadeira ou a troca de fraldas, mas vai aparecer como uma surpresa que talvez nos dê apenas uma chance para ser e fazer alguém feliz.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Almas desencontradas


Relembrando artigos já publicados. Em agosto de 2005, enquanto era apresentada pela Rede Globo a novela Almas Gêmeas
Não me admiro que os antigos defendam a ideia de que assuntos como religião, futebol, política e mulher (elas dirão: homem) não devem ser discutidos em grupos de amigos. É um bom motivo para o início de uma confusão. Mas não posso deixar de escrever sobre a novela que está no ar às 18 horas, tratando um dos aspectos ligados ao Espiritismo, que é a reencarnação.
Minha intenção não é falar a respeito deste tema especificamente, até porque, do que ouvi, os próprios espíritas não estariam lá muito contentes com este retalho do seu credo filosófico, feito mais para criar uma situação sentimental (sentimentalóide?) do que esclarecer seus princípios.
Minha questão é outra. O contraponto a esta pretensa pregação é a Igreja Católica, com elementos não de sua doutrina, mas do uso de seus espaços físicos, antro onde todas as ações do mal são articuladas. Vai haver uma negociata? É iniciada na igreja. Vai haver uma traição? Foi acertada na igreja. Vai se passar alguém para trás? É na igreja que se amarra a forma de fazê-lo.
Quando vejo as damas e cavalheiros ajoelhados em suas tramóias, fico pensando se os próprios santos não teriam vontade de descer de seus pedestais e esbofetear solenemente aqueles sacrílegos.
Creio que os autores e diretores têm todo o direito de tomar elementos da realidade – inclusive religiosa – para serem discutidos nas novelas. O que não têm direito é de fazer proselitismo de uma religião ou filosofia em demérito de outra.
Sei de todos os pecados que nós Católicos, Apostólicos, Romanos acumulamos ao longo da história. Mas daí a fazer uma leitura atravessada e mal intencionada vai uma grande diferença. Os espaços de manifestação religiosa – sejam templos, sinagogas, terreiros, salas de reuniões de determinadas filosofias – precisam ser respeitados e salvaguardados.
O imperativo no convívio das diferenças é, exatamente, o respeito. Este não se manifesta apenas quando o defendemos em tese, mas em situações em que, na prática, evitamos divulgar conceitos, insuflar pessoas. Especialmente as mais simples, que já vivem num mundo bem difícil para que coloquemos em dúvida o pouco arrimo que ainda têm: a própria fé.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Aprender a olhar para as estrelas

Um dos meus livros chamou-se Remendos e Arranjos, contendo crônicas, contos e poesias. Os contos contavam a relação entre um mestre e seu aprendiz. Aqui a primeira história.


O aprendiz olhou para as sombras e viu que lá estava seu mestre. Ele falava com alguém.
- Não tem sentido esconder-se na noite. Você não praticou nenhum crime, nem tem a forma tão horrorosa que tenha medo de assustar alguém.
- Não é por minha forma, ou por um crime praticado que me escondo. Acontece que as pessoas têm medo de seus próprios pensamentos. Sentem até algum prazer em saber que o que pensam é somente delas. E quando olhamos um rosto e vemos um sorriso maroto e atravessado, já o sabemos: ela está pensando algo que não compartilha com os demais.
Foi se aproximando e a forma foi desaparecendo na noite.
- Com quem falava, Mestre?
- Ninguém, pequeno menino. Ninguém.
- E porque “ninguém” precisaria dizer o que nós sentimos quando estamos pensando em alguma coisa que não queremos repartir?
- Ah. Tu escutastes? Pois é.
- É o que, Mestre?
- Era a morte.
- A morte!!!
- Sabia que irias assustar-te. Mas ela não é tão tenebrosa assim.
- Cruzes, Mestre, então o que ela é?
- Ela é a única certeza que temos na vida.
Durante um pouco tempo, somente ouviam os grilos reclamando do meio da grama.
- É verdade. Mas o que ela queria com o senhor?
- Um dia temos que nos encontrar com ela.
- Mas tem que ser agora? Vais nos deixar?
- É uma longa história. Vamos sentar ali adiante e eu explico.
Acomodados de encontro a uma pedra, podiam ver o céu, os desenhos que ninguém conseguia reproduzir; o sussurro da brisa nas árvores, que nenhum instrumento era capaz de executar, e o gemido dos pequenos animais da noite, que formavam uma perfeita sinfonia.
- A morte vem, pequeno menino, mas muitas vezes não quer nos levar. Ela acaba nos preparando para continuar a caminhada. Se não temos a perspectiva da nossa finitude, então podemos nos tornar difíceis, envelhecer incomodando os outros, ou enchendo-os de conselhos que não somos capazes de praticar.
Ficou em silêncio para poder desfrutar do calor do pequeno corpo alojado ao seu lado e da natureza que parecia envolvê-los e harmonizá-los com o céu, a terra e o ar. Olhou para o lado, o pequeno aprendiz ressonava. Meu discurso está se tornando enfadonho. Tenho que me concentrar mais em silêncios do que em discursos!
As estrelas no céu piscavam. Uma delas pareceu mostrar o rosto do menino ao seu lado, que cintilava e perguntava:E porque devemos silenciar mais?”

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Democracia de papagaios

No início dos anos 80, estávamos em fase de redemocratização, com o regime militar chegando ao seu final, era comum de que pessoas mais simples utilizassem jargões de esquerda, julgando estar fazendo um discurso politicamente correto. Infelizmente, o máximo que acontecia, é que se transformavam em papagaios ideológicos.
Foi do que me lembrei quando, esta semana, discutia com amigos a respeito do julgamento do "Ficha Limpa" (que deve passar no Supremo Tribunal Federal) e as suas consequências para a sociedade. Alguém dizia que era necessário um processo de politização da população. Argumentei que não concordava: para mim, conscientização é um processo que precede e que deve levar à politização como resultado.
Conscientização é algo mais elementar, pois trabalha com um dos mais ricos elementos da atualidade: a informação. Na atual Campanha da Fraternidade - Fraternidade e Saúde Pública - tenho defendido que uma das ações seja informar, para poder conscientizar, a população dos seus direitos mais elementares: como a disponibilidade de remédios da cesta básica para toda a população, com prescrição médica.
A população precisa conhecer os seus direitos - e deveres, consequentemente - para poder efetivar a sua participação plenamente consciente. O "Ficha Limpa" é uma das etapas - necessária, é claro - mas parte do seu processo de amadurecimento, na busca do sonho de que, um dia, possamos viver plenamente um relacionamento democrático, em todos os níveis: político e econômico, por exemplo, para não viveremos uma democracia de papagaios.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Gustavo e uma morte anunciada

Uma criança, um pátio de fácil acesso, um cachorro de raça classificada como "animal feroz" e um "acidente", que resultou na morte do Gustavo. Todos eram fatores de risco: a criança estava sendo descuidada, foi relaxada a capacidade de contenção do animal e a fatalidade aconteceu.
Há uma briga histórica entre aqueles que defendem a criação destes animais e aqueles que julgam que situações de risco devem ser eliminadas, especialmente pela castração, o que, em algum tempo, acabaria com estas raças.
No entanto, parece que aqueles que defendem a sua existência, mais do que os argumentos colocados, têm, inconscientemente, a necessidade de provarem que são capazes de dominar o perigo. Quando ouvi técnicos falando a respeito, veio-me à lembrança os muitos animais que passeiam com seus donos pelas calçadas e calçadões, ostentando sua "arma" em potencial. Confiam no braço para controlar um animal que, na maior parte das vezes, está numa coleira, mas sem a salvadora focinheira.
É mais uma demonstração de machismo recalcado que tenta colocar num animal a sua potencial violência e virilidade. Na maior parte das vezes, sem ter plena consciência - por ser um tipo de exibicionismo - dos perigos que pode causar a terceiros.
A morte do Gustavo era plenamente evitável. Mas quando se expõe a perigos - inclusive de uma criança - o pior pode acontecer, porque a própria criança não tem noção de perigo. Infelizmente, muitas explicações vão ser dadas, mas nenhuma vai trazer o Gustavo de volta.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A morte, o espetáculo e seus atores


A defesa de Lindemberg Alves Fernandes, acusado de matar a estudante Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, está usando como tática culpar o Grupo de Ações Táticas Especiais da Polícia Militar de São Paulo e a imprensa. Tenho pensado nisto há algum tempo: a responsabilidade dos integrantes da área militar e do jornalismo no campo da ética, em coberturas onde a vida está em risco.
Não resta dúvida que muitos destes eventos foram espetacularizados, onde, muitas vezes, os limites são bem mal definidos. Por conta disto, em muitos casos, espetáculo e protagonistas se confundem.
No caso da imprensa, em muitos casos, a pressa em dar a notícia confunde os limites e faz com que parentes e amigos das vítimas também sejam vítimas, pois recebem através dos meios de comunicação a narração de desgraças, como acidentes, envolvimento em seqüestros, etc.
Também os militares não escapam. A falta de preparo acaba transformando-os em fontes que perdem a noção diante das luzes das câmaras e a atração dos microfones. Tornam-se “artistas” por um dia, dizendo impropriedades em horas inadequadas.
No caso citado, as duas coisas se juntaram e foram sendo passadas para vizinhos, parentes e, até, os três que estavam dentro da casa: Lindemberg, Eloá e uma amiga. O passar dos dias transformou a todos os envolvidos em protagonistas de uma grande tragédia com o final plenamente anunciado.
Estes limites, realmente, são muito difíceis. Mas é necessário que retomemos a discussão ética e moral de certas coberturas. Mesmo que se diga que o ridículo e a tragédia têm papel especial na cabeça da maior parte da população, isto também faz parte do papel da comunicação, que é educar um povo para que mude e assuma a sua própria cidadania.