Janelas do Tempo:
Finalizo a tríade de Maha Akhtar, com o livro Mel e Amêndoas, mergulhando na rotina de Mouna Al-Husseini, que administra um salão de beleza em Beirute. Mais do que um espaço de estética, o salão funciona como um santuário — um refúgio onde seis mulheres se reúnem para compartilhar suas vidas. O pano de fundo continua sendo o Líbano, devastado pela histórica tensão entre seu país e Israel.
Mouna é figura central, desafiada a equilibrar a sobrevivência do negócio com a pressão da família — especialmente da mãe, que tenta impor um destino tradicional (o casamento) que Mouna se recusa a aceitar. O livro entrelaça a resiliência dessas mulheres que, entre cortes de cabelo e conversas, trocam relatos sobre solidão, perdas, amores interrompidos e a busca pela dignidade em meio a uma realidade que muitas vezes insiste em negá-la.
Cada uma dessas amigas carrega cicatrizes, físicas ou emocionais, decorrentes dos conflitos que moldaram sua terra. Diferente das grandes crônicas de guerra, Akhtar utiliza o salão de beleza como um arquivo. Ali, a história não está nos livros de História, mas na voz de quem viveu o trauma. Uma reflexão poderosa sobre como o cotidiano — o espaço, o encontro, a conversa — é onde a humanidade sobrevive às suas próprias tragédias.
A luta de Mouna contra o destino que a mãe deseja para ela (o casamento como única via de segurança) é um tema central, que ainda perpassa muitas sociedades. É o confronto entre o tradicionalismo patriarcal e a busca pela autonomia feminina. Mostra que a guerra, além de destruir cidades e sonhos, também tenta engessar vidas e vontades.
Pode-se até dizer que há algo de poético em encontrar beleza e cuidado em um ambiente marcado por conflitos que a população não criou e, sequer, desejou. O título, Mel e Amêndoas, evoca sabores e aromas que servem de contraste à dureza dos relatos das seis protagonistas. Ressoa com a própria busca por criar materiais aprimorados e esteticamente cuidados: a escolha pela beleza, então, acaba se tornando um ato de resistência contra o caos e a solidão…
(Revisão e imagem: Gemini)

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