domingo, 14 de janeiro de 2018

Um andarilho chamado Francisco

Quando o papa Francisco tomar sua maleta e embarcar rumo ao Chile e Peru esta semana sabe que nem tudo serão flores. Ao contrário, ao passar por sobre sua terra, a Argentina, pedirá que seus compatriotas rezem por ele a fim de que possa cumprir a missão de ser referência na concretização de valores humanos e espirituais.
Uma das manchetes dos jornais é "Francisco volta à América Latina, mas evita a Argentina". Os argentinos o aguardam e, num futuro próximo, irão recebê-lo. Mas também sabe que a manipulação política e midiática será grande - como aconteceu no Brasil - e agora já mais calejado quer, se não for possível evitar, ao menos minimizar.
Em todas as terras por onde passou apelou à reconciliação, paz e diálogo, não se esquivando de ser - ele mesmo e a igreja - como citou um de seus analistas, "partidário da cultura do encontro, da cultura do diálogo, da cultura de buscar os pontos em comum para poder trabalhar em longo prazo em benefício da comunidade".
Francisco mostrou ter clara a sua missão universal. O Mundo é bem maior que a sua terra. Em cinco oportunidades, com bispos de sua pátria, disse que Deus vai indicar o momento de voltar não por nostalgia, mas quando as instituições estiverem amadurecidas e sirva como fator que une, gera condições de diálogo e de consenso.
Às vezes cansado, mas sem perder o jeito simples de sorrir lembra um dos mais simpáticos personagens da literatura mundial, o Pequeno Príncipe. Depois de deixar seu planeta, enfrentar dificuldades, sabia que, em algum momento, seria preciso enfrentar a própria História. A Rosa que ficou dava sentido em não desanimar.
Francisco também fez uma longa viagem. Por estradas que não levam às estrelas, mas sim às terras dos homens, onde vislumbrou muito de bondade. Mas também que, em suas próprias fileiras - por vaidade, cobiça, ânsia pelo poder, despreparo - encontrou quem impeça o renascer da esperança, a realização do jeito Cristão de viver e ser feliz.
Um andarilho amparado pela oração de homens e mulheres de boa vontade, tentando encontrar socorro para marginalizados (nesta viagem a questão indigenista). Precisa de um Pequeno Príncipe que lhe estenda a mão e murmure: "há um longo caminho até voltarmos para casa. Mas vale a pena. Você vai ver, há uma rosa à sua espera!"

domingo, 7 de janeiro de 2018

Fraternidade e cidadania

Casal alimentou durante muito tempo o sonho de comprar uma chácara e morar no interior. Uma vida simples, mas com a facilidade de recursos - luz, água, comunicações. Mudaram de ideia depois da compra e - antes de lá morar - receber a visita de ladrões. Na segunda vez, com a família na casa, não encontrando objetos que pudessem carregar destruíram o que restara. E judiaram com os donos.
Deram queixa na polícia - o que já não é comum porque as pessoas não acreditam em retorno - e numa delas ouviram o "conselho" de que procurassem em casas que vendem móveis usados, poderiam encontrar alguns de seus pertences. Mais: pensassem num vigia para cuidar da propriedade!
Uma história comum, de pessoas comuns, que vivem uma das facetas da violência, já entranhada no dia a dia e que, infelizmente, passou a ser "aceita" porque "é assim", num sistema desajustado, onde pessoas marginalizadas viram, efetivamente, marginais, alimentando discussões intelectuais, sem efeitos práticos.
É o receio que se tem quando a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil define a Campanha da Fraternidade deste ano. O tema será "Fraternidade e superação da violência" e o lema "Vós sois todos irmãos". Busca parcerias para fazer o que o sonho ainda não alcançou: mudanças estruturais que reformatem, a médio e longo prazo, a coexistência social.
No ano que a Igreja Católica dedica aos leigos - segmento que ainda não encontrou a sua identidade dentro da instituição - precisa tomar a frente das discussões da vida que passa pela política - poderes legislativo e executivo, mas também do quanto estamos longe de um poder Judiciário que atenda as necessidades dos cidadãos.
O fatalismo do "é assim" corre paralelo ao voto descomprometido de quem elege e não fiscaliza. A Campanha da Fraternidade pode - e deve - ajudar em ações concretas para que a comunidade se proteja de todo o tipo de violência, inclusive as da política. Impedindo aproveitadores de repetir velhos e batidos discursos.
A fraternidade deve fazer parte do espírito de cidadania. Cristão consciente encontra sua força no espaço religioso, mas atua no Mundo. Sabe que o violentador de hoje foi o violentado de ontem. São necessárias ações para impedir este ciclo vicioso. Mas também atacar os problemas quotidiano que impedem a vida das pessoas comuns.
Acabar com a violência é impossível, mas é possível o seu controle. Mesmo assim, as marcas, para quem foi atingido, ficam para sempre. A sua existência comprova que já perdemos diversas batalhas. O momento é delicado, pois precisamos sair da indiferença para a indignação. O único jeito para que não se perca também a guerra!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A magia de ser simples

Um "mágico" (ilusionista) com passagem por casas de espetáculos e turnês nos Estados Unidos resolveu pegar a mochila e percorrer o Leste Europeu. Sua escolha foi pelas regiões remotas onde ainda predomina um estilo de vida simples e de crenças arraigadas. Seu objetivo era se redescobrir, mas foi surpreendido.
Além, muitas vezes, de desconhecer a língua, ainda encontrou populações envelhecidas e crentes de que "magia" é coisa do Diabo, ou de mais jovens e decepcionados com a vida que, sabedores de que são truques, mostram-se descrentes e incapazes de interagir, ao menos, para um momento de diversão.
Difícil não admirar a disposição do jovem em buscar suas origens, surgidas quando com um baralho fez um primeiro truque para a mãe. Embora tenha percorrido o caminho do show business perdera o elemento principal: de forma simples e direta, encantar plateias, cativar a atenção para o "mistério" de sua mágica.
A virada de ano é assim: grandes decisões - deixar de fumar ou beber, fazer um regime, iniciar uma ginástica, voltar a estudar... - soçobram ao passar dos dias. Ficando apenas o dia a dia onde a vida se repete sem que, em algum momento, se pare a fim de redescobrir o quanto é simples a busca pelo sentido da existência.
Qual é a diferença entre ser simples e humilde? Ser humilde é qualidade intrínseca. Não se qualifica alguém, reconhece sua vivência, até no jeito de fazer alguma coisa. Mas há pessoas que - pela forma de vestir - se julgam simples (em muitos casos são apenas relaxadas), sem que sua atitude demonstre o mesmo.
Necessitam apregoar o que não são porque desejam aparentar qualidades que não alcançaram. O mágico desejando retornar às suas origens buscava o tempo em que "encantava" pessoas e plateias. Da mesma forma com que viramos o ano novo: a magia está em, apenas, tornar melhor a vida de alguém mais próximo.
Qualquer um pode simplificar seu jeito de viver para que, no fluir do tempo, haja encantamento em quem se assusta com a velhice, tornou-se desinteressado pelo doente ou perdeu o respeito pelo diferente. Vai precisar da mágica, da mágica de um olhar carinhoso para não desistir e fazer valer a pena iniciar um ano novo!

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

2018: o silêncio da sua ternura

Ao longo de 2017 tive muitos momentos difíceis. Mas a contrapartida foi superavitária. Nos espaços em que chego às pessoas através do rádio e jornais há uma onda de carinho difícil de ser quantificada, mas fácil de ser qualificada.
Já recebi mensagens de pessoas que leram meus textos em sala de aula, grupos, até em igrejas de diversos credos. Quem escreve sabe que o prazer que se tem está - quando um texto nasce - que crie asas e alcance o coração do leitor. Depois… é o insondável! As experiências são variadas. Mais de uma vez, ao escrever sobre espiritualidade e envelhecimento, amigos leram - pessoalmente ou por telefone - para idosos.
Mas, neste final de ano, faltaram-me palavras quando a mensagem veio de uma jovem para quem a mãe havia lido o texto de Natal! Ambas recebem meus artigos pelo Facebook. Mas a mãe sabia que sua menina - como muitos de nós - tinha dificuldade de viver as festas de final de ano. Queria fazer um gesto de carinho - uma massagem na alma - ajudando a filha, tornando menos pesado a perda e a ausência.
Foi o meu texto. Poderia ter sido o de outra pessoa. Não importa. A idosa compartilhava algo que poderia fazer bem a alguém muito especial que deixava 2017 sem nenhuma saudade e não via com bons olhos o 2018.
As perdas vividas e não esperadas... As perdas anunciadas e não concretizadas... O fato de se seguir rumos diferentes… Tudo deixa marcas e saudades. Porque o passar dos anos nos faz mais experientes, mas a experiência - algumas vezes - tem um gosto amargo do tempo passado inutilmente e até desperdiçado.
Há muitas desculpas para se postergar um momento para acarinhar alguém: um chimarrão (não é verdade, Charles e Gilvan?), o convite para um lanche surpresa, o reencontro com amigos já amados (promessa feita, Maria Clara), um passeio despreocupado ou pura e simplesmente “gastar” um tempo com alguém…
Afinal, se 2017 já foi é hora de escrever o roteiro para 2018. Não existe um jeito de fazer o tempo passar mais devagar, mas há muitas formas de sorver a vida junto daqueles que ainda se ama. Momentos de ternura são o combustível que ajudam a suportar a dor… a perda… e as ausências!
Quando se sentir cansado, esqueça as grandes decisões para 2018. Partilhe um momento em que o sentido escorrega pelas palavras e toma conta de todo o seu ser através do silêncio. Abençoado 2018. Muitos “silêncios” envolvam de ternura o seu coração!

domingo, 17 de dezembro de 2017

O menino se chamaria Jesus

Era tarde quando o casal começou a subir em direção a Belém. O dia tinha sido difícil. Já não eram mais tão novos para lidar com os animais em busca de pasto e abrigo. Aquela era uma noite sem lua. Mas, no frio do início do Inverno, havia uma luminosidade que permitia ver a estrada.
Foi quando se aproximaram dos arredores da vila que ouviram o choro da criança, no lugar para onde costumavam levar os animais a serem alimentados e quando a temperatura era inclemente. Em meio às palhas que espalhavam pelo chão, também havia cochos para depositar a ração que completava a alimentação.
Uma luz difusa vinha do interior, parecida com uma vela. À porta, a surpresa: a mulher dera à luz e o marido tentava ajudar. Sua esposa tomou conta da situação, afastou os homens e fez o que toda a boa judia era capaz: vendo o casal atrapalhado com o cordão umbilical e em proteger o menino, designou as tarefas de cada um.
Pouco tempo depois, a mãe repousava sobre um colchão de palhas, no chão, encostada a uma parede. Uma manta fora colocada em um dos cocho, próximo, e serviu de berço para receber o recém nascido. Só então puderam conversar. Estavam conhecendo José e Maria. O menino se chamaria Jesus.
Tarde da noite, deixaram os mais novos pais descansar. No caminho para casa, o marido olhou para a mulher, pensando que esta fora uma noite sublime. Na esposa, um sorriso meigo que não via há muito tempo. O sentimento de que presenciaram uma cena onde, se Javé não estava presente, ao menos enviara seus Anjos!
Ainda não se comemorava o Natal. Mas ele estava nascendo. A luminosidade de um firmamento estrelado dava sinais de que, a partir de agora, a História seria diferente. Amanhã, ambos haveriam de pegar seus bastões e voltar ao trato dos animais. Mas, no caminho, havia uma certeza: encontrariam Maria, José e o Menino!
Não sabiam por quanto tempo a família ficaria em Belém - esqueceram de perguntar -  mas não era razão de se preocupar. A noite em que Jesus nasceu permaneceria em seus corações. Estavam envelhecendo, mas tinham certeza de que enquanto a vida corresse por suas veias lembrariam da jovem, do homem mais velho e da criança.
Uma criança que em nada se mostrava diferente dos filhos de Israel, mas que, em meio aos "sem história", reescrevia a relação do homem com Deus. Exatamente naquilo que faz o Cristianismo ser absolutamente singular: Deus se fez homem, para que o homem tivesse a oportunidade de chegar mais perto de Deus!

Um feliz e abençoado Natal!

domingo, 10 de dezembro de 2017

Um nome para o Natal

Nos eventos de final de ano sou chamado para conversar com algumas comunidades. Além das temáticas do tempo, vêm as provocadas pela Igreja Católica e pela sociedade. Este ano, em especial, o Dia Mundial dos Pobres e o Ano Nacional do Leigo. Apresento e discuto o pensamento da Igreja. E conto as minhas histórias... Prazerosamente, as comunidades acrescentam as suas, dando cores e sentido a tudo aquilo que, até ali, era teoria, e, na prática, tem um novo e delicioso sabor!
Numa paróquia contaram a história de dois grupos de jovens que viviam competindo por cumprir melhor suas tarefas e serem mais criativos. Chegaram ao ponto do enfrentamento. O padre propôs que auxiliassem num projeto social: a alimentação comunitária distribuída num determinado ponto da cidade.
O trabalho iniciou por uma visita ao local, conversar com as pessoas e, em especial, saber e tratá-las pelo nome. Acharam que era "coisa de padre" fazer este tipo de pedido. Mas, na volta, a certeza de que, do que viram, agora sabiam que a pobreza - até a miséria - e a fome não eram apenas estatística: tinham rosto e nome!
Para a vida da comunidade, foi o despertar da consciência de que ao se dar o direito à identidade também se estabelece um compromisso. Os olhos estão atentos às histórias e uma senhora disse, depois, que nunca mais passou pelo local sem sentir que também tinha responsabilidade sobre aqueles que foram excluídos de direitos elementares.Pedi que usassem da experiência com outros marginalizados: idosos, excepcionais, doentes, migrantes... Muitas vezes excluídos do direito de viver o Natal, porque não são identificados na propaganda massiva que mostra corpos sarados e perfeitos, bem vestidos, belos sorrisos, cativantes como a própria tentação!
Num outro lugar propus que, neste época, encontremos um nome para o Natal. De forma simples: pode ser do vizinho de apartamento, do porteiro do prédio, do dono da fruteira, dos familiares da pessoa que trabalha em nossas casas, do idoso que nos "atrapalha" toda a vez que estamos com pressa em sair à rua...
Afinal, a procissão que saudou Jesus iniciou por pastores e vizinhos que ouviram o choro do recém nascido. Desconhecidos pelos livros de História, mas com uma bela "história" para contar. Com uma identidade: a do Salvador, que fez - como hoje - da solidariedade caminho onde um rosto e um nome dão sentido em viver a própria fé!


domingo, 3 de dezembro de 2017

Um fio da esperança


Preparação para o Natal é momento adequado para se falar da vida, mas, porque não, também da morte... O Cristianismo vê na lembrança do Menino Jesus a encarnação divina e as condições necessárias para alimentar a esperança que se renova, alcança novo sentido, mas também a certeza de que viver é passagem.
Para alguns, existir é apenas o momento que antecede a morte. É uma ideia muito pobre de um tempo que, se bem aproveitado, pode ser um lampejo da Eternidade. Não é só uma questão de religião, mas da atitude diante do inevitável. A capacidade de se importar com a finitude sem que se definhe amedrontado com esta perspectiva.Não há receitas prontas. E ainda se diferencia a vivência de quem está próximo do fim da perda de um ente querido, em situação inesperada. Uma pessoa com câncer indo para uma cirurgia confia na equipe médica. Mas sente que  precisa entregar a alma a Deus. O despertar pós-cirúrgico é a chance de uma nova vida.
Daqueles que amamos em situação de finitude, a morte se torna companheira. Depois de uma certa idade, ou na fragilidade de uma doença que se estende, é certo que, mais dia menos dia, vai se extinguir, sendo necessário manter a certeza de que todo o possível foi feito para que a chama da vida se apague em paz.
Um acidente de carro, uma doença em jovem ou criança, a perda de um ser que ainda não viu a luz da vida, deixam as marcas da dor e da angústia. Nossa compreensão não alcança tal mistério. A finitude de alguém que julgamos ter toda uma vida pela frente não encontra explicação lógica.
Nestes casos, o mais importante não é o que se diz, mas o que se faz. Palavras, na maior parte das vezes, soam vazias, porque tentativas de ocupar o incômodo de um silêncio que poderia ser solidário. Conselhos caem nas valas comuns e podem, até, causar revolta e mais tristeza.
A fé não tem todas as explicações que, muitas vezes, se cobra. É exatamente "fé", não certezas absolutas. Dizer o que pode acontecer é temerário. Crentes e não-crentes acreditam que se pode envolver as pessoas que sofrem com energia positiva - a oração, por exemplo. Mas o melhor remédio continua sendo o tempo.
Temos mecanismos naturais para reencontrar o sentido da vida. Na perda, atordoados, reviver a doença ou continuar sofrendo com a ausência afunda num mar de incertezas. Os que ficam merecem o esforço de continuar por um longo tempo com as marcas da saudade. Sem perder a fé que não deixa morrer um singelo fio de esperança.