Minhas caminhadas, pela manhã, têm, sempre, os mesmos percursos:
saio de casa em direção da avenida Francisco Carúccio, passando
por região que, pouco distante do centro da cidade, guarda um quê
de rural - lugar de banhado, com árvores ralas, onde é solto o
gado; ou, em direção da avenida Fernando Osório, sem chegar até
lá, passando ao lado da Unimed, até os fundos do Engenho São Paulo
– Ferro & Fogo, galpões onde se encontrava de tudo, mas
também, um bom passeio para desestressar e ver desde potes com
bolinhas de gude, até equipamentos para carroças…
A terceira via contorna o que vai ser o bairro Quartier, que já tem
boa parte de suas ruas calçadas, permitindo que se aventure em áreas
que estavam escondidas do público e agora revelam o que já contei:
laguinho formado pela retirada de barro para tijolos e telhas e uma
das chaminés das antigas Olarias Carúccio. Em janeiro e fevereiro,
a surpresa foi se formando na beira da sanga que corta a região
norte, correndo paralela aos antigos trilhos da viação férrea: dos
poucos lugares onde os maricás são abundantes e a sua floração
formou um tapete de flores brancas por sobre a paisagem.
Numa manhã de sábado, parei na parte mais alta, de onde se divisa o
espetáculo por longa distância. Me veio à memória os maricás que
existiam em toda a extensão da minha rua, desde a entrada do sítio
dos portugueses, até a outra sanga, que agora está canalizada, ao
lado do condomínio Granada. Estava com 11 anos, era manhã de
domingo e a primeira vez que voltei do Seminário Diocesano, onde
fazia duas semanas que estudava. Parei à sua sombra para enxugar as
lágrimas e respirar fundo. Sabia que minha mãe não deixaria eu
voltar se me visse com os olhos molhados…
Mas queria voltar e foi o suficiente pegar aquele arzinho bom, no
início de março, aspirar o perfume que ainda restava e lembrar de
quando correra por ali para caçar violinhas, colocar em caixas de
fósforo e “ouvir música”. Ou, nas noites quentes de verão,
prender vaga-lumes em vidros cobertos por um pedaço de tecido, para
ter uma “lanterna”… Depois, quando meus pais envelheceram,
observar da janela, todas as manhãs, caminharem devagarinho, embaixo
das sombras, com as mãos cruzadas às costas e parando, aqui e ali,
para atualizar as conversas com os vizinhos…
Devo ter falado sozinho, porque, apesar da máscara, pessoa que
passava se voltou, esperando que repetisse. Não disse, não era o
caso. Dei-me conta do porque gosto de caminhar, já que não tenho
persistência para fazer outros tipos de exercícios. Para confirmar,
o único que faço, quando não vou para as ruas, é o simulador de
caminhada. Mesmo assim, preciso do tablet para procurar na internet
programas de viagens por diversos lugares do Mundo. E o que me
encanta? As ruas. Percursos que os apresentadores fazem por vielas,
estradas, caminhos, praças, parques, museus…
Maricás, alamedas e caminhos… Aplicativos e o YouTube já mostram
roteiros (Porto Alegre já tem. Pelotas, que eu saiba, ainda não).
Mesmo lugares por onde se andou surpreendem. Pode ser uma passada nas
proximidades de um ninho de quero-quero, quando, sentindo-se
ameaçados, se alvoroçam e dão voos rasantes… aproveitar o sol e
sentir-se vivo e em paz, razão maior de uma esticada nas pernas.
Dado o primeiro passo, como na vida, há um destino a percorrer,
porém, aqui - ou na Eternidade - há sempre um lugar para se voltar
e sentir que, cada passo, de fato, valeu a pena!