domingo, 15 de outubro de 2017

Outubro Rosa - não desistir da esperança

Homem usa rosa? A pergunta é preconceituosa, mas o 8º Batalhão de Bombeiro Militar do Estado não se importou com a carga que a cor carrega e aderiu ao Outubro Rosa - campanha de conscientização, prevenção e combate ao câncer. Durante este mês, seus integrantes vão usar camisetas que incentivam as mulheres - mas também seus companheiros - a se preocuparem com o assunto.
Evoluímos no tratamento do câncer. Talvez o de mama, na mulher, e o de próstata, no homem, sejam aqueles que dão maiores esperanças quando há prevenção. Para as mulheres já é uma questão tranquila. Mas ainda há muito preconceito por parte dos homens. A prevenção pode fazer a diferença entre um longo e difícil tratamento e encontrar oportunidade de cura. Não se brinca com o diagnóstico que mostra uma disfunção do organismo capaz de levar à morte.
Esperar pela sorte é negligenciar um cuidado básico e necessário. Enfrentar medicação, quimioterapia, radioterapia, necessita de preparação física, psicológica e espiritual. Atender às recomendações médicas é uma parte importante de todo o processo. Mas também cercar-se de bons fluídos para alcançar a serenidade necessária. E a fé pode dar sentido ao sofrimento, até na perspectiva da finitude.
Este longo e penoso caminho - bem enfrentado e bem acompanhado - pode mudar o enfoque, inclusive no que se refere à realização pessoal e ao sentido da própria vida. Talvez pessoas próximas - familiares e amigos - não tenham noção do quanto são importantes enquanto presença que significa apoio e referência para não desistir.
Os rapazes do Corpo de Bombeiros deram seu testemunho: fazem seu trabalho e são formadores de opinião em suas comunidades. Ao realizar um ato com mulheres em tratamento emocionaram quem recém teve o câncer detectado até aquelas que já lutam há longo tempo. Juntos fizeram um jura que ressoou por corações, emudeceu vozes e fez transbordar lágrimas: "um por todos... e todos por ELAS!"
Mais do que um voto é uma grande certeza: a vida de uma guerreira - em toda a sua fragilidade - que enfrenta as vicissitudes é o exemplo mais claro e límpido de que viver vale a pena quando outros dão sentido à nossa própria caminhada. Olhares de ternura, sorrisos, gestos de carinho, orações fazem parte da corrente que alimenta quem precisa apenas de um pequeno gesto para não desistir da esperança.

domingo, 8 de outubro de 2017

Aparecida - um porto seguro

Texto ajustado para os jornais desta semana. Já publicado aqui no blog.

Participei, em agosto, do Mutirão de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Realizado em Joinville, Santa Catarina, teve momentos especiais. Um deles foi quando, no encerramento, aconteceu a consagração dos comunicadores à Nossa Senhora Aparecida, a estimada Padroeira do Brasil, mas também das grávidas, recém-nascidos, rios, mares, ouro, mel e da beleza.Quando completam 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição pelos pescadores há muito o que aprender com a fé popular que irradia daquele centro de evangelização. O momento de oração iniciou com a retirada do manto e da coroa que tradicionalmente conhecemos. Despida, a imagem é de um corpo negro e uma mulher grávida.
A pequena imagem foi descoberta, inicialmente, pela parte do corpo e só bem mais tarde pela cabeça. Dom Darci Nicioli, referencial de Comunicação da CNBB, fez a motivação dizendo que sempre se perguntou porque, ao encontrar um pedaço de imagem, o pescador não atirou de volta ao rio. Afinal, era apenas uma parte de uma estátua, sem valor algum.
Mas o pescador tinha um "olhar de fé". O suficiente para aguardar e ser recompensado com a outra parte. Conta a história que a envolveu em sua camiseta de trabalho, primeira veste daquela que se tornaria a Padroeira do Brasil. Uma cobertura para não ser esquecida, já que também da família do pescador viria o primeiro lugar sagrado onde seria apresentada ao povo, assim como o primeiro manto costurado pelas mãos calejadas dos ribeirinhos.
No mesmo evento, duas estandes era dedicadas à Aparecida. Uma delas à televisão, que alcança o território nacional e faz seu trabalho de evangelização. No outro, o Memorial, ainda em formação, com mais de uma centena de imagens de cera, representando figuras que fizeram a história do Santuário, assim como de muitos que contribuíram para se tornar o que é hoje - uma referência de fé.
Este ano, muitos são os caminhos que levam à Aparecida. A motivação do encontro dizia que havia uma explicação para Nossa Senhora não ter seu filho no colo: "para receber em seus braços todos aqueles que dela necessitam." A consagração terminou quando restituíram o manto e a coroa. Elementos que o povo lhe deu como adereços, numa justa e singela homenagem.
Mas fiquei com a impressão de que a imagem - desnuda - era mais significativa. Mulher negra e grávida, cheia de sonhos e preocupações. Tratando de uma humanidade que, no ir e vir em busca de solução para suas aflições, volta os olhos para o lugar onde fica a Mãe de todos, numa súplica por um abraço e um colo que se torne um porto seguro de fé.

domingo, 1 de outubro de 2017

E assim nós partimos...

O filme não está mais nos cinemas, mas pode ser encontrado em serviços por internet ou locadoras: Os meninos que enganavam os Nazistas. Filhos de uma família judia em Paris, quando a guerra começa a se aproximar da capital francesa o perigo é grande - especialmente para a sua gente.
Dosa cenas fortes com momentos de pura ternura entre dois irmãos. Sabendo que o conflito chegará às suas portas, o pai tem a preocupação em fazer com que os filhos sobrevivam. Para isto, precisam negar a própria identidade e separar-se. À mesa, conversando, pede às crianças para dizer que não são judeus.
Pergunta ao pequeno, que nega sorrindo e leva um tapa. Assustado, passa a dar ênfase à negação. Na partida, estarão sozinhos, se outros fugitivos terão que se esforçar, o fato de serem judeus os tornará duplamente perseguidos. Enfrentar o perigo para chegar à zona livre exige superação dos próprios medos.

O carinho entre os irmãos vai se transformando em cumplicidade e amadurecimento. O pequeno torce o pé e o mais velho o carrega nas costa afirmando que o "levaria ao fim do Mundo se fosse preciso". Cansa e, sentados à beira do caminho, reconhece que é pesado, mas que o ajudará de outra forma...
Duas crianças percorrendo terras estranhas. Em alguns momentos protegidos por outras pessoas - inclusive religiosos - sabendo que para permanecer vivos precisam perder a inocência: discernir entre em quem podem confiando ou aqueles que estarão à espreita para se aproveitar do seu pouco preparo para a vida.
Ao invés de uma aventura, uma jornada de sofrimento e dor. Laços se aprofundam, com a necessidade de descobrir seu lugar e definir o lado em que se está na busca pela sobrevivência. A lição de humanismo está, exatamente, quando a sanha dos que foram perseguidos os transforma em perseguidores.
Da boca do pequeno Joseph (o irmão mais novo) sai o pedido de que se preserve a vida de um simpatizante do Nazismo, que seja levado a julgamento, para que a massa não se transforme em justiçeira. Em contraste com a perda do pai no campo de concentração - a ferida que encontram quando voltam para casa.
O pai lhes deixara uma lição: "quando morre um homem bom há uma estrela que se ilumina no céu e é preciso manter viva a esperança". Exatamente o que tinham no horizonte ao enfrentar todos os percalços - em meio à tormenta que assolava a Europa, havia um lugar de onde partiram... Mas para o qual, mais do que tudo, um dia, queriam voltar!
 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Suicídio - um sonho que morreu no caminho

Entidades ligadas à saúde provocam a discussão em torno de um tema considerado tabu: o suicídio. Tratado como um problema público já que a incidência aumenta em tempos de crise. A conjugação de fatores que caracterizam nosso jeito de viver em sociedade formou o cadinho em que ficar atento, especialmente aos jovens, é mais do que necessário.
Numa ocasião, ouvi um palestrante dizer que este era um "ato de coragem", porque para chegar a atentar contra a própria vida é um longo caminho, onde, especialmente, vai-se perdendo o sentido da vida, tomando o isolamento por atitude existencial e bloqueando a maior parte das relações.
Sempre fiquei com a impressão - dos casos que conheci - é de que as pessoas foram se anulando, dando sinais de que precisavam de socorro, mas que, na maior parte das vezes, não foram detectados. Em muitos casos, a depressão e o afastamento do convívio social dão a impressão de ser apenas fase passageira.
Os silêncios, as ausências, a introspecção exagerada não fazem parte apenas de um caráter tímido. Aceitar que se tem um "doente" em casa é um passo que a maior parte das famílias não consegue dar por diversos motivos: achar que tudo pode se resolver naturalmente ou serem incapazes de ver o que está se passando.
O Rio Grande do Sul é um dos estados em que mais se atenta contra a vida. O dobro da média nacional - cerca de mil óbitos por ano. Para os jovens entre 15 e 19 anos é o segundo motivo de óbito, perdendo apenas para a violência. Um número silencioso porque se instituiu um "pacto" em que este tema dificilmente vem a público e, quando vem, em seguida, é silenciado.
Jornadas, associações, área da saúde e meios acadêmicos levantam uma lebre arisca. Mas serão apenas dados estatísticos se não houver uma preocupação série e bem informada por parte das famílias. Chegar a um ato de desespero mostra que no meio do caminho se tomou um rumo equivocado e os sinais foram ignorados.
Uma educadora dizia que num olhar se percebe quando um garoto está com problemas. Deixar de olhar para flagrar um pedido de socorro é omissão. Em meio a tantos pesadelos, alimentar os sonhos é o jeito de acertar caminhos. Restaurar a confiança faz a diferença entre terminar com a vida ou o rumo da realização pessoal.

domingo, 17 de setembro de 2017

Sorver o gosto da vida

Meu pai foi o primeiro a chegar em casa com sua carteira de identidade contendo um selo onde declarava ser doador de órgãos. Discussões à parte, muitos de nós seguimos seu exemplo e passamos a contar com a identificação, assim como - enquanto me foi possível - me transformei em doador de sangue.
Uma matéria de televisão mostrou a senhora que iniciou tratamento químico e espera por uma doação. Mas quer casar. Entrou na igreja sem o véu, com uma bandana já que seus cabelos caíram. Abertas as portas, a surpresa: as madrinhas também estavam com uma bandana, ao invés de cabelos preparados e enfeitados para a ocasião!
Lembrei desta matéria ao acompanhar campanhas que lutam para que, de todas as mortes, ao menos algumas deem sentido àqueles que dependem de um gesto de boa vontade - especialmente da família de quem faleceu - para continuarem vivendo.
Uma delas mostrava a mãe arrumando a roupa do filho adolescente enquanto ficava atenta ao telefone para não perder a oportunidade do transplante e manter viva a esperança de uma vida saudável. De outro lado, a mãe que também acariciava as roupas do filho que não teve a mesma sorte.
Esperou o quanto possível, mas a doação necessária não chegou. Era tempo, então, de lutar por aquilo que tanto desejaram: fazer a morte do filho se transformar em vida. Seus órgãos foram doados. Um dia reencontraria aqueles que deles se beneficiaram. Era o jeito que seu menino lhe dizia para não desistir.
Encontrar esta motivação para viver pode estar na própria pessoa, mas também na solidariedade de quem está próximo e da sociedade. As mesmas pessoas que batalham por uma doação de sangue - individualmente, entre amigos ou grupos sociais - ou estampam em suas identidades que disponibilizam seus órgãos - precisam estar atentas para aqueles que, gradativamente, desistiram de viver.
Sorver o gosto da vida é uma experiência individual. Mas, com a mesma palavra, forma-se o verbo "conviver", que intensifica esta experiência, potencializa sua ação. O gesto das amigas da noiva, aqueles que convivem com a perda, ou aqueles que ainda têm esperança guardam o mesmo fio condutor: a solidariedade que nos faz mais humanos. É o que impede alguém de desistir e alimenta o sentido da esperança, único caminho possível de colocar no horizonte um pouco de felicidade.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ainda não…

Na doença, como na velhice, existem altos e baixos. Pode-se ter a certeza do fim num dia e, no seguinte, um arremedo de esperança. Desistir, entregar os pontos, é acabar com todas as expectativas. Para quem cuida de um doente ou de um idoso, a sensação é de peso, mas se torna leve na medida em que se percebe que, na maior parte das vezes, o desejo de viver reside, exatamente, naquele que ficou ao lado.
Minha amiga com câncer de mama deveria ter feito a segunda sessão de quimioterapia. Não fez. Suas defesas estavam baixas. A pergunta óbvia: o que fazer? Medicação, alimentação, algum tipo de exercício? Sorrindo, o médico respondeu: "dando e recebendo muitos abraços, vivendo!"
Com uma semana de tratamento, a idosa com depressão apresenta um quadro bem melhor. Recebe o alimento com mais facilidade, mantém os olhos abertos por mais tempo, fala pouco, muito baixo, mas o olhar já sorri quando fixa em alguém que também a olhe com carinho.
Rubem Alves cita o caso em que foi internado e que teve a certeza de que "nesse ponto eu já não era dono de mim mesmo, eu estava à mercê dos outros", pois sentia muita dor na coluna. Foi quando, numa discussão com Adélia Prado, queriam saber se esta - a dor - era a pior, ou o medo.
No processo de doença - ou de envelhecimento - entre a dor e o medo, o pior é quando os cuidadores infantilizam ou coisificam o cuidado. No último caso, acontece o que citava Rubem Alves, a perda da autonomia. Que se expressa em coisas simples, como a pergunta se a pessoa ainda quer comer, se quer que feche ou abra a cortina, se deseja que o travesseiro esteja de um jeito ou de outro.
Ainda não é tempo de desanimar. Faltam abraços a serem dados, olhares que acariciem enquanto se gasta mais tempo para consumir uma colher de alimento, confidências capazes de dar ânimo à espera; um sol de Primavera capaz de fechar os olhos não por cansaço, mas pelo simples prazer de viver.
O problema da nossa funcionalidade é que tratar a pessoa adequadamente demanda tempo. E a maior parte dos cuidadores acha que é perda de tempo gastá-lo nos detalhes, quando se atende o atacado. Esquece que é nos detalhes que se esconde a diferença, inclusive onde quem é tratado pode sentir calor humano, sensibilidade, capacidade de empatia.
Ainda não... Convivo com doentes, idosos, deficientes... De cada um, há um jeito diferente para se ver a vida. Pura e simplesmente pensar nas necessidades que possuem é muita pobreza para um tratamento humano e cristão.
Mas de todos os caminhos que percorri, entre muitas lições aprendidas, há uma em especial: o tempo passa. As feridas se curam. A partida é inevitável. Mas nada, nem ninguém, faz retornar o momento perdido em que se negou o convívio. Na hora de cuidar, talvez não se perceba, mas confirma a memória afetiva ecoando na voz do Pequeno Príncipe: "tu te tornas eternamente responsável por aqueles que cativas!"

domingo, 3 de setembro de 2017

Um sentido para a esperança

Duas pessoas próximas enfrentam o mal do século: depressão. Uma delas combate um câncer de mama e, preventivamente, utiliza medicação para vômito e minimizar os efeitos da depressão. A outra, idosa, chegou à doença sem que a família se desse conta dos sintomas que estavam formando o quadro.
A depressão é o momento em que se experimenta com mais intensidade a solidão. Pode-se fazer adequadamente um diagnóstico, saber quais são as receitas para superar os momentos de crise, mas se é incapaz de dar, sozinho, o primeiro passo. O silêncio e as ausências são o grito num pedido desesperado de socorro.
Os idosos superam com mais dificuldades porque não se prepararam para viver só. Uma vida inteira investiram forças na família, amigos e convívio social. O final não foi previsto: o tempo que embaçou seus olhos também varreu para longe ou para a eternidade aqueles que um dia amou.
Um tratamento de quimioterapia é, dos males, o menor. Para quem tem um plano de saúde há tropeços, mas pode ter uma visão mais clara dos benefícios. No serviço público, uma aventura, com a falta de estrutura, de profissionais e medicação. A mesma paciente conviveu com duas outras tratadas pela rede governamental. Infelizmente, a morte chegou por falta do atendimento adequado.

A depressão é a negação da própria identidade. É difícil dizer o que é possível, mas o pouco que se pode fazer é o aprendizado de uma criança começando a andar: devagar, claudicante, testando cada passo. Um longo caminho onde o fundamental é não deixar que morra a esperança. De toda uma vida resta quase nada, mas é o fio condutor que dá uma nova razão para coisas e situações que parecem velhas.
O idoso, na maior parte das vezes, precisa redescobrir que há pessoas na sua volta tentando lhe dar razão para viver. E que repousar na eternidade é entre ele e Deus. Para quem está em tratamento, o recomeço está em beber sorrisos, mãos que se entrelaçam, abraços apertados, vida que busca, num lugar perdido do coração, a razão para amar única fórmula capaz de dar sentido à grande e terna aventura que é viver.
No filme Os Meninos que Enganavam os Nazistas o personagem Jô lembra do pai, morto nos campos de concentração: "quando morre um homem bom há uma estrela que se ilumina no céu e é preciso manter viva a esperança". É neste momento que a fragilidade de quem pensa em desistir necessita de família - e não de parentes.
Na verdade uma "grande constelação" que garanta a energia positiva e a certeza de não morrer a chama nos olhos de quem já foi capaz de fazer o mesmo: sorrir com uma lágrima nos olhos, estender a mão quando já não havia mais forças, gastar o pouco da vontade que lhe resta no aperto de um abraço onde pulsam juntos dois corações...