terça-feira, 27 de outubro de 2026

Eu me arrependo

Quartas com gosto de poesia: 

Envelhecer é olhar o passado

Como um caminho que não se pode mais corrigir.

Uma longa jornada em que o arrependimento

É apenas um elemento para tentar ser feliz.

Sem deformar os sentidos, torna-se a maneira

Mais eficaz de refinar os próprios sentimentos.


Vive-se como se o tempo fosse suficiente

Para se tornar uma eternidade.

Perceber a finitude não transforma o gosto

Da saudade em néctar ou bom vinho.

Aprende-se que o presente é rico

Em presságios do que será o futuro.



Eu me arrependo:

Pelas vezes que não te beijei,

Pelas vezes que não te amassei,

Pelas vezes que não correspondi ao teu sorriso.

Especialmente,

Por não ter repetido até cansar

O quanto te amava,

Quando o tempo ainda permitia

Reconhecer o instante presente

Como o nosso único e definitivo abrigo…


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/cYEFdp-INj8)

sábado, 24 de outubro de 2026

Os caminhos por onde andam as estrelas

Crônica Poética:

A primeira e única criança que veio das estrelas, guardada na memória e no afeto, foi o doce e encantador Pequeno Príncipe. Sempre que uma nesga de céu aberto se descortinava no horizonte, o olhar quedava-se maravilhado, imaginando os caminhos invisíveis e os roteiros secretos capazes de guiar tal travessia. Nessa contemplação de infância, o firmamento não era apenas um teto de astros distantes, mas a pátria original de onde brotam os seres mais puros, aqueles que chegam trazendo a lição silenciosa de que o essencial permanece invisível aos olhos e só pode ser alcançado pelo coração.

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Velaremos por aqueles que ficaram, transformando a ausência em claridade e a Eternidade em um eterno recomeço…

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No curso dos dias, a vida convida a tatear essa origem estelar através de gestos simples que suspendem o tempo. É o instante em que se constrói um kit de afeto materializado em um quadro: uma placa de massa de modelagem que acolhe o espaço preciso para duas imagens e marcas indeléveis. O avô decide registrar a própria mão e, bem no centro, entrelaçá-la à mão pequena do neto, eternizando o toque. Ao lado, emolduram-se duas boas memórias de atividades compartilhadas, a confirmar que criar lembranças é a arte mais nobre de ancorar o amor no cotidiano.

Fica, assim, o duplo presente: a posse terna de uma recordação viva do neto e a entrega de um legado de carinho que atravessará os anos. Cada ranhura na massa moldada guarda o calor de uma tarde, o riso solto e a cumplicidade de gerações que se reconhecem. Mais do que simples matéria endurecida pelo tempo, aquele quadro transforma-se em um pequeno altar doméstico, onde o passado e o porvir se dão as mãos, provando que os laços verdadeiros não se desfazem com a pressa dos ponteiros, mas se fortalecem na doçura da partilha.

Se um dia as crianças chegam ao mundo como mensageiras vindas das estrelas, ao partirmos um dia seguindo o rumo inexorável da Eternidade, talvez seja justamente a nossa vez de retornar e nos transformarmos também em estrelas. Restarão, então, as lembranças cultivadas com esmero — como as mãos unidas no quadro e a saudade mansa que brilha no alto. Lá do alto do céu, guiados pela mesma luz que outrora inspirou o principezinho, velaremos por aqueles que ficaram, transformando a ausência em claridade e a Eternidade em um eterno recomeço…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/wrjxkhx8exM)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

As Luzes de Setembro, de Carlos Ruiz Zafón

Janelas do Tempo

Publicado em 1994, As Luzes de Setembro encerra a chamada "Trilogia da Névoa" de Carlos Ruiz Zafón, romance que transporta o leitor para a atmosfera enigmática da costa bretã no final dos anos 1930. A narrativa acompanha a família Saunders — a mãe, Simone, e os filhos, Irene e Dorian —, que recomeça a vida em uma vila litorânea após aceitar o convite para trabalhar na mansão de um excêntrico e recluso fabricante de autômatos. No entanto, o idílio costeiro logo se dissolve diante de segredos sombrios do passado que começam a vir à tona, transformando a pacata localidade em um cenário de suspense e perigo iminente.

O ponto de inflexão da trama ocorre quando os jovens Irene e Dorian se veem envolvidos com o misterioso faroleiro e descobrem a existência de Lazarus, o dono da mansão, cuja trajetória está tragicamente entrelaçada com a de um ser enigmático e sinistro conhecido como o Cain. Essa entidade, dotada de traços sobrenaturais e de uma crueldade calculista, manipula as sombras e os desejos mais profundos dos moradores em troca de pactos sombrios. A partir daí, o romance acelera o ritmo em uma sucessão de revelações que testam a coragem dos protagonistas, explorando temas caros ao autor, como a inocência perdida e o peso das escolhas morais.

Sob o aspecto estilístico, Zafón demonstra sua singular maestria na construção de atmosferas góticas e na fusão entre o realismo histórico e o insólito. A ambientação marinha, marcada por nevoeiros densos, marés violentas e o som constante das ondas, funciona como uma extensão psicológica dos personagens, intensificando a sensação de isolamento e claustrofobia. O uso de autômatos e engenharias mecânicas como elementos centrais da narrativa não apenas homenageia a tradição do romance fantástico, mas também serve como metáfora para a fragilidade da condição humana diante do destino e da obsessão.

No plano temático, a obra aprofunda a transição melancólica entre a infância e a maturidade, retratando o momento em que a ingenuidade cede lugar à dura compreensão das complexidades do mal. Os laços familiares e a força do primeiro amor surgem como as únicas trincheiras capazes de resistir à corrupção moral personificada pelo antagonista, conferindo um tom humanista à narrativa de suspense. Zafón reafirma, assim, a capacidade da literatura juvenil e fantástica de dialogar com questões existenciais profundas, oferecendo uma leitura que cativa tanto pelo mistério quanto pela densidade lírica de sua prosa.

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"A obra aprofunda a transição melancólica entre a infância e a maturidade, retratando o momento em que a ingenuidade cede lugar à dura compreensão das complexidades do mal."

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As Luzes de Setembro consolida-se como uma leitura essencial para compreender a gênese do universo literário do autor espanhol, antecipando traços que viriam a consagrar obras-primas posteriores. Embora dialogue diretamente com os cânones do romance gótico tradicional, a narrativa mantém uma voz própria ao equilibrar o lirismo nostálgico com o ritmo ágil do suspense moderno. Trata-se de um livro que cumpre com excelência a proposta de encantar e inquietar o leitor, deixando uma marca duradoura na memória afetiva daqueles que cruzam os caminhos sombrios da costa da Bretanha.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/dmqlmjbXcak)

Pelo Bem do Brasil

O Fio da Meada:

​O cansaço e a desilusão com os rumos da política levam muitos brasileiros a cogitar pela abstenção no segundo turno das eleições, marcado para o dia 25 de outubro, acreditando que a multa por não comparecer é irrisória e que o voto perdeu o sentido. No entanto, ficar em casa é um erro que apenas abre espaço para que outros decidam o futuro de todos nós, enfraquecendo a voz coletiva e a representatividade social do cidadão.

​A urna não representa apenas uma obrigação burocrática, mas sim a ferramenta mais poderosa de expressão cívica que possuímos para transformar a insatisfação em mudança real. Abster-se é abdicar voluntariamente do direito de cobrar, fiscalizar e exigir melhorias efetivas dos governantes eleitos. Ausente na votação, perde-se um direito básico: cobrar do eleito uma estrutura que mantenha com dignidade, especialmente, aqueles que têm mais dificuldades de sobreviver.

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"Um país justo não é do Lula ou do Bolsonaro, mas de todos nós que ainda acreditamos em dignidade e respeito, independente da posição partidária de cada um."

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​Um chamado especial se dirige aos idosos que tanto trabalharam e contribuíram na trajetória deste país, pedindo que tenham, agora, sabedoria e deem exemplo de cidadania. Seu voto ecoa uma história de vida respeitável, servindo de farol para as novas gerações que observam o cenário nacional. A desobrigação do voto facultativo não lhes dá o direito de se omitirem. Ainda mais, em tempos de polarização, espera-se que deem o exemplo como agregadores e não fomentem divisões nefastas.

​Votar não significa apenas escolher preferências partidárias isoladas, mas pensar no bem comum e na qualidade de vida de todos os cidadãos. Cada voto depositado atua como um tijolo indispensável na construção do país que se deseja legar aos nossos filhos e netos. Votar não é uma questão de certo ou errado, desde que seja feito com convicção. No entanto, omitir-se é um ato de covardia de quem abre mão da própria cidadania.

​Pelo bem do Brasil (e de cada um de nós brasileiros), neste domingo, dia 25, faça valer a sua voz e supere todo e qualquer desalento, toda e qualquer decepção que tente desestimular a sua participação democrática. Mesmo que não faça parte das facções que se instalaram no país, vá às urnas pensando na nossa terra, na nossa gente e na esperança de dias melhores, de que nem tudo está perdido. Lembre que um país justo não é do Lula ou do Bolsonaro, mas de todos nós que ainda acreditamos em dignidade e respeito, independente da posição partidária de cada um.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/5Dend_91y44)

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

As vozes que não ouço mais

Quartas com gosto de poesia:

Tenho medo do silêncio 

Que habita as minhas recordações. 

É um poço profundo onde mergulham

As vozes que me abandonaram.

Eco de um passado

Que teima em roubar presenças

Para transformar afetos em saudades.



Além das vozes, desaparecem 

Risos e sorrisos que abençoaram meu dia a dia.

Na vida plena em que o futuro e suas ausências 

Parecia distante e inatingível. 

Um abismo em que 

o tempo, aos poucos traga as memórias.


Resisto em deixar que rostos esvaneçam,

Corpos se tornem etéreos,

Vozes e risos atormentem meus sonhos

Com o despertar dolorido

 E uma lágrima sentida.

A certeza  de que nunca mais estarão 

Ao alcance dos meus abraços…


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/4iz1AMmOOMk)

sábado, 17 de outubro de 2026

No fundo da geladeira

Crônica Poética:

Achei engraçada a recomendação de que não se guardassem coisas perecíveis na porta da geladeira, como frios e manteiga, por exemplo. O fato de se abrir constantemente a porta faz com que a temperatura oscile. O melhor é colocar o item numa prateleira interna, bem no fundo. A conversa surgiu quando se falava a respeito da conservação da manteiga em outro lugar durante o inverno.

Não tenho dotes culinários e, morando sozinho, preciso aprender com familiares e amigos a gerenciar a casa. O bom é que se ouve de tudo. O melhor é não discutir: se a dica for boa, basta experimentar. É o que tenho feito. Sempre briguei com a manteiga que acaba ficando gelada demais — ou, como diziam os antigos, “empedrada”. Havendo um armário em lugar abrigado, de temperatura amena, é um fato: a conservação acontece sem que seja preciso uma britadeira para separar um pouquinho para o pão.

Fiquei pensando que isso se assemelha aos nossos sentimentos, aos nossos amores e às nossas dores. Sempre que ficam expostos, correm os riscos da instabilidade. Preservá-los no “fundo da geladeira”, ou “num armário climatizado”, pode ser o melhor jeito de protegê-los das intempéries passageiras.

As mesmas reações que o tempo nos torna capazes de contemplar com a serenidade de quem já não tem pressa. Não há mal algum em resguardar emoções em um ambiente abrigado, deixando-as emergir somente em momentos que valham a pena. A exposição desnecessária de sentimentos é caminho para ferir a outros e nos machucarmos com reações intempestivas — daquelas em que o arrependimento tarda, sempre deixando o ranço do que se pode até perdoar, mas não se consegue esquecer…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/mxySk46Vvj0)

O Diamante de Jerusalém, de Noah Gordon

 Janelas do Tempo:

O romance O Diamante de Jerusalém, de Noah Gordon, desenrola-se como uma grande saga épica familiar que atravessa séculos, tendo como fio condutor uma joia de valor inestimável e de forte carga mística: o diamante de Jerusalém. A trama acompanha a estirpe da família Matthews (originalmente descende de lapidários e negociantes judeus, os ben-Solomon), cujas gerações se sucedem desde a Idade Média até o século XX.

A narrativa propõe uma viagem temporal que se inicia nas Cruzadas, passa por Amsterdã, Londres e Antuérpia — tradicionais polos do comércio e lapidação de pedras preciosas —, e culmina no Estado de Israel. 

Acompanhamos a trajetória de diferentes descendentes que, em épocas distintas, guardam, negociam ou lutam para proteger a gema. Cada membro da família vivencia conflitos particulares com a fé, com a identidade judaica, com as perseguições históricas e com a própria ambição, sendo testados pelo poder de fascínio que o diamante exerce sobre aqueles que o possuem.

Se em O Físico e em O Último Judeu Noah Gordon mergulhou profundamente nas dinâmicas da medicina e da intolerância religiosa medieval, em O Diamante de Jerusalém o autor utiliza um objeto inanimado — a pedra preciosa — como um espelho da alma humana. O diamante funciona como uma metáfora polifacetada: ele reflete tanto a cobiça e a violência dos homens quanto a busca incessante pela transcendência, pela herança cultural e pela permanência das raízes familiares.

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"O que é de fato imperecível na história de um povo: a memória, a resiliência e a dignidade transmitidas de geração em geração."

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A genialidade estrutural do romance reside na habilidade de Gordon em conectar episódios históricos díspares sem perder a unidade narrativa. Cada bloco temporal da saga familiar funciona como um painel autônomo e rico em detalhes técnicos sobre o ofício da joalheria e do comércio de gemas, revelando o profundo trabalho de pesquisa do autor. Ao final, a obra consolida-se não apenas como um envolvente painel histórico, mas como uma reflexão profunda sobre o que é de fato imperecível na história de um povo: a memória, a resiliência e a dignidade transmitidas de geração em geração.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/0FzEWrGp5vE)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

As urnas e a ilusão dos algoritmos

O Fio da Meada:

A campanha eleitoral transferiu parcela significativa de sua estrutura dos palanques físicos para o ambiente digital. Nesse cenário, a introdução de ferramentas de inteligência artificial adiciona uma variável complexa ao processo de decisão. Áudios forjados e vídeos manipulados circulam pelas redes de mensagens com a finalidade de alterar a percepção da realidade. A tecnologia, capaz de reproduzir vozes e rostos com precisão, transforma a desinformação em um produto de fácil consumo e rápida disseminação.

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"O resultado das urnas deve refletir a avaliação de propostas concretas, e não a influência de algoritmos manipulando a realidade e ludibriando cidadãos desinformados."

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O ambiente virtual opera sob a lógica do engajamento, em que o conteúdo gerador de impacto imediato ganha alcance ampliado. A manipulação estruturada explora essa mecânica. Desenha-se um cenário em que o eleitor recebe recortes de informação distorcida, elaborados para confirmar vieses ou gerar repulsa contra oponentes. A discussão sobre políticas públicas perde espaço para a contenção de boatos e a constante verificação de fatos.

Diante da sofisticação técnica das fabricações digitais, exige-se do cidadão um rigoroso senso crítico, que o brasileiro, infelizmente, não tem. O consumo passivo de conteúdo torna-se um risco para a integridade do pleito. A responsabilidade de questionar a origem de uma notícia ou a veracidade de uma imagem antes do repasse recai sobre o indivíduo. A checagem de fontes passa a integrar as obrigações da cidadania, no mesmo patamar de responsabilidade do próprio ato de votar.

O processo eleitoral demanda pragmatismo. Identificar a linha divisória entre a proposta administrativa e a ilusão sintética garante a segurança da escolha. Quando o eleitor submete o material de campanha ao crivo da dúvida e da razão, a eficácia da manipulação perde força. O resultado das urnas deve refletir a avaliação de propostas concretas, e não a influência de algoritmos manipulando a realidade e ludibriando cidadãos desinformados.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/hKcFRT_jMhc)

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Pelas janelas do tempo

Quartas com gosto de poesia:


Abre a janela para o tempo que passou, 

Busca nas lembranças um rastro que ficou. 

A página lida torna-se um sopro de eternidade, 

Onde a história simplesmente revela a tua verdade.



O vento do outrora balança a cortina de leve,

Desenha no espaço o tempo que a alma bebe.

São rostos e passos que voltam na saudade,

Tecendo de novo a etérea cumplicidade.


A poeira não encobre o que foi belo,

Revela o contorno do que é doce e singelo.

No fundo dos olhos reside o encanto por inteiro,

De um tempo vivido, sincero e verdadeiro.


E quando a tarde dormita no horizonte,

Bebes da memória como água de uma fonte.

O que o tempo suspira na curva da estrada, 

Deixa na alma resquícios de uma luz abençoada. 

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/W8tbZRAMUZA)

sábado, 10 de outubro de 2026

Bem ao lado do meu travesseiro

 

Crônica Poética:


Desde os meus quinze anos, sou movido por acordes. Tudo começou com o radinho de pilha que ganhei naquele aniversário, inaugurando um ritual que resiste ao tempo. Hoje, seja para um breve repouso à tarde ou para o recolhimento noturno, o celular ou o tablet assume o papel de caixinha de som — uma orquestra particular que marca o compasso do meu descanso, que muitas vezes dispensa o sono e pede apenas silêncio e introspecção.


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"Afinam o tom exato para me conduzir a um horizonte intangível: o limiar entre a terra e o firmamento, o porto seguro do aqui e o deslumbramento do sonho..."
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A melodia me acompanha, embala a rotina, as horas de dono de casa, e os momentos de não fazer nada. Levo-a comigo pelas ruas, enlaçada nos fones de ouvido, ou a bordo do carro. Em verdade, a música desenha a moldura perfeita para alinhavar o pensamento; funciona como a baliza invisível que preserva a minha sanidade mental. Quando as notas vagam pelo ar, sinto o caminho mais nítido para enfrentar qualquer jornada.

Contudo, é na penumbra do quarto, no cair da noite, que exerce seu sortilégio mais profundo. Bem ao lado do meu travesseiro, sintonizo minha emissora preferida, a Studio Web Rádio. Suas trilhas orquestradas afinam o tom exato para me conduzir a um horizonte intangível: o limiar entre a terra e o firmamento, o porto seguro do aqui e o deslumbramento do sonho, o estado de vigília e a doce sonolência que chega trazendo promessas inimagináveis…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/-57QJYAtB94)

O Último Judeu, de Noah Gordon

Janelas do Tempo: 

Publicar textos sobre Noah Gordon constitui um desafio fascinante por despertar no leitor a curiosidade genuína por outros títulos do mesmo autor. O comentário anterior sobre O Físico evidenciou essa repercussão, especialmente pelos relatos de quem se dispôs a redescobrir a obra. Agora, o percurso literário dedica-se a O Último Judeu, romance que acompanha a trajetória marcante do jovem espanhol Yonah Toledano.

O protagonista teve a existência transtornada em 1492 com o decreto de expulsão dos judeus dos reinos da Espanha pelos Reis Católicos. Ainda na infância, testemunhou a família ser destroçada pela violência da Inquisição, perdendo o pai e o irmão mais velho, enquanto os demais parentes partiram para o exílio. Sozinho e compelido a sobreviver num ambiente hostil, Yonah assumiu múltiplos disfarces e identidades ao longo dos anos.

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O protagonista fortalece-se nas fornalhas da adversidade sem jamais perder a essência de suas raízes espirituais e culturais.

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Para escapar da perseguição implacável, dedicou-se à metalurgia e tornou-se ferreiro, além de aprimorar saberes ancestrais de cutelaria, medicina popular e herborista herdados de sua estirpe. Essa peregrinação pela Península Ibérica proporcionou a convivência com cristãos, muçulmanos e judeus conversos, conhecidos como marranos. A jornada testou a sua resiliência, a fé secreta e a busca incessante do protagonista por identidade, pertencimento e dignidade humana.

O autor demonstra uma capacidade ímpar de aliar o rigor histórico à força do melodrama épico e humanista. Em vez de limitar-se a registrar datas e eventos políticos, escolhe a lente da micro-história para focar nas dores, nos silêncios e nas pequenas vitórias cotidianas de um homem comum. Desse modo, evidencia-se o impacto devastador das engrenagens da intolerância religiosa sobre as trajetórias individuais e familiares.

A figura do ferreiro, que transforma o metal bruto, pelo fogo e o esforço, transforma-se numa metáfora para a evolução da personagem. O protagonista fortalece-se nas fornalhas da adversidade sem jamais perder a essência de suas raízes espirituais e culturais. Expõe a complexidade das relações sociais medievais, pontuadas por divisões preconceituosas e por atos inesperados de solidariedade.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/9mDkqvCRMvc)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Os limites e os sonhos das promessas eleitorais

 O Fio da Meada:

Passado o primeiro turno das eleições, é necessário reconhecer que, a cada ciclo eleitoral, o eleitor é bombardeado por um catálogo de promessas que fariam inveja a muitos contos de fadas. Prometem-se revoluções na saúde, na segurança, pontes onde não há rios e o fim imediato da desigualdade. A campanha aceita tudo, e o papel dos planos de governo aceita ainda mais. Infelizmente, porque o brasileiro é iludido por desconhecer as artimanhas da política.


Contudo, há um componente fundamental que raramente entra no discurso dos palanques: a gravidade do orçamento e os limites legais da caneta de um ocupante de cargo público. A desmistificação do processo eleitoral passa por entender a diferença entre o desejo e a viabilidade técnica. Municípios e estados não imprimem dinheiro e não legislam sobre o código penal. 

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Avaliar um candidato exige observar como ele lida com a escassez, não como ele distribui a abundância imaginária.

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A administração opera com recursos finitos, engessados por despesas obrigatórias que deixam margem minúscula para inovações faraônicas. Votar com os pés no chão significa filtrar as propostas não pela grandiosidade retórica, mas a matemática fria que as sustenta. Quem promete o impossível não é um visionário; é, na melhor das hipóteses, um desinformado, e na pior, um estelionatário eleitoral.

Avaliar um candidato exige observar como ele lida com a escassez, não como ele distribui a abundância imaginária. O bom gestor público é aquele que domina a burocracia para fazê-la trabalhar a favor da cidade, que entende de licitações, cronogramas de obras e gestão de contratos. Ao trocar a ilusão das promessas milagrosas pela exigência de planos viáveis, o eleitor protege a si mesmo da frustração garantida e eleva o nível do debate. No fim das contas, a cidade não precisa de mágicos, mas de administradores competentes.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/FnnRq84HlwE)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A centelha de uma súplica

Quartas com gosto de poesia:

Ergue os olhos em prece.

Cerra a visão para o mundo.

Em qualquer dos casos,

Restarão o silêncio, a paz e um sorriso.

Rezar é esse instante singular

Em que tudo o mais desaparece.



Apenas tu estás na presença do Pai.

Esta hora é uma preciosidade;

Não permitas que nada a perturbe.

Ela não pode ser compartilhada,

Mas transborda na energia

Que ilumina tua jornada.




Deixa o temporal rugir lá fora.

O tempo aqui dentro aquieta-se.

Onde o espírito acolhe a calma,

A tempestade não rouba a esperança.

Respira fundo e abraça este agora.


Ao abrires os olhos, a centelha de

Uma súplica pulsará em teu peito.

Será teu escudo contra o vendaval,

O calor manso que desfaz o frio,

O sentido maior para a tua própria vida.


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/cFKBKq7XTsU)