quarta-feira, 9 de maio de 2012

Corredor das tropas

Tenho conversado, ultimamente, com pessoas que relembram coisas da história recente de nossas cidades que, infelizmente, se não forem registradas, haverão de se perder. Quando chegamos a Pelotas, em 1959, os limites da cidade (área urbana) praticamente terminavam no cruzamento entre a avenida Fernando Osório e XXV de Julho. Ali ficavam as três casas comerciais que deram origem ao bairro; "Três Vendas". Também era o fim da linha dos bondes. Dali em diante, a colônia.
Pois nós morávamos na "colônia". Nossa rua ficava quase dois quilômetros distante deste cruzamento. Mas havia algo interessante: primeiro que a XXV de Julho não era conhecida assim, mas como "Barbuda" (não me perguntem o motivo, porque não sei. Contam os maldosos que na entrada da rua havia uma certa senhora com um buço (bigodinho) bem declarado), por onde entravam na cidade as tropas de animais que seriam abatidos, industrializados e comercializados, aqui e no exterior.
A avenida XXV de Julho, a Salgado Filho, a São Francisco, mais a estrada à beira do canal que levavam ao Anglo (abatedouro) eram consideradas como "corredor das tropas". Animais de todos os tipos - bois, cabritos, cavalos - passavam pela área, alguns com o juramento de que somente eram vendidos para o exterior - como os cavalos. Mas quem prova?
O professor Silon morava à beira da "Barbuda", onde, durante muito tempo, ainda se conservavam os bebedouros, a uma certa distância, para minimizar a sede dos animais. Conta que, no final de novembro, a cena inusitada eram "os bandos" de perus, que também iam para o matadouro, para atender às demandas de final de ano. Tem sentido, mas não sei se foi verdade.
Do que me lembro eram os bois brabos que muitas vezes extraviavam e acabavam invadindo pátios e corredores. Era uma aventura. Mas também passou. Hoje até os nomes antigos foram sendo esquecidos. Mas ficam as lembranças, boas lembranças, que se apegam à vida e, embora passem quando esta geração passar, são nossas, como cada momento vivido como único e pessoal, dando cor e sabor ao presente e também às boas recordações.

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