Vamos combinar, o que se vê no Carnaval da televisão tem todo o direito de ser considerado o "maior espetáculo do Mundo". Um espetáculo magnífico que pode ser considerado uma superprodução, em todos os sentidos: enche os olhos com cor e movimento, abunda (em todos os sentidos) a coreografia e dá um sentido de brasilidade como nenhum outro povo na Terra consegue fazer.
Claro que é um espetáculo com acertos e com erros, mas que o final é deslumbrante, nem o mais cético dos seus críticos consegue negar. Além da manifestação cultural, existem muitos interesses financeiros que mobilizam a ânsia de um povo de entrar na avenida e mostrar que, apesar de todos os seus sofrimentos, compensa com o samba no pé (que não é exatamente o meu caso - no máximo conseguiria ser um daqueles que empurram os carros alegóricos).
Ver crianças que veneram o samba, até idosos que não se constrangem em derramar lágrimas por suas Escolas, dá um sentido de pertença que não se encontra em outras manifestações culturais, inclusive religiosas.
Acompanhei dois repórteres que foram desafiados a se preparar para, em 40 dias, saírem como mestre sala e porta bandeira. Os dois reconheceram que tiveram que se superar, física e emocionalmente. A repórter chegou a desmaiar na avenida, mas não desistiu. E quando desfilaram, a emoção estava no olhar de cada um deles, que reconheceram ser o espetáculo apenas a ponta de toda uma convivência de uma comunidade.
Não discuto o espetáculo comercial, mas reconheço que o espetáculo popular meche com a população. Não é apenas aqueles que vão para a avenida, mas também aqueles que curtem pela televisão. Quando uma escola samba e atravessa na nossa tela, nossos corações se enchem de alegria e de satisfação: somos brasileiros, portanto, quando o samba arranca, a emoção movimenta nossos corpos e, nem que seja em espírito, também caímos na gandaia!
Manoel Jesus
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Para ser e fazer feliz
Noveleiro de férias, acompanho
Fina Estampa, na Rede Globo, tentando ter um entretenimento para aquela hora da
antiga novela das oito, mas também observando perfis humanos diferenciados.
Desde dezembro, chamou-me a atenção o personagem Paulo (Dan Stulbach), que
rejeitou a filha de sua esposa, Esther (Julia Lemmertz),
gerada em laboratório, ao ponto de separar-se e criar uma autêntica aversão à
menina Vitória.
O grande lance foi quando, para
solucionar um problema gerado pelo fato de que a médica Danielle (Renata
Sorrah) resolveu brincar de deus e utilizou esperma e óvulo de pessoas de sua
relação para a fecundação, era necessário que Esther voltasse de um “exílio”
para defender, com unhas e dentes, a sua maternidade.
Resultado, engambelou Paulo que,
ao acordar, estava junto com seu “desafeto” e um mapa de atividades para cuidar
da menina, desde uma simples mamadeira, até trocar as benditas e carregadas
fraldas.
Com certeza, não poderia ser
qualquer ator para fazer a transformação: do absoluto repúdio até,
gradativamente, ver-se envolvido pelo bebê, com acertos e erros, mas com a
capacidade regenerativa que uma nova vida pode causar.
Em alguns capítulos, o
comportamento de Paulo chegava a ser doentio, possivelmente pela própria
incapacidade de gerar um filho e vendo que, de outra forma, sua esposa havia
conseguido a realização. Não entro na discussão da fecundação, mas do quando é
necessário, para que tenhamos sanidade mental, a capacidade de estar aberto nas
relações, em especial naquelas mais duradouras, como as familiares e afetivas.
Do contrário, somos capazes de atormentar até mesmo aqueles que julgamos amar.
Há sempre uma chance, em algum
momento, de refazermos caminhos, redescobrindo o jeito perdido de chegar a um
coração: pode ser um pouco mais complicado do que uma mamadeira ou a troca de
fraldas, mas vai aparecer como uma surpresa que talvez nos dê apenas uma chance
para ser e fazer alguém feliz.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Almas desencontradas
Relembrando artigos já publicados. Em agosto de 2005, enquanto era apresentada pela Rede Globo a novela Almas Gêmeas
Não me admiro
que os antigos defendam a ideia de que assuntos como religião, futebol, política
e mulher (elas dirão: homem) não devem ser discutidos em grupos de amigos. É um
bom motivo para o início de uma confusão. Mas não posso
deixar de escrever sobre a novela que está no ar às 18 horas, tratando um dos
aspectos ligados ao Espiritismo, que é a reencarnação.
Minha intenção
não é falar a respeito deste tema especificamente, até porque, do que ouvi, os
próprios espíritas não estariam lá muito contentes com este retalho do seu
credo filosófico, feito mais para criar uma situação sentimental
(sentimentalóide?) do que esclarecer seus princípios.
Minha questão
é outra. O contraponto a esta pretensa pregação é a Igreja Católica, com elementos
não de sua doutrina, mas do uso de seus espaços físicos, antro onde todas as
ações do mal são articuladas. Vai haver uma
negociata? É iniciada na igreja. Vai haver uma traição? Foi acertada na igreja.
Vai se passar alguém para trás? É na igreja que se amarra a forma de fazê-lo.
Quando vejo as
damas e cavalheiros ajoelhados em suas tramóias, fico pensando se os próprios
santos não teriam vontade de descer de seus pedestais e esbofetear solenemente
aqueles sacrílegos.
Creio que os
autores e diretores têm todo o direito de tomar elementos da realidade –
inclusive religiosa – para serem discutidos nas novelas. O que não têm direito
é de fazer proselitismo de uma religião ou filosofia em demérito de outra.
Sei de todos
os pecados que nós Católicos, Apostólicos, Romanos acumulamos ao longo da
história. Mas daí a fazer uma leitura atravessada e mal intencionada vai uma
grande diferença. Os espaços de
manifestação religiosa – sejam templos, sinagogas, terreiros, salas de reuniões
de determinadas filosofias – precisam ser respeitados e salvaguardados.
O imperativo
no convívio das diferenças é, exatamente, o respeito. Este não se manifesta
apenas quando o defendemos em tese, mas em situações em que, na prática,
evitamos divulgar conceitos, insuflar pessoas. Especialmente as mais simples,
que já vivem num mundo bem difícil para que coloquemos em dúvida o pouco arrimo
que ainda têm: a própria fé.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Aprender a olhar para as estrelas
Um dos meus livros chamou-se Remendos e Arranjos, contendo crônicas, contos e poesias. Os contos contavam a relação entre um mestre e seu aprendiz. Aqui a primeira história.
O aprendiz olhou
para as sombras e viu que lá estava seu mestre. Ele falava com alguém.
- Não tem sentido
esconder-se na noite. Você não praticou nenhum crime, nem tem a forma tão
horrorosa que tenha medo de assustar alguém.
- Não é por minha
forma, ou por um crime praticado que me escondo. Acontece que as pessoas têm
medo de seus próprios pensamentos. Sentem até algum prazer em saber que o que
pensam é somente delas. E quando olhamos um rosto e vemos um sorriso maroto e
atravessado, já o sabemos: ela está pensando algo que não compartilha com os
demais.
Foi se
aproximando e a forma foi desaparecendo na noite.
- Com quem
falava, Mestre?
- Ninguém, pequeno
menino. Ninguém.
- E porque
“ninguém” precisaria dizer o que nós sentimos quando estamos pensando em alguma
coisa que não queremos repartir?
- Ah. Tu
escutastes? Pois é.
- É o que,
Mestre?
- Era a morte.
- A morte!!!
- Sabia que irias
assustar-te. Mas ela não é tão tenebrosa assim.
- Cruzes, Mestre,
então o que ela é?
- Ela é a única
certeza que temos na vida.
Durante um pouco
tempo, somente ouviam os grilos reclamando do meio da grama.
- É verdade. Mas
o que ela queria com o senhor?
- Um dia temos
que nos encontrar com ela.
- Mas tem que ser
agora? Vais nos deixar?
- É uma longa
história. Vamos sentar ali adiante e eu explico.
Acomodados de
encontro a uma pedra, podiam ver o céu, os desenhos que ninguém conseguia
reproduzir; o sussurro da brisa nas árvores, que nenhum instrumento era capaz
de executar, e o gemido dos pequenos animais da noite, que formavam uma
perfeita sinfonia.
- A morte vem,
pequeno menino, mas muitas vezes não quer nos levar. Ela acaba nos preparando
para continuar a caminhada. Se não temos a perspectiva da nossa finitude, então
podemos nos tornar difíceis, envelhecer incomodando os outros, ou enchendo-os
de conselhos que não somos capazes de praticar.
Ficou em silêncio
para poder desfrutar do calor do pequeno corpo alojado ao seu lado e da
natureza que parecia envolvê-los e harmonizá-los com o céu, a terra e o ar.
Olhou para o lado, o pequeno aprendiz ressonava. Meu discurso está se tornando enfadonho. Tenho que me concentrar mais
em silêncios do que em discursos!
As estrelas no
céu piscavam. Uma delas pareceu mostrar o rosto do menino ao seu lado, que
cintilava e perguntava: “E
porque devemos silenciar mais?”
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Democracia de papagaios
No início dos anos 80, estávamos em fase de redemocratização, com o regime militar chegando ao seu final, era comum de que pessoas mais simples utilizassem jargões de esquerda, julgando estar fazendo um discurso politicamente correto. Infelizmente, o máximo que acontecia, é que se transformavam em papagaios ideológicos.
Foi do que me lembrei quando, esta semana, discutia com amigos a respeito do julgamento do "Ficha Limpa" (que deve passar no Supremo Tribunal Federal) e as suas consequências para a sociedade. Alguém dizia que era necessário um processo de politização da população. Argumentei que não concordava: para mim, conscientização é um processo que precede e que deve levar à politização como resultado.
Conscientização é algo mais elementar, pois trabalha com um dos mais ricos elementos da atualidade: a informação. Na atual Campanha da Fraternidade - Fraternidade e Saúde Pública - tenho defendido que uma das ações seja informar, para poder conscientizar, a população dos seus direitos mais elementares: como a disponibilidade de remédios da cesta básica para toda a população, com prescrição médica.
A população precisa conhecer os seus direitos - e deveres, consequentemente - para poder efetivar a sua participação plenamente consciente. O "Ficha Limpa" é uma das etapas - necessária, é claro - mas parte do seu processo de amadurecimento, na busca do sonho de que, um dia, possamos viver plenamente um relacionamento democrático, em todos os níveis: político e econômico, por exemplo, para não viveremos uma democracia de papagaios.
Foi do que me lembrei quando, esta semana, discutia com amigos a respeito do julgamento do "Ficha Limpa" (que deve passar no Supremo Tribunal Federal) e as suas consequências para a sociedade. Alguém dizia que era necessário um processo de politização da população. Argumentei que não concordava: para mim, conscientização é um processo que precede e que deve levar à politização como resultado.
Conscientização é algo mais elementar, pois trabalha com um dos mais ricos elementos da atualidade: a informação. Na atual Campanha da Fraternidade - Fraternidade e Saúde Pública - tenho defendido que uma das ações seja informar, para poder conscientizar, a população dos seus direitos mais elementares: como a disponibilidade de remédios da cesta básica para toda a população, com prescrição médica.
A população precisa conhecer os seus direitos - e deveres, consequentemente - para poder efetivar a sua participação plenamente consciente. O "Ficha Limpa" é uma das etapas - necessária, é claro - mas parte do seu processo de amadurecimento, na busca do sonho de que, um dia, possamos viver plenamente um relacionamento democrático, em todos os níveis: político e econômico, por exemplo, para não viveremos uma democracia de papagaios.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Gustavo e uma morte anunciada
Uma criança, um pátio de fácil acesso, um cachorro de raça classificada como "animal feroz" e um "acidente", que resultou na morte do Gustavo. Todos eram fatores de risco: a criança estava sendo descuidada, foi relaxada a capacidade de contenção do animal e a fatalidade aconteceu.
Há uma briga histórica entre aqueles que defendem a criação destes animais e aqueles que julgam que situações de risco devem ser eliminadas, especialmente pela castração, o que, em algum tempo, acabaria com estas raças.
No entanto, parece que aqueles que defendem a sua existência, mais do que os argumentos colocados, têm, inconscientemente, a necessidade de provarem que são capazes de dominar o perigo. Quando ouvi técnicos falando a respeito, veio-me à lembrança os muitos animais que passeiam com seus donos pelas calçadas e calçadões, ostentando sua "arma" em potencial. Confiam no braço para controlar um animal que, na maior parte das vezes, está numa coleira, mas sem a salvadora focinheira.
É mais uma demonstração de machismo recalcado que tenta colocar num animal a sua potencial violência e virilidade. Na maior parte das vezes, sem ter plena consciência - por ser um tipo de exibicionismo - dos perigos que pode causar a terceiros.
A morte do Gustavo era plenamente evitável. Mas quando se expõe a perigos - inclusive de uma criança - o pior pode acontecer, porque a própria criança não tem noção de perigo. Infelizmente, muitas explicações vão ser dadas, mas nenhuma vai trazer o Gustavo de volta.
Há uma briga histórica entre aqueles que defendem a criação destes animais e aqueles que julgam que situações de risco devem ser eliminadas, especialmente pela castração, o que, em algum tempo, acabaria com estas raças.
No entanto, parece que aqueles que defendem a sua existência, mais do que os argumentos colocados, têm, inconscientemente, a necessidade de provarem que são capazes de dominar o perigo. Quando ouvi técnicos falando a respeito, veio-me à lembrança os muitos animais que passeiam com seus donos pelas calçadas e calçadões, ostentando sua "arma" em potencial. Confiam no braço para controlar um animal que, na maior parte das vezes, está numa coleira, mas sem a salvadora focinheira.
É mais uma demonstração de machismo recalcado que tenta colocar num animal a sua potencial violência e virilidade. Na maior parte das vezes, sem ter plena consciência - por ser um tipo de exibicionismo - dos perigos que pode causar a terceiros.
A morte do Gustavo era plenamente evitável. Mas quando se expõe a perigos - inclusive de uma criança - o pior pode acontecer, porque a própria criança não tem noção de perigo. Infelizmente, muitas explicações vão ser dadas, mas nenhuma vai trazer o Gustavo de volta.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
A morte, o espetáculo e seus atores
A defesa de
Lindemberg Alves Fernandes, acusado de matar a estudante Eloá Cristina
Pimentel, 15 anos, está usando como tática culpar o Grupo de Ações Táticas
Especiais da Polícia Militar de São Paulo e a imprensa. Tenho pensado nisto há
algum tempo: a responsabilidade dos integrantes da área militar e do jornalismo
no campo da ética, em coberturas onde a vida está em risco.
Não resta dúvida
que muitos destes eventos foram espetacularizados, onde, muitas vezes, os
limites são bem mal definidos. Por conta disto, em muitos casos, espetáculo e
protagonistas se confundem.
No caso da
imprensa, em muitos casos, a pressa em dar a notícia confunde os limites e faz
com que parentes e amigos das vítimas também sejam vítimas, pois recebem através
dos meios de comunicação a narração de desgraças, como acidentes, envolvimento
em seqüestros, etc.
Também os
militares não escapam. A falta de preparo acaba transformando-os em fontes que
perdem a noção diante das luzes das câmaras e a atração dos microfones.
Tornam-se “artistas” por um dia, dizendo impropriedades em horas inadequadas.
No caso citado,
as duas coisas se juntaram e foram sendo passadas para vizinhos, parentes e, até,
os três que estavam dentro da casa: Lindemberg, Eloá e uma amiga. O passar dos
dias transformou a todos os envolvidos em protagonistas de uma grande tragédia
com o final plenamente anunciado.
Estes limites,
realmente, são muito difíceis. Mas é necessário que retomemos a discussão ética
e moral de certas coberturas. Mesmo que se diga que o ridículo e a tragédia têm
papel especial na cabeça da maior parte da população, isto também faz parte do
papel da comunicação, que é educar um povo para que mude e assuma a sua própria
cidadania.
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