sexta-feira, 18 de setembro de 2026

As mãos que não se fecham

O Fio da Meada:

É um dorama (kdrama, como quiserem), uma novelinha asiática. Na estrada de um país em guerra, o carro do casal atravessa o silêncio e o lixo. Pessoas recolhem restos de comida como quem cata pedras preciosas. E a ficção vira espelho. A mocinha desce com o que restava nas mãos e uma procissão silenciosa marcha em sua direção: fila ordenada, resignada, como se a fome ensinasse uma etiqueta que o mundo nunca lhes ofereceu. O carro se esvazia, cada migalha é entregue, e quando acaba ainda sobra gente. Esperando a vez que não virá.

O primeiro da fila é um menino, com a irmã ao lado. Mãos estendidas, vazias, sem possibilidade de conseguir o que já não existe. As mãos da protagonista se fecham em frustração; as das crianças, devagar, no conformismo com a dor. Não choram, nem reclamam. Cerram os dedos e aprendem que a palma estendida nem sempre encontra o que busca. Esse gesto — duas mãos que se fecham por razões diferentes — é a imagem que fica. A que dói.

A seguir, num baixo astral que não precisa de explicação, o casal contempla oliveiras brancas no horizonte. Uma miragem, quem sabe. Ou
o único lugar onde a cor da paz resiste à poeira da guerra. A função dele é desarmar bombas. Ela descreve as atrocidades como repórter. E a ficção faz o que sabe de melhor: não dá respostas, obriga a perguntar para que serve testemunhar, registrar, desarmar, se a fila não acaba e as mãos se fecham.

A série não para por aí. Num outro momento, uma criança refém aparece com uma bomba amarrada ao corpo. Na luta por salvá-la, o militar vê flores no chão e lembra que deixou o garoto fugir de uma área militar onde colhia margaridas com outras crianças. Agora, elas jazem em meio às pedras. O soldado as recolhe, coloca nas mãos dele e garante que não vai desistir de salvá-lo. Para aliviar a tensão, pergunta: "Você sabe cantar?"

A resposta não está em gestos heróicos, mas na persistência: na mão que desce do carro, na palavra escrita, na flor entregue a criança com bomba amarrada ao corpo... A série A Oliveira Branca está nos streamings e, em algum momento, deixa de ser entretenimento. Vira oásis. Aquilo que a ficção oferece quando a realidade pesa demais: a lembrança de que ainda é possível sentir indignação. De estender a mão mesmo sabendo que ela voltará vazia. De não deixar que as nossas se fechem no conformismo de uma existência sem sentido…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/0zwxiYQ_LGg)

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