sábado, 17 de dezembro de 2011

Também sou pai


O Menino parou abismado diante da vitrine: ali estava o mais belo Presépio que já tinha visto. As figuras eram quase de tamanho natural: o pai, José, demonstrava serenidade; a mãe, Maria, a preocupação com o filho deitado no cocho de alimento dos animais; o menino, Jesus, com os braços e as perninhas erguidas. Perfeitos, quase, pensou, poderia se ouvir falarem.
Mas foi voltando até alguns anos atrás, quando nasceu seu último irmão. Também se encantara com aquela pequena criatura que se movia parecendo sem coordenação. Lançava os braços e as perninhas em todas as direções e tinha os olhos ávidos por acompanhar quem estivesse por perto.
Mas foi quando saíram de casa que se assustou. Seu pai o chamou a parte e foi taxativo:
- Tá na hora de tu cair no mundo.
Achou que não tinha entendido.
- Já tens 12 anos, podes te cuidar por ti mesmo. Aqui a gente já tem boca demais pra sustentar. Vai quietinho e pega as tuas coisas.
Pensou em procurar a mãe, pensou em tentar convencer o pai, mas ficou mudo. Sabia dos problemas da família e que ele era mais um fardo. Apenas pegou uma sacola com suas poucas coisas e foi saindo para a rua. Ainda de longe, olhou pela última vez a casa. Fazia tanto tempo!
Sentou-se na beirada da janela, encostou-se na grade enquanto olhava aquela família e ouvia música que vinha da praça. Ainda tinha lágrimas nos olhos quando se encostou à parede e foi resvalando para o sono. Não tinha pai, não tinha mãe, não tinha irmãos.
Foi então que sentiu que alguém o levantava e o abrigava em seus braços. Pensando se era realidade ou se era sonho, sentiu-se transportado pelo padre, que pensou:
- Depois da Missa de Natal, procurei tanto por este menino, mas parecia que tinha desaparecido. E ei-lo aqui. Minha vocação sacerdotal não me permitiu ter filhos, mas quem sabe possa dar uma vida e dignidade para este Menino.
Olhou para o céu: o rastro de luz de uma estrela cadente marcou o firmamento. Não, não era apenas um meteoro que caia, era a sua Estrela de Belém. E, nos seus braços, tinha o menino Jesus! Sorriu para Deus e pensou que agora sim, podia dizer: também sou pai!
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