sexta-feira, 23 de outubro de 2026

As Luzes de Setembro, de Carlos Ruiz Zafón

Janelas do Tempo

Publicado em 1994, As Luzes de Setembro encerra a chamada "Trilogia da Névoa" de Carlos Ruiz Zafón, romance que transporta o leitor para a atmosfera enigmática da costa bretã no final dos anos 1930. A narrativa acompanha a família Saunders — a mãe, Simone, e os filhos, Irene e Dorian —, que recomeça a vida em uma vila litorânea após aceitar o convite para trabalhar na mansão de um excêntrico e recluso fabricante de autômatos. No entanto, o idílio costeiro logo se dissolve diante de segredos sombrios do passado que começam a vir à tona, transformando a pacata localidade em um cenário de suspense e perigo iminente.

O ponto de inflexão da trama ocorre quando os jovens Irene e Dorian se veem envolvidos com o misterioso faroleiro e descobrem a existência de Lazarus, o dono da mansão, cuja trajetória está tragicamente entrelaçada com a de um ser enigmático e sinistro conhecido como o Cain. Essa entidade, dotada de traços sobrenaturais e de uma crueldade calculista, manipula as sombras e os desejos mais profundos dos moradores em troca de pactos sombrios. A partir daí, o romance acelera o ritmo em uma sucessão de revelações que testam a coragem dos protagonistas, explorando temas caros ao autor, como a inocência perdida e o peso das escolhas morais.

Sob o aspecto estilístico, Zafón demonstra sua singular maestria na construção de atmosferas góticas e na fusão entre o realismo histórico e o insólito. A ambientação marinha, marcada por nevoeiros densos, marés violentas e o som constante das ondas, funciona como uma extensão psicológica dos personagens, intensificando a sensação de isolamento e claustrofobia. O uso de autômatos e engenharias mecânicas como elementos centrais da narrativa não apenas homenageia a tradição do romance fantástico, mas também serve como metáfora para a fragilidade da condição humana diante do destino e da obsessão.

No plano temático, a obra aprofunda a transição melancólica entre a infância e a maturidade, retratando o momento em que a ingenuidade cede lugar à dura compreensão das complexidades do mal. Os laços familiares e a força do primeiro amor surgem como as únicas trincheiras capazes de resistir à corrupção moral personificada pelo antagonista, conferindo um tom humanista à narrativa de suspense. Zafón reafirma, assim, a capacidade da literatura juvenil e fantástica de dialogar com questões existenciais profundas, oferecendo uma leitura que cativa tanto pelo mistério quanto pela densidade lírica de sua prosa.

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"A obra aprofunda a transição melancólica entre a infância e a maturidade, retratando o momento em que a ingenuidade cede lugar à dura compreensão das complexidades do mal."

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As Luzes de Setembro consolida-se como uma leitura essencial para compreender a gênese do universo literário do autor espanhol, antecipando traços que viriam a consagrar obras-primas posteriores. Embora dialogue diretamente com os cânones do romance gótico tradicional, a narrativa mantém uma voz própria ao equilibrar o lirismo nostálgico com o ritmo ágil do suspense moderno. Trata-se de um livro que cumpre com excelência a proposta de encantar e inquietar o leitor, deixando uma marca duradoura na memória afetiva daqueles que cruzam os caminhos sombrios da costa da Bretanha.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/dmqlmjbXcak)

Pelo Bem do Brasil

O Fio da Meada:

​O cansaço e a desilusão com os rumos da política levam muitos brasileiros a cogitar pela abstenção no segundo turno das eleições, marcado para o dia 25 de outubro, acreditando que a multa por não comparecer é irrisória e que o voto perdeu o sentido. No entanto, ficar em casa é um erro que apenas abre espaço para que outros decidam o futuro de todos nós, enfraquecendo a voz coletiva e a representatividade social do cidadão.

​A urna não representa apenas uma obrigação burocrática, mas sim a ferramenta mais poderosa de expressão cívica que possuímos para transformar a insatisfação em mudança real. Abster-se é abdicar voluntariamente do direito de cobrar, fiscalizar e exigir melhorias efetivas dos governantes eleitos. Ausente na votação, perde-se um direito básico: cobrar do eleito uma estrutura que mantenha com dignidade, especialmente, aqueles que têm mais dificuldades de sobreviver.

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"Um país justo não é do Lula ou do Bolsonaro, mas de todos nós que ainda acreditamos em dignidade e respeito, independente da posição partidária de cada um."

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​Um chamado especial se dirige aos idosos que tanto trabalharam e contribuíram na trajetória deste país, pedindo que tenham, agora, sabedoria e deem exemplo de cidadania. Seu voto ecoa uma história de vida respeitável, servindo de farol para as novas gerações que observam o cenário nacional. A desobrigação do voto facultativo não lhes dá o direito de se omitirem. Ainda mais, em tempos de polarização, espera-se que deem o exemplo como agregadores e não fomentem divisões nefastas.

​Votar não significa apenas escolher preferências partidárias isoladas, mas pensar no bem comum e na qualidade de vida de todos os cidadãos. Cada voto depositado atua como um tijolo indispensável na construção do país que se deseja legar aos nossos filhos e netos. Votar não é uma questão de certo ou errado, desde que seja feito com convicção. No entanto, omitir-se é um ato de covardia de quem abre mão da própria cidadania.

​Pelo bem do Brasil (e de cada um de nós brasileiros), neste domingo, dia 25, faça valer a sua voz e supere todo e qualquer desalento, toda e qualquer decepção que tente desestimular a sua participação democrática. Mesmo que não faça parte das facções que se instalaram no país, vá às urnas pensando na nossa terra, na nossa gente e na esperança de dias melhores, de que nem tudo está perdido. Lembre que um país justo não é do Lula ou do Bolsonaro, mas de todos nós que ainda acreditamos em dignidade e respeito, independente da posição partidária de cada um.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/5Dend_91y44)

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

As vozes que não ouço mais

Quartas com gosto de poesia:

Tenho medo do silêncio 

Que habita as minhas recordações. 

É um poço profundo onde mergulham

As vozes que me abandonaram.

Eco de um passado

Que teima em roubar presenças

Para transformar afetos em saudades.



Além das vozes, desaparecem 

Risos e sorrisos que abençoaram meu dia a dia.

Na vida plena em que o futuro e suas ausências 

Parecia distante e inatingível. 

Um abismo em que 

o tempo, aos poucos traga as memórias.


Resisto em deixar que rostos esvaneçam,

Corpos se tornem etéreos,

Vozes e risos atormentem meus sonhos

Com o despertar dolorido

 E uma lágrima sentida.

A certeza  de que nunca mais estarão 

Ao alcance dos meus abraços…


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/4iz1AMmOOMk)

sábado, 17 de outubro de 2026

No fundo da geladeira

Crônica Poética:

Achei engraçada a recomendação de que não se guardassem coisas perecíveis na porta da geladeira, como frios e manteiga, por exemplo. O fato de se abrir constantemente a porta faz com que a temperatura oscile. O melhor é colocar o item numa prateleira interna, bem no fundo. A conversa surgiu quando se falava a respeito da conservação da manteiga em outro lugar durante o inverno.

Não tenho dotes culinários e, morando sozinho, preciso aprender com familiares e amigos a gerenciar a casa. O bom é que se ouve de tudo. O melhor é não discutir: se a dica for boa, basta experimentar. É o que tenho feito. Sempre briguei com a manteiga que acaba ficando gelada demais — ou, como diziam os antigos, “empedrada”. Havendo um armário em lugar abrigado, de temperatura amena, é um fato: a conservação acontece sem que seja preciso uma britadeira para separar um pouquinho para o pão.

Fiquei pensando que isso se assemelha aos nossos sentimentos, aos nossos amores e às nossas dores. Sempre que ficam expostos, correm os riscos da instabilidade. Preservá-los no “fundo da geladeira”, ou “num armário climatizado”, pode ser o melhor jeito de protegê-los das intempéries passageiras.

As mesmas reações que o tempo nos torna capazes de contemplar com a serenidade de quem já não tem pressa. Não há mal algum em resguardar emoções em um ambiente abrigado, deixando-as emergir somente em momentos que valham a pena. A exposição desnecessária de sentimentos é caminho para ferir a outros e nos machucarmos com reações intempestivas — daquelas em que o arrependimento tarda, sempre deixando o ranço do que se pode até perdoar, mas não se consegue esquecer…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/mxySk46Vvj0)

O Diamante de Jerusalém, de Noah Gordon

 Janelas do Tempo:

O romance O Diamante de Jerusalém, de Noah Gordon, desenrola-se como uma grande saga épica familiar que atravessa séculos, tendo como fio condutor uma joia de valor inestimável e de forte carga mística: o diamante de Jerusalém. A trama acompanha a estirpe da família Matthews (originalmente descende de lapidários e negociantes judeus, os ben-Solomon), cujas gerações se sucedem desde a Idade Média até o século XX.

A narrativa propõe uma viagem temporal que se inicia nas Cruzadas, passa por Amsterdã, Londres e Antuérpia — tradicionais polos do comércio e lapidação de pedras preciosas —, e culmina no Estado de Israel. 

Acompanhamos a trajetória de diferentes descendentes que, em épocas distintas, guardam, negociam ou lutam para proteger a gema. Cada membro da família vivencia conflitos particulares com a fé, com a identidade judaica, com as perseguições históricas e com a própria ambição, sendo testados pelo poder de fascínio que o diamante exerce sobre aqueles que o possuem.

Se em O Físico e em O Último Judeu Noah Gordon mergulhou profundamente nas dinâmicas da medicina e da intolerância religiosa medieval, em O Diamante de Jerusalém o autor utiliza um objeto inanimado — a pedra preciosa — como um espelho da alma humana. O diamante funciona como uma metáfora polifacetada: ele reflete tanto a cobiça e a violência dos homens quanto a busca incessante pela transcendência, pela herança cultural e pela permanência das raízes familiares.

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"O que é de fato imperecível na história de um povo: a memória, a resiliência e a dignidade transmitidas de geração em geração."

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A genialidade estrutural do romance reside na habilidade de Gordon em conectar episódios históricos díspares sem perder a unidade narrativa. Cada bloco temporal da saga familiar funciona como um painel autônomo e rico em detalhes técnicos sobre o ofício da joalheria e do comércio de gemas, revelando o profundo trabalho de pesquisa do autor. Ao final, a obra consolida-se não apenas como um envolvente painel histórico, mas como uma reflexão profunda sobre o que é de fato imperecível na história de um povo: a memória, a resiliência e a dignidade transmitidas de geração em geração.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/0FzEWrGp5vE)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

As urnas e a ilusão dos algoritmos

O Fio da Meada:

A campanha eleitoral transferiu parcela significativa de sua estrutura dos palanques físicos para o ambiente digital. Nesse cenário, a introdução de ferramentas de inteligência artificial adiciona uma variável complexa ao processo de decisão. Áudios forjados e vídeos manipulados circulam pelas redes de mensagens com a finalidade de alterar a percepção da realidade. A tecnologia, capaz de reproduzir vozes e rostos com precisão, transforma a desinformação em um produto de fácil consumo e rápida disseminação.

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"O resultado das urnas deve refletir a avaliação de propostas concretas, e não a influência de algoritmos manipulando a realidade e ludibriando cidadãos desinformados."

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O ambiente virtual opera sob a lógica do engajamento, em que o conteúdo gerador de impacto imediato ganha alcance ampliado. A manipulação estruturada explora essa mecânica. Desenha-se um cenário em que o eleitor recebe recortes de informação distorcida, elaborados para confirmar vieses ou gerar repulsa contra oponentes. A discussão sobre políticas públicas perde espaço para a contenção de boatos e a constante verificação de fatos.

Diante da sofisticação técnica das fabricações digitais, exige-se do cidadão um rigoroso senso crítico, que o brasileiro, infelizmente, não tem. O consumo passivo de conteúdo torna-se um risco para a integridade do pleito. A responsabilidade de questionar a origem de uma notícia ou a veracidade de uma imagem antes do repasse recai sobre o indivíduo. A checagem de fontes passa a integrar as obrigações da cidadania, no mesmo patamar de responsabilidade do próprio ato de votar.

O processo eleitoral demanda pragmatismo. Identificar a linha divisória entre a proposta administrativa e a ilusão sintética garante a segurança da escolha. Quando o eleitor submete o material de campanha ao crivo da dúvida e da razão, a eficácia da manipulação perde força. O resultado das urnas deve refletir a avaliação de propostas concretas, e não a influência de algoritmos manipulando a realidade e ludibriando cidadãos desinformados.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/hKcFRT_jMhc)

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Pelas janelas do tempo

Quartas com gosto de poesia:


Abre a janela para o tempo que passou, 

Busca nas lembranças um rastro que ficou. 

A página lida torna-se um sopro de eternidade, 

Onde a história simplesmente revela a tua verdade.



O vento do outrora balança a cortina de leve,

Desenha no espaço o tempo que a alma bebe.

São rostos e passos que voltam na saudade,

Tecendo de novo a etérea cumplicidade.


A poeira não encobre o que foi belo,

Revela o contorno do que é doce e singelo.

No fundo dos olhos reside o encanto por inteiro,

De um tempo vivido, sincero e verdadeiro.


E quando a tarde dormita no horizonte,

Bebes da memória como água de uma fonte.

O que o tempo suspira na curva da estrada, 

Deixa na alma resquícios de uma luz abençoada. 

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/W8tbZRAMUZA)