domingo, 15 de julho de 2018

Vamos falar de cidadania...

Uma conhecida precisou atender o filho de uma amiga que havia se acidentado de moto. A primeira visita foi apavorante. O rapaz sequelado, em condições de higiene precárias, com escaras, sem cuidado com os equipamentos e a família acreditando que o importante era que comesse bem, porque o que ele precisava era "ficar forte!"
Amigo disse que o filho ficou pior que guarda de trânsito. Toda a vez que estavam na rua, o menino era um "gps" no banco traseiro: "pai, o sinal vai fechar". "Pai, não joga papel na rua". "Pai, não coloca o braço na janela"... A esposa contou que profissionais passaram pela escola e fizeram palestra simulando acertos e erros no trânsito.
Por definição, "cidadania" é a "condição de pessoa que, como membro de um Estado, se acha no gozo de direitos que lhe permitem participar da vida política". Pensei numa forma mais simples de dizer o mesmo. Veio do comandante que dirigiu o trabalho de resgate dos meninos e treinador na Tailândia: "desejo que sejam pessoas do bem!"
Simples e elementar: cidadania nasce com a pessoa, pois todos passamos a integrar um Estado. No nosso caso, "cidadãos brasileiros", condição que se aperfeiçoa todos os dias. Exatamente o desejo do militar: para desempenhar o que a sociedade espera de seus membros é necessário que cada um se torne uma pessoa do bem!
Vamos falar em cidadania... Assunto que deve ser abordado por pastores, reverendos, padres, sindicalistas, educadores e, até, políticos! Não forjamos cidadãos a partir do nada ou compramos o direito de ser cidadão. O menino que se transformou em fiscal do pai está exercendo cidadania, porque aprendendo da forma correta e exigindo daqueles com os quais convive que também façam o mesmo.
O outro caso é um problema de educação, ou melhor, da falta dela. Uma família que não teve chance de formar princípios e obter informações elementares de cuidados vai pagar, possivelmente, com uma vida. Não iniciou em casa o aprendizado e não aceitou da escola o que as crianças, de alguma forma, sempre trazem. Perdeu a cidadania...
Exercer esta condição é a concretização por excelência da arte de fazer política. Infelizmente a forma como é tratada e, em muitos casos, o deboche para com os seus valores levou a que boa parte da população não se interesse. E pessoas indiferentes são presas fáceis de extremismos de qualquer coloração ideológica.
Cidadania começa por educação, autoestima: aprendo e torno melhor minha vida e daqueles com os quais convivo. Pequenos cidadãos são semente das mudanças que precisamos! Aprendem direitos e deveres e alimentam a esperança de uma sociedade melhor, mais justa, "do bem". Desde que os adultos não atrapalhem pelo caminho...

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Criança tem cada uma!

Uma editora do centro do País publicava, a cada final de ano, uma obra chamada “Criança tem cada uma”. No primeiro semestre, especialmente pais e parentes reuniam histórias em que o personagem principal era uma criança, enviavam e aguardavam pela seleção que rendia, além de um dos livros mais vendidos, gostosas gargalhadas. Tenho falado da minha vontade de realizar projeto parecido, pois somente na minha família já teria algumas dezenas a serem enviadas. Claro que não basta a história ser engraçada, precisa ter um toque especial que apenas a criança sabe dar.
Meu sobrinho, Renan, ficou conhecido ao protagonizar algumas, criando bordões repetidos em família até hoje, como: “além de pobre, é surdo” ou “tu não sabes nem cuidar de uma criança!” No primeiro caso era a mania que tinha, ainda pequeno, de entrar na conversa dos adultos e querer vez e voz. Quando não era “respeitado”, registrava seu protesto dizendo que as pessoas “além de pobres, eram surdas”. Não bastava apenas uma desgraça, eram duas.
A segunda história se passou quando ele esperava pelo café, ajoelhado numa cadeira e balançando para frente e para trás. Avisado de que corria perigo, nem se importou. Meu pai foi para a cozinha e, em seguida, ouviu o barulho de cadeira indo ao chão. Voltou e viu o pequeno já se levantando sem problemas. Seu pecado foi ter rido da situação. Entre o chão e a cadeira, o pequeno sentenciou: “tu não sabes nem cuidar de uma criança!”
Mas as gerações se sucedem e se modernizam. Agora é a vez do Murilo, sobrinho-neto, de seis anos. Dia destes, em plena Missa, enquanto sentávamos e levantávamos nos momentos oportunos, ele sussurrou bem sério para a tia: “o que me cansa nestas Missas é este senta-levanta!”. Na mesma ocasião, ao anunciarem um cântico, olhou para mim e tascou: “qual é mesmo o canal?”
Estas são algumas das histórias que conto e despertam nas pessoas a vontade de narrar as suas, pois a sagacidade vem junto com a presença de espírito de pequenos que desejam ocupar um espaço na vida. Na simplicidade, dão lições que não esperamos ouvir. Infelizmente, as crianças de hoje já não são as mesmas e se envolvem com as mazelas da vida cada vez mais cedo. Suas tiradas já não merecem a devida atenção, pois queremos - em muitos casos, pela miséria e a guerra, por exemplo – que sejam miniaturas de adultos. Não o são e merecem respeito em cada etapa, com suas características, especialmente, o encantamento.

domingo, 8 de julho de 2018

Passou a Copa, tem eleições no meio do caminho...

Minha torcida nesta Taça da FIFA apenas confirmou o que já disse um dia o Jorge Malhão: "o Manoel não entende nada de futebol". Afinal, torci um pouco pela Seleção que representava o Brasil e deu no que deu... Minha segunda opção era o Uruguai, que deu com os burros na água e voltou mais cedo para casa!
Não tive paciência para assistir a nenhum jogo na integra. Até porque, vendo a relação dos salários dos jogadores brasileiros que variavam entre meio milhão e 12 milhões de reais esperava mais destes atores de um dos espetáculos mais bem pagos do mundo do entretenimento. Não tenho muita paciência para choros e lamentações de quem não corresponde àquilo que recebeu como investimento.
Mas tive, sim, que admirar o quanto os estrategistas desta área conseguiram movimentar para que os meios de comunicação fossem atendidos e confundissem o que deveria ser apenas um bom e saudável passatempo em exercício de cidadania. Guardando ranços de um tempo que se deseja esquecer alguns apelaram para a pátria da bola e identidade nacionalista, fazendo com que muitos confundissem o foco.
Declarações politicamente corretas e outras carregadas de interesses pessoais e econômicos. Uma "fake news" (notícia falsa) vinda do treinador do Uruguai propiciava uma das mais sensatas ao aproveitar a exposição da mídia para pedir mais investimentos em educação. Sabendo que os níveis daquele vizinho país já são dos melhores da América, fica a sensação de que, se não disse, deveria ter dito.
De outro lado, um narrador de rede nacional de televisão pediu mais investimentos públicos no futebol como forma de melhorar o desempenho. Ora, em que mundo vive este cidadão sem noção! A solução dos problemas do país não se encontra em propiciar que o futebol se desenvolva - ele já é um grande negócio - e se tem alguém que deveria investir são aqueles mesmos que depois vão ganhar com seus resultados!
Nossas dificuldades iniciam pela educação de base. Quando se pede reformulação e mais investimentos se pensa no seu início, as séries básicas, com estrutura adequada, professores devidamente preparados e bem pagos para exercer uma das missões mais sublimes do processo de aprendizagem: auxiliar no início da vida cidadã!
Ainda falta o elementar: temos adultos que não frequentaram a escola, jovens desmotivados e crianças que saem para trabalhar. O que se oferece é insuficiente. No intervalo entre uma e outra copa teremos duas eleições. Um bom momento para se começar a fazer o dever de casa: repensar o sistema político, a máquina administrativa e, quem sabe, ter a humildade de aprender um novo jeito de viver a cidadania!

domingo, 1 de julho de 2018

A Floricultura da Vânia

A Vânia trabalhou conosco durante um ano. Chegou no dia 1º de junho de 2017 e, no dia 12 de junho deste ano, ainda esteve conosco pela manhã. À tarde, um ataque fulminante do coração a levou. Cuidava da casa e, em especial, da mãe, dona França, com quem disse que aprendeu a lidar, dizendo ter sido uma escola pois não a infantilizava e tudo o que a idosa de 93 anos precisava era feito de comum acordo.
Era noite de Inverno quando o Reinaldo e a Clésia trouxeram a senhora que, segundo eles, preenchia os requisitos de ser alguém de meia idade e com espírito religioso. Não me importava o seu credo, mas que tivesse princípios ligados a uma fé e que não tentasse fazer "conversões". Depois, reconheci ao casal que havia sido uma bênção: os cuidados com a casa, a mãe e o pátio ajudaram a transformar a moradia em um lar.
Com a família fui saber que o problema com a coluna que a levara a diminuir a atividade era uma desculpa. Na verdade já sabia que não poderia trabalhar, o coração não permitia. Mas não queria nos deixar. Até o fim, queria continuar fazendo alguma coisa, estando presente em nossas vidas como um anjo designado por Deus.
Fui conhecendo sua história e sua vida na Igreja Quadrangular. Atenta, comentava o que ouvia nos cultos, nas pregações, nas ceias. Também queria aprender para motivar as senhoras do seu grupo. E mantinha um espírito de oração com um cantinho da casa reservado para momentos especiais, onde alimentava a sua ação.
Brincava que um dia ainda chegaria em casa e encontraria uma placa: "Floricultura da Vânia". Que pena, não chegou a este ponto... O primeiro texto que escrevi que dizia "vai fazer falta" foi da Vera, esposa do Chico. Acho que estou ficando acostumado a usar esta expressão. Não que ela me deixe triste, ao contrário, tem sido sempre para pessoas especiais que deixaram marcas em suas famílias, nas comunidades e em nós.
São Pedro vai ter problemas nos céus. Naqueles lugares por onde as pessoas passavam e sempre viam as mesmas coisas, aparecem flores, verdes, um pouco da natureza mostrando o quanto tem de especial. Pelos dedos de quem trata com carinho de uma alameda, um passeio, um pátio, escorre uma fé profunda e um sentido místico.
Olho para o céu e sei que um dia verei uma trepadeira abrindo caminho por entre as nuvens. Deve ter o dedo da Vânia. Acolhida, encontrou o seu lugar: uma estrela que nunca quis brilhar sozinha, mas enche o Céu de vida e de cores. A Vânia vai fazer falta... Infelizmente, as "Vânias" já não estão na moda. Mas sem elas, com certeza, os pátios são mais tristes, os jardins mais sem graça e até o galho de flor roubado em meio ao caminho perde o seu sentido...

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Adrenalina no coração

O Cristão, Católico, que olha o Mundo tem a clara impressão de que este não é o Mundo sonhado por Jesus Cristo. A Igreja tem procurado ser uma luz a iluminar caminhos para que as relações entre as pessoas e os povos melhorem, mas os resultados podem ser considerados, no máximo, tímidos. As estruturas estão ficando engessadas e embora se vislumbre mudanças, são insignificantes.

Embora o Brasil também enfrente a crise – veja-se o número de empregos que foram devorados recentemente – a máquina pública mostra superávits que beneficiam segmentos já claramente satisfeitos, mas que não são capazes de fazer mudanças, atendendo a um mínimo do que a Doutrina Social da Igreja prega.

E se não bastassem os problemas sociais que, em muitos momentos, amarram nossa capacidade de atuação, pois precisamos de ações assistenciais para garantir, ao menos, a sobrevivência das pessoas, surgem problemas que são frutos de um tempo em que as pessoas estão deixando de lado valores como a preservação da vida e da solidariedade. A construção de “mundos particulares” capazes de “preencher” nossos vazios, também leva à sensação de falta de sentido: os prazeres são efêmeros, incapazes de dar sentido à existência.

Neste vazio estão inseridas as drogas que hoje assolam praticamente todas as classes sociais, indiferentes à idade, posição ou formação. E se acreditamos que, por sermos católicos, estamos a salvo, é bom ficar alerta, pois não estamos. Mais do que nunca, aqui, existem pessoas bancando o avestruz: enterram a cabeça porque acham que as crianças ou jovens estão apenas “passando por uma fase” e são capazes de superá-la. Não é assim: o número de dependentes químicos recuperados é pequeno, ainda, e o melhor remédio é a prevenção.

Os sintomas são por demais conhecidos, mas vale a pena recordar: mudanças de hábitos, de humores, de comportamento físico, de relacionamentos, sinalizam que seu filho está precisando de mais atenção. Com certeza, este não é momento para “lições”, mas para cumplicidade: a cumplicidade que envolve com amor um jovem que sente seu mundo ser devorado pela dúvida. Depois, é preciso pedir ajuda.

Fico triste quando alguns pais dizem que “vamos resolver isto dentro da família”. Não vão. É algo mais forte e que pode criar mais problemas ainda em família. Assim como, em alguns casos, se diz que “fogo se combate com fogo”, aqui também: uma boa orientação, clarear perspectivas e aplicar adrenalina pura no coração de quem sabe que a droga mata, mas que precisa, urgentemente, ver sentido na própria vida.

domingo, 17 de junho de 2018

Perdidos no espaço

Um dos seriados marcantes da minha infância e adolescência foi Perdidos no Espaço. Seus personagens em destaque eram o menino Will Robinson, doutor Smith e o Robô. Apenas que na década de 60 era o doutor, hoje doutora; e o robô é um alienígena inimigo, até que se descubra que tentava recuperar algo roubado pelos humanos.
Da inocência do seriado em que Will queria brincar, o robô em advertir para situações de dificuldade com o clássico: "perigo, perigo..." e doutor Smith era o atrapalhado dando um jeitinho para se sair bem em qualquer situação, de preferência que não precisasse trabalhar, sendo dedurado pelo robô a quem chamava de "lata velha"...
A série atual perdeu a inocência. As relações são complexas, tanto as familiares quanto as sociais que se estabelecem quando precisam criar um núcleo, num planeta perdido, por sobrevivência. Há disputa pelo poder e recursos que podem fazer com que saiam do planeta e reencontrem seu caminho em direção à colônia idealizada.
Dos dez episódios, nota-se a preocupação em lidar com o universo dos sentimentos, no caso da doutora Smith e do robô alienígena com a presença do mal. A primeira não quer apenas se dar bem. Sabe que se sair dali será julgada e condenada. Usa, então, de todas as formas, para prender os demais num planeta próximo a explodir.
Já o robô, que se pensava instrumento do mal, é, na verdade, uma vítima. Se transforma conforme as pessoas que o cuidam. Num primeiro momento é aliado de Will, que sofre pensando que foi ele o causador da queda e então tem que o destruir. Mas recuperado pela doutora Smith que o manipula para subjugar os demais.
Mais existencialista do que na primeira versão, coloca em debate elementos necessários. Seguidamente, em meios religiosos, a conversa gira em torno do bem e do mal, céu e inferno, Deus e o Diabo. Para pessoas de fé, elementos que são parte do credo religioso. Para quem defende a ciência são, ao menos, duvidosos.
Perdidos no Espaço é uma parábola. As difíceis relações de família são superadas com a certeza de que um sacrifício vale a pena para ver alguém próximo feliz. Mas... que vindo dos recônditos da mente humana, há quem deseje ocupar lugar que não é seu, apoderar-se de algo que não lhe pertence, sonhar um sonho a que não tem direito...
Conquistar um carinho, um lugar, um bem fazem parte do amadurecimento. Garimpá-los exige esforço, colaboração e mostrar atitude própria. Erros são o alerta para vencer riscos e que a realização é um sonho coletivo que dá o direito a viver e ser feliz. Agir de outra forma é a certeza de permanecer, para sempre, perdidos no espaço!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Vivendo com a diferença

A fila era especial para atendimento a idosos, pessoas com algum tipo de doença e deficientes. No entanto, a atendente, parecendo de mau humor, resolveu demonstrar seu estado de espírito. Teve um prato cheio: uma moça, bem vestida, bem maquiada, postou-se em atitude de espera. Não precisou muito tempo para ser advertida em voz alta: “a fila é para idosos, doentes ou deficientes!” Sem graça, mas com firmeza, a moça olhou de forma triste para o início da fila e perguntou: “preciso levantar a blusa e lhe mostrar a bolsa de colostomia, para provar minha deficiência?”

Infelizmente, não sabemos conviver com o diferente. Uma pessoa que utiliza uma bolsa de colostomia – para recolhimento de dejetos do próprio organismo – já está fragilizada e merece um apoio especial, não precisando ter, no corpo ou no rosto, marcas que identifiquem suas carências. No entanto, partindo do princípio de que “todos são culpados até que provem que são inocentes” (invertemos a máxima jurídica!), encontramos sádicos que se divertem com o sofrimento alheio e já não lhes basta identificá-los, é preciso expor suas mazelas!

E não para aí: jovens e adultos ocupam vagas de estacionamento dedicadas a deficientes, descendo livres, lépidos e faceiros de seus carros, privando quem efetivamente necessita, enquanto há vagas mais distantes; menosprezo por idosos com dificuldades de locomoção, colocando-os em situação de risco, quando o simples oferecimento de um braço amigo pode prevenir uma queda ou algum transtorno; valorizar a atuação de uma criança, jovem ou adulto que possui alguma excepcionalidade, mas capazes de tantas atividades profissionais e sociais, para as quais são preparados, e a capacidade impar de pedir e de dar carinho!

Aprender a viver com o diferente é aprender a confiar, pois a confiança nos faz capazes de superar dúvidas e receios e alimentar nossas almas com atitudes de gentileza. Gestos que incluem o dar a vez numa fila, quando necessário; caminhar um pouco mais num estacionamento para manter as vagas especiais para quem delas precisa; estender o braço numa oferta generosa e desprendida; receber um olhar que não pede nada a não ser uma expressão de carinho e amor.

Mudar o foco para o outro é o jeito de perceber o quanto as coisas que pensamos serem nossas dificuldades são pequenas. Estas podem ser superadas com o tempo, mas o outro problema – a carência de espírito – infelizmente, não, porque atrofia a sensibilidade e torna a alma incapaz de superar os seus próprios limites.