domingo, 8 de julho de 2012

O dedo de Deus


Dos textos já publicados.
A árvore está sempre ali. De longe, posso ver suas folhas abanando. Abençoa quando eu passo. E ondula, numa suave despedida, quando o vislumbro ao longe. Durante o inverno, seus braços desnudos têm uma majestade inconteste. Durante a Primavera, seus brotos começam a projetar a sombra que lhe dá ainda maior aconchego.
Sempre a pensei como o dedo de Deus. Porque era uma árvore que não se estendia em linha reta em direção ao céu. Pelo contrário, levemente inclinada, dava a ideia de que indicava, muito mais do que impunha um caminho.
Tive este pensamento religioso quando vi uma outra cena, na mesma avenida dom Joaquim: um rosário. E um rosto. Serenamente triste. Esta era a imagem que me ficava quando, nas minhas caminhadas matinais, passava por aquela senhora, que andava sempre no sentido contrário ao meu, já vergada pelo tempo, olhos baixos, um rosário na mão e um balbucio nos lábios.
O que me dizia? Simples. Que aquela forma de oração, em que se repetem pai-nossos e ave-marias, era o momento em que, mesmo caminhando, a fazia mais próxima do seu Deus.
Quantas angústias, quantos problemas, eram deixados de lado, ou melhor, eram celebrados naquele momento?
Não creio que, nas vezes em que rezo o terço, ele tenha a força daquele olhar que é capar de serenar, mesmo na tristeza. Porque me diz que ali está alguém que vive um momento triste, mas não é de um ser triste.
No andar de minha caminhada, rezei por aquela desconhecida. E senti que ela passou a reconhecer-me: levantava os olhos e dava um bom-dia. Deus sabe o quanto alguma energia positiva, vinda de alguém que se faz cúmplice num momento de dor, é capaz de auxiliar, como o bálsamo, a doer menos e, até, ajudar a cicatrizar feridas.
E, no mesmo caminho, duas indicações sempre foram capazes de renovar minha vontade de rezar: o dedo de Deus, carinhoso, mas presente em minhas andanças; e uma presença orante dizendo que não importa o quanto as vicissitudes da vida parecem nos soterrar, há uma esperança. Na oração. Na presença. No ser, solidário. E com Deus.
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