sexta-feira, 28 de março de 2025

Quando atravessares a ponte…

Meu mundo não tem porta

E a porteira não tem cadeado.

A chegada é apenas por um caminho.

Verás uma ponte sobre um riacho de águas rasas.

Não tenhas medo, sequer estanques os teus passos.

Basta entregar as rédeas do andar ao teu coração.

Restará apenas cerrar os olhos,

Sentir e te deixar levar pela brisa do fim da tarde.

 

Ao atravessar o que parecerá um pequeno espaço,

Haverá um altar para nele depositar uma flor.

Ali deixarás teus medos, angústias, pesadelos.

No entanto, não te desvencilha dos sonhos, das esperanças,

Especialmente, dos afetos conquistados.

Recolhe a bandana que uma ninfa te entregar.

Podes colocá-la sobre a testa.

Está escrito: Aqui encontras a paz!

 

Quando atravessares a ponte,

Segue qualquer um dos caminhos.

Todos te levam ao meu encontro.

Será um momento de sorrisos e olhares,

De carinhos travessos e abraços apertados.

As palavras e as mágoas ficaram na outra margem.

No silêncio em que apenas a brisa murmura encantamentos.

Finalmente poderemos deixar que o pôr do sol siga seu rito

E que as estrelas nos encontrem embevecidos pelo entardecer.


terça-feira, 25 de março de 2025

O último bicheiro da vila Silveira

O seu Laudelino Almeida partiu. Conhecido na vila Silveira, em Pelotas, por ser o esposo da Ana, pai do Marcos, Kátia, Carla e Fabiano. Bom vizinho, após sair do quartel trabalhou no Jockey Clube (creio até que foi jockey). Também atuou como frentista em posto de gasolina. Depois de aposentado, passou a ter uma outra atividade: era a última pessoa que conheço que ainda fazia jogo do bicho.

Para quem não sabe, jogo do bicho é uma loteria ainda ilegal, popular nas vilas e periferias, onde um apontador passa e recolhe os palpites de cada interessado, em centenas e milhares (se bem me lembro). Mas também por uma numeração que contempla (ou contemplava) a dezena, relacionada a diversos animais. Cada um dos 25 bichos tem quatro números correspondentes, e as opções de apostas e premiações variam conforme as combinações vencedoras. 

É um trabalho de "formiguinha" feito, normalmente, pela manhã. Minha primeira lembrança desta aposta é pelo início dos anos 60, quando meu pai nos trouxe do interior de Canguçu e comprou um ponto onde passou a existir o "Bar e Armazém Raulin" (que era seu sobrenome). O bicheiro, para fazer média, perguntou para mim, com cerca de 5 anos, em que bicho eu apostaria. Disse que no cachorro. E fizeram a "fezinha". Final da tarde, chegou todo contente e queria me dar o dinheiro. Recusei, eu queria era o cachorro que eu tinha ganho!

Embora proibido e criminalizado durante largo tempo, o jogo nunca deixou de existir. Até porque as autoridades faziam vistas grossas para os pontos de jogo ou seus ambulantes. Sua grande popularidade, fundamentada na imagem de confiança dos seus resultados, particularmente nos jargões "vale o escrito" e "ganhou, leva", e sua ampla difusão tornaram a repressão total impraticável, resultando em uma coexistência ambígua com os meios legais e institucionais. Tendo se corrompido em territórios periféricos das grandes cidades (como o Rio de Janeiro), onde sua estrutura foi associada ao crime organizado.

Na época de meu pai, outro vizinho também fazia jogo do bicho, o seu Bernardo, que tinha sido pedreiro, segurança... Eram velhos moradores da vila que entravam nas casas para que os fiéis clientes alimentassem a esperança de realizar um sonho. Com poucos recursos ou remediados, qualquer um tinha o direito de fazer a sua aposta. Uma dona de casa ou quem ia ou voltava do emprego compartilhava seu sonho da noite e apostava no bicho que o inspirava ou no número que imaginava ter visto...

Não são apenas pessoas que se despedem de nós. São histórias que, na maior parte das vezes, sequer foram contadas. Perde-se não apenas um vizinho, um amigo ou um parente, mas um estilo de vida em que o sentido das próprias vivências se dava pelas pessoas com as quais se convivia. Descobre-se que éramos felizes e não sabíamos. Pelo simples motivo de que a sua existência guardava um pouco do sentimento de pertencer a um tempo que desafiava a própria ausência… 


domingo, 23 de março de 2025

Simplesmente assim: Tatuagem

Não tenhas pressa para amar.

Amar é tatuar sensibilidades

Por um corpo desnudado por procuras e desejos.

Fremita no sonho do desenho perfeito. 

As linhas que recém transmutaram a pele

Rubram no anseio de que se falquejem histórias,

Cicatrizes que não desbotam com o tempo.

Carregam expectativas, a certeza de que

São eternas enquanto viverem nas memórias.


Expostas ou escondidas, anseiam por significados,

A parte do mistério em que cada dobra do corpo

Sussurra por carícias e desejos...

A imaginação precede a fantasia.

O olhar divaga e alcança o horizonte do sonho. 

Perde-se nas luzes que demarcam rumos:

Basta um pequeno ponto, depois uma linha

E um traçado toma forma

Em busca da imagem que idealiza a perfeição... 


sábado, 22 de março de 2025

Esperança - autobiografia do papa Francisco.

Esperança é um livro diferente. A autobiografia do papa Francisco difere de tudo o que já li sobre os papas que acompanhei, desde que me conheço por gente, lá pelos idos de 1970. Este não se preocupa com a liturgia do cargo ao contar as suas lembranças. Discreto, mas convincente, alinha memórias com a sua avaliação madura ao lembrar o passado. Com raízes italianas - mas formação argentina, latino-americana - valoriza a família, os vizinhos, os amigos e os lugares onde adquiriu sua sólida formação humanista/cristã.

Sem querer escandalizar, mas mostrando a humanidade do homem que dirige os destinos da Igreja Católica, narra suas aventuras e desventuras. Na formação profissional, problemas que tornaram sua saúde precária, severidade dos fundamentos jesuíticos que moldaram seu caráter. Uma preciosidade quando lembra a sua escolha como pontífice.

A opção pela vida comunitária e, como consequência, abdicar de um apartamento papal para conviver numa casa com religiosos que trabalham no Vaticano e além daqueles que passam a serviço por Roma (a casa de Santa Marta). Quando o mundo em silêncio rezou com ele, ao atravessar a praça de São Pedro, numa noite chuvosa, para pedir pelos atingidos pela pandemia, aos pés da cruz…

Imperdível para Católicos. Recomendável para homens e mulheres de boa vontade que o veem como referência moral, ética e religiosa, independente da religião ou da filosofia que professam. Numa linguagem simples, acessível, às vezes para rir e outras para se emocionar. Um ancião que se desnuda para se tornar mais próximo e ainda mais acolhedor. Daquelas leituras que não se quer terminar. Nos deixam em paz quando erguemos os olhos de um livro que faz bem ao coração…

sexta-feira, 21 de março de 2025

Do outro lado da minha janela

Espio pelo postigo da janela.

Por detrás de um vidro embaçado

Desfilam pessoas apressadas,

Com fisionomias cansadas,

Não importando que seja inverno ou verão.

Têm pressa em chegar às casas para

Encontros possíveis e aqueles desejados.

Os passantes se repetem nos mesmos horários,

Na rotina em que se perde o sentido da espera e do aconchego.

 

Pelas esquinas,

As vozes do passado teimam em se fazer presentes.

Agora, há mais gente andando pelas calçadas.

Muitos ainda são conhecidos,

Outros me são indiferentes.

A rua ainda guarda o mesmo jeito.

Alguns rostos são os mesmos

E repetem velhas rotinas.

Os mais velhos de outros tempos já partiram.

Os mais velhos desta geração parecem não acreditar

Que agora são eles que namoram a finitude.

 

Do outro lado da janela entreaberta,

Ouço os ruídos peculiares à cidade dos homens.

Mesmo quando a noite avança e me acomodo ao leito

Não ouvir seus ruídos me angustia.

Para onde foram?

Na incompletude, o silêncio sufoca,

Sua falta predestina a morte, o ocaso,

A ausência de todo e qualquer calor humano…


terça-feira, 18 de março de 2025

“Um terço para Francisco”

Recentemente, a jornalista Andressa Xavier escreveu artigo para o jornal Zero Hora contando uma história familiar titulada “Um terço para Francisco”. Seus tios, Isabel e Jorge, foram pela primeira vez à Europa em 2019, quando a tia completava 60 anos. A data caiu na quarta-feira em que o papa desce ao encontro dos fiéis na praça São Pedro. Os pais da Andressa já conheciam a Itália e serviram de cicerones. Deram um jeito de ficar posicionados próximos aos gradis. A espera valeu a pena. Quando o papa desceu do papamóvel, seu pai gritou: “La signora fa il compleanno oggi”. Diz ela: "Pois ele parou e andou em direção a eles."

Seu tio faz terços (um círculo de contas que serve para a oração do Rosário) e confidenciou que havia feito um com a intenção de entregar ao papa. "Era branco, vermelho e azul, as cores do time de Francisco, o San Lorenzo, da Argentina. Mostrou aquelas contas coloridas com uma alegria e uma ingenuidade que eu não tive coragem de desapontá-lo e dizer que não conseguiria entregar, ou que seria muito difícil. Pensei, mas não disse nada, só encorajei a levar e elogiei o tercinho, que era mesmo bem bonito".

A felicidade ficou completa quando compartilharam a foto no grupo de WhatsApp da família com o papa bem pertinho deles. "Mais do que isso, a ligação em vídeo horas depois foi linda demais. Minha tia, no dia do aniversário, ganhou um terço das mãos do papa. Ela foi surpreendida pelo gesto do Santo Padre, que colocou a mão no bolso e tirou um rosário perolado, numa caixinha".

O mais bonito do texto da Andressa vem a seguir: "Francisco é assim. Um Papa próximo, humano, carismático e fraterno. Transparece isso. Derrubou muros de uma igreja distante e fechada, se aproximando do seu povo. Beija os pés de presidiários e dos pobres na quinta-feira Santa, como fez Jesus na Última Ceia. Recebe fiéis, abraça as pessoas, sem distinção."

Num tempo em que a maioria absoluta das pessoas torce por Francisco (com uma minoria de mal amados vomitando seu mau-humor em torcida pela sua morte) eu queria ter escrito o que ela disse ao concluir:

"Quando a nossa fé eventualmente esmorece, ter um papa como ele traz renovação, inspiração e exemplo. Um dos dias mais emocionantes da minha vida foi um domingo de agosto de 2017, quando vi, de longe, o papa Francisco pela janela no Vaticano. A simples presença dele me encheu os olhos d'água. Ele deu vida nova e esperança de um mundo melhor aos católicos, mas me atrevo a dizer que ao mundo, a pessoas de todas as crenças."

Francisco é assim: um símbolo da presença de Deus. Presentes como o terço são o sinal do carinho de uma população que anseia por referências. Com a emoção de quem o ouve como quem escuta alguém que nos é muito precioso, capaz de dizer as coisas mais simples brotando do coração. Porque transpira pelo rosto, pelos olhos, pelas mãos, pelo abraço, uma alma humilde, em que a fé é espelho da sua empatia e amor ao próximo, a vocação de um autêntico homem de Deus.


domingo, 16 de março de 2025

Simplesmente assim: Arfante

Quando o ar se torna rarefeito e parece acabar,

Erguer a cabeça é um desafio. No entanto,

A energia chega de onde menos se espera.

O corpo fica cansado e qualquer movimento

É a necessidade de vencer as barreiras físicas.

Arfante, todos os sentidos parecem inertes,

Enquanto o vento bate nos olhos e

Teima em secar

Uma lágrima solidária com as minhas carências.

 

A reação dos sentimentos

Para alcançar a liberdade, desatar amarras,

Emergir em cada centímetro de pele.

Arfante, o suor rega a face,

Escorre a maquiagem, retira a máscara,

Revela e expõe os afetos.

O coração apertado bate mais forte,

Com o medo de que um suspiro carregue

O sonho de vencer o que assombra e as aflições…