domingo, 12 de novembro de 2017

Porque ainda somos amados


Um amigo disse que tinha chegado aos 85 anos e estava no tempo de morrer. Achando que era brincadeira, perguntei o por quê: "meu pai morreu aos 85. E morreu bem. Minha mãe se arrastou até os 93 e definhou..." Por trás daquilo que alguns julgaram ser um ataque de rabugice estava uma grande verdade: a própria natureza coloca limites na conservação do corpo, em todos os sentidos.
Pode haver exceções. Embora esta seja a regra: ao passar dos 85, mais facilmente começa a se perceber os sinais do envelhecimento, com a debilidade do físico, nem sempre acompanhada da debilidade do espírito. É este desafio que se coloca para a medicina, assim como para profissionais e familiares que acompanham o idoso.

Quem conviveu ou convive com pessoa idosa sabe o quanto é difícil aceitar o fato de não conseguir realizar certas tarefas e precisar de amparo porque a memória lhe prega peças. Há casos em que a pessoa é dócil e, então, a tarefa é mais fácil, embora não menos penosa. Porque quando se restringem os movimentos também começam as restrições da vida social. É a finitude toldando o horizonte da própria vida.

Da experiência com meus pais aprendi muito, especialmente que tudo o que foi apreendido pode ir por água a baixo e necessitar de revisão no dia seguinte. Munir-se de paciência, carinho, companheirismo e solidariedade é regra que impede a soberba, de infantilizar ou coisificar o idoso, mas também de que, na nossa própria perspectiva, o envelhecimento é certo e a morte um futuro que não se tem como descartar.

Quando me perguntaram porque procurei uma pessoa idosa da qual passei afastado a maior parte da vida, já não tinha mais dúvida: hoje, não exercendo função pública, não pode me beneficiar financeiramente e nem em prestígio. Gosto de estar com ela porque fez muito pela minha formação e o que faço satisfaz uma parte das suas necessidades, assim como o meu sentimento de ser, de alguma forma, útil.

A utilidade de um idoso é a sua própria inutilidade. A solidão, em qualquer idade, mas especialmente na velhice, é a negação do direito de ter ao lado alguém que não quer nos empurrar ou puxar, mas apenas estender a mão. No sentido mais elementar de que viver é a repetição incessante de atos que nos comprovam que há sentido até o derradeiro sopro de vida. Exatamente porque ainda somos amados.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Viver e alimentar a fé

A senhora idosa não queria festa no seu aniversário. Receberia filhos e netos para um café da tarde. Mas tinha um pedido: que tocassem as campainhas com o cotovelo. Reunidos, o pedido de explicação. Simples: se tocassem com o cotovelo significava que as mãos estavam bem ocupadas. Com os presentes que esperava receber!
A história foi contada por dom Paulo de Couto, bispo emérito de Montenegro, na noite de domingo (05), ao anunciar a inauguração da capela de Nossa Senhora Aparecida no Seminário Propedêutico (período em que jovens fazem o discernimento se querem candidatar-se ao sacerdócio), disponível também para a comunidade.
Da Catedral de São João Batista até o sopé da montanha foi uma procissão de dez minutos, em que o bispo pediu para lembrarem com carinho e atentos à formação dos rapazes que, num futuro, conduzirão os destinos da Igreja Católica e, hoje, precisam que, muitas vezes, as pessoas cheguem tocando a campainha com o cotovelo.
Não creio que a preocupação de dom Paulo era apenas com as doações. Mas, em comum com a senhora, havia o significado da entrega que não era apenas uma troca de presentes em um aniversário. Mas o instante em que quem dá tem única e exclusivamente esta preocupação: disponibilizar um pouco de si para o outro.
Voltava a Pelotas, depois de uma estada em Caxias e visita ao padre Rômulo (para eles dom Carlos) em Montenegro, e não resisti em continuar a história. Um dos netos que não trouxera presente apareceu alguns dias mais tarde. O porteiro o deixou passar pelo portão e porta do prédio. Já no apartamento, bateu com o cotovelo.
O som foi abafado, mas suficiente para a vó ouvir e quis saber porque não soltara o presente. A explicação: não queria deixar de atender à recomendação, mas sua altura era insuficiente para alcançar a campainha. A criança entendera que a senhora dera uma lição: o importante no dar está em se fazer presente. E compartilhar carinho.
Um presente carrega o tempo gasto em atender a necessidade ou o desejo de alguém, o momento de satisfação da entrega e, depois, a lembrança do seu significado. Que pode ficar como elo para toda uma vida. A comunidade que fez a sua procissão dificilmente vai esquecer a história do cotovelo. Os seminaristas também não.
Afinal, iniciaram uma caminhada em que, de diferentes formas, tocarão campainhas usando o cotovelo, especialmente porque estarão com as mãos carregadas da esperança e da certeza de que este povo conseguiu um dos mais belos presentes: viver e alimentar a própria fé!

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A partida do Chico

Na semana passada, o Chico partiu. Depois que a Vera se foi, acreditei que ele iria desandar. Tinha todos os motivos para isto. Mas não foi o que aconteceu. A morte da esposa não o desanimou, mesmo seguindo-se do diagnóstico de uma doença que, certamente, o levaria à morte. Soube enfrentar, dar testemunho de uma da suas opções maiores: era preciso continuar vivendo. E viver intensamente!
A primeira lembrança do Francisco Neto de Assis foi ainda pelos corredores da Escola de Comunicação. Naqueles bons tempos em que se trabalhava bastante na Agência de Comunicação, onde seu filho, o Érico, era um dos mais animados nas atividades de extensão. Foi quando ouvi pela primeira vez falar da ADOTE (Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos).
Foi simpatia à primeira vista. Do nosso primeiro encontro já saí com minha carteira de identidade marcada com o selo de doador. Aquele nordestino de olhar inteligente e atento fazia colocações objetivas, facilitando em muito o que a academia podia fazer em apoio a uma causa que tinha ganho a sua vida.
Passei a acompanhar suas atividades. Era elétrico. Presente em muitos setores da socidade - em especial na área da saúde - com capacidade de mobilização, mas também não se furtando a um embate quando julgasse necessário. O Rotary tem uma dívida para com ele, inclusive quando do exercício de seus dotes culinários.
Raramente o encontrei depois da morte da Vera, mas tornou público o diagnóstico de sua doença, a busca pela cura e seu reencontro com valores espirituais. Nunca me pareceu que fosse um homem de religião, mas, com certeza, era um homem de fé. Suas narrativas mostravam pelas redes sociais que não tinha medo de experimentar alternativas em busca da cura. Mas, também, a certeza de que vivia e buscava fazer com que outros vivessem, sem medo de enfrentar a morte.
Homens como o Chico sempre fazem falta. Muitos são aqueles que, hoje, graças ao seu trabalho, conseguiram transplante e sobrevida. Fiquei imaginando que Deus reuniu quem já recebeu alguma doação, familiares e admiradores que o aplaudiram na chegada. Parodiando Manuel Bandeira, em seu poema "Irene no Céu": Chico se apresentou no umbral do paraíso. "Dá licença, posso entrar? E São Pedro bonachão: você não precisa pedir licença. A casa é sua!" Vai em paz, Chico!

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Deus não joga...

É comum encontrarmos pessoas que são taxativas em usar a expressão: "Deus castiga!". Especialmente quando algum mal atinge uma outra pessoa a sentença se faz peremptória, abrindo mão de qualquer julgamento. Mais facilmente, estigmatizamos ao outro, buscando, para nós, ao menos, o benefício da dúvida.
Alguém que não quis cuidar de uma pessoa incapacitada - seja por doença, deficiência ou velhice - e depois depara-se com a própria finitude, sendo, também, abandonada, consegue o estigma de que "teve a sorte que mereceu, o castigo de Deus!". Concordo com a primeira parte, discordo da segunda.
Quando se pratica o mal, especialmente para quem precisa da nossa solidariedade, plantamos a semente daquilo que nos reserva o futuro. Não é uma questão do "querer de Deus", mas de consequência dos nossos próprios atos. Se eu fumar durante anos, beber por muito tempo, descuido da minha saúde e, no futuro, vou ter que arcar com os resultados.
Estas são áreas bem definidas - embora mal compreendidas e aceitas - porque já se conhece o resultado do excesso de fumo e de álcool. Mesmo assim, acredita-se que, parando depois de algum tempo, Deus vai fazer o resto! Como assim? queremos os "benefícios" de uma vida desregrada e, depois, a solução tem que vir por milagre?
Milagres não são tão comuns assim. O pai que abandonou o filho criança desejava passar uma borracha no tempo que negou o convívio. Impossível. Por melhor que sejam os anos futuros, restam cicatrizes dos tempos de solidão e afastamento. Voltar é um passo acertado, que não desfaz o erro, sequer suas marcas.
Os tempos de crise abrem espaços para os fanáticos, que transformam Deus em refém, fazendo chantagem para que Ele lhes entregue todos os benefícios e, de preferência, fulmine seus adversários. Mas também para uma discussão sobre os valores morais e referências éticas.
As religiões cristãs são ricas nesta área: a grandeza do Novo Testamento é, exatamente, o anúncio de que "Deus é amor", dando a liberdade ao homem, até, para praticar o mal. Mas fazendo-o colher daquilo que plantou. Pagar por pecados não precisa ser um tempo depois que se abrem os portões da Eternidade. Acertamos as contas ainda por aqui, na certeza de que "Deus não joga... mas fiscaliza!"

domingo, 15 de outubro de 2017

Outubro Rosa - não desistir da esperança

Homem usa rosa? A pergunta é preconceituosa, mas o 8º Batalhão de Bombeiro Militar do Estado não se importou com a carga que a cor carrega e aderiu ao Outubro Rosa - campanha de conscientização, prevenção e combate ao câncer. Durante este mês, seus integrantes vão usar camisetas que incentivam as mulheres - mas também seus companheiros - a se preocuparem com o assunto.
Evoluímos no tratamento do câncer. Talvez o de mama, na mulher, e o de próstata, no homem, sejam aqueles que dão maiores esperanças quando há prevenção. Para as mulheres já é uma questão tranquila. Mas ainda há muito preconceito por parte dos homens. A prevenção pode fazer a diferença entre um longo e difícil tratamento e encontrar oportunidade de cura. Não se brinca com o diagnóstico que mostra uma disfunção do organismo capaz de levar à morte.
Esperar pela sorte é negligenciar um cuidado básico e necessário. Enfrentar medicação, quimioterapia, radioterapia, necessita de preparação física, psicológica e espiritual. Atender às recomendações médicas é uma parte importante de todo o processo. Mas também cercar-se de bons fluídos para alcançar a serenidade necessária. E a fé pode dar sentido ao sofrimento, até na perspectiva da finitude.
Este longo e penoso caminho - bem enfrentado e bem acompanhado - pode mudar o enfoque, inclusive no que se refere à realização pessoal e ao sentido da própria vida. Talvez pessoas próximas - familiares e amigos - não tenham noção do quanto são importantes enquanto presença que significa apoio e referência para não desistir.
Os rapazes do Corpo de Bombeiros deram seu testemunho: fazem seu trabalho e são formadores de opinião em suas comunidades. Ao realizar um ato com mulheres em tratamento emocionaram quem recém teve o câncer detectado até aquelas que já lutam há longo tempo. Juntos fizeram um jura que ressoou por corações, emudeceu vozes e fez transbordar lágrimas: "um por todos... e todos por ELAS!"
Mais do que um voto é uma grande certeza: a vida de uma guerreira - em toda a sua fragilidade - que enfrenta as vicissitudes é o exemplo mais claro e límpido de que viver vale a pena quando outros dão sentido à nossa própria caminhada. Olhares de ternura, sorrisos, gestos de carinho, orações fazem parte da corrente que alimenta quem precisa apenas de um pequeno gesto para não desistir da esperança.

domingo, 8 de outubro de 2017

Aparecida - um porto seguro

Texto ajustado para os jornais desta semana. Já publicado aqui no blog.

Participei, em agosto, do Mutirão de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Realizado em Joinville, Santa Catarina, teve momentos especiais. Um deles foi quando, no encerramento, aconteceu a consagração dos comunicadores à Nossa Senhora Aparecida, a estimada Padroeira do Brasil, mas também das grávidas, recém-nascidos, rios, mares, ouro, mel e da beleza.Quando completam 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição pelos pescadores há muito o que aprender com a fé popular que irradia daquele centro de evangelização. O momento de oração iniciou com a retirada do manto e da coroa que tradicionalmente conhecemos. Despida, a imagem é de um corpo negro e uma mulher grávida.
A pequena imagem foi descoberta, inicialmente, pela parte do corpo e só bem mais tarde pela cabeça. Dom Darci Nicioli, referencial de Comunicação da CNBB, fez a motivação dizendo que sempre se perguntou porque, ao encontrar um pedaço de imagem, o pescador não atirou de volta ao rio. Afinal, era apenas uma parte de uma estátua, sem valor algum.
Mas o pescador tinha um "olhar de fé". O suficiente para aguardar e ser recompensado com a outra parte. Conta a história que a envolveu em sua camiseta de trabalho, primeira veste daquela que se tornaria a Padroeira do Brasil. Uma cobertura para não ser esquecida, já que também da família do pescador viria o primeiro lugar sagrado onde seria apresentada ao povo, assim como o primeiro manto costurado pelas mãos calejadas dos ribeirinhos.
No mesmo evento, duas estandes era dedicadas à Aparecida. Uma delas à televisão, que alcança o território nacional e faz seu trabalho de evangelização. No outro, o Memorial, ainda em formação, com mais de uma centena de imagens de cera, representando figuras que fizeram a história do Santuário, assim como de muitos que contribuíram para se tornar o que é hoje - uma referência de fé.
Este ano, muitos são os caminhos que levam à Aparecida. A motivação do encontro dizia que havia uma explicação para Nossa Senhora não ter seu filho no colo: "para receber em seus braços todos aqueles que dela necessitam." A consagração terminou quando restituíram o manto e a coroa. Elementos que o povo lhe deu como adereços, numa justa e singela homenagem.
Mas fiquei com a impressão de que a imagem - desnuda - era mais significativa. Mulher negra e grávida, cheia de sonhos e preocupações. Tratando de uma humanidade que, no ir e vir em busca de solução para suas aflições, volta os olhos para o lugar onde fica a Mãe de todos, numa súplica por um abraço e um colo que se torne um porto seguro de fé.

domingo, 1 de outubro de 2017

E assim nós partimos...

O filme não está mais nos cinemas, mas pode ser encontrado em serviços por internet ou locadoras: Os meninos que enganavam os Nazistas. Filhos de uma família judia em Paris, quando a guerra começa a se aproximar da capital francesa o perigo é grande - especialmente para a sua gente.
Dosa cenas fortes com momentos de pura ternura entre dois irmãos. Sabendo que o conflito chegará às suas portas, o pai tem a preocupação em fazer com que os filhos sobrevivam. Para isto, precisam negar a própria identidade e separar-se. À mesa, conversando, pede às crianças para dizer que não são judeus.
Pergunta ao pequeno, que nega sorrindo e leva um tapa. Assustado, passa a dar ênfase à negação. Na partida, estarão sozinhos, se outros fugitivos terão que se esforçar, o fato de serem judeus os tornará duplamente perseguidos. Enfrentar o perigo para chegar à zona livre exige superação dos próprios medos.

O carinho entre os irmãos vai se transformando em cumplicidade e amadurecimento. O pequeno torce o pé e o mais velho o carrega nas costa afirmando que o "levaria ao fim do Mundo se fosse preciso". Cansa e, sentados à beira do caminho, reconhece que é pesado, mas que o ajudará de outra forma...
Duas crianças percorrendo terras estranhas. Em alguns momentos protegidos por outras pessoas - inclusive religiosos - sabendo que para permanecer vivos precisam perder a inocência: discernir entre em quem podem confiando ou aqueles que estarão à espreita para se aproveitar do seu pouco preparo para a vida.
Ao invés de uma aventura, uma jornada de sofrimento e dor. Laços se aprofundam, com a necessidade de descobrir seu lugar e definir o lado em que se está na busca pela sobrevivência. A lição de humanismo está, exatamente, quando a sanha dos que foram perseguidos os transforma em perseguidores.
Da boca do pequeno Joseph (o irmão mais novo) sai o pedido de que se preserve a vida de um simpatizante do Nazismo, que seja levado a julgamento, para que a massa não se transforme em justiçeira. Em contraste com a perda do pai no campo de concentração - a ferida que encontram quando voltam para casa.
O pai lhes deixara uma lição: "quando morre um homem bom há uma estrela que se ilumina no céu e é preciso manter viva a esperança". Exatamente o que tinham no horizonte ao enfrentar todos os percalços - em meio à tormenta que assolava a Europa, havia um lugar de onde partiram... Mas para o qual, mais do que tudo, um dia, queriam voltar!