Sábado postei comentário na página “Que livro estás a ler?”: “Recentemente, um amigo (o padre Michel Canez) provocou-me a recordar a obra do "Pequeno Príncipe", de Saint-Exupéry. Não sei quantas vezes o reli desde que o professor Jandir Zanotelli me apresentou, nas aulas de Filosofia, no 2o grau. Para entendê-lo, não basta classificar como obra destinada a crianças. É um livro para "crianças de todas as idades..." Despertou para revisitar, também, do mesmo autor, "Terra dos homens" e "Cidadela". Por serem anteriores, ajudam a entender a parábola do menino que ensinou a amar e despertou a nostalgia de todas as ausências…”
O suficiente para descobrir uma verdade repetida: a gente nunca revê da mesma forma a saga do menino perdido no deserto e o aviador que tenta consertar a pane no seu avião. Minhas postagens, como a que fiz quando uma escritora insinuou a tese do suicídio, no seu desaparecimento, fez com que buscasse entendê-lo no contexto em que a obra foi lançada: durante a 2ª Guerra Mundial - era o ano de 1943 - um ano antes da sua morte e dois antes do fim desta carnificina internacional. Com razoável condição financeira, pode buscar exílio por quase dois anos nos Estados Unidos, de onde lança ao mundo este que é um suspiro de humanidade.
As condições da Europa eram de miséria para a população civil. Ainda hoje, lamentam-se as mortes em combate ou das populações perseguidas (como judeus, ciganos e homossexuais…), mas pouco se fala dos períodos de fome passados em muitos países, também resultando em perdas de vidas. Pois é aí que se situa a simples frase da dedicatória, que pode ser a imersão numa análise sociológica:
“Peço às crianças que me perdoem por dedicar este livro a um adulto. Eu tenho uma desculpa séria: este adulto é o melhor amigo que eu tenho no mundo. Tenho outra desculpa: este adulto pode entender tudo, até livros para crianças. Tenho uma terceira desculpa: ele mora na França, onde tem fome e frio. Ele precisa ser consolado. Se todas essas desculpas não são suficientes, então eu quero dedicar este livro à criança que este adulto já foi. Todos os adultos eram crianças, primeiro (mas poucos deles se lembram dela).” O amigo era escritor e ficou no país ocupado, com os que restaram, em absoluta carência ou desejosos de migrar para outras terras.
O sublime do texto é pedir às crianças para corrigir a dedicatória: “Para Léon Werth, quando ele era ainda era criança…” Como muitas obras que se propõem a ser bálsamo nas feridas da humanidade, Exupéry apresenta a realidade em que trabalhava no que sempre amou - a aviação. Com a crueza de uma guerra que o obrigou a deixar o serviço à população civil para fazer prospecção de tropas alemãs. As águas do Mediterrâneo se abrindo quando caiu foi a porta em que o Pequeno Príncipe o esperava. O motivo do encontro? Elementar: Pedindo orientação aos astros ou migrando com os pássaros, a busca do voo perfeito sempre os conduziu no caminho para as estrelas…
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