domingo, 25 de dezembro de 2016

A rotina para ser feliz

Foi entrevistada na véspera do Natal. Deixara uma família que perdeu um membro em acidente. Entrou em campo e, mesmo sabendo que a situação era difícil, pelo momento que os parentes viviam, era preciso agilidade a fim de conseguir a autorização para doação de órgãos. Sentia que estava próxima de ter sucesso.
Os repórteres listaram profissões que atuariam durante os feriados. Esta enfermeira era uma especialista em abrir caminhos para doação. Conhecer a família, mostrar-se solidária, mas também o outro lado: a fila de quem aguarda. A quantidade de pessoas beneficiadas com apenas um doador.
Estava iniciando uma semana longa e penosa. De um lado, o convívio com a perda e a dor. De outro, possibilitar o ressurgimento de uma vida, sair, muitas vezes, de um existir vegetativo. Ponderou que, mesmo sendo uma semana de festas, o que fazia era parte da rotina. Ganhava sentido pela repetição que nunca era a mesma, mas o encerramento de um ciclo e o emergir da esperança.
Por outro lado, o vídeo de um banco desejando felicidades em 2017. A carta de uma vovó que agradece aos netos por ter sido introduzida no mundo da internet. A voz embargada avisa: "vou ensinar vocês a lidar com dois aparelhos muito mais complicados - o tempo e a vida. E a primeira coisa que vocês precisam saber é que a vida é muito mais importante do que o tempo. Quando tiverem a minha idade vão se dar conta de que a gente não lembra tanto assim do tempo que passou, mas lembra de cada momento que viveu, não importa quanto tempo tenha passado".
Deixa uma das mais belas mensagens deste final de ano: "o tempo vale por aquilo que a gente faz com ele. E a coisa mais importante da vida não são as horas e os minutos, são os momentos que se vive juntos".
A enfermeira representa a capacidade de alguém ser, mais do que um profissional, alguém preocupada em fazer viver e sobreviver. Mesmo que não saiba, a explicação para o que ela reconhece que a faz feliz está exatamente nas palavras da vovó: "o tempo vale por aquilo que a gente faz com ele".
Um Ano Novo não traz a garantia de 365 dias de novidades. O que importa é fazer este tempo ser diferenciado pela intensidade com que se vive. A rotina que mata a energia é aquela do que não se faz. De um simples olhar, passando por um sorriso, até um abraço, são infinitas as matizes que capacitam para a maior de todas as experiências: apenas - e tão somente - fazer e ser feliz!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

"Eu segurei a mão de Deus!"

Véspera de Natal. A família esteve reunida e iria sair para continuar a comemoração com amigos. Dona Nilza ficaria em casa. Do alto dos seus 90 anos, queria descansar. A filha acompanhou até seu quarto, ajudou na troca de roupa e a tomar a última medicação do dia. Na volta, antes de se recolher, a caçula passaria para dar uma espiada e apagar a luz do corredor.
Tudo aconteceu conforme o previsto. Mas... Algum tempo depois de deitar, começou a faltar o ar, uma dor intensa no peito e a impossibilidade de alcançar a campainha que ficava na cabeceira. A filha até passou no quarto, mas achou que a mãe estava dormindo e não quis incomodar.
Na manhã seguinte, não conseguindo resposta da idosa, o chamado para a emergência e a constatação: durante a noite tivera um AVC (derrame, como diriam os antigos). Um longo caminho percorrido até recuperar alguns movimentos e articular de forma inteligível a voz.
Depois de algum tempo - para a filha - acabou contando o que aconteceu. A família esperava detalhes dos sintomas do acidente vascular, mas a idosa narrou o que passou por seu pensamento diante do que sentiu ser a proximidade do fim. Primeiro, a sensação de solidão - a dor mais forte e profunda - quando pensou no quanto desejava desencarnar tendo ao lado alguém da família.
Rezou. Não tinha medo de morrer. Era Natal, a festa do Menino Deus, a festa da família, não queria deixar este Mundo envolta em tristeza. Teve conforto ao balbuciar a primeira oração que aprendeu: “Santo Anjo do Senhor...” O frio foi passando e suas mãos sentiram que, mesmo não se movendo, eram envolvidas por uma energia vinda do consolo da fé.
Não estava sozinha. Ainda não chegara a sua hora. Voltou à sua mente versos que adorava cantar: “segura na mão de Deus...” Encontrou forças para esperar a manhã. Quando a acomodaram na ambulância, olhos fechados e um sorriso nos lábios (apenas um reflexo do AVC?). Murmurou: “filha, eu segurei a mão de Deus!”
Era Natal. Tempo especial para contar com a presença daqueles que se ama. Também para cultivar a fé: a experiência de Deus, vivenciando a esperança. Não há sentido em ser Natal sem que se sinta o amor de Quem não nega o direito de se ter uma segunda chance. Possivelmente a que nem se espera mais, porque a que vence medos e mostra os caminhos que levam à vida...
Nossa coroa do Advento já tem o Menino Deus e uma "Mamãe Especial" (dona França) cuidando. Desejamos uma abençoada Semana Natalina!!!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Um "bico" de Natal

Há algum tempo prefiro os dias que antecedem o Natal e Ano Novo do que as festividades propriamente ditas. Explico: o mês de dezembro reúne uma série de elementos, que propiciam um clima diferente. Final das aulas, término de muitas atividades, início do Verão, chegadas e despedidas...
Tem ainda o mundo dos comerciais, em que a turma se esmera em arrumar as situações fofas quando é quase impossível não derramar uma lágrima. Alguns temas se repetem, com nova faceta: dramas familiares, separações, perdas, ausências... Ou fazem novos enfoque para pessoas especiais, mostrando que tratar um deficiente físico ou psicológico é, mais do que uma opção terapêutica, a prova de que ainda há esperança na humanidade.
Existem, também, as instituições que se mobilizam para iluminar o olhar de uma criança com um simples brinquedo ou uma cesta básica reforçada que auxilie a família a ter alguns momentos para deixar de lado as agruras destes tempos bicudos.
Do que vi nestes últimos dias, revelado por uma instituição que recebe cartas de crianças, destacava-se um pedido simples: que o pai conseguisse arrumar um "bico", já que emprego estava difícil e as coisas iam mal em casa.
Fiquei pasmo. Uma criança que chegou a tantas dificuldades que nem se anima a pedir um emprego, mas sim um “bico”? Para ter este nível de consciência é porque viu o que não deveria ter visto: a perda de esperança na capacidade dos pais de conseguir uma atividade que dê segurança ao grupo familiar.
Num momento de tantas dificuldades, em que a descrença nas instituições é flagrante, preocupa que as crianças estejam sofrendo junto. Um sofrimento que deixa marcas por muitas gerações. O fruto do desencanto naqueles que deveriam lhe proporcionar o suporte necessário para serem preservadas dos problemas sociais.
Estamos há poucos dias do Natal. Mesmo que nós adultos – muitas vezes – tenhamos motivos para pensar que já poderíamos dispensar estas festividades, sabemos que não é assim. Não se vive o Natal por uma questão pessoal. É um tempo de altruísmo. Especialmente para as crianças... e os idosos!
Não importa há quanto tempo você não acredita em Papai Noel. Importa que todos nós nos alimentamos de fé e esperança. A fé e esperança que sobrevive num pedido de criança que vê num "bico" a possibilidade da família viver melhor o sentido deste Natal. Afinal, como diz um dos comerciais: "o Natal é especial porque a gente volta a enxergar os sonhos!"

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Um sonho e uma lenda

Muitas lições ficam com a tragédia acontecida com os integrantes da delegação da Chapecoense. Durante um bom tempo ainda vai se discutir o que aconteceu, especialmente as causas que levaram à morte de tantos jovens, lideranças do setor esportivo de Chapecó e dos meios de comunicação local e nacional.
As vidas foram ceifadas porque a empresa responsável pelo avião resolveu economizar. Para diminuir custos - o necessário para uma reserva de emergência - resultou na volta para o Brasil de dezenas de corpos que não sobreviveram à queda do avião que precisou ficar no ar mais tempo do que tinham "planejado" e teve constatado que não havia mais combustível armazenado.
A esposa do comandante - também proprietário da companhia aérea - disse que o marido não pode ser responsabilizado porque morreu junto. Como assim? Parece aquela história antiga que, depois de morto, vira "bonzinho" automaticamente! Mesmo morrendo junto, não pode ser eximido de responsabilidade. É claro que na Justiça, não podendo arcar com o peso de uma condenação, o deve a própria empresa.
Agora que se torna público o processo de contratação da companhia, surgem detalhes. Fica o fato de que o comandante acreditava que, por suposta perícia, conseguiria fazer um voo com o combustível no limite e... apostava na sorte. A sorte não lhe sorriu e, como dizia um conhecido, neste caso, "a economia foi a base da porcaria".
Dando certo, embolsaria para a sua empresa a importância que já devia ter colocado no plano de voo e, consequentemente, usufruiria de outra forma. Acabou carimbando como o preço de 71 vidas, inclusive a sua. Banalizou a própria existência, assim como criou uma comoção internacional, por não entender a outra lição que também se tira do infortúnio: a capacidade do povo colombiano de ser solidário e respeitoso.
Grandes lições: um menino, nas montanhas, conduziu o resgate para encontrar mais um com vida; ofertas de carros, para acessar os lugares mais difíceis; serviços de segurança que vestiram, literalmente, a camiseta da Chapecoense; autoridades que deram ao Mundo uma cerimônia simples mas encantadora e a presença do povo que talvez nem saiba onde fica Chapecó, mas foi solidário na dor.
O olhar carinhoso dos colombianos encantou e consolou. Foi bem maior do que as mesquinharias de quem preferiu arriscar vidas para ganhar vantagens numa economia sórdida. Hoje, não conseguimos ver com clareza os fatos que vão virar História. Mas é certo o que publicou um site do Atlético de Medellin: os rapazes da Chapecoense "vieram por um sonho. Partiram como uma lenda". Descansem em Paz!

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Liberdade para voar

O espaço era bem adequado. Em plena avenida dom Joaquim - point de jovens e adultos em tardes de sábado para jogar conversa fora e chimarrão - integrantes da Associação de Pais e Amigos de Jovens e Adultos com Deficiência - APAJAD - realizaram evento para mostrar o quanto a arte faz a cabeça. Expuseram o fruto do seu trabalho: garrafas pet recicladas, transformadas em casas de passarinhos, pintadas e identificadas, com o intuito de que ficassem nas árvores do local.
O poder público municipal não teve sensibilidade para negociar. Negou a colocação ao longo da avenida. Sem, até, uma contra-proposta do tipo: colocamos durante algum tempo, retiramos, depois o pessoal leva para o pátio de suas casas - já pedi a minha. Resultado, quem passou por lá recebeu as casinhas de presente e acompanhou atividades de capoeira.
Nos últimos 40 anos, houve um aumento da expectativa de vida do especial. Deixou a qualidade de "doentinho" para jovem e adulto que pode ocupar o espaço social a que tem direito porque capaz de ser produtivo e cidadão que não merece ser tratados como de segunda categoria. No entanto, as estruturas sociais não se adequaram. Motivo pelo qual, passada uma certa idade, não têm a quem recorrer para ocupação.
Na ausência do estado, entrou a Associação. Pais e responsáveis por jovens e adultos especiais, juntamente com a UFPel, formataram um atendimento que tem alcançado repercussão, havendo o aumento da procura por vagas. Na esteira desta busca, uma certeza: o especial quer o mesmo que todos querem - respeito, aceitação e carinho.
O preconceito ainda existe. Assim como na discriminação de cor, gênero ou religião, segrega o que é diferente. Produzir casas recicláveis para pequenas aves pode ser considerado insignificante. Mas quem viu a postagem das fotos daqueles que participaram do trabalho sabe o que envolve: motivação pessoal, trabalho em grupo, perspectiva de entregar à sociedade o fruto do seu trabalho.
Os organizadores levaram para a avenida um belo pensamento: o direito de sonhar com a liberdade de voar pode não ser apenas um sonho. Os pais (especialmente as mães guerreiras que peitam o Universo para defender seus filhos) sabem que se puderem apenas "andar" já se inscrevem entre as conquistas que marejam olhos.
Valeu a pena o desgaste, abrir mão da própria vida para usufruir da atenção e carinho que eles sabem dar tão bem, porque comprovam que o preconceito é a maior das deficiências que uma pessoa pode ter. E deste mal, certamente, eles estão livres. (o "artista" da foto é o Edinho, meu afilhado)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Mantenham as portas abertas

O papa Francisco deparou-se com mais um problema interno na Igreja Católica: quatro cardeais se rebelaram contra o documento Amoris Laetitia (Alegria do Amor), em que apresenta seu pensamento a respeito das relações familiares e orienta seguidores. Numa tentativa de coagir o pontífice, enviaram correspondência exigindo respostas ao que consideram imprecisões, no que diz respeito "à integridade da fé católica".
Ninguém é inocente ao ponto de não saber que a Igreja Católica tem várias correntes de pensamento em seu interior, de uma ala conservadora até um pensamento social mais avançado. É, em sim, uma instituição conservadora. E exatamente por ser assim, em sentido primeiro – mantém-se fiel aos seus princípios e faz as mudanças em ritmo mais lento do que muitos gostariam – que sobrevive aos apocalípticos que anunciam seu fim.
Quando o papa Bento XVI foi escolhido, confesso, tive muitos receios: não acreditava que fôssemos ter chance de ver uma série de mudanças se concretizarem. Então veio a primeira surpresa. A renúncia de Bento, num dos atos mais corajosos de um papa diante de sua Igreja, reconhecendo que já não tinha forças para lidar com as articulações políticas que se faziam no próprio Vaticano.
A escolha de Francisco foi um bálsamo para os católicos. O tempo passou e, embora seja coerente com seu anúncio e testemunho desde o primeiro dia, passou a ter restrições à direita e à esquerda. Lembrei de um bispo que dizia: tenho que caminhar de tal forma que ajude os que andam lentamente, mas também a refrear aqueles que atropelam o processo.
Trabalhando com formadores de opinião da Igreja Católica peço atenção ao noticiário sobre o papa Francisco. É pauta não apenas para os meios de comunicação, mas para a reflexão das próprias igrejas locais. No Ano da Misericórdia fez a Igreja caminhar num mesmo rumo e clareou seus horizontes, propondo que se “mantenham as portas abertas”. Ganhou a simpatia de católicos afastados, assim como de cristãos e não-cristãos.
O papa sabe que uma instituição que sobreviveu a dois mil anos de história carrega o desgaste de ter sido agente de muitas mudanças. A ponta do iceberg que os cardeais fazem aparecer no oceano da esperança que se chama Francisco é um passo para a transparência
Possibilita a reflexão, correção de rumos e a certeza de que o caminho iniciado pelo Jovem Galileu sai dos gabinetes de suas eminências e ganha as ruas, as praças, as estradas, o coração daqueles que lutam pela "paz na Terra aos homens de boa vontade". Provoca a mente de gente de fé que deseja ter o direito de concretizar uma religião universal, identificada, especialmente, com os princípios da justiça e da fraternidade.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O direito de envelhecer com segurança

Houve um tempo em que se podia centrar a atenção em um problema do cotidiano, porque os demais se não iam bem ao menos se arrastavam razoavelmente. Nesta dança sem graça passaram a saúde, educação, conservação das cidades e a segurança.
Infelizmente, ainda não vimos solução para nenhum deles, mas alastra suas asas sobre a sociedade a insegurança e, mais ainda, a sensação de impotência por não se poder fazer alguma coisa e nem que exista alguém fazendo algo mais do que boas entrevistas ou lances de marketing.
Todos já tivemos pessoa próxima que foi vítima ou, na sua iminência, necessitou de suporte negado por falta de pessoal ou instrumental necessário. As histórias se repetem, mas uma é a certeza: o cidadão sai para as ruas preocupado ou se encarcera dentro de casa, enquanto vê passar pelas ruas potenciais delinquentes, preferindo não arriscar.
Dona Zola mora num edifício de classe média baixa. Da sacada do apartamento vê a pracinha onde levava seus filhos e, depois, os netos. Agora está vazia. Um bando de jovens se reúne para consumir drogas e fazer arruaça. Num dia, viu o grupo bater num menino que passava. Foi até a entrada e pediu ao porteiro que tomasse providência.
Ele, sem graça, disse que se fizesse alguma coisa os jovens se voltariam contra os moradores. Esperaria que fossem embora e atenderia ao menino. Tentou argumentar, mas sabia que era assim. A lei das ruas: “te mete com a gente, a gente te encontra”.
Voltou para a janela, o garoto já tinha ido embora. Ficou uma ferida em dona Zola. Já fora assaltada na saída de um supermercado, por garotos, quase crianças. Não tinha mais coragem de sair da segurança das grades que cercavam o condomínio, muitas vezes ainda ouvindo da rua as gracinhas sobre a sua idade.
Sentiu falta do tempo em que andar nas ruas era direito sagrado e se tornar um idoso uma distinção que poucos tinham merecimento e garantia respeitabilidade. Ouvira notícias de que além de assaltos, havia chacinas de grupos, pessoas decapitadas ou mutiladas.
Enquanto isto, pelo radinho, autoridades fazem discursos de estudos, grupos sendo formados, mais homens nas ruas. Mas foram muitas gerações até se chegar aonde estamos. Infelizmente, as mudanças não vão acontecer a curto e médio prazo.
Dona Zola não vai mais sair à noite no verão. Triste viu na televisão as falcatruas, roubos, impunidade. Aí inicia o problema: uma sociedade tolerante e omissa esqueceu a sua melhor base - se crianças e jovens estão vagando pelas ruas, é porque falhamos. Sentiu pena de não ver concretizado o que disse Charles Chaplin: sonho com "um mundo bom que a todos assegura o trabalho, que dê futuro à juventude e segurança à velhice".

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Uma idosa, uma criança e um livro

Sábado à tardinha, bom momento de ir à Feira do Livro de Pelotas e pegar o autógrafo de dois escritores especiais: Luiz Carlos Freitas e Pablo Rodrigues. Depois, circular pela praça Coronel Pedro Osório, sentindo o clima de festa no ar. Passar na Biblioteca Pública, encontrar o Daniel Barbier, com as últimas do mundo cultural e político, e curtir as pessoas aproveitando as ruas e o largo do Mercado.
Quando atravessava a praça, no retorno, vi, de longe, uma cena cheia de carinho: senhora idosa e garoto dos seus seis anos. Encostados no banco, a bicicleta e a bengala. Na mão, uma obra do Augusto Cury e um livro com textos e figuras que se montam quando folheiam as páginas.
Era cedo. Resolvi ser mais proveitoso sentar no banco seguinte e ouvir um pouco daquela cumplicidade. O papo era tão concentrado que esquecia o entorno. Uma frase pairou no ar: “filho, viver é como ler um bom livro. É preciso sorver com gosto cada página e ainda criar expectativa para o final, que sempre deve ser o melhor”.
Um momento de silêncio. O neto: “e o fim do livro é bom?” O olhar da senhora se perdeu em direção ao laguinho dos peixes. Quando voltou, tinha o sorriso impregnado de respostas e a paciência de quem já meditou muitas perguntas: "o final depende do que a gente experimentou na vida".
Surpreso, o neto tentou argumentar: “como assim, vó?" Um carinho na cabeça: “deixa assim, filho, tá na hora de ir pra casa". Antes de pegar a bicicleta, entregou a bengala para a idosa, que pendurou a sacola com os livros. As mãos livres se encontraram. Lentamente seguiram em direção da rua.
Ainda fiquei algum tempo sentado, certo de que a cena dizia bem mais do que eu havia visto e ouvido. Gosto muito das letras. Gosto muito de livros. Mas gosto mais ainda quando vejo a cumplicidade que a leitura propicia. Especialmente quando, hoje, se fala em abismo entre gerações.
Voltei ao meu caminho. Mais leve. Com a certeza de que o sábado me abriu uma pequena janela na vida de duas pessoas. A rotina que concretiza a felicidade para o menino que está crescendo. E o quanto é importante envelhecer sem se privar do direito de viver.
Afinal, se muitas vezes a ficção imita a realidade, quando duas mãos cumprem o ritual de andar na mesma direção, junto com um livro, o horizonte é mais atrativo. Faz sentido buscar um final feliz para a própria história.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Aposentado, mas não morto 3

A reforma na Previdência Social – diga-se o direito à aposentadoria – embutiu um item que só pode ser brincadeira de mau gosto: desconto nos proventos dos aposentados, como contribuição previdenciária. A explicação é de que mesmo não tendo o direito de reajustar o que recebe, faz - eufemismo - uma "participação solidária".
Quem paga, novamente, é o trabalhador. Desde que se criou este seguro aconteceram muitas mudanças, como a que instituiu o regime trino - governo, empresário e o trabalhador contribuindo. O governo não efetivou a parceria, mas raspou o caixa em diversas oportunidades, como foi o caso da construção de Brasília. O empresário, quando se vê apertado, deixa de recolher, mesmo que pague mais tarde.
Já o trabalhador tem o recolhimento compulsório. Paga pelo que deve e o que não deve e viu inchar o número de quem recebe proventos mesmo nunca tendo contribuído, muitas vezes com interesses políticos, sem qualquer planejamento. Mas há um outro lado que merece reflexão: a repercussão social. É o caso dos que recebem no meio rural e se tornam arrimo financeiro de muitas famílias.
"Aposentado, mas não morto" foram artigos publicados antes da minha aposentadoria, quando falava das perdas sucessivas que fazia com que as pessoas que programaram viver de um jeito - depois que parassem de trabalhar – diminuem sua qualidade de vida, se não conseguem renda complementar.
E os que não o conseguiram viram seus vencimentos defasarem até que, hoje, tenham chegado ao mínimo, quando imaginavam receber o equivalente a dois ou mais salários. Sempre alertei que era necessário haver mobilização não somente daqueles que estavam aposentados, mas também daqueles - como eu - que um dia iriam se aposentar.
Hoje, aposentado, sinto na carne este processo. A Previdência reconheceu que eu tinha 39 anos de contribuição. No entanto, dois estavam sobrepostos - não valiam. Quando ingressei no mercado de trabalho, o governo garantiu que, alcançando 35 anos de contribuição, eu teria direito a receber integralmente meu salário. Não aconteceu - o fator previdenciário abocanhou uma boa parte.
Digo em palestras que sou um "velho jovem". Pois são muitos os velhos jovens hoje mobilizados para enfrentar as manobras e artimanhas do governo. É preciso discutir, sim, a Previdência, especialmente a que paga polpudos salários e seus desvios, acabando com o tratamento diferenciado entre servidor público e privado.
Repito o que disse num dos artigos anteriores: "os aposentados estão unidos em busca de seus direitos. De bobos, não têm mais nada e podem ensinar técnicas de mobilização. Quem diria, estão reconquistando o lugar de onde nunca deveriam ter saído: estão aposentados, mas não estão mortos".

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Capaz de cuidar de gente

No dia 22 de outubro (quinta), vou estar na Catedral de São Francisco de Paula, preparação da Romaria de Nossa Senhora de Guadalupe. O tema é "o leigo e Maria", experiência com relação a Nossa Senhora, mas também com a Família de Nazaré. Não sou teólogo, portanto, quando converso com grupos, falo como leigo, com vivência de Igreja, e considero José e Maria os primeiros leigos e uma das grandes inspirações para os que são consagrados pelo batismo a pertencerem à fé cristã, sem nenhuma ordem.
Em qualquer grupo, a discussão incendeia quando se tenta descobrir porque Deus resolveu encarnar na realidade do Mundo, através de Jesus. Tenho uma tese: Deus queria aprender a cuidar de gente! Uma das histórias mais bonitas a respeito de "mãe" é aquela em que uma criança vai nascer e diz a Deus que não sabe falar, se cuidar, tomar iniciativas. Deus diz que alguém tomará conta dela. A criança, encantada com as maravilhas ditas sobre quem a cuidaria, quis saber o nome deste "Anjo". Deus sorriu e balbuciou: "Mãe"!
É exatamente o que se aprende em família. Pai e mãe devem exercer este papel sagrado e, depois, acontece o mesmo entre irmãos: eu até posso brigar com meus irmãos. Mas pobre daquele que resolver de alguma forma brigar com eles! Nem sempre nossos gênios são compatíveis, muitas vezes estamos à distância, mas fica pra sempre o laço da família que nos gerou e apresentou ao Mundo.
Santa Helena, a mãe do imperador Constantino, viveu no tempo em que seu filho reconheceu, pela primeira vez, o Cristianismo como religião. Sua conversão se deu quando uma empregada ficou doente e, como era o costume, foi colocada na rua. Depois de alguns dias, discretamente, Helena saiu em busca da moça e a encontrou numa igreja, sendo tratada. O impacto foi tanto que se tornou voluntária cuidando de outros doentes e entendeu a diferença das propostas da Religião Romana, individualista, e do Cristianismo, como proposta social.
Quando algumas pessoas dizem que perderam a fé na Humanidade porque ela é violenta e o que vemos no dia a dia é exatamente o contrário do que pregam as religiões, não consigo entender. Todas as religiões falam de paz e solidariedade. Fundamentalistas existem em todas elas, mas somente se tornam influentes pela omissão daqueles que poderiam redirecionar o sentido de suas práticas religiosas. Falar do "leigo e Maria", hoje, é lembrar que uma família, em Nazaré, há mais de dois mil anos, entregou um filho ao Mundo exatamente porque sabia que Ele seria, tendo aprendido da melhor de todas as fontes, capaz de cuidar de gente!

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A palmada que faltou

O pai alcançou o dinheiro para comprar o ingresso. O atendente informou: "crianças até 6 anos não pagam". O pai respondeu, com o filho atento ao lado: "Ele tem 7 anos". O atendente: "se o senhor não tivesse dito eu teria pensado que tem menos e o senhor teria economizado o ingresso". Sorrindo, o pai completou: "mas eu saberia que tinha mentido e, pior, meu filho pensaria que se o pai mente ele também pode mentir".
A história é simples mas mostra o papel que um educador exerce na vida de uma pessoa. E aqui estou falando de pais, professores, padres, pastores, lideranças... Aqueles que, de alguma forma, colaboram na formação do caráter de alguém, com a definição dos seus princípios éticos e morais.
A lembrança veio assistindo ao noticiário sobre o ex-deputado Eduardo Cunha, com a prisão já esperada e que se tornou emblemática da necessidade que temos de refluir o poço em que foram lançados todos os principais valores, causando os problemas que hoje enfrentamos na saúde, educação, transporte... por má administração e o desplante com que políticos utilizam dos recursos públicos em benefício próprio.
Deputados não surgem do nada. Foram votados, portanto, é bom repetir: o eleitor também é responsável por aqueles que hoje desviam somas inimagináveis, que, bem utilizadas, melhorariam substancialmente todas as áreas de atendimento à população.
Mas aqueles que foram eleitos também têm - ou tiveram - educadores. Que, um dia, não perceberam, em algum momento, um desvio de conduta e valores foram deixados de lado. O momento em que, esgotadas todas as alternativas, uma "palmada pedagógica" poderia delinear o melhor caminho.
Olhando as sacanagens praticadas e as negativas de envolvimento - com provas apuradas - e mais quando próximo da prisão limpa as contas onde reuniu subornos e propinas, sabendo que o seu rastreamento é só uma questão de tempo, mostra o quanto estes criminosos se julgam acima da lei. E bate o descrédito.
Conversando com quem foi beneficiado com uma "palmada pedagógica" sei que ela funciona como um divisor de águas. Não precisa ser física, mas um basta sério delimitando a diferença entre o certo e o errado. O que faltou para alguns políticos. Se os educadores não o fizeram, o voto deveria ter feito. E, se não o fez, a Justiça está dando uma segunda chance para redefinir os caminhos da nossa combalida cidadania.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Eleições: a justiça pelo voto

Uma charge irreverente: Jesus está pregado na cruz e, à sua frente, um religioso paramentado acusa-o com o dedo em riste: "viu, se não tivesse se metido em política não estaria nesta situação". Desde que começou a se consolidar a Doutrina Social, a Igreja vive este dilema: um grupo busca um maior envolvimento com as causas sociais, enquanto outro opta por mais cautela.
Diversos documentos da Igreja Católica recomendam que os cristãos se posicionem nas eleições. Mesmo que o clima não seja dos melhores pois os diversos escândalos que envolveram políticos em tempos recentes deixou um gosto amargo de que "não tem jeito" e que "nada pode mudar".
Esta é uma forma acomodada de ver as coisas. O documento de Aparecida já dizia que o leigo "é a presença da Igreja no coração do Mundo. E a presença do Mundo no coração da Igreja". Isto vale para a política - de forma mais ampla como o melhor jeito de administrar a "polis" (cidade) - como para a política partidária, que deveria executar o plano daqueles que pensam diferente a respeito do jeito de conduzir os recursos públicos.
O voto parte da formação do pensamento de forma individual: até se pode ouvir, mas quem tem que fazer uma opção é o eleitor. Infelizmente, algumas pessoas, mal informadas (ou até mal intencionadas) estão sugerindo que se anule o voto. Esquecem que já se viu este tipo de ação e foi desastrosa. A omissão premia o que de pior existe nos quadros da política partidária.
Jesus soube atuar politicamente. A política aconteceu - no Seu caso - quando defendeu pobres, preocupou-se com a saúde, criticou religiosos e homens da lei. No entanto, a história dos últimos anos mostra o distanciamento de Seu seguidores da esfera política. Vê-se a ascensão de governos afastados dos valores cristãos e, em muitos casos, contrários ao Seu espírito.
Madre Tereza de Calcutá tornou-se santa em setembro depois de ouvir uma voz que lhe dizia no tumulto das ruas da periferia: "tenho sede". A partir daí, começou a se questionar a respeito da vida religiosa que levava e perguntava às suas irmãs: "Deus não quer o bem de todos?"
Encontrar formas de saciar a sede e de concretizar uma sociedade inclusiva é diferente de tornar a população apenas um degrau para atender a ânsia de poder. Está aí um critério para escolher candidatos nas próximas eleições. O outro está na máxima de Aristóteles: "a politica não deveria ser a arte de dominar, mas sim a arte de fazer justiça".

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Drogas: o amanhecer da esperança

Era serena a voz do pai ao contar a história do filho que se tornou dependente químico. Encarava o fato de que alcançaram uma vitória - o rapaz estava limpo há três anos - e havia também uma constatação: ser companheiro do filho não foi o suficiente para livrá-lo desta experiência que, se hoje é uma ferida fechada, nem mesmo o tempo apaga sua cicatriz.
Num programa de rádio, na manhã de domingo, abriu o coração para falar da instituição na qual colabora e que acompanha jovens em recuperação. O filho começou cedo no uso de drogas, provocado por amigos e em ambientes que julgava estar fora do alcance dos criminosos que a distribuem.
Reconheceu que, por seu trabalho, parava pouco em casa. Mesmo tendo procurado gastar todo o tempo disponível em ser presença na vida do filho, não foi o suficiente. Levaram um longo tempo até chegar ao fundo do poço e encontrar uma instituição que mostrava o quanto o torniquete da máquina assassina era capaz de asfixiar e que não havia guerras ganhas, mas a comemoração de pequenas vitórias.
Veio um chavão difícil de ser ouvido por um pai nesta situação: "quem consome a droga alimenta o tráfico". Mostrou que não é bem assim. Num momento em que se discute segurança pública há um diagnóstico dizendo que grande parte destes problemas acontecem, exatamente, porque o Estado - em todos os seus níveis - é incapaz de exercer seu poder de polícia e impedir que a droga entre no país, produção e comercialização.
Levantou outra questão: a partir de uma certa idade - cerca de 14 anos - quando um adolescente tem um temperamento mais forte, dificilmente os pais conseguem controlar seu desejo de estar na rua, com amigos, exposto aos perigos de certos ambientes. É aí que deveria atuar o poder público em blitz, fiscalização de espaços públicos, dando guarida aos pais quando pretendem resguardar seus jovens. Mas não funciona e o que se vê são "crianças" frequentando locais de adultos.
O filho passou a ser um amigo. As dificuldades estão no constante assédio para que retorne ao vício. É a vitória de um dia a cada vez. O anoitecer da família era sempre de angústia e a possibilidade de voltar à dependência. Hoje, juntos, em casa, se transforma em convívio e num amanhecer de esperança.
As muitas noites de insônia, as muitas lágrimas derramadas desaguaram numa certeza: precisam estar juntos, cuidar uns dos outros. Se o tempo da adolescência passou e o da juventude foi difícil, ainda há carinho e cumplicidade para compartilhar, ser a única "droga" necessária para alimentar uma relação que só pede o direito de reaprender a amar e ser, novamente, feliz.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O caminho que leva à "Fofolândia"

Não foi notícia que mereceu destaque na capa de jornal. Estava na página em que se listam os obituários e uma nota curta na coluna de entretenimento: "morreu Fofão". O boneco criado por Orival Pessini (que efetivamente faleceu), como apoio ao programa Balão Mágico (Rede Globo) - um alienígena atrapalhado de enormes bochechas, nascido no planeta “Fofolândia”. Ganhou a simpatia das crianças e, em seguida, na Rede Bandeirantes, seu próprio programa.
Tornou-se um dos bonecos mais vendidos no Brasil, sendo que alguns modelos, hoje, são considerados peças de colecionadores, especialmente para aqueles que, passados dos 30 anos, tiveram sua infância na década de 80 e vibraram com o bom humor e a irreverência em brincadeiras e piadas inocentes.
Minha atenção ficou por conta de um fã do Orival (outros personagens: Patropi, típico hippie, e o macaco Sócrates, que, na década de 70, abria o programa "Planeta dos Homens"), que o convidou recentemente para participar de uma convenção, caracterizado de Fofão. O sucesso foi enorme com muita gente fazendo fila para tirar fotografias com o ídolo de sua infância. Outro disse que, já nos seus 50 anos, passou a colecionar bonecos do Fofão, pois na infância não tinha dinheiro para comprá-los.
Não tenho brinquedos da minha infância. Hoje, olho meio encabulado as lojas de brinquedo onde são expostos bonecos antigos. E, se for iniciar uma coleção, o Fofão estaria entre eles, agregando o Topo Gigio (o ratinho simpático que dava boa noite acompanhado pelo Agildo Ribeiro) e o robô "lata velha" (como chamava o doutor Smith), da série original "Perdidos no Espaço". Na turma Disney, incluiria a vovó Donald, o Pateta e os três sobrinhos - Huguinho, Zezinho e Luizinho.
Com esta lembrança, naquela noite, fiquei mais tempo contemplando a lua que estava quase cheia, quando passou uma estrela cadente. Fechei os olhos e no seu rastro seguia um balão mágico, onde crianças se eternizavam com seus risos contagiantes e olhos acesos. Brincavam com seus bonecos do Fofão, provando que seu criador se foi mas o personagem entrou na galeria dos que são eternos enquanto houver uma criança que o abrace e tenha seus sonhos povoados pela magia e encantamento.
Podem haver muitas explicações psicológicas. Possivelmente todas elas tenham sentido. O que não impede que, realizados em diversas áreas, ainda reste o sentimento de que não deveríamos ter perdido a inocência infantil. Na estrada que leva para as estrelas há um planeta para as crianças - e aquelas crianças que já cresceram - que torna impossível esquecer o caminho que leva à "Fofolândia".

domingo, 16 de outubro de 2016

Cristão de atitude

Que relação pode-se estabelecer entre o momento que se vive, na política, e o texto evangélico de São Lucas onde se narra a saga dos Discípulos de Emaús? Lembrei disto quando, semana passada, tinha que preparar uma conversa sobre um dos mais fortes momentos vividos pelos seguidores de Jesus e um desabafo de um colaborador de jornal que mostrava toda a sua decepção com a preparação para as eleições de 2 de outubro.
O articulista tinha mandado uma mensagem depois do último texto que publiquei sobre eleições. Mas mostrava sua decepção com o momento atual, em especial com o discurso e a postura dos candidatos. Repliquei com o carinho especial que merece quem, mesmo decepcionado, dá a cara a bater. Em qualquer caso, não se pode deixar a esperança morrer. Lembrava da frase: não penses no mundo que prepara para teus filhos, mas que filhos prepara para fazer um mundo diferente.
O paralelo com Emaús é que na célebre passagem são dois companheiros que tiveram seu momento de glória na vivência com um grupo privilegiado. Durante três anos passaram por um processo de formação único na história da humanidade. Aí veio a decepção: morreu seu mestre e o grupo se dispersou. Cabisbaixos, precisavam voltar à sua vidinha. No caminho, encontram um forasteiro que lhes abre os olhos, mostrando que tudo tinha que ter acontecido para que não morresse a esperança. Já não mais deslumbrados, amadurecidos pela própria caminhada, tinham uma certeza: o que viram e ouviram era muito grande para guardar apenas para eles!
Na volta, era preciso anunciar e testemunhar. Nada de proselitismo (conversão à força). Lembrando a imagem do padre Attillio Hartmann, em religião (como em politica) é preciso ter cuidado para não arrombar a porta, pois a pessoa pode estar observando à janela.
A distância entre Jerusalém e do que hoje se acredita tenha sido Emaús é de aproximadamente 12 quilômetros. A pé, cerca de três horas. Tempo suficiente para muita conversa, falar, perguntar e ouvir. Entre o caminho e um jantar muito especial, um tempo para tomar uma atitude. A frase motivadora da minha conversa é: “eu vou a Emaús!”. Um chamado para uma atitude religiosa mas também política.
Meu amigo articulista é um homem de atitude. Dá pra ver pela forma como vive família, seu casamento e criação de dois filhos. Mas também porque tem uma preocupação em externar seu pensamento sobre as temáticas atuais - inclusive a política. O desafio é nos darmos conta de que não são os outros que nos fazem felizes ou infelizes, mas nós mesmos, pelos nossos erros e omissões, acertos e engajamento.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Um dia de cada vez

O Francisco Assis tem postado no Facebook imagens do seu tratamento com quimioterapia, uma das formas de combate ao câncer. Em textos sempre com algum detalhe técnico - mas também com a irreverência que lhe é peculiar - deixa os amigos a par, de um jeito em que se fica solidário tendo a certeza de que o Chico é daqueles vasos que duram, duram muito e apesar das batidas e quedas, não quebra.
A evolução na cura dos diversos tipos de câncer é inquestionável. Quem acompanha pacientes desde a segunda metade do século XX sabe que o diagnóstico era a certeza de entrar no corredor da morte. Pesquisas se desenvolverem, medicações foram testadas e tratamentos já conseguem controlar grande número de variáveis. Mas, infelizmente, continua sendo uma doença terrível e um estigma angustiante.
Os meios de comunicação têm dado destaque ao quadro médico e ao tratamento necessário. Inclusive novelas já tiveram personagens vivendo este drama, sendo o mais emocionante quando Carolina Dickman (Laços de Família) precisou se preparar para a quimioterapia e seus cabelos foram sacrificados em longos minutos em que o Brasil suspendeu sua respiração diante da representação da dor.
Mas, para além do glamour da televisão, há a vida do dia a dia de quem enfrenta um câncer. E ela não é fácil. Em casa vivemos a doença do meu pai, vitimado por um câncer no pulmão. Depois foi a vez de minha irmã acusar um caroço na perna. Por fim, precisei extirpar um câncer de próstata. É um longo tempo de espera, tratamentos e incertezas porque, à frente, lida-se com a perspectiva de perder a vida.
Os estigmas são neutralizados quando se consegue entendê-los e lidar com os seus efeitos. Mas ainda há uma distância a ser percorrida para que as pessoas não transformem doentes em párias. Esta é uma luta que não tem sentido sozinha. Embora hoje os números sejam bem melhores - entre as crianças a cura chega a 80% - o doente precisa é de esperança. A própria e aquela que o cerca dizendo que, muitas vezes em meio a tubos e cateteres, ainda vale a pena buscar um olhar de cumplicidade na dor.
Desde que criou a ADOTE (Aliança Brasileira de Doação de Órgãos e Tecidos), o Chico sabia dos obstáculos, mas que há também uma rede de solidariedade conspirando a seu favor. Agora não vai ser diferente. Ele vai sobreviver a mais este desafio que a natureza do seu corpo impôs. Foram muitos momentos em que teve que cuidar da sua própria saúde assim como de seus familiares, com uns ganhando, com outros tendo que deixar partir. Por tudo o que diz, está vivendo um dia de cada vez. Ainda é capaz de ensinar que, quando a tempestade passa, também se pode dançar na chuva!

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O silêncio do papa

Estava num lugar público quando vi as primeiras imagens: apenas um senhor idoso, semblante abatido, caminhando lentamente, consciente do peso da responsabilidade que carrega sobre os ombros, mas também da energia negativa que impera sobre aquele ambiente.
No burburinho entre os presentes, um pedido de silêncio e olhos se voltaram para a televisão onde o papa Francisco percorria os caminhos de Auschwitz, rezou diante do paredão de fuzilamento e sentou alguns minutos para refletir sobre um dos mais tenebrosos crimes cometidos pela Humanidade.
Embora os jornalistas pedissem uma declaração, o papa fez a mais contundente avaliação ao afirmar que, diante da monstruosidade do que representavam aqueles caminhos, paredes e calabouços somente era possível protestar e pedir a atenção pelo silêncio.
Uma outra imagem correu o Mundo: o fotógrafo levou um susto. À sua frente uma menininha em um cenário de guerra. Para ele, algo comum já que faz a cobertura dos conflitos instalados na Síria. Mas a reação da criança surpreendeu. Ao ver a câmera voltada para ela pensou que fosse uma arma e levantou os bracinhos, num gesto aprendido com pais e irmãos para escapar da violência que assola o lugar onde mora.
Ver uma criança portar-se como uma adulto diante de uma cena de violência é o triste reconhecimento de que o olhar infeliz da menina já aprendeu a conviver com o descaso com o ser humano e a sua existência. Levantar as mãos é um pedido para poupar a vida, único bem que lhe resta, num entorno de devastação e desesperança.
O papa afirmou que não vivemos em paz. Durante a Jornada Mundial da Juventude exortou jovens a se desacomodarem e não aceitar a situação de guerra declarada ou não em nível internacional, com reflexos na vida das sociedades locais. Nas paredes dos campos de extermínio estão os nomes de judeus, ciganos e homossexuais vítimas do nazismo, mas igualmente da omissão da comunidade internacional.
A menina Síria, morta, não terá seu nome inscrito numa placa e sequer vai merecer a memória da sociedade. Emocionou ver um ancião não fugir à luta e dizer em todas as instâncias que precisamos reaprender algo simples: cuidar de gente. Os homens, mulheres e crianças que sucumbiram ao nazismo morreram em vão se não aprendermos esta lição.
A memória afetiva de Francisco viu naqueles caminhos uma outra via crucis, impossível de ser estancada enquanto houver a omissão dos bons. Muitas crianças ainda vão levantar seus bracinhos diante de ameaças contra suas vidas. Sua inocência está sendo violentada enquanto o Mundo não parar diante do silêncio do papa.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Depois das Olimpíadas: a vida continua

Passadas as Olimpíadas - embora também tenhamos que prestar atenção nas Paraolimpíadas - é hora de voltar a atenção para as questões internas do Brasil. Em especial, as eleições municipais, já no início de outubro. Mudanças no governo federal, com o afastamento da presidente Dilma. E a preocupante situação econômica que levou o Brasil ao número assustador de 12 milhões de pessoas desempregadas.
Num período em que a política está em baixa, vai se ouvir muita coisa, inclusive o que nada tem a ver com as funções que entram no seu voto. É o caso do vereador. Qual é a sua função? legislar, fiscalizar a Prefeitura, promover debates públicos, medir os interesses da população perante o Executivo. Não é função: distribuir cesta básica; pagar churrasco; festas; oferecer emprego ou vagas; tapar buracos e prometer obras.
As mudanças no governo deveriam servir para um processo de conscientização. Há, no Congresso, uma proposta para que se moralizem as relações em todos os níveis. Seu debate nos últimos dias mostrou que os políticos tentam fazer modificações para que, ao fim, mude a forma, mas não a essência dos problemas éticos e morais.
A saída da presidente Dilma trouxe o presidente Temer, que vociferou mais do que fez. Patina em relações que, se não são promíscuas, estão na fronteira de relacionamentos escusos e oportunistas. Quando se achava que o presidente teria coragem para fazer mudanças, a possibilidade de uma nova eleição o deixou refém dos mesmos grupos que dominam o governo federal e o Congresso. Houve uma leve melhoria, mas manteve os agentes econômicos em estado de alerta, sem a volta da geração de empregos.
Mesmo que a agenda seja pesada, não perca as Paraolimpíada. Ainda há muita emoção pela frente. Nas Olimpíadas, vimos situações em que a superação e a garra falaram mais alto por desempenho de atletas e suas equipes. Com todos os nossos problemas, sentimos orgulho de congregar os povos num evento esportivo.
Mas as Paraolimpíadas são especial: desde que os soldados saídos da 2ª Guerra Mundial resolveram se encontrar para mostrar seus avanços em recuperação de traumas físicos e psicológicos este evento traz uma mensagem singela e carregada de empatia. Um tempo para demonstrar a capacidade de superação, afinal, é dos embates que nascem as vitórias.
E quando olharmos para os esforços destes atletas pode-se pensar que superação é pouco para tudo o que fizeram e passaram para conquistar o direito de estar no Rio de Janeiro diante dos olhos do Mundo. Que reluzam e nos ensinem a valorizar cada um por aquilo que são. Foi feliz um anônimo quando postou na Internet: "até os planetas se chocam... E do caos, nascem as estrelas".

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Reinventar a política partidária

O fato: o futuro político da presidente Dilma será decidido esta semana pelo Senado Federal. A dúvida: e daí? a partir deste evento que se transformou num grande espetáculo midiático, o que muda no cenário político nacional? No que é que evoluímos nesta que é uma das cenas mais constrangedoras que levou senadores a reconhecerem que a casa não tem moral para se posicionar e que as diversas articulações e pronunciamento transformaram o senado em um "hospício"?
Há muitos ângulos para se discutir, desde o que representa para as eleições de 2 de outubro, até o estrago que faz na já combalida imagem internacional, prejudicial em negócios, tratativas de intercâmbio e respeitabilidade.
O que chama a atenção é bem simples: quando custa este "circo", envolvendo gastos do três poderes, com suas estruturas, o que ganham os atores que deixam de atender o cotidiano para se dedicarem a ações que propiciam diárias, transporte, contas pagas em hotéis e restaurantes, gastos com sua engrenagem?
Engraçado é que todos os que dizem que "este é o custo da democracia" de alguma forma vivem dela! Os participantes das esferas pública defendem com unhas e dentes a sua necessidade e seus gastos. Infelizmente, comprovam que os meandros, cada vez mais, funcionam menos, porque se transformaram numa máquina que se auto consome.
Tudo o que vimos nos últimos dias tem um custo. E alto. Pagamos salários do Executivo, de senadores, Poder Judiciário e uma sequência de funcionários bem remunerados à disposição de um processo que não vai mudar em nada a vida do cidadão brasileiro comum.
De todas as campanhas que tenho visto nos últimos tempos, uma merece atenção: diminuir a máquina pública, iniciando pelo Congresso Nacional (menos um terço de senadores e deputados), incluindo a diminuição de seus salários e o custeio das estruturas que lhes dão apoio.
Quando nos preparamos para eleger prefeitos e vereadores é tempo de - como eleitores, portanto responsáveis pelos que aí estão - fazer um exame de consciência. Incluindo escolher homens e mulheres amadurecidos que dêem respostas adequadas a este momento de instabilidade do Brasil, refazendo os passos da política partidária.
Ulysses Guimarães tinha razão: “o poder não corrompe o homem; é o homem que corrompe o poder. O homem é o grande poluidor, da natureza, do próprio homem, do poder. Se o poder fosse corruptor, seria maldito e proscrito, o que acarretaria a anarquia.”

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Idoso: o prazer de dar sentido à vida

Pai idoso e filho sentados num banco. O filho lê jornal, o pai contempla o entorno. A pergunta: "filho, que pássaro é aquele?" Irritado, o rapaz joga o jornal para o lado e diz: "o senhor já me perguntou uma dezena de vezes, já lhe disse que pássaro é aquele!" Olhar magoado, levanta em silêncio e entra na casa deixando o filho com jeito de quem exagerou. Volta com um caderno envelhecido - um diário. Folheia e cita: "quando tinhas 9 anos me perguntastes mais de dez vezes que pássaro estava pousando na árvore. Eu te respondi todas as vezes!"
Todas as segundas-feiras vou a um supermercado onde, seguidamente, encontro uma amiga. Numa ocasião, contei que tinha visto sua mãe, numa calçada, com dificuldades. Falou da preocupação com a senhora considerada "teimosa", insistindo em andar pela rua e fazer serviços de jardinagem, para os quais os filhos julgam que não tem mais condições. Pedi apenas que deixassem a mãe viver. Um idoso precisa ter seus espaços e o cerceamento se transforma em problema tanto para ele, quanto para a família.
No nosso horário de chimarrão - 10 horas - recebi outra amiga que falava do trabalho que passam depois que optaram em morar num sítio e cumprem jornada cansativa para um casal já com problemas físicos. O marido não pensa em deixar de cuidar do que planta e de seus animais, assim como a mulher não quer abandonar as flores que cultiva. Não precisam de retorno financeiro, então, o que fazem, é dar prazer e um sentido aos anos em que ainda podem andar com as próprias pernas.
A primeira história é da Internet e mostra o quanto, no convívio com um idoso, pode-se usufruir de uma grande escola de paciência, ou cavar o próprio Inferno. É possível fugir de um idoso, mas é impossível escapar da velhice. No segundo, que as famílias não estão preparadas para cuidar de um idoso à distância. Por muitos fatores, perde-se a noção da individualidade e se quer tutelar alguém em pleno gozo de suas faculdades e atividades físicas, podendo sim fazer o que bem entender, ter prazer em dar sentido à própria vida.
O casal é o típico dilema de quem está envelhecendo e precisa se conscientizar do quanto é bom ser útil, em primeiro lugar, para si mesmo. Não há nenhum sentido em abrir mão daquilo que se gosta porque "vozes" alertam filhos para "supostos" perigos.
Velho não é vasilhame descartável. O ritmo mais lento, o olhar mais demorado, o sorriso mais cansado é um desafio à consciência de que ao acompanhar quem envelhece também se envelhece junto, morre um pouco enquanto aquela vida se esvai. O importante é fazer valer a pena cada dia, os toques de mão compartilhados, as marcas de saudade que ficam no peito ao se fazer uma despedida.

domingo, 9 de outubro de 2016

Competência em multar, mas não em investir

Quem sobe a Serra Gaúcha em direção a Caxias do Sul, saindo de São Leopoldo, tem uma bela vista de pequenos aglomerados urbanos e áreas preservadas nas encostas dos montes. Com alívio deixamos para trás as grandes cidades e desfrutamos, durante algum tempo, o privilégio de mirar ao longe, por entre espaços onde o Sol brinca com a variedade de verdes, ou a névoa dá a ideia de que pairamos acima das nuvens.
Numa estrada de conservação precária, o bom mesmo é, além de algumas vezes fazer a contemplação com o canto do olho, seguir firme procurando manter-se sobre o asfalto, em espaços mal remendados, carentes de sinalização, em especial a que delimita a lateral e o centro das pistas.
Nos últimas meses, algumas vezes tenho feito este percurso. Embora todas as crises que o governo do Estado enfrenta, sempre fico pensando que, municiado de impostos e pedágios, bem que poderia ser mais competente e, ao menos, dar como retorno, se não uma estrada duplicada, a sinalização adequada para a que existe.
No dia 15 de julho, subi a Serra. Em São Sebastião do Caí deparei-me com uma série de controladores de velocidade que não controlam absolutamente nada, já que a maior parte dos motoristas sabe onde estão e diminui a velocidade apenas ao passar pelos locais dos aparelhos. Não foi o meu caso. Com uma eficiência inesperada, no dia 21 de julho, recebi a notificação de que havia sido flagrado por excesso de velocidade.
Pode-se discutir a forma como os controladores são distribuídos e também a eficácia para controlar imprudentes. Mas não se pode deixar de reconhecer que se há competência para ser tão ágil em apontar uma falha, porque também não há em prestar um serviço, numa tripla tributação, já que impostos são recolhidos, as cancelas dos pedágios funcionam implacavelmente e há o reforço das multas.
Há muito tempo se fala na indústria da multa, que funciona em prejuízo do bolso do cidadão e não com fins educacionais. Por ali circulam carros de passeio, ônibus, mas também veículos de grande e médio porte para o transporte de produtos. Estes já tem um mapa dos controladores e freiam abruptamente para não serem alcançados pelo leitor de velocidade.
Gosto do silêncio das estradas. Dirigir com tranquilidade é um bom momento de reflexão, arejar a cabeça e recarregar baterias. Dirijo pelo prazer da viagem ou por compromissos familiares. Ao darmos nossa "contribuição" forçada para a máquina pública esperamos que nos devolva em serviços e que não seja autofágica. Porém, o Estado arrecada mas não faz. Exigir ação do governo não é privilegiar quem usa as vias por prazer, mas buscar segurança e conforto para as legiões de trabalhadores que cortam o país sentindo na carne o descaso por nossas estradas.

sábado, 8 de outubro de 2016

Dá o prefixo e sai do ar...

Estudando, trabalhando, namorando ou apenas passando o tempo, o rádio foi e é presença em muitas noites em que se precisa de companhia. Mas, em épocas passadas, tinha um porém: pela uma da madrugada, solenemente, um locutor anunciava que a emissora estava dando o prefixo (sua identificação) e saindo do ar para voltar... Daí nasceu a expressão "dá o prefixo e sai do ar", usada quando se quer afastar algum chato.
Dei esta dica para um aluno que me olhou perplexo, perguntando: "como assim?" Só então flagrei que a expressão já não fazia mais sentido, são novos tempos, em que as emissoras não interrompem mais a sua programação. E que não adianta querer se livrar dos chatos, que eles não saem do ar!
O rádio é um dos grandes amores da minha vida. Sinto falta de atuar nele (um dia ainda volto), mesmo que em praticamente todas as atividades em que participo a discussão a respeito venha à tona. Especialmente agora que a faixa do rádio AM está desaparecendo (terão que migrar para FM). Aqueles que passaram dos 50 anos ainda ouvem AM, com sua proposta mais informativa - em notícia de geral ou esportiva. A faixa dos 30 aos 50 anos ouve bastante FM, na busca por entretenimento.
A grande pergunta: e os mais jovens, ouvem o quê? A impressão é que já não ouvem mais o rádio convencional - se ouvem, o fazem raramente. A maioria monta suas "rádios" pela internet, com seleção musical própria e, de vez enquanto, escapa para o AM ou FM.
Diante deste quadro, senti uma aragem agradável com dois recentes eventos do rádio em Pelotas: o radialista Wolney Castro lançou seu livro Histórias do rádio, recuperando memórias, sua trajetória especialmente nas emissoras AM da cidade - do pitoresco aos bastidores de veículos que merecem ser melhor conhecidos.
O surgimento do programa do Sério Correa, nas manhãs da Rádio Tupanci: com notícia atualizada e comentada, a participação do ouvinte, fazendo valer a memória coletiva e afetiva daqueles que reconstroem o imaginário da cidade a partir de seus "causos", lembranças que, ao serem despertadas, cerram fileiras em torno da própria história.
Não sei qual é o futuro do rádio. Como todos os meios de comunicação vai acabar se reinventando. Migrar do AM para o FM é uma determinação técnica. Encontrar seu espaço nas novas mídias - como a Internet - é a forma de atender àqueles que deixam o radinho de pilha pelo sinal digital nos smartphones. Talvez não seja o caso de "dar o prefixo e sair do ar", mas, com certeza, é possível continuar sendo o companheiro que acalenta sonhos e, pelo desfile de vozes, sons e cadência musical recria mundos pelo imaginário de cada um, como somente o rádio sabe fazer.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Uma súplica pela vida

O fotógrafo levou um susto: à sua frente uma menininha em um cenário de guerra. Para ele, algo comum, já que faz a cobertura dos conflitos instalados na Síria. Mas a reação da criança surpreendeu. Ao ver a câmera voltada para ela, pensou que fosse uma arma e levantou os bracinhos, num gesto que deve ter aprendido com seus pais e irmãos como um jeito de escapar da violência que assola o lugar onde mora.
Ver uma criança portar-se como uma adulto diante de uma cena de violência é o triste reconhecimento de que o olhar triste da menina já aprendeu a conviver com o descaso com o ser humano e a sua existência. Levantar as mãos é um pedido de que lhe poupe a vida, possivelmente o único bem que ainda lhe restou, quando se vê um entorno de devastação e desesperança.
Muitas organizações lutam por recuperar as crianças em cenários de guerra. Mas estamos perdendo batalhas seguidas. Não apenas com aquelas que ficam nos locais de conflagração, mas também as que são obrigadas a se instalar em locais de refúgio, assim como as que migram com suas famílias, enfrentando o esfacelamento dos vínculos familiares, afetivos e, mesmo, das referências de origem.
Isto sem falar das muitas e múltiplas violências que sofrem as crianças em periferias das grandes e médias cidades. Pintar um quadro assim pode ser chamado de catastrófico. Mas não há outra forma de mostrar à sociedade o quanto estamos sendo incompetentes em preservar aqueles que dependem de nós para verem um Mundo diferente.
Um pensador dizia que não devemos pensar num Mundo melhor para nossos filhos, mas sim em preparar filhos melhores para construírem um Mundo melhor. Creio que uma coisa não impede a outra. Fazer a nossa parte não significa que deixemos um legado de coisas prontas somente para serem usufruídas por futuras gerações. Mas que não nos omitimos, também educamos para que sejam conscientes do quanto é necessário ter consciência da fragilidade do ser humano e do planeta em que vivemos.
Uma criança que levanta os bracinhos numa súplica pela vida ainda tem esperanças. Quer continuar vivendo e, para isto, precisa da solidariedade de todos nós.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Entre a aurora e o ocaso

No final de semana passei por duas experiências interessantes: fui a Caxias do Sul e tive minhas primeiras "12 horas de babá", assim como estive no hospital Pompeia, onde boas lembranças fluíram. Em ambos os casos, a impressão era semelhante: entre a primeira infância e o tempo de aprender a se resguardar fisicamente o fio condutor é o mesmo: carinho, o direito de apenas ter uma mão que receba outra. Ou um olhar que acaricie em silêncio.
Meus sobrinhos Elisandro e Daniele trabalham na área da saúde, com horários desencontrados. Sempre que possível, alguém da família faz presença, especialmente para os momentos em que os dois trabalham. Com 9 meses, o pequeno Miguel já sabe até a hora em que os pais chegam e fica procurando a porta com a cabeça. Preparei-me para o pior quando tivemos que ficar sozinhos pela primeira vez durante duas horas. Engano meu: passamos um dia em que aprendi a esquentar mamadeira (mas não cheguei às fraldas - meu sobrinho chegou antes). Depois foi curtir o clima da serra em família.
No domingo, tive a chance de encontrar uma pessoa especial: padre Olavo Gasperin. Ele visitava familiares em Bento Gonçalves, quando teve uma queda séria. Conduzido ao hospital, precisou ficar em Unidade de Tratamento Intensivo. É um choque ver alguém que sempre foi dinâmico, orgulhoso do seu Grêmio, com um comentário brincalhão e sagaz na ponta da língua estar ali, com movimentos restritos, ligado a aparelhos, sem o seu toque pessoal de cuidados com o corpo e a aparência.
Entre ter o Miguel nos braços e poder segurar a mão do padre Olavo havia duas coisas em comum: a intensidade do olhar e a troca de carinho possível e necessário seja ao vislumbrar a aurora que se anuncia, ou quando nos preparamos para o ocaso, um tempo especial de amadurecimento na chegada da noite.
A fragilidade da infância e de uma idade mais avançada é um tempo privilegiado para eles saberem com quem podem contar entre os familiares e amigos. Para nós é o jeito que a natureza tem de dizer que é sempre tempo de aprendizado, até quando nos sentimos próximos da nossa finitude.
Tenho certeza que ambos ainda vão me ensinar muito. O Miguel vai crescer e ter um tio avô babão e amigo. Com o padre Olavo espero falar de futebol, bons textos e da boa música italiana. Dos dois vou guardar a lembrança de que num final de semana gelado ambos me disseram muito quando apenas procuraram minha mão, reforçado por um olhar, em silêncio, por onde passou uma torrente de palavras.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A criança invisível

Estatísticas sobre violência chegam às nossas casas pelos meios de comunicação todos os dias. A enxurrada de dados é tão grande que já não conseguimos processar e vamos nos tornando insensíveis àquilo que é um escândalo. A Rede Globo de Televisão fez o seu "Criança Esperança" e mesmo que se discuta todo o seu processo, não há como refutar os números apresentados. E um deles é estarrecedor: a cada 24 horas, no Brasil, uma "criança" na faixa dos 12 aos 19 anos morre vítima da violência!
Há muito tempo quem trabalha com educação sabe das discussões a este respeito. O que podemos fazer para reverter este quadro? Embora algumas respostas pontuais feitas por alguns educadores ou grupos sociais, o espectro geral é de um processo educacional que faliu, infelizmente causando prejuízo para um bom percentual de crianças e jovens e às futuras gerações. Esta geração já é fruto de descalabros cometidos anteriormente e já temos filhos de pais que foram negligenciados pelo sistema, tornando-se crianças invisíveis, somente aparecendo em estatísticas para solicitar verbas.
A Unicef distribuiu um vídeo em que uma criança está sozinha, na rua, bem vestida, bem penteada. Em seguida aparece mais do que uma pessoa interessada em saber onde está sua mãe ou seus pais, até buscando apoio. A mesma criança, em roupas simples, desgrenhada, não merece qualquer consideração por parte dos passantes. Atenção semelhante é dada quando a criança bem produzida chega a um restaurante e é rechaçada quando veste a pobreza. A própria criança se emocionou com o anonimato que teve quando mais precisava de ajuda.
Não é somente no Brasil que os números assustam: a organização Médicos Sem Fronteiras levantou dados das regiões em que atua e constatou que 13 milhões de crianças estão fora das escolas graças aos conflitos armados no Oriente Médio e Norte da África. Seus voluntários já propiciaram mais do que uma cena em que se percebe que nem tudo está perdido: toda a sua atividade, toda a relação com as populações carentes de atendimento médico passam por relações humanas.
Só poderia ser desta organização que orgulha tanto a gente como possibilidade de reverter o jeito como tratamos nossas crianças: "só quem pode salvar a vida de um ser humano é outro ser humano." Têm razão. Desistir é reconhecer que perdemos a única guerra que não poderíamos perder. E nos brutalizamos. Lutar pela educação de nossas crianças e jovens é humanizar relações, fazer valer o que mais nos aproxima do Divino!

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A vovó e o Google

Por: Nílson Souza
Em tempos de comunicação instantânea, mecânica e apocopada, uma vovó britânica surpreendeu a comunidade digital ao encaminhar uma consulta ao professor Google. Em vez de simplesmente digitar as palavras-chave de sua dúvida no espaço apropriado do buscador, como todos fazemos, a senhora de 85 anos escreveu:
– Por favor, traduza estes números romanos: MCMXCVIII. Obrigada.
A consulta bem educada foi flagrada pelo neto da mulher, que fotografou a tela do notebook com a busca e tuitou:
– Ai, meu Deus, eu abri o computador da minha avó e, quando ela pesquisa algo no Google, usa "por favor" e "obrigada".
Viralizou. O próprio Google tomou conhecimento da história e apressou-se em responder à miss May Ashworth que sua busca referia-se ao número 1998, cumprimentando-a pela educação.
Escrevi nesta semana um texto sobre palavras mágicas, depois de ler sobre um estudo de pesquisadores norte-americanos e australianos que identificaram a relação entre a nossa linguagem e o nosso sucesso. Garantem os cientistas que o uso de palavras positivas condiciona nosso cérebro ao êxito e nosso corpo a uma vida mais longa e saudável. Já o uso de termos negativos induz ao fracasso e às doenças.
Vale para o que dizemos e para o que escrevemos.
A ciência apenas confirma a crença. Textos bíblicos ensinam que "a murmuração atrai serpentes", para ensinar que palavras torpes voltam-se contra quem as pronuncia. No vale-tudo das redes sociais, ninguém pensa muito nisso. Falamos com os dedos e eles nem sempre refletem nossos pensamentos mais elaborados.
Por isso surpreende quando alguém fala com o coração, como a doce dama britânica. O professor Google deve ter ficado desconcertado com tanta educação. Mas o efeito mágico das palavras amáveis é tão poderoso, que até o gigante tecnológico lembrou-se de agradecer.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Vossos filhos não são vossos filhos....

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.
Khalil Gibran

terça-feira, 21 de junho de 2016

A inutilidade e o amor

Ter que ser útil pra alguém é uma coisa muito cansativa. É interessante você saber fazer as coisas, mas acredito que a utilidade é um território muito perigoso porque, muitas vezes, a gente acha que o outro gosta da gente, mas não. Ele está interessado naquilo que a gente faz por ele. E é por isso que a velhice é esse tempo em que passa a utilidade e aí fica só o seu significado como pessoa. Eu acho que é um momento que a gente purifica, né? É o momento em que a gente vai ter a oportunidade de saber quem nos ama de verdade.
Porque só nos ama, só vai ficar até o fim, aquele que, depois da nossa utilidade, descobrir o nosso significado. Por isso eu sempre peço a Deus para poder envelhecer ao lado das pessoas que me amem. Aquelas pessoas que possam me proporcionar a tranquilidade de ser inútil, mas ao mesmo tempo, sem perder o valor.
Quero ter ao meu lado alguém que saiba acolher a minha inutilidade. Alguém que olhe pra mim assim, que possa saber que eu não servirei pra muita coisa, mas que continuarei tendo meu valor.
Porque a vida é assim, fique esperto, viu? Se você quiser saber se o outro te ama de verdade é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. Quer saber se você ama alguém? Pergunte a si mesmo: quem nessa vida já pode ficar inútil pra você sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora?
É assim que descobrimos o significado do amor. Só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim. Por isso eu digo: feliz aquele que tem ao final da vida, a graça de ser olhado nos olhos e ouvir do outro: "você não serve pra nada, mas eu não sei viver sem você".
Padre Fábio de Melo

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Inutilidade do envelhecer

Dois funcionários de uma empresa que atua no tráfego ferroviário urbano de São Paulo. Ela como manobrista, ele como controlador. Namoraram e resolveram casar numa estação de trem. Nenhuma novidade no Dia dos Namorados (12 de junho) quando, para o "show business" da televisão, o que importa é mostrar matérias de conteúdo humano, com amplo poder de empatia e, se possível, fazer chegar às lágrimas.
A noiva chegou à plataforma previamente preparada num trem, com padrinhos e sua corte, anunciando que iria até o altar acompanhada do pai. É então que as palavras desaparecem e as imagens fazem o efeito que mesmo os produtores mais experientes não esperavam: o pai era cadeirante, sendo empurrado pela filha, com toda a pompa e circunstância, para "levar" a noiva até o altar!
O padre Fábio de Melo brinca numa palestra que ao ficar velho espera que haja alguém que o coloque na rua, mas também alguém que o tire do sol. Fala do envelhecimento e do quanto é cansativo o papel que nos propomos desempenhar - e que os outros esperam de nós - de sermos permanentemente úteis. A velhice é o tempo da "inutilidade" - quando nos damos conta de que não podemos fazer tudo, por todos, todo o tempo. Então fica claro quem realmente nos amou e quem apenas nos usou!
Emociona ele dizer que "só nos ama, só vai ficar até o fim, aquele que, depois da nossa utilidade, descobrir o nosso significado". Acrescentando ser relativamente fácil descobrir quem vai ficar ao nosso lado no tempo de ocaso: "quem nessa vida já pode ficar inútil pra você sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora."
O casal era jovem e conseguiu uma grande cobertura dos meios de comunicação. Tudo fazia parte de um grande sonho, que a mídia fez chegar às casas numa noite de domingo. Uma grande produção rendendo muitos comentários, muitas lembranças. Mas a filha não abriu mão de que, consigo, no seu momento de maior glória, entraria um símbolo da "inutilidade": um idoso, cadeirante.
Fui à cata do vídeo que vira da palestra do padre Fábio. Do conjunto da obra, ficou ressoando em meus ouvidos a serenidade com que ele chegava ao final de sua pregação. Deixou o gosto de uma lição de vida, daquelas que despertam alguma coisa em nós que não se basta por um momento de espetáculo: "é assim que descobrimos o significado do amor. Só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim. Por isso eu digo: feliz aquele que tem ao final da vida, a graça de ser olhado nos olhos e ouvir do outro: "você não serve pra nada, mas eu não sei viver sem você".

domingo, 19 de junho de 2016

Depressão: um triste mergulho na solidão

Era uma pessoa alegre e expansiva num dia; no seguinte, o rosto estava marcado por uma noite mal dormida e as lágrimas haviam deixado sinais. O inchaço demonstrava que alguma coisa estava mal. De contragosto, o reconhecimento: tivera uma crise depressiva. Não precisou muito tempo para que deixasse o jeito de pessoa radiante para demonstrar a vivência de uma das mais incômodas doenças da sociedade moderna.
A depressão se caracterizar por mudanças no humor e perda de sentido em atividades cotidianas, antes prazerosas ou motivadoras. Minha conhecida tinha tudo isto: dizendo que alcançara uma profunda tristeza, falta de motivação e muito, muito desânimo.
Vinte por cento da população mundial já teve depressão. Este distúrbio do sistema nervoso ocorre mais em mulheres do que em homens. Mas não é tão fácil delimitar sinais, sintomas e consequência: entendidos falam de fatores psicológicos e sociais (perda da pessoa amada, fim de um relacionamento, demissão), fatores biológicos (alterações nos níveis de neurotransmissores ou hormônios) e uso de alguns tipos de remédios.
Quem acompanha alguém que chega no estágio mais difícil sabe que parte o coração ver um ser querido que se atrapalha entre desejar estar só e um mergulho mortal na solidão. Uma amiga dizia que era "alguém triste" e que apenas a medicação a mantinha no pique. Conversamos um pouco e lhe disse que não. Não existem "pessoas tristes". No máximo, pessoas que, durante algum tempo, ficam tristes, mas que o ser humano não foi feito para mergulhar permanentemente na dor, mas para viver saudáveis momentos de felicidade.
De quem está próximo, a grande sacada é manter a pessoa ocupada, dar-lhe tempo para que respire só, mas não deixar que se isole, por mais que seja tentador. Na receita para alcançar a superação da crise está a capacidade de voltar a cuidar de si, encontrando nos seus espaços aquilo que lhe agrade e satisfaça, sem a preocupação de agradar a outros.
Durante algum tempo as pessoas tinham vergonha de dizer que estavam em depressão. Hoje, com as informações que se tem, o primeiro passo para vencer uma crise é reconhecer que ela existe, facilitando muito se a pessoa disser o que está sentindo. Mal comparando, é como alguém que gosta de jardim: há plantas que são mais sensíveis, estas precisam de atenção permanente. Algumas são mais toscas, precisam que lhes dê o elementar, como água, luz, poda. E outras que subsistem apesar de nós.
Alguém propício a depressão merece cuidado permanente, sem ser sufocado. Basta encontrar a dose certa entre mantê-lo próximo e permitir que respire sua individualidade. Carinho, amor, afeto, fazem parte do "caldo de galinha" para minimizar uma crise. Ela mesma tem que encontrar seus caminhos. Augusto Cury tem razão: "nunca despreze a pessoa deprimida. A depressão é o último estágio da dor humana!"

segunda-feira, 28 de março de 2016

O olhar de Francisco

O papa Francisco pediu a crianças do Mundo que lhe enviassem perguntas. Algumas foram selecionadas e, juntamente com as respostas, fazem parte do livro "Caro Papa Francisco", onde os assuntos não são apenas religiosos, mas fazem parte do universo das famílias e mostrou o lado pedagógico deste que é um dos maiores formadores de opinião da atualidade.
Os sites já haviam noticiado o que foi matéria de televisão no último final de semana. Encantados, vamos passando pelas dúvidas de crianças na faixa dos 10 anos, que desejam saber porque os pais discutem por problemas de negócios, o que o papa faria se fizesse um milagre, ou se as pessoas más também têm anjos da guarda.
Se as perguntas já vinham carregadas de encantamento, as respostas deslumbram: pedir para os pais não irem dormir sem antes terem feito as pazes; "curaria as crianças. Nunca consegui perceber por que sofrem as crianças. É um mistério para mim"; que pedissem para seus próprios anjos falar com o anjo das pessoas más para que os convencessem a mudar!
Para os analistas de plantão, com certeza, esta é apenas uma jogada de marketing necessária para alimentar a presença do papa na mídia e recuperar o espírito religioso numa sociedade que está se afastando dos templos. É possível. Mas se vê, no homem Francisco, a disposição de fazer algo básico para todos os religiosos: ser pastor, cuidar de seu rebanho, cuidar de gente.
Uma charge recente mostrava um grupo de integrantes da alta hierarquia católica dentro de uma destas canoas de competição, todos com megafone em mãos. O papa chega e traz nas mãos um monte de remos, dizendo: "tá na hora de começar a trabalhar"! Simples, mas condizente com o homem que pode estar na mídia, porque a mídia também tem a ganhar quando lhe dá espaço. Mas o olhar, a o olhar! Este não mente e mostra um homem encantado em poder ser pastor... inclusive das crianças!
Nada a ver, mas uma propaganda de alimentos prontos que está no ar mostra um pai aquecendo alimentos como se fosse garçom num restaurante, perguntando a cada um o que queria do cardápio. Por fim, pergunta como pretendem pagar. O menor olha com todo o carinho e pergunta: "pode ser com beijinhos?"
A impressão que se tem é que são estes pequenos pagamentos que fazem a felicidade de Francisco. Depois que um outro homem simples andou pela Galileia e disse para deixar "vir a mim as criancinhas, porque delas é o reino dos céus", o papa segue seus passos, descomplica questões da Igreja, alimenta uma nova esperança nas relações sociais e tem no olhar a compaixão necessária para se tornar o pastor do qual o Mundo está tão carente.

domingo, 20 de março de 2016

Pedro: o Mundo era sua estrada

A Semana Santa tem uma série de personagens que merecem atenção quando se acompanha a jornada marcante que vai da chegada de Jesus a Jerusalém - Domingo de Ramos - passando por um tempo de tristeza e consternação vividos na noite de quinta e ao longo de toda a sexta-feira, com a prisão e morte; e a alegria de Seus seguidores ao se confirmar a profecia: no Domingo de Páscoa, Jesus ressuscitou!
O Ano Litúrgico da Igreja Católica tem no Evangelho de Lucas a preocupação em iluminar a História e suas reflexões. Escrito cerca de 30 anos depois da morte de Jesus, Lucas conversou longamente com São Pedro até completar o quadro dos sentimentos, reações e tristezas por aqueles últimos momentos. Pedro, fiel a Jesus, em muitos momentos, teve arroubos emocionados, o que não impedia que precisasse ser chamado de volta à realidade. Pois foi exatamente ele que traiu o Mestre: a frase "não conheço este homem" foi repetida três vezes em uma longa noite de vigília.
O homem tosco da beira do Mar da Galiléia já mostrava a sensibilidade para ser quem dirigiria o Cristianismo nascente. Mas haviam dores e marcas que o tempo e as suas novas vivências não conseguiriam apagar: em especial, o fato de ter negado Jesus, o galo cantar e, voltando-se, encontrar o olhar daquele que o convencera da nova missão com uma frase simples: "vinde a mim e Eu vos farei pescadores de homens!"
Passados os eventos em Jerusalém, restava um grupo desnorteado. Era preciso fazer alguma coisa. Pedro é prático: "vou pescar". Precisava do silêncio das águas e da largueza de seus horizontes. Enquanto a lide com o barco, as redes, organizar seus homens, recolher o pescado ocupavam seu tempo, seu pensamento fazia o percurso de três anos intensos. Não havia mais como ser o mesmo.
No final da tarde, sentado nas areias que conhecia tão bem, pensou em voltar para a vida simples entre a pesca, amigos e família. Mas a lembrança do Galileu o incomodava: depois do primeiro contato, todo o seu mundo se transformara. Crescera com a certeza de que Javé era Deus e era um deus terrível! Mas Jesus mostrou que não era bem assim, até o chamava de "Paizinho". Repetiu a palavra: "Paizinho", soava tão bem, era mais agradável do que tratar com um deus vingativo! Um ciclone chamado Jesus passara em sua vida e nada mais seria como antes.
Ainda não se falava em Cristianismo (chamavam de Seita do Caminho), tendo Pedro como pastor e Paulo como grande estrategista. Mas já se sabia que Pedro aprendera as lições básicas: não era apenas reunir aqueles que se dispersaram. O norte, agora, estava na missão: "ide e fazei discípulos de todas as nações". Não havia mais o que pensar. O Mundo era a sua estrada. E era longa! A Eternidade seria a sua recompensa.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Crise: oportunidade ou espetáculo?

Um comentarista de plantão foi pontual em afirmar: o grande problema, na política, hoje, é que não temos políticos de referência. Imediatamente, meu pensamento retornou a diversos nomes da história do Brasil de homens de ponta que tinham o que se chamava de "moral ilibada", construíram suas vidas e suas carreiras a partir de valores éticos e morais, que vinham antes de suas opções partidárias.
Mas não é tão simples assim. Do que acompanhamos em todas as denúncias e investigações na Justiça, à esquerda, ao centro e à direita, o que vemos são homens e mulheres que se deixaram envolver pelo emaranhado de uma força maior: a economia! Por detrás daqueles que utilizaram mal os recursos públicos existem grupos econômicos que beneficiam políticos, mas saem com polpudos resultados.
No tabuleiro das relações internacionais, um lance chamou a atenção: depois da condução coercitiva do ex-presidente Lula, o dólar baixou e as bolsas subiram. Não entendo de economia, mas veio a explicação: enquanto há um grupo que não se preocupa em navegar por águas turvas da corrupção, um outro procura ver que as instituições, especialmente o Judiciário, funcione. A clareza das leis e a sua aplicação seria garantia para seus investimentos.
Não existem economistas bonzinhos, que se preocupem com o bem social. Antes querem ver onde vão ganhar mais, com o retorno de seus investimentos. O que parece uma grande confusão onde investigações, prisões, exposição de figuras públicas e das caveiras que estavam em nossos armários é visto como um sinal de que os armários estão sendo limpos e há uma esperança de novos caminhos e novas perspectivas.
As crises são oportunidades para a renovação. Embora não haja no horizonte um político com envergadura para tomar a si um processo de unificação nacional, temos que encontrá-lo. Infelizmente, não está na relação dos que estão hoje na mídia. Praticamente todos têm dívidas com a Justiça ou são oportunistas e, se tivessem oportunidade, fariam o mesmo.
Esquerda e direita sofrem a síndrome da vitimização. Dificilmente aceitariam fazer um acerto nacional. Mais difícil, ainda, quando se sabe que este acordo precisa passar por uma reformatação da cultura nacional, que há gerações fez um acordo implícito por corroer princípios éticos quando se aceita atestados falsificados, passa a mão sobre falcatruas dos filhos, esquece de praticar as relações mais básicas do social... A crise pode ser uma oportunidade. Mas pode ser apenas mais um capítulo da mídia que aumenta a fome pela espetacularização, servida todas as noites em nossos telejornais.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Herança dos deuses

Quando os deuses espalharam a chama do saber, destilaram uma fagulha privilegiada para a poesia. E lançaram uma maldição: os mortais não poderiam vulgarizar este dom. O homem teria que merecer para ter acesso ao mundo que transcende a linguagem, onde significado e símbolo se confundem.
Mas em sua curiosidade infinita, o homem esqueceu da maldição e lançou-se, desenfreadamente, a tentar captar o seu significado. Deixou-se tentar pela sonoridade das palavras, pela cadência que se estabelece quando, lendo um poema, apreendemos um universo que pode ser distinto do criado pelo autor. E julgou poder transformar tudo o que pensava em poesia.
Esqueceu que este é o momento em que o homem remexe nas sombras lançadas sobre as paredes das cavernas e, mesmo não chegando à luz que lhe dá sentido, alcança a imagem e consegue, timidamente, se apropriar de seu significado. Perigosamente, próximo ao sentido. Consequentemente, próximo aos deuses.
A cada poema escrito, a cada imagem transposta, há um sentimento de frustração a ser assimilado, partilhado com o homem primitivo que, na noite, contempla as estrelas e tem medo do desconhecido, de uivos, gemidos, sombras que não se concretizam.
Para o homem, nas palavras, se revelam imagens que emergem quando se constrói um verso, socializam um sentimento que, a ser guardado, perde a razão de ser.
Esta é uma parte da maldição. Nunca poderemos estar plenamente realizados ao dar forma ao que é pura expectativa. Por mais que o autor exprima o que sente, sempre haverá algo a ser dito, deixando um quê de finitude - os deuses que se deleitam em nossa carência, brincando com nossos arroubos de estender as mãos, querendo chegar ao Olimpo.
Ao acordar, a mão ainda permanece estendida e, quase sempre, uma lágrima nos reconduz à mera condição de mortais.

quinta-feira, 10 de março de 2016

O Aprendizado - Um dia você aprende

De William Shakespeare

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes, não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobre que leva-se anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.
Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem da vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa - por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a ultima vez que as vejamos.
Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.
Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.
Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.
Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências.
Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai, é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.
Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.
Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.
Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.
Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado.
Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não para para que você o conserte.
Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!