sábado, 14 de abril de 2012

Caminhando ao encontro do chamado


Ainda do livro "Remendos e Arranjos"
Encontrei o pequeno garoto em frente de uma janela. Olhava para a praça que havia do outro lado da rua. Perguntei:
- Pequeno menino, o que te chamou a atenção na praça?
Levou algum tempo para responder. Estava com as mãos postas embaixo da túnica e a única indicação que tive foi que direcionou o olhar.
- Mestre, vê aquelas crianças? Porque elas não têm as mesmas chances que a gente tem?
Voltou-se para mim. Havia angústia. E uma tristeza silenciosa naquele olhar.
- Porquê? Deus não é Pai? E se é Pai, como é que deixa que crianças fiquem abandonadas assim?
Segurei seus braços e o acolhi contra meu corpo, direcionando, novamente, o seu olhar para a rua.
- Tu sabes que eu não tenho as respostas que queres. Sabes também que posso te dizer um monte de coisas que não são a verdade. Seriam apenas para te enrolar. Mas uma coisa, eu sei. Elas não estão sozinhas. Deus é pai, é verdade, mas tem muito pai, pelo mundo, que não soube ser pai à imagem e semelhança de Deus. E somente soube atirar mais um filho no mundo. Aí não é só culpa de Deus. Mas de fazermos, com nossa liberdade, as coisas erradas.
- Mas e por que as crianças é que têm que sofrer com isto?
- Confesso que não sei. Eu confio que elas têm o seu Anjo da Guarda. Alguns dias atrás ouvi de uma Mestra que trabalha com crianças que vivem na rua, que eles mesmo se protegem, partilham o que recebem, vigiam uns pelos outros.
- Mas eles estão indefesos, nas ruas!
- Às vezes é o mal menor. Estariam pior ainda em suas casas.
- Mas a situação não pode mudar?
- Pode. E tu podes ajudar.
- Eu? De que jeito, Mestre?
- Tem muitos grupos trabalhando, inclusive, com menores abandonados, até aqui no Mosteiro. Porque não dedicas algum tempo para fazer isto?
- E o que é que eu faço?
- Um trabalho voluntário. Vais começar a aprender que não basta a gente ver que tem coisas erradas. É preciso ajudar a mudar.
- E o que a gente ganha com isto?
Tive que sorrir. Já olhando bem em seus olhos.
- A alegria de ver que ao menos alguns meninos saem das ruas, são alimentados, recebem educação, porque tu te importastes com ele.
- Isto é trabalho?
- Não, mas em muitos casos pode ser um bom caminho para descobrires a tua vocação.
- De que jeito?
- Lembras que tens duas orelhas e uma só boca. Então, aproveita e escuta bastante e fala pouco. Vais notar que, mesmo estes meninos, têm muitas coisas para ensinar.
- O senhor deixaria?
- Com certeza.
Ganhei um abraço. Um beijo. E saí dali com a certeza de que o pequeno Aprendiz acabara de encaminhar sua vocação. Não estava mais no mundo das idéias para descobrir qual será o seu caminho. Tinha já uma pequena estrada concreta para percorrer.
Afinal, será que não é isto que Deus pede para construir o mundo? Que apenas iniciemos por uma pequena estrada, que pode ir se ampliando quando respondemos ao seu chamado?
Bem que esta estrada poderia ser uma alameda. Uma grande alameda de acácias que pudesse levá-lo até o nascer do sol.

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