domingo, 10 de dezembro de 2017

Um nome para o Natal

Nos eventos de final de ano sou chamado para conversar com algumas comunidades. Além das temáticas do tempo, vêm as provocadas pela Igreja Católica e pela sociedade. Este ano, em especial, o Dia Mundial dos Pobres e o Ano Nacional do Leigo. Apresento e discuto o pensamento da Igreja. E conto as minhas histórias... Prazerosamente, as comunidades acrescentam as suas, dando cores e sentido a tudo aquilo que, até ali, era teoria, e, na prática, tem um novo e delicioso sabor!
Numa paróquia contaram a história de dois grupos de jovens que viviam competindo por cumprir melhor suas tarefas e serem mais criativos. Chegaram ao ponto do enfrentamento. O padre propôs que auxiliassem num projeto social: a alimentação comunitária distribuída num determinado ponto da cidade.
O trabalho iniciou por uma visita ao local, conversar com as pessoas e, em especial, saber e tratá-las pelo nome. Acharam que era "coisa de padre" fazer este tipo de pedido. Mas, na volta, a certeza de que, do que viram, agora sabiam que a pobreza - até a miséria - e a fome não eram apenas estatística: tinham rosto e nome!
Para a vida da comunidade, foi o despertar da consciência de que ao se dar o direito à identidade também se estabelece um compromisso. Os olhos estão atentos às histórias e uma senhora disse, depois, que nunca mais passou pelo local sem sentir que também tinha responsabilidade sobre aqueles que foram excluídos de direitos elementares.Pedi que usassem da experiência com outros marginalizados: idosos, excepcionais, doentes, migrantes... Muitas vezes excluídos do direito de viver o Natal, porque não são identificados na propaganda massiva que mostra corpos sarados e perfeitos, bem vestidos, belos sorrisos, cativantes como a própria tentação!
Num outro lugar propus que, neste época, encontremos um nome para o Natal. De forma simples: pode ser do vizinho de apartamento, do porteiro do prédio, do dono da fruteira, dos familiares da pessoa que trabalha em nossas casas, do idoso que nos "atrapalha" toda a vez que estamos com pressa em sair à rua...
Afinal, a procissão que saudou Jesus iniciou por pastores e vizinhos que ouviram o choro do recém nascido. Desconhecidos pelos livros de História, mas com uma bela "história" para contar. Com uma identidade: a do Salvador, que fez - como hoje - da solidariedade caminho onde um rosto e um nome dão sentido em viver a própria fé!


domingo, 3 de dezembro de 2017

Um fio da esperança


Preparação para o Natal é momento adequado para se falar da vida, mas, porque não, também da morte... O Cristianismo vê na lembrança do Menino Jesus a encarnação divina e as condições necessárias para alimentar a esperança que se renova, alcança novo sentido, mas também a certeza de que viver é passagem.
Para alguns, existir é apenas o momento que antecede a morte. É uma ideia muito pobre de um tempo que, se bem aproveitado, pode ser um lampejo da Eternidade. Não é só uma questão de religião, mas da atitude diante do inevitável. A capacidade de se importar com a finitude sem que se definhe amedrontado com esta perspectiva.Não há receitas prontas. E ainda se diferencia a vivência de quem está próximo do fim da perda de um ente querido, em situação inesperada. Uma pessoa com câncer indo para uma cirurgia confia na equipe médica. Mas sente que  precisa entregar a alma a Deus. O despertar pós-cirúrgico é a chance de uma nova vida.
Daqueles que amamos em situação de finitude, a morte se torna companheira. Depois de uma certa idade, ou na fragilidade de uma doença que se estende, é certo que, mais dia menos dia, vai se extinguir, sendo necessário manter a certeza de que todo o possível foi feito para que a chama da vida se apague em paz.
Um acidente de carro, uma doença em jovem ou criança, a perda de um ser que ainda não viu a luz da vida, deixam as marcas da dor e da angústia. Nossa compreensão não alcança tal mistério. A finitude de alguém que julgamos ter toda uma vida pela frente não encontra explicação lógica.
Nestes casos, o mais importante não é o que se diz, mas o que se faz. Palavras, na maior parte das vezes, soam vazias, porque tentativas de ocupar o incômodo de um silêncio que poderia ser solidário. Conselhos caem nas valas comuns e podem, até, causar revolta e mais tristeza.
A fé não tem todas as explicações que, muitas vezes, se cobra. É exatamente "fé", não certezas absolutas. Dizer o que pode acontecer é temerário. Crentes e não-crentes acreditam que se pode envolver as pessoas que sofrem com energia positiva - a oração, por exemplo. Mas o melhor remédio continua sendo o tempo.
Temos mecanismos naturais para reencontrar o sentido da vida. Na perda, atordoados, reviver a doença ou continuar sofrendo com a ausência afunda num mar de incertezas. Os que ficam merecem o esforço de continuar por um longo tempo com as marcas da saudade. Sem perder a fé que não deixa morrer um singelo fio de esperança.


domingo, 26 de novembro de 2017

O canto que lava o pranto do Mundo

Manhã de sábado. Depois de muito tempo, visitar a Livraria do Monquelat, uma passadinha para dar uma olhada em leituras para as férias. Claro que uma figura como o próprio Monquelat não admite apenas uma visita, mas um bom papo, com direito a reflexões a respeito da vida, da política, da economia...
O Gustavo é meu cabelereiro. Se ofereceu para cortar o cabelo da mãe, em casa, depois de saber que fazia o mesmo com outras idosas da rua. Mas, também, que visita uma casa de idosos, para dar um trato e "repaginar" velhinhos e velhinhas. O mesmo, com rapazes internados numa clínica para recuperação de dependentes químicos.
Tarde de domingo, passada de olhos pelo celular e lá está um vídeo do Roupa Nova e Roberto Carlos. Em tempos de preparação para o Natal, ouvir o dueto afirmar que "deixe que o canto lave o pranto do Mundo" tem um quê de magia, aquecendo a alma e mostrando que o velho e bom espírito que alimenta o amor ainda existe.
Em comum? O Monquelat dizia que os jovens estão, cada vez mais, "indiferentes", parecendo "programados para existir", alienando-se daquilo que faz a diferença entre viver e vegetar: as experiências nossas e daqueles com os quais convivemos, que amadurecem o próprio sentido do estar aqui e agora. É o fazer história de cada um, que nos diferencia.
O Gustavo é a prova concreta de que "solidariedade", muito mais do que uma palavra, faz parte da capacidade de nos enternecer com a fragilidade dos outros. Diz que foi com a mãe cortando cabelo que a sua família foi criada. Aprendeu e, na próxima vez que for atender aos idosos, pretende formar uma dupla familiar.
Se nos tornarmos mecânicos, com a implantação de um chip que controle até mesmo nossas reações emocionais, vamos perder a essência da música do Roupa Nova: quantas vezes, uma bela canção, uma boa interpretação faz nossos olhos marejarem e nos tornamos mais leves exatamente porque o "canto lavou o pranto do Mundo"?
É exatamente o que é "humano" em nós que dá direito a uma segunda chance. A palavra mágica se chama "amor". Na construção da solidariedade, na sensibilização para as causas para as quais há muito mais omissões do que ações. Dá pra repetir como um mantra o refrão: "deixe que o canto lave o pranto do Mundo. Para trazer perdão e dividir o pão... E fazer a Terra, inteira, feliz e amar!"

domingo, 19 de novembro de 2017

A essência do Evangelho

O papa Francisco pediu que os cristãos celebrassem no domingo (19) o Dia Mundial dos Pobres. Nesta data, a reflexão do Evangelho de Mateus trata dos talentos entregues por Deus a cada um. Foi pontual: "todos somos mendigos do essencial, do amor de Deus que nos dá o sentido da vida e uma vida sem fim. Por isso, também hoje, estendemos a mão para Ele a fim de receber os seus dons”.
Pediu que se olhasse de forma preferencial para as pessoas com dificuldades: "podemos dizer que não me diz respeito, não é problema meu, é culpa da sociedade, passar ao largo quando o irmão está em necessidade, mudar de canal quando um problema sério nos indispõe, indignar-se com o mal, sem fazer nada. Deus, porém, não nos perguntará se sentimos justa indignação, mas se fizemos o bem.”
Defendeu que “amar o pobre significa lutar contra todas as pobrezas, espirituais e materiais”. Sendo o cristão uma autêntica fortaleza, "não de punhos cerrados e braços cruzados, mas mãos operosas e estendidas aos pobres, à carne ferida do Senhor”.
A proposta veio expressa na citação do Evangelho de João: «não amemos com palavras, mas com obras». Para Francisco, o amor não admite álibis: "quem pretende amar como Jesus amou, deve assumir o seu exemplo. Aliás, é bem conhecida a forma de amar do Filho de Deus. Ele nos amou primeiro, a ponto de dar a sua vida por nós”.
Seu diagnóstico: "o mundo não consegue identificar a pobreza, com suas trágicas consequências - sofrimento, marginalização, opressão, violência, torturas, prisão, guerra, privação da liberdade e da dignidade, ignorância, analfabetismo, enfermidades, desemprego, tráfico de pessoas, escravidão, exílio e miséria. A pobreza é fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!"
Coloca o dedo numa ferida aberta: "não se pode permanecer inertes e resignados. Todos estes pobres – como dizia o Beato Paulo VI – pertencem à Igreja por direito evangélico e a obriga à sua opção fundamental". Pede que a sociedade reaja à cultura do descarte, do desperdício e da exclusão, assumindo a cultura do encontro, com gestos concretos de oração e de caridade. Os pobres – alerta Francisco - não são um problema, mas “um recurso para acolher e viver a essência do Evangelho”.

domingo, 12 de novembro de 2017

Porque ainda somos amados


Um amigo disse que tinha chegado aos 85 anos e estava no tempo de morrer. Achando que era brincadeira, perguntei o por quê: "meu pai morreu aos 85. E morreu bem. Minha mãe se arrastou até os 93 e definhou..." Por trás daquilo que alguns julgaram ser um ataque de rabugice estava uma grande verdade: a própria natureza coloca limites na conservação do corpo, em todos os sentidos.
Pode haver exceções. Embora esta seja a regra: ao passar dos 85, mais facilmente começa a se perceber os sinais do envelhecimento, com a debilidade do físico, nem sempre acompanhada da debilidade do espírito. É este desafio que se coloca para a medicina, assim como para profissionais e familiares que acompanham o idoso.

Quem conviveu ou convive com pessoa idosa sabe o quanto é difícil aceitar o fato de não conseguir realizar certas tarefas e precisar de amparo porque a memória lhe prega peças. Há casos em que a pessoa é dócil e, então, a tarefa é mais fácil, embora não menos penosa. Porque quando se restringem os movimentos também começam as restrições da vida social. É a finitude toldando o horizonte da própria vida.

Da experiência com meus pais aprendi muito, especialmente que tudo o que foi apreendido pode ir por água a baixo e necessitar de revisão no dia seguinte. Munir-se de paciência, carinho, companheirismo e solidariedade é regra que impede a soberba, de infantilizar ou coisificar o idoso, mas também de que, na nossa própria perspectiva, o envelhecimento é certo e a morte um futuro que não se tem como descartar.

Quando me perguntaram porque procurei uma pessoa idosa da qual passei afastado a maior parte da vida, já não tinha mais dúvida: hoje, não exercendo função pública, não pode me beneficiar financeiramente e nem em prestígio. Gosto de estar com ela porque fez muito pela minha formação e o que faço satisfaz uma parte das suas necessidades, assim como o meu sentimento de ser, de alguma forma, útil.

A utilidade de um idoso é a sua própria inutilidade. A solidão, em qualquer idade, mas especialmente na velhice, é a negação do direito de ter ao lado alguém que não quer nos empurrar ou puxar, mas apenas estender a mão. No sentido mais elementar de que viver é a repetição incessante de atos que nos comprovam que há sentido até o derradeiro sopro de vida. Exatamente porque ainda somos amados.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Viver e alimentar a fé

A senhora idosa não queria festa no seu aniversário. Receberia filhos e netos para um café da tarde. Mas tinha um pedido: que tocassem as campainhas com o cotovelo. Reunidos, o pedido de explicação. Simples: se tocassem com o cotovelo significava que as mãos estavam bem ocupadas. Com os presentes que esperava receber!
A história foi contada por dom Paulo de Couto, bispo emérito de Montenegro, na noite de domingo (05), ao anunciar a inauguração da capela de Nossa Senhora Aparecida no Seminário Propedêutico (período em que jovens fazem o discernimento se querem candidatar-se ao sacerdócio), disponível também para a comunidade.
Da Catedral de São João Batista até o sopé da montanha foi uma procissão de dez minutos, em que o bispo pediu para lembrarem com carinho e atentos à formação dos rapazes que, num futuro, conduzirão os destinos da Igreja Católica e, hoje, precisam que, muitas vezes, as pessoas cheguem tocando a campainha com o cotovelo.
Não creio que a preocupação de dom Paulo era apenas com as doações. Mas, em comum com a senhora, havia o significado da entrega que não era apenas uma troca de presentes em um aniversário. Mas o instante em que quem dá tem única e exclusivamente esta preocupação: disponibilizar um pouco de si para o outro.
Voltava a Pelotas, depois de uma estada em Caxias e visita ao padre Rômulo (para eles dom Carlos) em Montenegro, e não resisti em continuar a história. Um dos netos que não trouxera presente apareceu alguns dias mais tarde. O porteiro o deixou passar pelo portão e porta do prédio. Já no apartamento, bateu com o cotovelo.
O som foi abafado, mas suficiente para a vó ouvir e quis saber porque não soltara o presente. A explicação: não queria deixar de atender à recomendação, mas sua altura era insuficiente para alcançar a campainha. A criança entendera que a senhora dera uma lição: o importante no dar está em se fazer presente. E compartilhar carinho.
Um presente carrega o tempo gasto em atender a necessidade ou o desejo de alguém, o momento de satisfação da entrega e, depois, a lembrança do seu significado. Que pode ficar como elo para toda uma vida. A comunidade que fez a sua procissão dificilmente vai esquecer a história do cotovelo. Os seminaristas também não.
Afinal, iniciaram uma caminhada em que, de diferentes formas, tocarão campainhas usando o cotovelo, especialmente porque estarão com as mãos carregadas da esperança e da certeza de que este povo conseguiu um dos mais belos presentes: viver e alimentar a própria fé!

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A partida do Chico

Na semana passada, o Chico partiu. Depois que a Vera se foi, acreditei que ele iria desandar. Tinha todos os motivos para isto. Mas não foi o que aconteceu. A morte da esposa não o desanimou, mesmo seguindo-se do diagnóstico de uma doença que, certamente, o levaria à morte. Soube enfrentar, dar testemunho de uma da suas opções maiores: era preciso continuar vivendo. E viver intensamente!
A primeira lembrança do Francisco Neto de Assis foi ainda pelos corredores da Escola de Comunicação. Naqueles bons tempos em que se trabalhava bastante na Agência de Comunicação, onde seu filho, o Érico, era um dos mais animados nas atividades de extensão. Foi quando ouvi pela primeira vez falar da ADOTE (Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos).
Foi simpatia à primeira vista. Do nosso primeiro encontro já saí com minha carteira de identidade marcada com o selo de doador. Aquele nordestino de olhar inteligente e atento fazia colocações objetivas, facilitando em muito o que a academia podia fazer em apoio a uma causa que tinha ganho a sua vida.
Passei a acompanhar suas atividades. Era elétrico. Presente em muitos setores da socidade - em especial na área da saúde - com capacidade de mobilização, mas também não se furtando a um embate quando julgasse necessário. O Rotary tem uma dívida para com ele, inclusive quando do exercício de seus dotes culinários.
Raramente o encontrei depois da morte da Vera, mas tornou público o diagnóstico de sua doença, a busca pela cura e seu reencontro com valores espirituais. Nunca me pareceu que fosse um homem de religião, mas, com certeza, era um homem de fé. Suas narrativas mostravam pelas redes sociais que não tinha medo de experimentar alternativas em busca da cura. Mas, também, a certeza de que vivia e buscava fazer com que outros vivessem, sem medo de enfrentar a morte.
Homens como o Chico sempre fazem falta. Muitos são aqueles que, hoje, graças ao seu trabalho, conseguiram transplante e sobrevida. Fiquei imaginando que Deus reuniu quem já recebeu alguma doação, familiares e admiradores que o aplaudiram na chegada. Parodiando Manuel Bandeira, em seu poema "Irene no Céu": Chico se apresentou no umbral do paraíso. "Dá licença, posso entrar? E São Pedro bonachão: você não precisa pedir licença. A casa é sua!" Vai em paz, Chico!

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Deus não joga...

É comum encontrarmos pessoas que são taxativas em usar a expressão: "Deus castiga!". Especialmente quando algum mal atinge uma outra pessoa a sentença se faz peremptória, abrindo mão de qualquer julgamento. Mais facilmente, estigmatizamos ao outro, buscando, para nós, ao menos, o benefício da dúvida.
Alguém que não quis cuidar de uma pessoa incapacitada - seja por doença, deficiência ou velhice - e depois depara-se com a própria finitude, sendo, também, abandonada, consegue o estigma de que "teve a sorte que mereceu, o castigo de Deus!". Concordo com a primeira parte, discordo da segunda.
Quando se pratica o mal, especialmente para quem precisa da nossa solidariedade, plantamos a semente daquilo que nos reserva o futuro. Não é uma questão do "querer de Deus", mas de consequência dos nossos próprios atos. Se eu fumar durante anos, beber por muito tempo, descuido da minha saúde e, no futuro, vou ter que arcar com os resultados.
Estas são áreas bem definidas - embora mal compreendidas e aceitas - porque já se conhece o resultado do excesso de fumo e de álcool. Mesmo assim, acredita-se que, parando depois de algum tempo, Deus vai fazer o resto! Como assim? queremos os "benefícios" de uma vida desregrada e, depois, a solução tem que vir por milagre?
Milagres não são tão comuns assim. O pai que abandonou o filho criança desejava passar uma borracha no tempo que negou o convívio. Impossível. Por melhor que sejam os anos futuros, restam cicatrizes dos tempos de solidão e afastamento. Voltar é um passo acertado, que não desfaz o erro, sequer suas marcas.
Os tempos de crise abrem espaços para os fanáticos, que transformam Deus em refém, fazendo chantagem para que Ele lhes entregue todos os benefícios e, de preferência, fulmine seus adversários. Mas também para uma discussão sobre os valores morais e referências éticas.
As religiões cristãs são ricas nesta área: a grandeza do Novo Testamento é, exatamente, o anúncio de que "Deus é amor", dando a liberdade ao homem, até, para praticar o mal. Mas fazendo-o colher daquilo que plantou. Pagar por pecados não precisa ser um tempo depois que se abrem os portões da Eternidade. Acertamos as contas ainda por aqui, na certeza de que "Deus não joga... mas fiscaliza!"

domingo, 15 de outubro de 2017

Outubro Rosa - não desistir da esperança

Homem usa rosa? A pergunta é preconceituosa, mas o 8º Batalhão de Bombeiro Militar do Estado não se importou com a carga que a cor carrega e aderiu ao Outubro Rosa - campanha de conscientização, prevenção e combate ao câncer. Durante este mês, seus integrantes vão usar camisetas que incentivam as mulheres - mas também seus companheiros - a se preocuparem com o assunto.
Evoluímos no tratamento do câncer. Talvez o de mama, na mulher, e o de próstata, no homem, sejam aqueles que dão maiores esperanças quando há prevenção. Para as mulheres já é uma questão tranquila. Mas ainda há muito preconceito por parte dos homens. A prevenção pode fazer a diferença entre um longo e difícil tratamento e encontrar oportunidade de cura. Não se brinca com o diagnóstico que mostra uma disfunção do organismo capaz de levar à morte.
Esperar pela sorte é negligenciar um cuidado básico e necessário. Enfrentar medicação, quimioterapia, radioterapia, necessita de preparação física, psicológica e espiritual. Atender às recomendações médicas é uma parte importante de todo o processo. Mas também cercar-se de bons fluídos para alcançar a serenidade necessária. E a fé pode dar sentido ao sofrimento, até na perspectiva da finitude.
Este longo e penoso caminho - bem enfrentado e bem acompanhado - pode mudar o enfoque, inclusive no que se refere à realização pessoal e ao sentido da própria vida. Talvez pessoas próximas - familiares e amigos - não tenham noção do quanto são importantes enquanto presença que significa apoio e referência para não desistir.
Os rapazes do Corpo de Bombeiros deram seu testemunho: fazem seu trabalho e são formadores de opinião em suas comunidades. Ao realizar um ato com mulheres em tratamento emocionaram quem recém teve o câncer detectado até aquelas que já lutam há longo tempo. Juntos fizeram um jura que ressoou por corações, emudeceu vozes e fez transbordar lágrimas: "um por todos... e todos por ELAS!"
Mais do que um voto é uma grande certeza: a vida de uma guerreira - em toda a sua fragilidade - que enfrenta as vicissitudes é o exemplo mais claro e límpido de que viver vale a pena quando outros dão sentido à nossa própria caminhada. Olhares de ternura, sorrisos, gestos de carinho, orações fazem parte da corrente que alimenta quem precisa apenas de um pequeno gesto para não desistir da esperança.

domingo, 8 de outubro de 2017

Aparecida - um porto seguro

Texto ajustado para os jornais desta semana. Já publicado aqui no blog.

Participei, em agosto, do Mutirão de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Realizado em Joinville, Santa Catarina, teve momentos especiais. Um deles foi quando, no encerramento, aconteceu a consagração dos comunicadores à Nossa Senhora Aparecida, a estimada Padroeira do Brasil, mas também das grávidas, recém-nascidos, rios, mares, ouro, mel e da beleza.Quando completam 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição pelos pescadores há muito o que aprender com a fé popular que irradia daquele centro de evangelização. O momento de oração iniciou com a retirada do manto e da coroa que tradicionalmente conhecemos. Despida, a imagem é de um corpo negro e uma mulher grávida.
A pequena imagem foi descoberta, inicialmente, pela parte do corpo e só bem mais tarde pela cabeça. Dom Darci Nicioli, referencial de Comunicação da CNBB, fez a motivação dizendo que sempre se perguntou porque, ao encontrar um pedaço de imagem, o pescador não atirou de volta ao rio. Afinal, era apenas uma parte de uma estátua, sem valor algum.
Mas o pescador tinha um "olhar de fé". O suficiente para aguardar e ser recompensado com a outra parte. Conta a história que a envolveu em sua camiseta de trabalho, primeira veste daquela que se tornaria a Padroeira do Brasil. Uma cobertura para não ser esquecida, já que também da família do pescador viria o primeiro lugar sagrado onde seria apresentada ao povo, assim como o primeiro manto costurado pelas mãos calejadas dos ribeirinhos.
No mesmo evento, duas estandes era dedicadas à Aparecida. Uma delas à televisão, que alcança o território nacional e faz seu trabalho de evangelização. No outro, o Memorial, ainda em formação, com mais de uma centena de imagens de cera, representando figuras que fizeram a história do Santuário, assim como de muitos que contribuíram para se tornar o que é hoje - uma referência de fé.
Este ano, muitos são os caminhos que levam à Aparecida. A motivação do encontro dizia que havia uma explicação para Nossa Senhora não ter seu filho no colo: "para receber em seus braços todos aqueles que dela necessitam." A consagração terminou quando restituíram o manto e a coroa. Elementos que o povo lhe deu como adereços, numa justa e singela homenagem.
Mas fiquei com a impressão de que a imagem - desnuda - era mais significativa. Mulher negra e grávida, cheia de sonhos e preocupações. Tratando de uma humanidade que, no ir e vir em busca de solução para suas aflições, volta os olhos para o lugar onde fica a Mãe de todos, numa súplica por um abraço e um colo que se torne um porto seguro de fé.

domingo, 1 de outubro de 2017

E assim nós partimos...

O filme não está mais nos cinemas, mas pode ser encontrado em serviços por internet ou locadoras: Os meninos que enganavam os Nazistas. Filhos de uma família judia em Paris, quando a guerra começa a se aproximar da capital francesa o perigo é grande - especialmente para a sua gente.
Dosa cenas fortes com momentos de pura ternura entre dois irmãos. Sabendo que o conflito chegará às suas portas, o pai tem a preocupação em fazer com que os filhos sobrevivam. Para isto, precisam negar a própria identidade e separar-se. À mesa, conversando, pede às crianças para dizer que não são judeus.
Pergunta ao pequeno, que nega sorrindo e leva um tapa. Assustado, passa a dar ênfase à negação. Na partida, estarão sozinhos, se outros fugitivos terão que se esforçar, o fato de serem judeus os tornará duplamente perseguidos. Enfrentar o perigo para chegar à zona livre exige superação dos próprios medos.

O carinho entre os irmãos vai se transformando em cumplicidade e amadurecimento. O pequeno torce o pé e o mais velho o carrega nas costa afirmando que o "levaria ao fim do Mundo se fosse preciso". Cansa e, sentados à beira do caminho, reconhece que é pesado, mas que o ajudará de outra forma...
Duas crianças percorrendo terras estranhas. Em alguns momentos protegidos por outras pessoas - inclusive religiosos - sabendo que para permanecer vivos precisam perder a inocência: discernir entre em quem podem confiando ou aqueles que estarão à espreita para se aproveitar do seu pouco preparo para a vida.
Ao invés de uma aventura, uma jornada de sofrimento e dor. Laços se aprofundam, com a necessidade de descobrir seu lugar e definir o lado em que se está na busca pela sobrevivência. A lição de humanismo está, exatamente, quando a sanha dos que foram perseguidos os transforma em perseguidores.
Da boca do pequeno Joseph (o irmão mais novo) sai o pedido de que se preserve a vida de um simpatizante do Nazismo, que seja levado a julgamento, para que a massa não se transforme em justiçeira. Em contraste com a perda do pai no campo de concentração - a ferida que encontram quando voltam para casa.
O pai lhes deixara uma lição: "quando morre um homem bom há uma estrela que se ilumina no céu e é preciso manter viva a esperança". Exatamente o que tinham no horizonte ao enfrentar todos os percalços - em meio à tormenta que assolava a Europa, havia um lugar de onde partiram... Mas para o qual, mais do que tudo, um dia, queriam voltar!
 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Suicídio - um sonho que morreu no caminho

Entidades ligadas à saúde provocam a discussão em torno de um tema considerado tabu: o suicídio. Tratado como um problema público já que a incidência aumenta em tempos de crise. A conjugação de fatores que caracterizam nosso jeito de viver em sociedade formou o cadinho em que ficar atento, especialmente aos jovens, é mais do que necessário.
Numa ocasião, ouvi um palestrante dizer que este era um "ato de coragem", porque para chegar a atentar contra a própria vida é um longo caminho, onde, especialmente, vai-se perdendo o sentido da vida, tomando o isolamento por atitude existencial e bloqueando a maior parte das relações.
Sempre fiquei com a impressão - dos casos que conheci - é de que as pessoas foram se anulando, dando sinais de que precisavam de socorro, mas que, na maior parte das vezes, não foram detectados. Em muitos casos, a depressão e o afastamento do convívio social dão a impressão de ser apenas fase passageira.
Os silêncios, as ausências, a introspecção exagerada não fazem parte apenas de um caráter tímido. Aceitar que se tem um "doente" em casa é um passo que a maior parte das famílias não consegue dar por diversos motivos: achar que tudo pode se resolver naturalmente ou serem incapazes de ver o que está se passando.
O Rio Grande do Sul é um dos estados em que mais se atenta contra a vida. O dobro da média nacional - cerca de mil óbitos por ano. Para os jovens entre 15 e 19 anos é o segundo motivo de óbito, perdendo apenas para a violência. Um número silencioso porque se instituiu um "pacto" em que este tema dificilmente vem a público e, quando vem, em seguida, é silenciado.
Jornadas, associações, área da saúde e meios acadêmicos levantam uma lebre arisca. Mas serão apenas dados estatísticos se não houver uma preocupação série e bem informada por parte das famílias. Chegar a um ato de desespero mostra que no meio do caminho se tomou um rumo equivocado e os sinais foram ignorados.
Uma educadora dizia que num olhar se percebe quando um garoto está com problemas. Deixar de olhar para flagrar um pedido de socorro é omissão. Em meio a tantos pesadelos, alimentar os sonhos é o jeito de acertar caminhos. Restaurar a confiança faz a diferença entre terminar com a vida ou o rumo da realização pessoal.

domingo, 17 de setembro de 2017

Sorver o gosto da vida

Meu pai foi o primeiro a chegar em casa com sua carteira de identidade contendo um selo onde declarava ser doador de órgãos. Discussões à parte, muitos de nós seguimos seu exemplo e passamos a contar com a identificação, assim como - enquanto me foi possível - me transformei em doador de sangue.
Uma matéria de televisão mostrou a senhora que iniciou tratamento químico e espera por uma doação. Mas quer casar. Entrou na igreja sem o véu, com uma bandana já que seus cabelos caíram. Abertas as portas, a surpresa: as madrinhas também estavam com uma bandana, ao invés de cabelos preparados e enfeitados para a ocasião!
Lembrei desta matéria ao acompanhar campanhas que lutam para que, de todas as mortes, ao menos algumas deem sentido àqueles que dependem de um gesto de boa vontade - especialmente da família de quem faleceu - para continuarem vivendo.
Uma delas mostrava a mãe arrumando a roupa do filho adolescente enquanto ficava atenta ao telefone para não perder a oportunidade do transplante e manter viva a esperança de uma vida saudável. De outro lado, a mãe que também acariciava as roupas do filho que não teve a mesma sorte.
Esperou o quanto possível, mas a doação necessária não chegou. Era tempo, então, de lutar por aquilo que tanto desejaram: fazer a morte do filho se transformar em vida. Seus órgãos foram doados. Um dia reencontraria aqueles que deles se beneficiaram. Era o jeito que seu menino lhe dizia para não desistir.
Encontrar esta motivação para viver pode estar na própria pessoa, mas também na solidariedade de quem está próximo e da sociedade. As mesmas pessoas que batalham por uma doação de sangue - individualmente, entre amigos ou grupos sociais - ou estampam em suas identidades que disponibilizam seus órgãos - precisam estar atentas para aqueles que, gradativamente, desistiram de viver.
Sorver o gosto da vida é uma experiência individual. Mas, com a mesma palavra, forma-se o verbo "conviver", que intensifica esta experiência, potencializa sua ação. O gesto das amigas da noiva, aqueles que convivem com a perda, ou aqueles que ainda têm esperança guardam o mesmo fio condutor: a solidariedade que nos faz mais humanos. É o que impede alguém de desistir e alimenta o sentido da esperança, único caminho possível de colocar no horizonte um pouco de felicidade.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ainda não…

Na doença, como na velhice, existem altos e baixos. Pode-se ter a certeza do fim num dia e, no seguinte, um arremedo de esperança. Desistir, entregar os pontos, é acabar com todas as expectativas. Para quem cuida de um doente ou de um idoso, a sensação é de peso, mas se torna leve na medida em que se percebe que, na maior parte das vezes, o desejo de viver reside, exatamente, naquele que ficou ao lado.
Minha amiga com câncer de mama deveria ter feito a segunda sessão de quimioterapia. Não fez. Suas defesas estavam baixas. A pergunta óbvia: o que fazer? Medicação, alimentação, algum tipo de exercício? Sorrindo, o médico respondeu: "dando e recebendo muitos abraços, vivendo!"
Com uma semana de tratamento, a idosa com depressão apresenta um quadro bem melhor. Recebe o alimento com mais facilidade, mantém os olhos abertos por mais tempo, fala pouco, muito baixo, mas o olhar já sorri quando fixa em alguém que também a olhe com carinho.
Rubem Alves cita o caso em que foi internado e que teve a certeza de que "nesse ponto eu já não era dono de mim mesmo, eu estava à mercê dos outros", pois sentia muita dor na coluna. Foi quando, numa discussão com Adélia Prado, queriam saber se esta - a dor - era a pior, ou o medo.
No processo de doença - ou de envelhecimento - entre a dor e o medo, o pior é quando os cuidadores infantilizam ou coisificam o cuidado. No último caso, acontece o que citava Rubem Alves, a perda da autonomia. Que se expressa em coisas simples, como a pergunta se a pessoa ainda quer comer, se quer que feche ou abra a cortina, se deseja que o travesseiro esteja de um jeito ou de outro.
Ainda não é tempo de desanimar. Faltam abraços a serem dados, olhares que acariciem enquanto se gasta mais tempo para consumir uma colher de alimento, confidências capazes de dar ânimo à espera; um sol de Primavera capaz de fechar os olhos não por cansaço, mas pelo simples prazer de viver.
O problema da nossa funcionalidade é que tratar a pessoa adequadamente demanda tempo. E a maior parte dos cuidadores acha que é perda de tempo gastá-lo nos detalhes, quando se atende o atacado. Esquece que é nos detalhes que se esconde a diferença, inclusive onde quem é tratado pode sentir calor humano, sensibilidade, capacidade de empatia.
Ainda não... Convivo com doentes, idosos, deficientes... De cada um, há um jeito diferente para se ver a vida. Pura e simplesmente pensar nas necessidades que possuem é muita pobreza para um tratamento humano e cristão.
Mas de todos os caminhos que percorri, entre muitas lições aprendidas, há uma em especial: o tempo passa. As feridas se curam. A partida é inevitável. Mas nada, nem ninguém, faz retornar o momento perdido em que se negou o convívio. Na hora de cuidar, talvez não se perceba, mas confirma a memória afetiva ecoando na voz do Pequeno Príncipe: "tu te tornas eternamente responsável por aqueles que cativas!"

domingo, 3 de setembro de 2017

Um sentido para a esperança

Duas pessoas próximas enfrentam o mal do século: depressão. Uma delas combate um câncer de mama e, preventivamente, utiliza medicação para vômito e minimizar os efeitos da depressão. A outra, idosa, chegou à doença sem que a família se desse conta dos sintomas que estavam formando o quadro.
A depressão é o momento em que se experimenta com mais intensidade a solidão. Pode-se fazer adequadamente um diagnóstico, saber quais são as receitas para superar os momentos de crise, mas se é incapaz de dar, sozinho, o primeiro passo. O silêncio e as ausências são o grito num pedido desesperado de socorro.
Os idosos superam com mais dificuldades porque não se prepararam para viver só. Uma vida inteira investiram forças na família, amigos e convívio social. O final não foi previsto: o tempo que embaçou seus olhos também varreu para longe ou para a eternidade aqueles que um dia amou.
Um tratamento de quimioterapia é, dos males, o menor. Para quem tem um plano de saúde há tropeços, mas pode ter uma visão mais clara dos benefícios. No serviço público, uma aventura, com a falta de estrutura, de profissionais e medicação. A mesma paciente conviveu com duas outras tratadas pela rede governamental. Infelizmente, a morte chegou por falta do atendimento adequado.

A depressão é a negação da própria identidade. É difícil dizer o que é possível, mas o pouco que se pode fazer é o aprendizado de uma criança começando a andar: devagar, claudicante, testando cada passo. Um longo caminho onde o fundamental é não deixar que morra a esperança. De toda uma vida resta quase nada, mas é o fio condutor que dá uma nova razão para coisas e situações que parecem velhas.
O idoso, na maior parte das vezes, precisa redescobrir que há pessoas na sua volta tentando lhe dar razão para viver. E que repousar na eternidade é entre ele e Deus. Para quem está em tratamento, o recomeço está em beber sorrisos, mãos que se entrelaçam, abraços apertados, vida que busca, num lugar perdido do coração, a razão para amar única fórmula capaz de dar sentido à grande e terna aventura que é viver.
No filme Os Meninos que Enganavam os Nazistas o personagem Jô lembra do pai, morto nos campos de concentração: "quando morre um homem bom há uma estrela que se ilumina no céu e é preciso manter viva a esperança". É neste momento que a fragilidade de quem pensa em desistir necessita de família - e não de parentes.
Na verdade uma "grande constelação" que garanta a energia positiva e a certeza de não morrer a chama nos olhos de quem já foi capaz de fazer o mesmo: sorrir com uma lágrima nos olhos, estender a mão quando já não havia mais forças, gastar o pouco da vontade que lhe resta no aperto de um abraço onde pulsam juntos dois corações...

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Referência de fé e religiosidade

Um dos temas recorrentes no mês de agosto que termina é o da "vocação". Especialmente para a vida da Igreja Católica (mas também de outros credos), sendo uma das maiores preocupações o número menor de sacerdotes e religiosos, com a diminuição do atendimento nos espaços sagrados, comunidades e às pessoas.
Em Canguçu, o padre Estêvão Echer disse que gostaria de ir ao Vaticano pedir ao papa Francisco para receber de volta padres afastados de suas funções - mas com presença na Igreja - que buscaram, especialmente, o matrimônio. Em muitos casos, homens de comprovado testemunho moral em condições de exercer o sacerdócio.
Mas falávamos, também, dos muitos diáconos casados, hoje, que já têm uma estrutura para receber a ordem do sacerdócio, necessitando, apenas, complementar a sua formação. E a esperança de que ainda sob o papa Francisco possamos ter mulheres recebendo o diaconato.

Vocações tardias se manifestam no sacerdócio e na vida religiosa. Mulheres que viveram toda uma vida de atividade social e profissional e que, passada esta etapa, sentem que podem complementar sua realização no serviço religioso. Mesmo caso de viúvas que já criaram uma família, mas ainda guardam muita energia para trabalhar.
O chamado vocacional é especial. Durante muito tempo concentram-se esforços em construir uma profissão. Depois, é tempo de buscar patrimônio, assim como uma família. Estabilizados financeiramente e com filhos e netos criados, em determinado momento, na crise da meia idade, vem a pergunta: para quê?
São muitos os homens e mulheres respondendo carinhosamente ao chamado de Deus. Figuras especiais porque não se importam que a sociedade os considere algo curioso, destoante, gastando "inutilmente" sua energia. São sinal de que uma sociedade saudável precisa de referências de fé e religiosidade.
Vou pedir ao padre Estêvão que, quando for ao Vaticano, permita que o acompanhe. Serei reforço para que se amplie o leque dos que têm este trabalho privilegiado de serem homens e mulheres de Deus. Afinal, vocação religiosa alça pessoas a dar resposta àquilo pelo qual o Mestre suspirou: "tenho compaixão deste povo!"
A compaixão inicia por se despir de vaidades e preconceitos. Num mundo carente de valores elementares, o religioso luta por ampliar horizontes. Consagra sua vida à esperança de fazer a existência de mais gente reencontrar sentido - a realização enquanto ser humano, mas também a busca pelo caminho que leva até Deus!

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Um olhar de fé, um porto seguro

Participei, em agosto, do Mutirão de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Realizado em Joinville, Santa Catarina, teve momentos especiais. Um dele foi quando, no encerramento do evento, aconteceu a consagração dos comunicadores à Nossa Senhora Aparecida, a estimada Padroeira do Brasil, mas também das grávidas e recém-nascidos, rios e mares, do ouro, do mel e da beleza.
Quando se completam 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição pelos pescadores há muito o que se aprender com a fé popular que irradia daquele centro de evangelização. O momento de oração iniciou com a retirada do manto e da coroa que tradicionalmente conhecemos. Despida, a imagem é de um corpo negro, de uma mulher grávida.
A pequena imagem foi descoberta, inicialmente, pelo corpo e só bem mais tarde pela cabeça. Dom Darci Nicioli, referencial de Comunicação da CNBB, fez a motivação dizendo que sempre se perguntou porque, ao encontrar um pedaço de imagem, o pescador não atirou de volta ao rio. Afinal, era apenas uma parte de uma estátua, sem valor algum.
Mas o pescador tinha um "olhar de fé ". O suficiente para aguardar e ser recompensado com a outra parte. Conta a história que ele a envolveu em sua camiseta de trabalho, primeira proteção daquela que se tornaria a Padroeira do Brasil. Uma cobertura para não ser esquecida, já que também da família do pescador viria o primeiro lugar sagrado onde seria venerada pelo povo, assim como seu primeiro manto trabalhado.


No mesmo evento, duas estandes era dedicadas à Aparecida. Uma delas à televisão, que já alcança o território nacional e busca fazer seu trabalho de evangelização. No outro, o Memorial, ainda em formação, mas já com mais de uma centena de imagens de cera, representando figuras que fizeram a história do Santuário, assim como de muitos que contribuíram para se tornar o que é hoje - uma referência de fé.
Este ano, muitos são os caminhos que levam à Aparecida. A motivação do encontro dizia que havia uma explicação para Nossa Senhora não ter seu filho no colo: "para receber em seus braços todos aqueles que dela necessitam."
A consagração terminou quando lhe restituíram o manto e a coroa. Elementos que o povo lhe deu como adereços, numa justa e singela homenagem. Mas fiquei com a impressão de que aquela imagem - desnuda - era mais significativa. Uma mulher negra e grávida, cheia de sonhos e preocupações: uma humanidade que, no ir e vir de seus problemas, volta os olhos para o lugar onde fica a mãe de todos, numa súplica por um abraço e um colo que se torne um porto seguro de fé.
(Foto: imagem de Nossa Senhora sem o manto e a coroa)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Dunkirk: um caminho de volta para casa

Dunkirk é um filme pesado. Pesado e triste. Uma síntese se apresenta em duas frases emblemáticas - do comandante que organiza a evacuação: “muitas vezes a distância para casa acaba sendo muito longa”. E do garoto que faz de tudo para sobreviver e quando fica estendido no tombadilho de uma embarcação de turismo que o resgatou apenas murmura: “me levem para casa!”....
Mais de 300 mil homens foram encurralados no norte da França e seus comandantes sabiam que pela lógica macabra da guerra poderiam ser sacrificados pois ainda não acontecera a tentativa de invasão à Inglaterra. Os recursos da marinha e aeronáutica seriam reservados para a proteção da ilha. Homens jovens são transformados em massa de manobra, mas, se recuperados por embarcações civis, teriam aumentado o seu prazo de validade.
Olhar para os jovens que andavam pelo shopping na noite em que assisti o filme apertava o coração imaginando que no jogo pelo poder econômico e político estariam nas frentes de batalha, muitas vezes até pensando na obrigação “moral” de defender uma causa. Mas ceifando ou aleijando o futuro de tal forma que suas chagas até hoje ainda não cicatrizaram.
Há um dito segundo o qual “o primeiro que morre numa guerra é a verdade”. Pode ser, mas na sequência morrem também os sonhos. Em determinado momento já não importa mais lutar, mas sobreviver. As feridas físicas têm impacto semelhante ao das marcas psicológicas. São terríveis para quem viveu os horrores dos bombardeios, mas também calam naqueles que recebem um corpo ferido, um corpo sem vida, ou ainda um corpo em que a vida perdeu o sentido.
Os meninos que se fazem de homens indo para a guerra são os mesmos que choram encolhidos pedindo para voltar para casa. Em ambos estão certos: acreditaram naqueles que lhes incutiram sonhos e razões de sobra para fazer uma guerra. Na prática, no entanto, acaba sendo uma escola de sobrevivência, onde não se premiam os mais capazes, mas o destino sorteia aqueles que vão viver.
A guerra é a violência exacerbada. Sacrificar jovens por pendências internacionais é o mesmo que aceitar a reclusão em casa porque perdemos o controle sobre a violência nas ruas. Nos dois casos, os jovens são sacrificados: na guerra correm atrás de um sonho que vira tortura. Nas ruas, atrofiam seu amadurecimento: em muitos casos querem apenas encurtar distâncias, o simples e elementar direito de voltar para casa.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O entardecer de nossos dias

Envelhecer leva a ter mais paciência com os jovens... e com os mais velhos! Seguidamente, saudosistas elencam o que era bom no passado. O sinal mais evidente é acharem as músicas da sua mocidade as melhores. Juventude é, também, um estado de espírito e, sem contrariar o físico, presentificam-se velhos e bons tempos.
Tomar consciência que, exatamente por se viver hoje, com os avanços tecnológicos, é que se recupera material - musicais, por exemplo - das diferentes décadas. É, então, que apresento a sugestão para quem já se aposentou e busca ocupação: kit básico - um bom par de tênis e um tablet.
Não sei se esta é a receita ideal. É a minha receita. Leva em consideração que um dos maiores pecados da atualidade é o sedentarismo e, caminhando (o par de tênis) pratica-se exercícios e, ao mesmo tempo, faz-se uma higiene mental ao sair para a rua, em busca de ar e interação.
Hoje diminuiu a vida em família - embora se mantenha muitos parentes. Então, aprende-se que ficar sozinho não é, obrigatoriamente, sinônimo de solidão. O convívio não se dá da mesma forma. A interação é planejada pelas redes. O tablet mantém viva relações sociais e recolhe músicas, filmes, livros...
Claro, nas conversas tem sempre aquele que diz preferir o cheiro e a textura das páginas do livro impresso para um poema, uma crônica, uma boa história. Para estes lembro que ao Gutemberg inventar os tipos móveis saudosistas torceram o nariz porque ainda preferiam fazer suas leituras em pergaminho e papiro...
O importante quando se busca instrumentos que levem as pessoas a circularem pelas ruas, sindicatos, associações, igrejas, é que tenham consciência de que novos tempos geram novas formas de convivência. Um conhecido dizia: "não tenho medo de ficar sozinho, o que me assusta é a possibilidade de ser abandonado".
Não são somente as famílias que estão diminuindo. As relações também estão se diferenciando e, em muitos casos, aqueles que saem das casas dos pais não querem casar ou manter uma relação estável. Há uma reengenharia da convivência e, especialmente, do jeito como as pessoas estão encarando a si mesmas.
Envelhecer não precisa ser a certeza de dependência. Sem procurar culpados, é preferível ser feliz sozinho do que amargurar que toda a experiência de uma vida não ficou como bênção. Na "inutilidade" encontrar um porto seguro que, silenciosamente, alcance a mão e o coração para dar dignidade ao entardecer de nossos dias.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Educação: as razões para viver

Quando se fala em educação, uma das imagens apresentadas diz que as crianças chegam faltando um instrumento: o manual técnico de montagem e uso. Seguindo o mesmo raciocínio, um palestrante brincava não ser este o problema, já que, como na vida real, dificilmente lemos os manuais antes de manusear um eletrônico e somente recorremos a ele quando temos problemas, muitas vezes causados por mau uso!
Lembrei da imagem ao participar de encontros com educadores. Num deles, a professora falava de atitudes das crianças sendo algumas toleradas e até incentivadas quando pequenas, mas recebiam a repressão dos pais depois de uma certa idade. Caso típico das danças eróticas em moda.
Uma avó contou o caso do neto que aprontava todas quando tinha "plateia" e, ficando apenas com os pais, mantinha-se calmo. Em ambos, parece-me que a preocupação da criança não é dar show, mas pedir a atenção. Em tempos difíceis de ter em torno pais, avós, tios... envolvidos, a criança apenas repete aquilo que chama para si a atenção do adulto - sem distinção de certo ou errado.
No encontro de escritores com professores na Academia Pelotense de Letras novamente foi apresentada questão semelhante, por outro ângulo: crianças tranquilas para brincar, desenhar, representar - enfim - serem crianças, ao chegar à pré-adolescência ficam inibidas de tudo que chame a atenção sobre elas.
Encontraram na produção de textos motivação para todas as idades. A literatura é um instrumento do qual a pedagogia pode - e deve - se valer. A criação de histórias - textos e ilustrações - sua leitura e representação, incendeia a imaginação de crianças e jovens, nas páginas do papel ou telas de computadores.
Os aspectos lúdicos, culturais e esportivos também ajudam professores na compreensão dos conteúdos diários. Tanto para homens e mulheres que escrevem - quanto para as demais áreas - é importante a humildade diante do conhecimento. Não "transmitimos ensinamentos", propiciamos instrumentos para que a criança e o jovem façam o seu próprio processo de descobertas e aprendizado.
Uma criança é um ser chegando ao mundo com o olhar encantado com o que vê, ouve, sente. O adulto perdeu este encantamento. Os professores que fazem esta nova cruzada - da mesma forma que Rubem Alves - têm razão: "sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido". Porque "são as crianças, que, sem falar, nos ensinam as razões para viver". Simples assim. O problema continuam sendo os manuais...

segunda-feira, 31 de julho de 2017

O direito de voltar para casa

A violência, hoje, faz parte da rotina nos meios de comunicação, invade conversas no transporte coletivo e rodas de chimarrão. Quem mora na periferia das cidades perdeu o direito de ir e vir. Refém do medo de assaltos, não anda nas ruas a partir do final da tarde, combina com pessoas para efetuar saídas, vigia a proximidade da casa ao entrar a pé ou de carro.
Mesmo assim, não foge da paranoia de que será uma próxima vítima. Então, mulher sozinha, à noite, em deslocamento, passar por indivíduo também sozinho ou em grupo, "com jeito de marginal", causa um dos mais recentes fenômenos: o "quase assalto". Num primeiro momento achei engraçado quando ouvi esta expressão.
Mas não levou muito tempo para que ela se repetisse três vezes em menos de um mês. Deu para perceber que, embora todas as medidas tomadas - abandonar o uso de bolsas, andar simplesmente trajadas, não usar celulares e adereços na rua - o fato de passar por suspeito já causa temor. Fiquei pensando no passante em sentido contrário... Mas esta é outra história!
A Vânia é cuidadora nos finais de semana. Vem e vai de bicicleta porque acredita que o perigo é o mesmo da espera numa parada de ônibus. Quando sai, cuido e, quando chega em casa, liga para dizer que está tudo bem. Num retorno, numa rua sem movimento, um indivíduo atravessou a via para confrontá-la. Acelerou, escapando ao possível assalto.
Mas foi o que me disse depois que chamou atenção: "Não vou desistir. Não vou ficar em casa só porque esta gente anda por aí". Na simplicidade de quem vai trabalhar e também à noite vai para a sua Igreja é uma das respostas à crise da segurança: desistir, entregar os pontos, significa abrir mão de todas as possibilidades de uma convivência saudável.
No domingo, a Mariana lembrava do tempo em que podia andar de bicicleta até tarde da noite na rua com seus irmãos. Direito que, agora, passou para quem reside em condomínios e vê as crianças terem a chance de viver esta "liberdade" num espaço fechado. Por paradoxal que possa parecer, é o jeito de alcançar uma frágil sensação de segurança.
Os crimes cometidos - de todos os tipos - sempre causaram angústia e apreensão. No entanto, recentemente, as imagens que circulam nas redes sociais não são mais de policiais ou bandidos sangrando em favelas de Porto Alegre, Rio ou São Paulo. Mas do vizinho que dirige um taxi, o conhecido que vigia um supermercado ou de alguém que foi assaltado.
João Paulo II dizia que a violência destrói a dignidade da vida e a liberdade do ser humano. Uma sociedade injusta conduz à pratica da violência. Políticas sociais não vão reverter o quadro a curto prazo. Mas precisam ser iniciadas. Afinal, sair de casa para trabalhar, ir à Igreja, se divertir, é um direito, exigindo-se, também, a possibilidade de voltar para casa em segurança.





segunda-feira, 24 de julho de 2017

Deficientes e a purificação da raça

O Ministério Público da Romênia está levantando o tapete de um crime contra a Humanidade. Possivelmente, iniciando durante a 2ª Guerra Mundial - mas se estendendo até o fim do regime comunista - cerca de 10 mil crianças, adolescentes e jovens foram mortos por apenas um crime: eram excepcionais!
A ideia de que um excepcional atrapalha a capacidade de produção de uma família causou a sua reclusão em clínicas, onde eram classificados como recuperáveis, parcialmente recuperáveis e irrecuperáveis. Na mesma sequência, aqueles que poderiam produzir para o estado, ser treinados ou... descartados.
O fim era macabro: deixavam de ser tratados, alimentados e, quando batia o Inverno, não recebiam calefação. A consequência era a piora dos sintomas, inanição, ou perecerem por doenças típicas do excesso de frio.
Este tipo de "purificação da raça" foi visto durante o regime de Adolf Hitler. Na Alemanha, mais de 200 mil pessoas foram sacrificadas por não corresponder à ideia de produtividade do governo. Quando se fala do extermínio de judeus, ciganos e gays, acrescente-se mais este grupo de inocentes. Que a História ainda não soube registrar.
O preconceito com o excepcional está no tipo de sociedade que construímos. Pessoas vaidosas em busca do corpo perfeito, da aparência de acordo com os padrões de beleza, do comportamento estereotipado para atender a competitividade de quem representa mais, sem lastro para ser melhor.
Aqueles que lidam com excepcionais - a Associação dos Pais e Amigos de Jovens e Adultos com Deficiência (Apajad) sabe disto - veem no dia a dia a reação com pessoas consideradas "doentinhas", merecedoras de pena, mas não de ocupar um lugar na sociedade.
A excepcionalidade provoca: aqueles que a portam podem até não ter consciência do que são, mas os que os cercam trabalham para que sejam inseridos e tenham seu lugar ao Sol. O problema é para quem não os aceitam... Não aceitar é sinal de que os deficientes incomodam.
Todos temos deficiências. Aqueles que as externam física e mentalmente são o dedo na ferida, pois mostram o quanto precisaríamos desfazer a nossa própria arrogância. Aprender com as crianças - ainda não contaminadas pela "cultura" que mais tarde irão vestir - que ao brincar há apenas um outro ser humano ao seu lado. Correr, gritar e rir nos torna mais gente. Algo em que não somos diferente de ninguém.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Siga o seu coração...

Programa de auditório no domingo pela manhã: a menina convidada para dançar também receberia, no palco, a mãe que a abandonara e desejava - diante das câmaras e audiência nacional - pedir perdão e refazer a relação cortada quando dera a luz ainda jovem e manter a filha seria um estorvo para seu mais recente caso amoroso....

Como dizem os planejadores, a impressão é que faltou combinar com os russos. A cena não transcorreu sendo tudo flores e aromas agradáveis, A impressão é que muitos ainda eram os espinhos entre as folhas da roseira. A cena que poderia ser emocionante transformou-se, apenas, em representação teatral de péssima categoria.
A busca por audiência leva os sentimentos mais íntimos a serem transformados em espetáculos, não bastando apenas o reencontro entre dois seres já machucados pela vida, mas a transformação em representação teatral, com um olho no palco e o outro nos índices de audiência auferidos em tempo real.

Até consigo entender porque as pessoas se predispõem a fazer tal encenação. Afinal, o encantamento dos meios de comunicação - em especial a televisão - consegue fazer as pessoas mais simples acreditarem que estão tendo seus 15 minutos de fama e, para isto, qualquer coisa vale a pena.
Tristemente, se desnudam diante das câmaras, nos seus sentimentos mais íntimos, como é dar e receber perdão. O caminho da separação, quase sempre, é doloroso. Carrega ressentimentos, incompreensões, feridas possíveis de serem curadas, mas deixando marcas em cicatrizes que mesmo o tempo é incapaz de apagar.
Num filme de final da tarde, o jovem personagem que ia para a faculdade conta para a mãe que magoou a namorada e, agora, tem medo que não o espere. Mas que a ama. A mãe diz que ele tem ainda muito pela frente. Mas que, por toda a vida, o sofrimento que deixou numa pessoa pode até ser perdoado, mas não esquecido.
E completou: "procure por ela quando puder olhar sinceramente nos seus olhos e apenas siga o seu coração". Transformar sentimentos em comédia é o oposto. Há tempos em que nos mantermos afastados das pessoas pode ser um jeito de redescobrir o quanto são importantes.
No fundo, no fundo, a gente descobre mais com os silêncios do que com longas conversas. Quem não for capaz de compartilhar uma ausência, com certeza, não consegue dar valor a um perdão obtido na intimidade do reencontro - "quem nunca errou que atire a primeira pedra!" - onde apenas um olhar pede o direito de voltar!

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Com o gosto de domingo

Um dos meus sabores com gosto de infância e juventude é o do mocotó. Meu pai e minha mãe iniciavam a limpeza e fervura das partes do boi usadas no preparo ainda na madrugada de sábado, para servi-lo domingo ao meio-dia. Somente mais tarde fui saber sua origem: comida de escravos, pois os senhores ficavam com a carne e deixavam para a "gentalha" aquilo que, possivelmente, iria fora.
No Inverno, meus pais preparavam uma iguaria vendida para reforçar as finanças. Tempero verde, picar ovos cozidos, dosar pimenta e sal. Numa ocasião, a mãe colocou pimenta e meu pai, sem saber, acrescentou mais uma dose. Não houve jeito de salvar o mocotó! Mas, quando tudo dava certo, ir à mesa, acompanhado de vinho, pão de casa quente, ou " de padaria" recente. Difícil ficar num prato só.

Foi do que lembrei almoçando no Seminário São Francisco, onde a turma organizou um mocotó buscando recursos para financiar sua Romaria, em agosto, ao Santuário de Aparecida. Ali estava uma das coisas boas da minha vida: comida que sempre dá vontade de esquecer talheres e mergulhar o pão no molho e, no fim, com o mesmo pão, limpar o prato. Sensação de sentar à mesa dos deuses!
Cheguei cedo pensando que minha função seria servir chimarrão. Mas me vi envolvido pelos rapazes, a Rose, a Queca e a dona Florinha, colocando lenha no fogão, mexendo e sorvendo a delicia em que se transformavam os ingredientes. Uma equipe - trabalhando, brincando, agitando - sabendo que mais do que os recursos que angariavam, viviam um momento de integração, de carinho e cumplicidade.
Antigamente se dizia que a cozinha era o coração da casa. Para vivenciar este dito é preciso ir para a volta do fogão, onde, embora cada um tenha uma tarefa, não é a individualidade que faz o resultado, mas o conjunto do trabalho, a harmonia da equipe, o sentido de pertença a um grupo. O resultado transborda para que outros sintam o quanto algo feito com dedicação pode ser, ao mesmo tempo, saboroso e compensador.
Os homens e mulheres nas senzalas sabiam que o mocotó era a "sustância" para continuar seu trabalho. Na atualidade, é tempo de convívio e conhecer pessoas. As mesmas coisas - ontem e hoje - tem sabor especial porque entre a preparação da comida e a satisfação de quem passou momentos agradáveis à mesa há um encontro. O gosto de viver um domingo de celebração da vida, de ser feliz na partilha - de um pedaço de pão ou de um simples prato de mocotó!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Eu te amo...

Sábado à noite pede um filme na televisão: desopilar ouvindo algumas bobagens. "Minha Mãe é uma Peça". Quando esperava apenas o de sempre, a surpresa: a "mãe", representada pelo ator Paulo Gustavo, visita a tia, senil e no fim da vida. Senta-se ao lado da idosa, que esquecia de tudo que era dito, e pede: "a senhora pode esquecer tudo o que eu disser, só não esqueça que eu a amo!"
A revista Seleções apresentou a experiência do pai que viu o filho de 13 anos entrar em casa, correr para ele, abraçá-lo e murmurar: "te amo!". Desapareceu na mesma velocidade. Sem explicação do garoto procurou a escola. Um professor disse ser um experimento da reação de quem ouvia a expressão. Na primeira ocasião com o filho em casa tascou-lhe um abraço, um beijo e devolveu: "eu também te amo!".O que deveria ser uma expressão carinhosa, carregada de sentidos, de verbo virou substantivo. Abastardamos o significado quando ao invés de ser a expressão profunda de relação entre pessoas passou a ser, apenas, sinônimo de "fazer sexo". Que também pode ser feito por amor, mas é parte deste sentimento e não a sua plenitude.
Ficamos envergonhados de dizer três curtas palavras. Das minhas vivências, em alguns momentos de dor, fui capaz de dizer a poucas pessoas. No entanto, àqueles dos quais recebi as maiores provas de amor - meus pais, levei muito tempo para dizer "eu te amo". Meu pai morreu sem ouvir. Minha mãe ouviu apenas num dos seus momentos mais difíceis com a saúde.
Se perguntasse às pessoas quando gostariam de ouvir esta declaração, com certeza, titubeariam antes de responder. Mas elencariam momentos de dificuldades, de provações, vivências de fragilidade ou desesperança. Possivelmente, alguém diga ser as últimas palavras que gostaria de ouvir antes de entrar para uma cirurgia ou se despedir da vida...
Somos comedidos em dizer algo tão simples pelo fato de achar que as pessoas já conhecem nossos sentimentos. No entanto, o passar do tempo - especialmente para quem envelhece - torna necessário não somente que se pense, mas diga em alto e bom som, com a retribuição de um olhar já trôpego, mas carregado de compreensão.
Há momentos que são como encruzilhadas na vida e dizer "eu te amo" dá uma força especial para enfrentar muitas das maiores dificuldades. No dia a dia, pode ser o empurrãozinho necessário e solidário, como a dizer - olhar sorridente para um olhar carente: "não tenhas medo. Não estás sozinho, estou contigo: "eu te amo...!"


segunda-feira, 26 de junho de 2017

O som que dá asas à imaginação

As pessoas olhavam vitrines. Algumas estavam na praça de alimentação. Outras, acompanhavam crianças nos brinquedos. De repente, um estrondo e um grito. Algo acontecia. A curiosidade foi maior do que a preocupação com a segurança: um rapaz subiu numa cadeira e começou a cantar. Outro o acompanhou de uma mesa onde lia jornal. Juntou-se um terceiro que transitava por ali.
Ao todo, cinco vozes chamaram a atenção ritmando o início da música, fazendo a cadência em bancos, mesas, latões de lixo ou corrimão da escada rolante. Dentre moças passeando, que estavam nas lojas, que faziam limpeza formou-se um grupo de dança em meio à multidão aturdida e encantada que abria espaço para ver e ouvir.
Era um grupo musical alemão que "surge" dentro de um shopping e repete performance como a de uma Orquestra Sinfônica que inicia apresentação no meio da rua a partir de uma moeda que uma garota colocou no chapéu que o trompetista tinha a seus pés. Ou ainda o grupo de dança que se forma na entrada do cais de um porto.
Coloquei-me no lugar das pessoas que andavam pelo shopping, faziam compras nas ruas, passeavam à beira do rio e foram surpreendidas por uma manifestação artística. No início, um susto. Depois, um intervalo nas compras, no cumprimento das tarefas, deixar de lado a agitação e ter o direito a um merecido espaço de sanidade mental.
Devagarinho, deixar o corpo seguir o ritmo. Acalmar o espírito - deixando que se vá a tensão - e sentir que a docilidade do que expressam corpos e instrumentos é um desafio para alimentar a sensibilidade. O momento de parar alguns minutos é a chance de aprender que a vida é muito mais do que apenas passar por um dia. O artista que surge do "nada" provoca a parada necessária para silenciar e encher os olhos com arte.
Música. O que Mandy, cantora de 29 anos, surda desde os 18, em tese, não teria como executar. Apresentou-se num programa de talentos dizendo-se triste porque não lembrava mais da voz do pai! Mas estes desafios a fizeram se valer da técnica e dos demais sentidos - canta sentindo a vibração do som no piso - e superar os obstáculos pois "música é mais do que sons, é emoção... preciso tentar, eu tenho que tentar!".
Em comum? a música, que humaniza e desperta sentimentos adormecidos. O tempo que passa embota nossos sentidos, ficamos meio atordoados. Sem perceber que a diferença entre viver e morrer pode ser, exatamente, ouvir o som que dá asas à imaginação e transcende a realidade em busca do Infinito, única forma de não permitir que morram os sonhos de toda uma vida.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Uma chama travessa

O melhor jeito de saber se as teorias a respeito das relações humanos são coerentes é cuidando de gente. Tudo que elencamos em manuais a respeito do que seja viver na inter-relação com o outro - ou mesmo em grupo - pode ser colocado em dúvida ao precisarmos de algo bem simples como atender as necessidades básicas do próximo.
Muitos sabem da minha formação. Durante muito tempo vivi com um único intuito: cuidar de mim mesmo e, quando necessário, esporadicamente, atender a alguém da família ou de nossas relações.
Não tendo família própria - ajudei a criar meus sobrinhos -  meus espaços sempre foram respeitados e criei minhas manias, que vão das coisas mais simples - me negar à atividade pela manhã, porque julgava, por direito, ser um espaço privado de silêncio. Ao mais complexo, como cuidados com a intimidade e privacidade.
Isto começou a se transformar quando precisei deixar de me preocupar comigo para entender que me coubera a missão ser cuidador. A partir de então, meu dia inicia pensando no que tenho que fazer para atender uma outra pessoa, até o final, quando a revisão se está tudo bem na casa termina por ver se ela já alcançou o sono dos justos.
A primeira medicação é em torno das 7 horas, depois, se tudo que é necessário da farmácia está à disposição das cuidadoras. Providenciar o almoço. Colocar e tirar da cama e do sofá. Acertar as medicações e as refeições, incentivando a que não desista, sabendo que apenas uma colher a mais a fortalece e dá ânimo.
Estou falando de dona França, minha mãe. Que, um dia, pediu que a chamasse de "mãe", direito que lhe cabia, pois a chamava de "dona Francinha". Também pedi a recíproca: cada vez que a acordo na manhã ou na sesta, dou-lhe bom dia ou boa tarde "minha mãe" e ela tem que responder de igual forma, terminando por "meu filho"!
O dia inteiro tem alguma coisa que precisa ser feito em função dela. Especialmente agora que está somente uma casquinha, mais claramente se mostra a energia do seu espírito. Algumas vezes falta-lhe forças para movimentar as mãos e mesmo responder, mas quando seus olhos se abrem, como disse a cuidadora Paula, "brilham".
Na despedida da noite, um anjinho recita o Pai Nosso, que abraça, com ele reza e beija. Recebo a benção de um "boa noite, meu filho". Contemplo seu rosto sereno, ao fechar os olhos: uma chama travessa que brinca com a Eternidade. Viveu intensamente e agora espera da vida o direito de se preparar para seu encontro com Deus. A fé lhe garante que está chegando o momento de, enfim, repousar em paz.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

As três ondas para a maturidade

Um palestrante usou o exemplo da brincadeira à beira de um lago: jogar pedrinhas na superfície. Formam-se ondas mais fortes, próximas, e diminuem conforme aumenta a distância. Lição: com que intensidade o que dizemos chega às pessoas - maior para as mais próximas e algo mais difuso para quem está mais longe.
A discussão no amadurecimento de lideranças diz respeito às etapas para qualificar quem pode estar à frente de atividades comunitárias, para não haver uma guerra de vaidades e, mesmo quem têm maiores dificuldades, possa ser contemplado. No dito popular, já que Deus "não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos".
No caso das lideranças religiosas, em tese, as etapas são claras, embora, na prática, sempre se encontrem dificuldades, já que lidamos com pessoas. Para isto, não precisamos relativizar valores e referências, mas ter "paciência evangélica" para não cansar de reiniciar, sempre que necessário.
Uso uma imagem semelhante à do palestrante, somente que por outra ótica: não olho para a intensidade com que o discurso chega às pessoas, mas a amplitude como vão percebendo o Mundo que as cerca. São "Três Ondas para a Formação de Liderança Cristã": a oração, a meditação e a reflexão.
Uma boa definição para o primeiro elemento vem do líder hindu Mahatma Gandhi: "orar não é pedir. Orar é a respiração da alma". Inerente à própria fé. Somente pode ser alimentada por momentos introspectivos de encontro com o Divino. Base para as demais etapas e essencial, sobretudo, numa prática religiosa.
A meditação alimenta a religiosidade e torna a pessoa capaz de investir na própria centralidade. Individualmente ou em grupo gera a energia para concretizar o que disse Johnny De Carli: "na oração, fala-se com Deus. Na meditação, ouve-se a Deus".
A reflexão insere a pessoa no contexto das vivências sociais. Vinculada com a capacidade de raciocinar e indagar a respeito do conhecimento do mundo exterior, mas também do nosso estado mental e sensibilidade. Capacita para ser presença cristã na sociedade, pois contextualiza a fé e a religião.
Maturidade talvez não seja - até porque imperfeitos e humanos - alcançar a plenitude nos três planos. É a capacidade de caminhar, de descobrir e, mesmo, de redescobrir. Num texto de tantas citações, encerro com a gaúcha Lya Luft: "a maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura". Que assim o seja!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A chance de reescrever a história

Laranjal de muitas e boas lembranças. Ao sol da manhã de domingo, o encontro com amigos e conhecidos. Numa destas ocasiões, conversar de passagem com o professor José Luiz Marasco e o seu comentário: "gosto daquilo que contas, assim como da Lica (sua esposa), porque são histórias de vida simples".
Este diálogo me vem à memória quando, nas conversas com formadores de opinião da Igreja Católica, deixo claro que ninguém testemunha ou anuncia se não for a partir de suas origens e da sua realidade. Temos um lugar de onde viemos, onde nos formamos e as influências que moldaram nosso modo de pensar e agir.
Venho do interior de Canguçu, de onde saímos, como dizia meu pai, "deixando a miséria para entrar na pobreza". Na minha infância, convivi com escola e igreja, na periferia de Pelotas - Vila Silveira. Depois fiz meus estudos ligado à igreja Católica. Portanto, como negar que sou de origem do interior e pobre, "vileiro" e pensador cristão católico?
Um dos aspectos da crise de valores no Brasil diz respeito a que nossos políticos se isolaram e desconhecem a realidade do país. Longe das origens e dos reais problemas que afligem a população falam em teoria a respeito de tudo, mas não alcançam a prática de que suas ações e os gastos que geram afetam diretamente a população.
A crise moral e ética parte da negação, já que grande parte deles saiu da pobreza, vem do interior ou periferia, mas, de alguma forma, serviu-se da máquina pública para, em alguns casos, construir fortunas. O "encantamento" do mundo da política retirou a noção de realidade para, seguindo sofismas ideológicos, encontrar "valores" maiores, que abafam consciências, com os fins justificando os meios.
É sintomático que - de praticamente todos os partidos - figuras públicas tentem explicar o inexplicável: confrontem imagens inquestionáveis com desculpas esfarrapadas e pretensas alegações jurídicas. Tristemente sabendo que são eles mesmos fizeram as leis e, nas instâncias superiores, seus escolhidos as aplicam.
Voltar às origens é a chance de reescrever a história. Esquecer o que se fez é impossível. Mas há sempre uma nova página para se escrever um novo começo: conviver com aqueles que ainda estão nos campos e nas colônias; nas ruas esburacadas e poeirentas; precisando do atendimento público pode fazer com que se renegue muito do que se teorizou. Mas mostra que a vida das pessoas continua acontecendo nas ruas e não pede muito, apenas direito de viver como cidadão.

domingo, 28 de maio de 2017

Padre Carlos Rômulo

No dia em que o Vaticano anunciou que Montenegro tinha um novo bispo - de Pelotas - monsenhor Carlos Rômulo, convidei colegas de aula - Lyl, Mônica, Maurício e Michel - para ir à capela do Seminário fazer uma oração agradecendo pela vida do nosso professor e colocando nas mãos de Deus o futuro que o esperava.
Dias depois, numa segunda etapa de estudos - padre Rômulo conosco - fomos ao mesmo local  confirmar que, aquele que foi companheiro, animador, mestre, merecia que repassássemos a energia das nossas preces para que, até em momentos difíceis, não se sentisse só, mas amparado pelo amor que conquistara.
Contei, então, a história de um pastor missionário no interior da África, que fazia um dia de viagem até cidade maior para buscar dinheiro e suprimentos. Numa ocasião, encontrou um rapaz ferido. Cuidou dele e levou-o a um hospital. Soube, então, ser um ladrão que tinha feito um assalto mas, na divisão do saque, brigara e levou a pior.
O pastor disse os motivos que o traziam à cidade. E continuou com a vida normal. Algum tempo depois, encontrou o ladrão, que contou uma história: soube que chegara e convocou parceiros para assaltá-lo. Seguiram-no. Quando dormia, atacaram. Surpresos, se depararam com 12 "anjos", ao seu redor, zelando por seu sono!
Esta história, o religioso contou para sua congregação, já na Europa. O mais velho da comunidade perguntou quando teria sido. Confirmada a data e hora, contou ter sentido necessidade de rezar pelo pastor. Passou pela casa dos parceiros e foram para a Igreja. Quantos eram? Aos poucos, levantaram-se, emocionados, exatamente 12 homens!
Durante muito tempo, depois que se tornou bispo, dom Jayme Chemello ainda era chamado de padre Jayme. Havia toda uma história, um caminho trilhado. Muitos anos em que as pessoas - especialmente os casais - se acostumaram com o pastor que tinha na orientação espiritual um carisma especial.
50 anos depois, o olhar se volta para um jovem padre, que será sagrado bispo no dia 4 de junho. A caminhada recém iniciou e, por muitos anos, pessoas o chamarão de padre Rômulo, na certeza de que a marca "padre", "pai" não se apaga. Afinal, ser "pastor" é cuidar de gente.
A oração de amigos e anônimos garante o sucesso da sua missão. Ir para a "Diocese da Alegria" o compromete com o pedido do papa Francisco, de que, em meio a tantos e graves problemas sociais, sua ação sinalize o caminho de homens e mulheres ao procurar abrigo em seu rebanho, que será, com certeza, lugar de fé e de esperança. (na foto, ao centro, no Seminário Diocesano, acompanhado de padres que atuam naquela casa e seminaristas, no tríduo preparatório aos 78 anos da instituição)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Ensino básico: princípio da cidadania

O Lorenzo é daquelas crianças vivas que, quando chego no muro para um papo com seus pais – o Marcos e a Nice – dá  um jeito de fazer parte da conversa. Passei a chamá-lo de “formiguinha” e ele, prontamente, rebateu me chamando de “formigão”. A mãe  achou demais e tentou acertar o tratamento, pedindo respeito. Olhou-me com a serenidade da inocência, e corrigiu: “seu formigão”!
O Lorenzo faz parte de um grupo de crianças de língua  afiada, com presença de espírito para rebater com humor as provocações. Outro dia, ao invés  de “formiguinha”, chamei-o de “feioso”. Olhou pra mim e corrigiu: “feioso, não, formiguinha”. Junto com o Bernardo e a Júlia completam quatro anos, com o direito de frequentar uma escola pública, com tudo aquilo que, especialmente os pais, sabem serem benefícios: convívio social, aprendizado, abrir novos horizontes.
Mas não foi  fácil. Todos tiveram que batalhar por uma vaga. No que muitos pensam ser um privilégio, mas que não é, apenas o cumprimento de um dos direitos constitucionais. Ao chegar nesta idade, os pais não deveriam ter a preocupação se teriam ou não um lugar garantido, mas apenas exercer seu direito. Não é assim. Hoje, no Brasil, cerca 2,8 milhões de crianças estão fora da sala de aula.
Porquê? Simples, os pais se preocupam, mas o Estado não cumpriu seu papel: planejar e colocar recursos à disposição. Onde está o dinheiro? A  verdade o senhor e a senhora estão vendo todos os dias: no bolso de políticos e administradores sem escrúpulos, que negam direitos para usufruir de mordomias.
Num noticiário, jurista defendia penalizar políticos e administradores de forma mais contundente para não serem tentados a desviar recursos dos cofres públicos.  Citou exemplo de pena com reclusão de 10 anos. A forma diferenciada manteria na cadeia o criminoso pelo dobro do tempo, devolvendo o que desviou, com correção.
O Lorenzo, o Bernardo e a Júlia tem país alertas, dispostos a correr atrás e lutar por seus direitos. Mas há  aqueles que a sociedade degradou para as periferias e não têm nem voz, nem vez. Lutar contra a corrupção e a impunidade – em todas as instâncias e em todos partidos – é  ajudar as crianças a recuperar a dignidade.
Rubem Alves pediu a mudança de referencial: educação correta ensina às crianças que “manter a dignidade é  mais importante do que juntar dinheiro”. Não deixar que morra a energia da infância e a confiança de que os adultos cuidam para lhes dar um futuro feliz é preparar os cidadãos que podem fazer uma sociedade diferente.

sábado, 20 de maio de 2017

Foi o tempo...

Foi o tempo...
Que marcou meu rosto e deixou estes sulcos
para lembrar do passado.

Foi o tempo...
Que fez meu sorriso mais cansado
e uma imensa ternura que se esconde
por detrás de cada gesto de carinho que,
agora, vivo com mais intensidade.

Foi o tempo...
Que me fez caminhar mais lentamente
e ter a certeza de que olhar para trás
só tem sentido se ainda puder seguir adiante.

O tempo não me cobrou pedágio.
Não me pediu sacrifícios.
Não condicionou cada passo - acertado ou não -
com o qual construí meu destino.

Quando posto minhas mãos em prece,
tenho certeza de que foi generoso comigo.
Fez de mim o retrato do que eu fiz com a vida.
E deixou a certeza de que pode ser cúmplice,
mas cobra o direito de zombar de nossas pretensões.

Aprendi, quando encaro o tempo, que não é ele quem passa,
mas nós que o deixamos escapar por entre os dedos.
O tempo perdido e não encontrado é o tempo da saudade.

Pode magoar, nos deixar melancólicos, mas provoca a viver:
dá sentido ao caminhar.
Mais serenos, com mais dificuldades, mais experientes.
Mais próximos da finitude e da paz.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A luz no final do túnel

As discussões a respeito do que é necessário para mudar a situação brasileira afunila para um pensamento: educação. Parece simples, mas não é. Bastariam recursos em grande escala? Um início, mas não: a educação é capaz de abrir leques que, se não forem enfrentados, novamente caracteriza desperdício do dinheiro público. Um deles, com certeza é aquele em que o cidadão forma princípios éticos e morais.

Migrantes que vieram para o Brasil dizem que seus países eram pobres - até miseráveis - mas não enfrentavam a violência existente aqui, hoje, um componente psicológico do caráter brasileiro. Crescente número aceita a lei lhe sendo favorável e, na prática, acredita que a violência é um jeito de conseguir alguma coisa ou, até, de fazer "justiça". A moral e a ética podem até ser relativizadas. Exemplos não faltam.
Pessoa parecendo do interior. Pede informação, Conduz a vítima até próximo de um carro. Em pouco tempo é cercado, empurrado para dentro do veículo. Recebe choques, desmaia. Acorda, um telefonema de mulher o chama pelo nome e diz que o grupo controla sua família. Deve retirar o que tem no banco. Vai até uma agência, atordoado, retira suas economias, dão algumas voltas, é deixado à beira de uma rua.
O repórter passou pela rua depois de uma manifestação pela greve do dia 28, quando o espaço ficou ocupada por galhos de árvores e pneus queimados. O inusitado, a população mesma estava limpando, apagando o fogo e retirando os entulhos. Na volta, a surpresa: os mesmos "cidadãos", viraram badidos: cobravam um, dois e três reais de "pedágio" para motos, carros e veículos maiores passarem pela alternativa a uma rodovia.
Beira de estrada, cena rotineira: carro estragado. Sempre tem um bom samaritano que para a fim de prestar auxílio. Recentemente, a surpresa: na grande Porto Alegre, já no meio da noite, ao voltar para o interior, a cena merece a mesma atenção, com uma diferença: os incautos que param para prestar socorro são assaltados. Ficam no local com um carro que foi roubado de uma vítima anterior.
Ficção? Não. Situações que já nem frequentam as páginas de polícia porque as pessoas não acreditam em solução ou tem medo de, ao enfrentar o crime, sofrer represálias. Encastelados, perdemos o sentido da solidariedade e da corresponsabilidade. Muros, eletrônicos, alarmes indicam que se perdeu a batalha para a violência e falta de senso de valores. Algum dia, no passado, erramos o caminho, tornando-nos uma sociedade atordoada. Reencontrar o fio perdido faz a diferença para que a luz no fim do túnel seja de esperança e não um trem em sentido contrário!