sábado, 24 de julho de 2010

Uma boneca e uma prece

Estava jogada ali fazia um bom tempo. Ninguém voltou para buscá-la. Esquecida, depois de todo o carinho que deu e recebeu, de afagos e juras. Ficou sobre o travesseiro que já não seria utilizado. Quase sempre é objeto da cobiça de crianças, mas conheci pessoas idosas que também alimentavam recordações, transferiam sentimentos, transformavam um objeto em algo mais do que humano, quase divino.
Uma pequena boneca de pano, as mãozinhas juntas e um chapéu ao estilo germânico. Ao apertar suas mãos, inicia a prece do Pai Nosso. A doença havia feito com que ela fosse parar no Hospital, acompanhando a dona. Quem sabe quantos momentos de dor foram superados pelo olhar carinhoso da boneca que, apenas, podia, em troca, acolher juras, confidências, e fazer uma oração tão simples: “pai nosso, que estás nos céus...”
Mas agora ficou para trás. Só pode significar que sua dona já não consegue mais aceitar a sua silenciosa solidariedade. Deixou no passado, possivelmente, também as dores, tristezas e desilusões. Em outro plano, encontra todas as compensações que lhe foram negadas e a companhia que tanto desejou.
Também dei bonecas destas para pessoas amigas. Mas nunca esperei encontrar uma nesta situação. O ato de presentear é um afago, para a pessoa saber que não está sozinha, deixa-se um sinal de que estaremos juntos, por maiores que sejam as dificuldades, mesmo que não fisicamente. Sempre me surpreendi quando dava uma delas a pessoas idosas. O sorriso de uma criança, ao receber, é de satisfação pelo agrado, mas, o de um idoso é, entre lágrimas, de quem espera mais do que apenas um presente, uma presença de carinho.
Pode-se dizer que uma boneca é apenas uma boneca, um objeto que, algum dia, será descartado. Será? Aquela, no travesseiro da enfermaria, carregava a afetividade de uma pessoa desconhecida que deve, muitas vezes, ter unido as mãozinhas para murmurar uma prece: ouvida por Deus, que serenou um coração e o recebeu como o suave perfume das almas capazes de transcender o objeto e dar-lhe um sentido na oração.
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