domingo, 4 de dezembro de 2011

Um inquietante momento de silêncio


Da série "arquivo", aos domingos apresento textos já publicados. Este é de março de 2003. Bem oportuno:
 O profissional que se pôs à minha frente parecia carregar o peso da humanidade. No entanto, tinha um problema bastante comum: cansara do discurso para o qual fora treinado. E cada vez que falava, sentia-se vazio, como quem está enganando o público para o qual está falando. E enganando muito mal, porque incapaz de convencer-se, conseqüentemente, de convencê-lo.
Nos cursos e palestras que realizo, em Comunicação Social, acabo chegando, em parceria com o grupo, a uma triste constatação: estamos empobrecendo o elemento mais importante, fundamental, do processo comunicativo: a palavra.
Repetida burocraticamente, a palavra passa a ser, apenas, dita à exaustão, desgastando seu sentido e tornando-se muito próxima de um mero ato mecânico. E este não consegue fazer com que se “descubra” (no sentido de retirar o véu que a preserva) e se possa saborear plenamente o seu sentido.
Para um determinado tipo de situação, a “fórmula” já está pronta, é chavão, e vem envolta em algum sorriso, cara compungida ou feição que nada demonstra, esperando que resulte num efeito previamente estabelecido.
Vejo que isto acontece com alguma freqüência entre aqueles que precisam utilizar o discurso religioso. A pura repetição de um ato não o transforma em rito, mas atende apenas a um suposto “tratado” com Deus: a “soma” de determinadas ações deveria resultar no “produto” esperado.
Este é um ledo engano: o rito tem seu valor em si. Não precisa de pregações alongadas, entediantes e, muitas vezes, desestruturadas, juntando elementos que vêm à cabeça do pregador, que alonga seu discurso por um único motivo: como não sabe por onde iniciou e por onde andou, também não sabe como terminar.
Triste e maltrapilho desejo! Brinquei uma ocasião, durante uma palestra, que acredito ser necessário “rezar pelo Espírito Santo” e não “rezar ao Espírito Santo”. Explico: a mesma crise de identidade no encontro do sentido das palavras faz com que se abuse do ato de pedir ao Espírito Santo para que faça uso de seus atributos. Um dos principais: a inspiração. Coitado do Espírito Santo! Um “burocrata do Senhor” que não consegue fazer ao menos a sua tarefa básica, que é a de preparar-se para a liderança, não deveria ter o direito de chegar a esta instância.
Então, qual é a solução. Para quem crê, é simples: a oração. E para quem não crê? Também é simples: o silêncio.
O silêncio precisa antecipar a palavra para poder dar-lhe substância e sentido. É assim que se evita encorpar aqueles vazios que vão ficando quando a repetição se torna rotina; o improviso, a regra; e a manipulação dos sentidos o caminho mais fácil para o fim de uma carreira de comunicador, seja ele religioso ou não.
Em cada uma das atividades, torna-se fundamental incorporar espaços de sanidade mental. São aqueles momentos em que podemos nos recolher ao silêncio e ordenar nossos conhecimentos, sentimentos e, mesmo, rezar.
O que mais impressiona é que somos capazes de elencar dezenas de argumentos para não encontrarmos estes momentos. Eles parecem supérfluos diante de rotinas pré-estabelecidas em que somos tragados pela avalanche de ações que são “urgentemente necessárias”, em nosso grupo familiar, atividade profissional, educativa ou, até mesmo, religioso.
Paciência. Conheço profissionais que enfrentaram a crise diante da palavra e entraram em desespero. Até silenciar e abrir o coração para a reflexão, a meditação e a oração, é um longo caminho, para o qual não existem fórmulas prontas. Cada qual tem que encontrar o seu. Mas ele precisa ser iniciado: com um inquietante momento de silêncio.
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