segunda-feira, 20 de junho de 2016

Inutilidade do envelhecer

Dois funcionários de uma empresa que atua no tráfego ferroviário urbano de São Paulo. Ela como manobrista, ele como controlador. Namoraram e resolveram casar numa estação de trem. Nenhuma novidade no Dia dos Namorados (12 de junho) quando, para o "show business" da televisão, o que importa é mostrar matérias de conteúdo humano, com amplo poder de empatia e, se possível, fazer chegar às lágrimas.
A noiva chegou à plataforma previamente preparada num trem, com padrinhos e sua corte, anunciando que iria até o altar acompanhada do pai. É então que as palavras desaparecem e as imagens fazem o efeito que mesmo os produtores mais experientes não esperavam: o pai era cadeirante, sendo empurrado pela filha, com toda a pompa e circunstância, para "levar" a noiva até o altar!
O padre Fábio de Melo brinca numa palestra que ao ficar velho espera que haja alguém que o coloque na rua, mas também alguém que o tire do sol. Fala do envelhecimento e do quanto é cansativo o papel que nos propomos desempenhar - e que os outros esperam de nós - de sermos permanentemente úteis. A velhice é o tempo da "inutilidade" - quando nos damos conta de que não podemos fazer tudo, por todos, todo o tempo. Então fica claro quem realmente nos amou e quem apenas nos usou!
Emociona ele dizer que "só nos ama, só vai ficar até o fim, aquele que, depois da nossa utilidade, descobrir o nosso significado". Acrescentando ser relativamente fácil descobrir quem vai ficar ao nosso lado no tempo de ocaso: "quem nessa vida já pode ficar inútil pra você sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora."
O casal era jovem e conseguiu uma grande cobertura dos meios de comunicação. Tudo fazia parte de um grande sonho, que a mídia fez chegar às casas numa noite de domingo. Uma grande produção rendendo muitos comentários, muitas lembranças. Mas a filha não abriu mão de que, consigo, no seu momento de maior glória, entraria um símbolo da "inutilidade": um idoso, cadeirante.
Fui à cata do vídeo que vira da palestra do padre Fábio. Do conjunto da obra, ficou ressoando em meus ouvidos a serenidade com que ele chegava ao final de sua pregação. Deixou o gosto de uma lição de vida, daquelas que despertam alguma coisa em nós que não se basta por um momento de espetáculo: "é assim que descobrimos o significado do amor. Só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim. Por isso eu digo: feliz aquele que tem ao final da vida, a graça de ser olhado nos olhos e ouvir do outro: "você não serve pra nada, mas eu não sei viver sem você".
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