segunda-feira, 19 de junho de 2017

Uma chama travessa

O melhor jeito de saber se as teorias a respeito das relações humanos são coerentes é cuidando de gente. Tudo que elencamos em manuais a respeito do que seja viver na inter-relação com o outro - ou mesmo em grupo - pode ser colocado em dúvida ao precisarmos de algo bem simples como atender as necessidades básicas do próximo.
Muitos sabem da minha formação. Durante muito tempo vivi com um único intuito: cuidar de mim mesmo e, quando necessário, esporadicamente, atender a alguém da família ou de nossas relações.
Não tendo família própria - ajudei a criar meus sobrinhos -  meus espaços sempre foram respeitados e criei minhas manias, que vão das coisas mais simples - me negar à atividade pela manhã, porque julgava, por direito, ser um espaço privado de silêncio. Ao mais complexo, como cuidados com a intimidade e privacidade.
Isto começou a se transformar quando precisei deixar de me preocupar comigo para entender que me coubera a missão ser cuidador. A partir de então, meu dia inicia pensando no que tenho que fazer para atender uma outra pessoa, até o final, quando a revisão se está tudo bem na casa termina por ver se ela já alcançou o sono dos justos.
A primeira medicação é em torno das 7 horas, depois, se tudo que é necessário da farmácia está à disposição das cuidadoras. Providenciar o almoço. Colocar e tirar da cama e do sofá. Acertar as medicações e as refeições, incentivando a que não desista, sabendo que apenas uma colher a mais a fortalece e dá ânimo.
Estou falando de dona França, minha mãe. Que, um dia, pediu que a chamasse de "mãe", direito que lhe cabia, pois a chamava de "dona Francinha". Também pedi a recíproca: cada vez que a acordo na manhã ou na sesta, dou-lhe bom dia ou boa tarde "minha mãe" e ela tem que responder de igual forma, terminando por "meu filho"!
O dia inteiro tem alguma coisa que precisa ser feito em função dela. Especialmente agora que está somente uma casquinha, mais claramente se mostra a energia do seu espírito. Algumas vezes falta-lhe forças para movimentar as mãos e mesmo responder, mas quando seus olhos se abrem, como disse a cuidadora Paula, "brilham".
Na despedida da noite, um anjinho recita o Pai Nosso, que abraça, com ele reza e beija. Recebo a benção de um "boa noite, meu filho". Contemplo seu rosto sereno, ao fechar os olhos: uma chama travessa que brinca com a Eternidade. Viveu intensamente e agora espera da vida o direito de se preparar para seu encontro com Deus. A fé lhe garante que está chegando o momento de, enfim, repousar em paz.
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