quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Bênção, pai!

As cores começavam a desaparecer enquanto o sol se punha no final de tarde. O branco da fumaça do fogão à lenha singrava os céus, numa prece silenciosa que se perdia no infinito. O silêncio somente era cortado pelas machadadas cadenciadas que interrompiam o silêncio da Primavera, na certeza de que a lenha era boa e que o friozinho da noite se transformaria em aconchego na cozinha.
Ao transpor a porta, o lampião sendo aceso e as crianças, brincando no chão, ao redor da mesa, erguiam os olhos: “bênção, pai”. Olhar de felicidade sobre os meninos que se divertiam com seus bois, cavalos e ovelhas feitos com pedaços de milho, onde as pernas eram pequenos gravetos e os olhos os grãos de milho, feijão ou arroz: “Deus te abençoe, meu filho”.
É a única lembrança que tenho do interior de Canguçu, onde passei minha infância até os quatro anos. Talvez um pouco misturado com nossas voltas, onde meus segundos pais: Tio Ciano e Tia Toninha repetiam o mesmo ritual, que incluía ligar o rádio a pilhas e ouvir os programas tradicionalistas de rádios da capital.
A noite terminava relativamente cedo, pois estávamos cansados das muitas atividades diárias. Havia ruídos da noite transformados em acalentos para nossos sonhos, que começavam a se esvanecer ainda na madrugada ao primeiro canto de um galo, ou o início da atividade dos pássaros.
Ir para a cozinha significava encontrar uma bacia pronta para a primeira higiene, um rosto amigo sorrindo com um bom dia e a certeza de que, nesta etapa da vida, estávamos protegidos e dispensando qualquer pressa em enfrentar o futuro: o presente era uma bênção que Deus dava para a inocência daqueles que não precisavam de mais nada para, apenas, ser feliz!
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