quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Dona Zilda Arns

Se já o terremoto num país castigado pela pobreza como o Haiti se transforma numa grande desgraça, fica maior ainda quando leva a uma perda insuperável como a morte de dona Zilda Arns. Uma mulher marcada pela simplicidade com que se apresentava nas periferias e nos centros de poder, mas também com a singeleza de um olhar impregnado de carinho com que tratava crianças e adultos carentes que se achegavam a ela.
A firmeza em sua pregação e em seu testemunho vinha da convicção de que as mazelas enfrentadas por crianças e idosos devem ser enfrentadas com ações preventivas, iluminadas pela fé, com as mãos imersas na realidade que enfrentou e ensinou a centenas de voluntários a fazerem o mesmo.
Nunca tive oportunidade de conversar pessoalmente com dona Zilda Arns, mas ouvi palestras suas e a acompanhei em algumas aparições públicas. A médica pediatra e sanitarista não se deixava envolver nem pela sedução do poder e sequer pela sedução da mídia. Lembro uma ocasião em que ela foi a um destes grandes programas de televisão arrecadando recursos para entidades de assistência e o apresentador disse se sentir orgulhoso porque os recursos ali recolhidos mantinham a Pastoral da Criança. No mesmo instante, ela não teve dúvida e desmentiu o apresentador, dizendo que os recursos repassados significavam 30% daquilo que mantinha suas atividades.
Seu exemplo estimulou uma legião de pessoas que leva ações de prevenção da saúde em praticamente todas as periferias do Brasil. Sem a intenção de ações espetaculares, investiu na recuperação nutricional das crianças, diminuindo índices de mortalidade assustadores. Felizmente, existem muitas “Zilda Arns” que vão continuar o trabalho de formiguinha: silenciosamente, atuando na recuperação da infância e dando uma nova perspectiva àqueles que poderiam ter morrido já nos primeiros meses de vida.
Dona Zilda Arns foi uma grande mulher. Um exemplo a ser seguido, pois um caminho iluminado e que foi percorrido sempre na perspectiva do outro. Esta é uma luz que não se apaga, porque tem a força do Divino, de alguém que, superados todos os entraves, deu sentido ao próprio existir.
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