sábado, 21 de abril de 2012

A mãe sentou à mesa

Hoje (sábado, 21), a mãe voltou a sentar conosco à mesa para o almoço. Fazia muito tempo que precisávamos servir aquelas doses quase homeopáticas – uma colher de arroz, um pouquinho de caldo de feijão, algum tipo de salada, uma parte da carne de frango – em uma bandeja, usando uma almofada e uma toalhinha como protetor para o peito.
A Vânia, minha sobrinha, almoçou conosco e perguntou se ela não chegava à mesa. Com a mania de reforçar a pergunta, também fiz a mesma coisa: “a senhora vai sentar na mesa?”. Olhar de carinho e deboche: “posso sentar na cadeira e à mesa?”
Talvez quem não conviva com um idoso e tenha sentido ele chegar ao fundo do posso, não saiba o quanto são saborosas as pequenas vitórias que vão mudando rotinas que, parecem, tornam-se cada vez mais difíceis, penosas e encaminhadoras do final.
O fato de fazer pequenas escolhas – entre uma fruta e outra, um tipo de pão e outro, usar a bandeja ou ir à mesa, deixar de utilizar a fralda geriátrica durante um período do dia – faze a diferença e alimenta novas esperanças.
Quando meu pai e minha mãe começaram a enfrentar uma fase mais difícil, a partir dos 85 anos, fiz uma opção: ficaria com eles, em qualquer situação, enquanto estivessem lúcidos, não importando suas condições físicas. O pai, infelizmente, um câncer abateu, mas a mãe tem uma madeira forte e, ao que tudo indica, ainda vai durar muito tempo.
O que as pessoas julgam que é um sacrifício, para mim acabou se tornando um exercício de solidariedade. No cuidado com uma pessoa, hoje, desapareceram toda e qualquer tipo de vergonha. Somente faço questão de que as atendentes respeitem aquilo que são situações em que o próprio paciente não admite. O resto é como plantar uma semente na esperança de que, num futuro, em momento semelhante, alguém faça o mesmo por mim.
Pequenas vitórias, grandes passos. Num final de semana, no aconchego do frio que chega, rezo a Deus para que me dê forças. A caminhada nem sempre é fácil, mas, ao longo dela, quando tudo parece faltar, há uma mão estendida em pedido de auxílio para reiniciar a caminhada e um sorriso em aconchego, no obrigado que já não precisa mais ser dito.

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