sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Dois mil anos depois, "somos Lucas"

Texto publicado no Jornal da Catedral, em dezembro de 2015.

Até os anos 300, os cristãos tinham muitas preocupações e não estava entre elas a de fazer registros que ficassem para a História. Eram tempos difíceis em que sobreviver física e espiritualmente estava entre as prioridades, num tempo de perseguição, em que a religião daquela nova "seita" era considerada marginal e perigosa. Foi São Pedro quem pediu a São Marcos que fizesse o primeiro registro do que tinham vivido com Jesus. Depois, os demais evangelistas, cada um com suas características.
A partir do 1º Domingo do Advento - 29 de novembro, a Igreja Católica entra no Ano C, em que as reflexões são feitas predominantemente a partir do Evangelho de São Lucas. Nascido na Síria, de formação grega, percorreu um imenso caminho até chegar às portas de Jerusalém e sentar com São Pedro - designado por Jesus para liderar a Igreja que nascia; São Tiago - que teve forte liderança na Cidade Santa; e Maria, a fonte maior e que, por isso, muitos estudiosos chamam sua obra de "Evangelho da Mãe".
Sem ter conhecido Jesus, solteiro até o final de sua vida, com cerca de 84 anos, Lucas estudou Medicina que, em seu país de origem, era desenvolvida, pois confluência de pesquisadores que vinham de Roma, Grécia, mas também do Oriente e norte da África. Sua iniciação religiosa pode ter sido com um filósofo caldeu contratado por um dirigente romano que assumiu a educação do menino que demonstrava pendores para o conhecimento e a fé.
Peregrinou pelo mar Mediterrâneo em busca de respostas aos questionamentos que fazia em busca do conhecimento religioso, já tendo uma certeza: há um só Deus, já apregoado pelos Judeus, mas também presente na cultura dos caldeus e até em uma dinastia egípcia. A medicina era um jeito de servir, especialmente àqueles que eram marginalizados no atendimento da saúde. Então se propunha a chegar às fétidas e rejeitadas periferias das cidades e servir como médico de bordo de embarcações que, na época, eram latrinas em movimento por sobre as águas. Com todas as consequências de doenças e pestes.
Seu encontro com São Paulo, também um convertido depois da morte de Jesus, deu um novo rumo à sua vida. Paulo o convenceu a ir à Terra Santa e registrar um novo relato da vida de Cristo. Embora os cristãos da época tivessem sua preocupação focada nos "filhos de Israel", Paulo tinha muito claro e passou para Lucas a visão de que o Cristianismo era para todos os homens - universal.
Lucas, então, escreve para os gregos. Seu Evangelho tem a preocupação em mostrar a sabedoria de Deus pela encarnação, vida, morte e ressurreição. A beleza deste Deus solidário e que colocou em Jesus o parâmetro de homem ideal. Vai mais longe quando deixa clara a universalidade da oferta de salvação, marcando Jesus como redentor e salvador.
Lucas escrevia focado num público específico, mas tornou sua linguagem universal. É impossível não folhear suas páginas sem ter a nítida impressão de que se testemunha o encontro de alguém sedento por respostas e aqueles que conviveram com a fonte da Vida. Lucas nos representa quando faz memória de pessoas especiais que esperavam do Espírito um jeito de propagar a Boa Nova. Dois mil anos depois, "somos Lucas" querendo ouvir as palavras de Maria em ação de graças ou testemunhar seu último encontro como o Senhor.
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