sábado, 24 de março de 2012

Um banho de chuva


Do meu livro "Remendos e Arranjos"
Os primeiros pingos da chuva começaram a marcar seu ritmo no telhado. Logo, pequenos filetes começaram a rendar a cortina que esconderia o pátio. No primeiro trovão, o Aprendiz encolheu-se e arregalou os olhos. No segundo, correu para os braços do Mestre, que sentiu contra seu peito o pequeno coração pulsando assustado.
Esperou que ele se acalmasse e perguntou:
- Você não quer tomar um banho de chuva?
- Não, Mestre, eu tenho medo!
- Você tem medo da chuva?
- Não, Mestre, tenho medo do trovão!
- E você sabe onde está o trovão?
- Onde, Mestre?
- Muito, muito longe.
- E como é que o senhor sabe?
- Enquanto o raio não estiver perto, o trovão também não estará.
- Mesmo assim, Mestre, eu tenho medo.
- Mas você gosta do banho de chuva?
Um sorriso maroto.
- Claro. Claro que gosto.
- Então vamos tomar um.
- O senhor vai comigo?
- Vou até a área. Tire a sua capa. A roupa íntima será suficiente.
Despiu-se e segurou a mão do Mestre como uma garra. Ao chegar à área, os primeiros pingos que refrescaram seu corpo também iam libertando seu espírito do medo. Em poucos instantes, brincava no pátio do Mosteiro, correndo de um lado para o outro, pulando nas poças d’água, erguendo a cabeça e deixando a chuva massagear seu rosto, esgueirando-se embaixo dos telhados.
Quando voltou para junto do Mestre estava exausto. Mas feliz.
- Mestre, porque é que a gente tem medo?
- O medo vem daquilo que não conhecemos, ou que não conseguimos controlar. Quando sabemos o que é, já não há porque ter medo.
- Então eu posso tomar outro banho de chuva?
- Só quando você descobrir porque se deve olhar nos olhos de uma criança.
- Mas eu sou criança, Mestre, e não confio o suficiente no senhor?
- Como assim?
- Ora, se eu devo olhar nos olhos de uma criança, o quê é que o senhor encontra quando olha nos meus?
Estava começando a ficar difícil lidar com aquele aprendiz. Ele chegara num tempo em que não se limitava ao óbvio e começava a percorrer o caminho do conhecimento. Sinal de tormenta no horizonte. Mas que depois, em combinação com o sol deixasse surgir um arco-íris novamente.
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