terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Envelhecer em silêncio

Um dos equívocos de quem lida esporadicamente com idosos é achar que fazer companhia equivale a manter a pessoa ocupada com conversas ou atividades. O silêncio do idoso é o jeito introspectivo de recarregar suas próprias energias e dizer que precisa de presenças amigas, não de quem se angustia quando há vazios de palavras. Muitas vezes quer apena sentar com alguém para observar o movimento da rua.
Recentemente, disse que depois de fazer graduação, especialização e mestrado, tinha pulado o doutorado para fazer um PHD em envelhecimento. Acompanhei meu pai até falecer aos 85 anos e, agora, minha mãe, chegando aos 92.
O aprendizado se dá a cada dia. Não há receitas prontas. Mesmo as receitas do médico passam pelo crivo do possível: medicação que não surte o efeito esperado, alimentação que não cai bem, atividade que ontem era prazerosa mas hoje já não é.
Entre ouvir, entender e contextualizar a resposta, há uma carga de história a ser respeitada, assim como a necessidade de que o idoso saiba que é, ainda, protagonista da própria vida. Que não é apenas um resto de gente com dificuldade de andar ou numa cadeira de rodas, sem vontade própria.
Engraçado quando as pessoas perdem a noção e atropelam o idoso – respondendo ou falando no lugar – ou perguntam a outros o que deveriam questionar diretamente. Quando querem saber: “ela tá bem?”, digo que é velha, mas não é surda e nem gagá. Portanto, em plenas condições de responder.
A sociedade não sabe conviver com a doença e a velhice. Não conheço aqueles que valorizam o idoso por sua experiência e sabedoria. O que se vê é - ao se prolongar uma doença ou o idoso durar mais - menos pessoas, amigos e familiares, ficarem à sua volta.
Ao se precisar do controle remoto para zapear, pois não se pode perder tempo, a doença e a velhice se transformam no tempo da inutilidade. Reciclar este pensamento exige desprendimento e aprendizado de solidariedade que não está em manual de relações humanas.
O direito de envelhecer em silêncio incomoda, mas dá a certeza de que foram momentos únicos: a natureza oferece a chance àquele que é cuidado de saber efetivamente quem o amou. Ao cuidador, a descoberta da própria finitude. De que, no dia a dia, alimentar a esperança de um idoso significa não abrir mão de quem, hoje fragilizado, um dia ajudou a dar sentido às nossas próprias vidas.
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