sexta-feira, 17 de julho de 2026

A instrumentalização da fé e o marketing eleitoral

O Fio da Meada: 

A estratégia de branding político contemporâneo (a gestão estratégica de uma marca) tem incorporado elementos da linguagem religiosa como ferramentas de persuasão. Esse fenômeno consiste na
adaptação de símbolos, terminologias e valores cristãos para o contexto do marketing eleitoral. Seu objetivo é consolidar as possíveis bases de apoio, especialmente em lugares (os espaços religiosos) onde as pessoas estão sensíveis ao apelo de seus líderes.

A transformação de valores éticos — tradicionalmente fundamentados no cuidado ao próximo e na sobriedade — em ativos de marketing político/partidário ocorre por meio da descontextualização dos ensinamentos básicos do Cristianismo. A mensagem, originalmente voltada à transformação interior e ao serviço (especialmente a prática da caridade), é convertida em um instrumento de validação de projetos de poder.

Se muitas vezes, para as pessoas mais simples que frequentam os templos, as doutrinas já são complexas e de difícil entendimento, agora passam a ser utilizadas para conferir legitimidade a candidatos ou siglas específicas. Consequentemente, o conteúdo ético da crença é subordinado às demandas de competitividade eleitoral, o que altera a natureza da mensagem espiritual, convertendo-a em um produto voltado para o consumo do pretenso eleitorado religioso.

O impacto dessa estratégia é a polarização, visto que a fé, ao ser integrada à dinâmica partidária, perde a capacidade de atuar como elemento de convergência e passa a ser operada como divisor de grupos. O olhar por sobre as campanhas eleitorais recentes, no Brasil, mostra que a autonomia do espaço religioso, em muitos casos, foi suprimida diante de estratégias eleitorais. A contaminação virou promiscuidade. No frigir dos ovos, perdem todos: o meio religioso, porque se contamina com a descrença da política partidária. E a Política (sim, com P maiúsculo) porque não consegue sustentar a sua vocação de serviço ao cidadão e ao bem comum.

(Revisão e imagem: Gemini)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

O ritual do amargo

 Quartas com gosto de poesia:

​A água chia, avisando o ponto.

Não é fervura, é calor que abraça a erva,

desperta o verde que dormita no escuro,

Acalma a manhã que no horizonte observa.



O primeiro gole é batismo do silêncio.

O gosto amargo que limpa o pensamento,

enquanto a mão, num gesto repetido,

ajusta a bomba e serena o tormento.


Um poço de lembranças no fundo da cuia:

Sabendo que o que se doa, sempre retorna.

O calor renova a próxima vertente,

O amor é libertado e ao peito torna.


​Beber o tempo se faz uma ciência.

Rito que desconhece o que seja a pressa,

onde é possível encontrar o Infinito,

Tornando cada gole um ritual de promessa.


(Revisão e imagem: Gemini)

terça-feira, 14 de julho de 2026

Meu livro (ebook): O Aprendiz e o Mestre

 Meu livro:

Um convite ao silêncio e à descoberta

Queridos amigos, queridas amigas,

Ao longo dos últimos tempos, tenho mergulhado em reflexões sobre os encontros que dão sentido à caminhada de cada um de nós. Hoje, compartilho contigo um pouco do resultado desse processo: meu livro, um ebook, "O Aprendiz e o Mestre: Crônicas Contemplativas".

Não é um manual de lições, mas sim um espelho da experiência de quem já percorreu longos caminhos e a esperança de quem, com coragem, inicia sua própria travessia. Entre o silêncio das montanhas e os gestos simples do dia a dia, descobri que somos, simultaneamente, quem ensina e quem aprende.

Espero que estas páginas possam ser, para ti, um convite à pausa, à escuta e ao reencontro com o que há de essencial em nossa própria natureza. É um presente de coração, para que possamos caminhar com mais leveza.

Convido a que leias. Mas também a que compartilhes com teus amigos, familiares, conhecidos…

📖 O Aprendiz e o Mestre

Que a leitura te guie, também, rumo à tua própria alameda de acácias...

Com o carinho do Manoel Jesus

sábado, 11 de julho de 2026

O doce perfume do pessegueiro

Crônica Poética:

As folhas estavam tenras, delicadas como um primeiro carinho, quando um galho tímido alinhou seus brotos, na expectativa de que, juntos, explodissem em flor. Na perfeição do efêmero, guardou sua beleza para eclodir no cacho que embeleza o dia e marca a noite com o seu perfume.

O tempo cumpre sua sina e transforma o botão em fruta. A pele, antes aveludada, agora ganha tons avermelhados sob a luz do sol. O ciclo segue um rito que a terra compreende, enquanto o pomar observa a mudança silenciosa de cada estrutura, preparando-se para o momento em que vai saciar o prazer de quem se senta à mesa.

O perfume atravessa a janela e alcança a varanda. Invade o ambiente, liberta-se da cozinha onde se misturou ao aroma do café. A presença marca a transição das horas, criando laços entre o que floresce lá fora e o que se organiza aqui dentro, onde os sentidos se fundem aos livros e às notas de rodapé.

Na colheita, o fruto cede ao toque. Num balaio que guarda a lembrança da primeira flor, resta o aroma, como marco da estação. O galho descansa, cumprindo o seu papel. E a natureza reinicia o próximo ciclo. O milagre da vida, guardando na pele o perfume da flor; na carne, o gosto que escorre pelos lábios e, no guardião da semente, a certeza de que a eternidade é somente o tempo de voltar a primavera…

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata

Janelas do Tempo: 

Publicado entre 1949 e 1954, O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata, permanece como um dos marcos fundamentais para que se compreenda a sensibilidade japonesa do pós-guerra. A narrativa situa-se em Kamakura e acompanha Shingo Ogata, um homem de 62 anos que, diante do declínio físico e da desagregação dos laços familiares, passa a escutar um som vindo da montanha — um presságio, ou talvez o eco de sua própria finitude.

Este livro integra uma leva recente de literatura oriental que se tem o privilégio de explorar no Brasil. A leitura exige um exercício de paciência: é preciso aprender a decifrar os meandros de uma escrita que não se apoia no clímax, mas na contemplação. É um convite para compreender o que não é dito, o silêncio que pontua as relações e a importância do vazio na construção narrativa.

Um ponto central na obra é a relação de Shingo com sua nora, Kikuko. Diferente de uma interpretação que buscaria elementos puramente eróticos ou comportamentais — algo comum sob uma lente ocidental — Kawabata apresenta algo mais complexo:

  • Sublimação: O interesse de Shingo por Kikuko não é uma paixão vulgar, mas a busca por beleza e pureza em um cotidiano marcado pela aridez.

  • Contenção: A figura da nora torna-se um refúgio estético. O desejo de Shingo é latente e contido; é a melancolia de quem, aproximando-se da morte, ancora-se na juventude e na integridade de Kikuko para lidar com a transitoriedade de todas as coisas e da sua própria humanidade.

Kawabata ensina que a vida doméstica, aparentemente banal, é onde residem os maiores dramas. Ao ler O Som da Montanha, não se está apenas lendo uma história japonesa da década de 50, mas sim treinando o olhar para perceber a fragilidade das relações humanas e a força do que permanece oculto naquilo que, por educação ou pudor, prefere se manter em silêncio.

(Revisão e imagem: Gemini)

O Reino de Jesus x “projetos de poder”

 

O Fio da Meada: 

A doutrina cristã estabelece uma distinção fundamental entre
o Reino de Deus — focado na transcendência, na transformação do indivíduo e no amor ao próximo — e os sistemas de governo humanos, que lidam com a gestão do poder temporal e as leis civis. São fronteiras bem distintas, em tese, mas que, na prática, quando são ignoradas ou intencionalmente dissolvidas pela retórica partidária, instauram uma confusão que prejudica a integridade da fé assim como o exercício da cidadania.

O equívoco central reside na tentativa de conferir um selo de sacralidade a projetos políticos falíveis. Ao tratar a plataforma de um candidato ou a agenda de um partido como extensão da vontade divina, o discurso religioso perde sua força profética e libertadora. A fé, que deveria oferecer uma perspectiva crítica e de acolhimento, acaba aprisionada na lógica da eficácia eleitoral, tornando-se tão efêmera e mutável quanto as próprias instituições humanas.

O exercício da cidadania, focado na justiça, na equidade e no bem comum, ocorre em uma dimensão secular. É um terreno de debates, de busca por consenso e de administração de recursos públicos. A esperança cristã, por sua vez, habita uma esfera que transcende sistemas eleitorais. Quando o cristão confunde a lealdade ao Reino de Deus com a lealdade a siglas partidárias, ele desloca o foco da missão original: a defesa dos vulneráveis e a busca pela dignidade humana, independentemente de quem ocupa o poder.

No limite, essa confusão cria um cenário onde a Política (como já disse, com P maiúsculo), vocacionada ao serviço ao cidadão, é reduzida a um embate ideológico em nome de um “Deus” feito à imagem e semelhança de quem deseja vender um suposto projeto de “salvação”. Os “milagres” anunciados não se sustentam quando são os mesmos “protagonistas” que repetem “juras” em busca de um novo mandato e de manter seus benefícios, que ficam distantes da vida do cidadão comum.

Para o fiel, o desafio consiste em participar da vida pública sem abdicar da autonomia da sua consciência e sem transformar a espiritualidade em um apêndice do Estado ou de projetos de poder. A lealdade ao Reino de Jesus (aquele mesmo que defendeu o “amai-vos uns aos outros” com a própria vida) exige que se reconheça, com sobriedade, que nenhum governo humano é o objetivo final da jornada de um cristão. No entanto, a política é o caminho para a realização humana e social que tem sido sonegada ao eleitor…

(Revisão e imagem: Gemini)

terça-feira, 7 de julho de 2026

O mapa que encobre meus olhos

Quartas com gosto de poesia:



Não é preciso motivo para seguir viagem, 

Para esquecer o tempo que não sei medir

Me livrar de todos os pesos inúteis 

Que insisti em carregar antes de partir.


Quando meus calçados estiverem gastos, 

A roupa puída pela marcha alquebrada

Ainda assim, meu corpo exaurido 

Não vai se sentar à beira da estrada.


Se a distância mostra que andei demais, 

E o suor turva os olhos em profusão

A secura dos lábios vira em ferida, 

Igual àquelas que carrego no coração.


A estrada é longa e nem sempre se encontra sentido, 

Desafia quem busca por um porto de destino

Pois o mapa que hoje encobre os meus olhos 

Tem o traçado da dor e do meu próprio desatino


(Revisão e imagem: Gemini)