domingo, 15 de outubro de 2023

Professor, educador, formador de opinião

Não são tempos fáceis para ser um professor. Muito menos educador. Mas qualquer – e todo o momento – é etapa de um mesmo desafios: a provocação que dá sentido à realização profissional e pessoal. Em primeiro lugar, precisa ser um “humanista”, centrado na pessoa, e aí existe uma carga histórica e cultural a ser trabalhada. “Formar o homem” é tarefa para o professor e missão para o educador. Fui privilegiado por ficar 20 anos em bancos escolares universitários e, confesso, não teve um dia igual ao outro.


Semana passada, atualizei minhas informações nas redes sociais e acrescentei à frase “sou doador de órgãos” uma outra: “escritor cristão-católico”. Cheguei a pensar em colocar: “escritor humanista cristão-católico”. Não achei necessário. Quem me acompanha sabe a forma como me posiciono (e alguns até como me omito...) nas questões sociais e religiosas. Acreditei que precisava de um “reforço” para apoiar a causa defendida pelo papa Francisco em recuperar princípios básicos do catolicismo.

Sei que a minha parte é pouca, mas é o que consigo fazer e não quero que digam que me omiti. Pelo contrário. Durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI discordei de muita coisa, mas me recolhi ao silêncio ou tentei esclarecer quando, muitas vezes, a mídia distorcia questões ligadas aos dois papas. Minha identificação é total com Francisco, mesmo sabendo que serão necessários dois ou três “Franciscos” para que se reencontre a tal de “Igreja em saída”, menos burocrática, com maior apelo popular.

Porque fugi do primeiro item de discussão? Simples, porque passei minha vida inteira tentando ser um educador, no pleno sentido, como um formador de opinião. O que me levou a estar em salões universitários até as mais simples comunidades de periferia onde se pedia para falar sobre comunicação social. Fico feliz ao olhar para trás e, ainda hoje, ouvir pessoas que se referem com carinho às aulas e encontros na universidade, no Instituto de Teologia, nos diversos cursos para leigos e formações estaduais.

Nunca me julguei um “excelente professor”. Creio que até cheguei a ser um “bom professor”, com altos e baixos... Minhas áreas permitiam forte interação com os alunos e retornavam o esforço com o que mais me satisfazia: um bom número que não queria apenas os horários de aula, mas usavam o “telealuno” (celular disponível), as páginas atualizadas com conteúdos pela Internet e os debates pelos corredores que muitas vezes, entre sair da sala de aula e retornar era só o tempo de passar pela sala dos professores...

São outros tempos e, espero, outros professores fazem até melhor do que se fazia. Meu respeito por trabalharem hoje, mas, também, àqueles (como eu) que já cumpriram a sua missão. No Dia do Professor, quero provocar quem já foi meu aluno: não curta apenas, mas compartilhe comigo uma boa lembrança na universidade ou nas atividades de Igreja, em associações e clubes sociais. São diversos os rostos que desfilam por minhas lembranças e contam um pouco das minhas saudades e do muito carinho que já recebi!

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Me devolve o direito de amar...

Perdão por ainda falar de amor.

Amor

É o perfume que inebria os sentidos.

Dele, não sei muito.

Mas, do que experimentei,

Amor é plenitude,

Que somente se entende

Quando se aceitam as carências

Como lugar para vencer os medos,

Que desaguam no abismo da indiferença.

 


Não tem problema se não consegues entender e

Acreditas que são apenas palavras vazias,

Divorciadas do que sentes no dia a dia.

Porém, tenhas a certeza:

Não se usam as palavras em vão.

Elas carregam o mistério dos sentidos ocultos.

Na incapacidade de se beber de seus silêncios,

Desnudam-se, na angústia de colocar

Ao teu alcance aquilo que precisas intuir...

 

A palavra significada é contornada pelo

Universo que esconde sua razão e origem.

Que tem eco, reverberação,

Ondas que abalam o existir.

Dizer é o balbucio da inteligência.

Feito refém, empobrece um mundo em que

A ânsia por falar impede a plena compreensão.

 

Na ausência das palavras,

Sorri, me abraça,

É o momento em que elas,

Elas mesmas, se dispensam...

Ainda que estejam presentes no olhar

E nos braços que envolvem

Pelo simples prazer de gostar de alguém.

 

Pessoas que não abraçam,

Que não te dedicam um olhar sorridente,

Esqueceram que o afago das palavras

Apenas é possível

Se houver o compartilhar dos sentidos,

Com a intensidade de todos os teus sentimentos...

Então, devolve a minha palavra

Junto com a tua compreensão.

Acarinha a riqueza de uma partilha.

 

Preciso do teu olhar

Para segurar os meus medos e

Te abraçar sempre que precisar.

Doeu quando tatuaste teu nome no meu coração.

Foi quando aprendi que

A lágrima contida é a dor que

Guarda na memória a lembrança da ferida.

Na sinceridade de

Um coração arrependido e silencioso,

Vais entender que a ninguém pode ser negado,

Em algum momento,

O perdão e conseguir de volta

O pleno direito de amar...

terça-feira, 10 de outubro de 2023

“Deixem as baleias no ar!”

Você conhece o movimento para a libertação infantil? Não? Que pena! Seu comandante declarou que o motivo da sua existência é que, nele, a criança “brinca, brinca e brinca mais. Ela brinca tanto que é um milagre não morrer de tanto brincar. É tanta diversão que a barriga dói de tanto brincar...” Resumiu seus objetivos em três pontos, que leva muito a sério: “primeiro, as crianças precisam brincar imediatamente; segundo, precisam estar saudáveis; terceiro, precisam ser felizes imediatamente!”

Seu líder foi preso ao sequestrar um ônibus escolar e levar um grupo de pequenos para, durante toda uma tarde, “brincar, brincar e brincar...” Meninas e meninos de escola tradicional na Coréia mudaram a rotina de 12 horas diárias de atividade de estudos para acompanhar um “flautista”, sim, no mesmo estilo daquele que tocava seu instrumento musical e os demais seres o seguiam... Com identificação registrada, o senhor Peido Pum diz-se com a missão de dar o direito de apenas de serem... crianças!

Quando vai a júri popular, explica seus três pontos dizendo que é preciso propiciar a elas condições para viverem bem esta etapa da vida. O que se vê, é o exagero de cobranças afetando física e psicologicamente. Muitas vezes, as frustrações passadas dos pais são responsáveis pelas frustrações dos filhos, hoje, quando jogam nas suas costas o desejo de fazer delas o que não conseguiram ser. Claro que o diagnóstico é de que é um desequilibrado, quem sabe, um desvirtuador de crianças...

Para quem acompanha doramas na Netflix este é “Uma advogada extraordinária”, episódio 9, “O flautista”. A advogada autista tem a sensibilidade de compreender o que se passa na cabeça do jovem, que é preso, agredido, sofre deboche, mas não abre mão das convicções. Depois de buscar a compreensão dos pais, conseguem nas crianças, “as supostas vítimas”, o apoio. Não sem antes convencer responsáveis de que levar os filhos a reunião do júri pode ser uma boa motivação para que se transformem em advogados...

Tem coisas neste k-drama que são agradavelmente piradas! A advogada autista é apaixonada por baleias e, cada vez que tem uma inspiração, uma delas “transporta-se” para “voar” por sobre cidades, ambientes fechados, enfim, o que a sua fértil imaginação conseguir alcançar. Contando as dificuldades de adaptação num mundo competitivo - mas também descobrindo a amizade e o amor – segue a linha tênue que a sociedade não sabe delimitar entre a capacidade de aceitação e inserção ou o desprezo e o preconceito.

Meu slogan, em 12 de outubro, é: “deixem as baleias no ar!” É preciso ser diferente ou uma criança para entender que “brincar, brincar e brincar” é etapa única que não pode - e não deve – ser pulada. O mundo da fantasia arrima o que se vai viver, inclusive a capacidade de entender, aceitar e educar filhos, sobrinhos e netos... Então, ao invés de brinquedos, gaste mais tempo com elas. Se possível, em momentos especiais, deite-se na grama e tente encontrar entre as nuvens as baleias que fazem “pais extraordinários!”

domingo, 8 de outubro de 2023

Francisco e o Sínodo: “servo dos servos do Senhor”

Oficialmente, desde quarta (4), bispos católicos do mundo inteiro reúnem-se em Roma para a XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo sobre Sinodalidade. A reunião serve para consulta do papa Francisco. Depois, será apresentada uma “exortação apostólica” com as diretrizes ao clero e lideranças da instituição. O pontífice renovou pedido de que se faça este momento inspirado pelo Espírito Santo através do “diálogo e da escuta”. Propõe que se retomem temáticas como “comunhão, participação e missão”.

Poucos dias antes da abertura, num encontro com outras instituições religiosas, o papa pediu que o sínodo seja “lugar onde o Espírito Santo purifique a Igreja de murmurações, ideologias e polarizações”, estimulando os participantes a caminharem juntos. O que se sabe ser bem difícil, em especial por aquilo que tem enfrentado entre os próprios pares. Disputas entre conservadores e progressistas tem colocado o papa diante de uma “guerra de guerrilha”, ou, numa outra expressão popular em política, “sob fogo amigo”.


Com 86 anos, muitos não acreditavam (e outros torciam) que Francisco concretizaria o Sínodo. Literalmente, “comendo pelas beiras”, não somente chegou àquele que pode se dizer que seja um dos momentos mais importantes do seu pontificado, mas também renovou o colégio de cardeais que, se fôssemos fazer uma análise apenas pelo viés político, se diria que “está dando as cartas do jogo”. Infelizmente, seus adversários têm se mostrado muito próximos de uma mídia internacional que não o vê com bons olhos...

Por outro lado, ao tratar de temáticas sempre empurradas com a barriga – papel da mulher na Igreja (42 participam pela primeira vez), celibato dos religiosos e religiosas, o acolhimento de pessoas LGBTQIA+ e de pessoas divorciadas e a luta contra a pedofilia, entre outros – rompe a cortina que impedia a real transparência. Não por acaso Francisco foi apedrejado por quem acredita viver (como no tempo da inquisição) numa instituição que pode falar mais alto e jogar problemas para debaixo dos tapetes.

Uma preocupação presente do papa tem sido com a “casa comum” – o Mundo. No dia em que abriu o Sínodo (também festa de São Francisco de Assis), tornou pública a carta “Laudate Deum”. Reforça o que foi tratado na encíclica “Laudato si”, com um desafio: “um ser humano que pretenda tomar o lugar de Deus torna-se o pior perigo para si mesmo”. Faz um apelo à corresponsabilidade diante das mudanças climáticas que chegam a um ponto de ruptura e os “efeitos recaem sobre as pessoas mais vulneráveis”.

No Sínodo, 464 representantes assessoram o papa (365 votam no relatório final) e 81 mulheres (a primeira vez em que votam). A Igreja é considerada conservadora (no bom e no mau sentido), porém avança sob o comando de quem é, efetiva (e afetivamente) pastor, com noção do que representa a política nas relações humanas. Algumas vezes sisudo, sem preocupação de “fazer mídia”, testemunha a fé, esperança e caridade. Num tempo tão carente de referências, é a real encarnação do “servo dos servos do Senhor”!

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

A trilha por onde anda a Lua

Consegues ver a Lua que emerge no horizonte?

Veste-se com as réstia das estrelas,

Por trás de um biombo de nuvens,

Onde se espreguiça e faz os derradeiros preparativos

Antes de se erguer em todo o seu esplendor.  

Teu espírito vai perceber que ao teres

Os céus negados pelo breu da noite,

Ainda assim,

Colhe fagulhas de luz,

O suficiente para percorrer

Os rumos ditados pelo teu coração.

 


A trilha da Lua brinca no

Limiar entre a praia e o mar.

Na fronteira onde o arfar das águas

Deposita gemidos na areia.

Mesmo quando se anda no quebrar das ondas,

Mirar o horizonte é sentir

A companhia que não tem pressa e

Brinca com a ansiedade de cada um.

 

Tem, também, os caminhos

Em que se torna a rainha da noite.

A estrada é pontuada

Por vultos de casas e de árvores.

Ali onde se anda no silêncio

Entrecortado por grilos,

Algumas cigarras retardatárias

E o piado dolorido das corujas.

 

A trilha por onde anda a Lua

É de quem ergue a cabeça

Em contemplação e admiração.

Podes encontrá-la em toda a plenitude,

Moldurada pela delicadeza do Infinito,

Cravejado de corpos celestes.

Quando escondida, está sempre

Pronta para ser "des" coberta...

Se não te desviares ou a negares,

Tens nela parceira e inspiração.

 

Tenho feridas em que me alcança

O bálsamo que refresca a saudade.

Então, ao saíres à rua sozinho,

Se precisares de um ombro amigo,

Ao teres alguém para caminhar contigo,

Não perde a ocasião de erguer os olhos,

Detém-te por um momento e apenas sorri...

Ela acalma o espírito,

Permite que um coração

Transborde em todo o seu encantamento.

 

Quando as luzes da cidade

Escondem a Lua e as Estrelas,

Quero andar,

junto com crianças e velhinhos,

Caminhar sem rumo que, mesmo assim,

Teríamos um destino:

Receber da Lua a sua bênção.

Na beira da água ou seguindo a estrada,

O silêncio que embriaga...

A magia em que,

Se me deres a tua mão,

Nossos passos farão a mesma

Trilha por onde anda a Lua!

terça-feira, 3 de outubro de 2023

“Passarinhar”: a vida que não tem preço...

Fiquei curioso com o termo. Confesso que não lembrava de tê-lo ouvido: “passarinhar”. Especialmente dito por um menino de sete anos, que, num vídeo, demonstrou o quanto gosta de aves e de fotografia. “Passarinhar é uma atividade em que você observa as aves, você vê o passarinho e fotografa ele. [...] Você pode ouvi-los cantando na mata, você pode identificar”, descreve o morador de Ilha Grande (RJ), Joaquim Luiz de Barros, já capaz de identificar espécies da fauna só de ver uma imagem e tem um carinho especial pelos animaizinhos.


Do seu jeito, o menino é um filósofo, menos no sentido em que os ditos “pensadores” gostam de se apresentar, mais do jeito popular de quem “leva a vida numa boa” e tem prazer em pensar sobre ela. Seu hobby é acompanhar o pai, seu Jorge, tendo na mão não um estilingue, mas uma câmera fotográfica. Em espaços abertos, utilizando os sentidos, faz o que deveria ser direito de todas as crianças: uma experiência de mergulho na Natureza. Qualquer educador vai dizer que isto é de fundamental importância.

Pais que propiciam este contato – caso do Joaquim, que até aprendeu a engatinhar na areia - sabem do ganho emocional e afetivo, quando a criança ao invés de se enclausurar dentro de casa, cercada pelas babás eletrônicas, fica ansiando pelo bom tempo em que possa estar na rua. Com um canal no YouTube para comentar suas descobertas, reforça seu gosto por livros sobre pássaros e jogos de memória com muitas espécies para montar. Desta forma, pode parecer um passatempo bem caro, mas depende...

De fato, não somos uma civilização que tenha como preocupação preservar as demais espécies. Enquanto nos servem, tudo bem. Senão... Durante o Inverno, somente via pássaros e outros pequenos animais pelas regiões mais descampadas por onde caminhava. Ali pude testemunhar a revoada de Quero-Queros e, surpresa, fui privilegiado em ver, na divisa entre o bairro Quartier e Quinta do Lago, uma família de Preás. Mas é Primavera e agora vem uma época em que mais pássaros aparecem.

Observá-los é o que se chama de “passarinhar”. Atividade que vem crescendo, atraindo pessoas de diferentes idades. Já não precisa ser com câmeras sofisticadas ou binóculos potentes, mas até um celular com aumento no zoom. Claro que os mais aficionados saem à procura de matas onde exista um maior número de espécies. Porém, se tiver paciência, pode ser que apareça um Sabiá, um João de Barro, um Quero-Quero, um Anu... Alguns tipos que eram comuns pelos nossos banhados e descampados.

Observar e admirar possibilitam a reflexão e compreensão de que fazemos parte de um todo. Os pássaros ensinam a alçar voos... Também se pode, em noites claras, voltar os olhos para os céus, contemplar a Lua e as estrelas e mirar o Infinito... Ou, simplesmente, na rua, se encantar com uma criança, uma mulher grávida, um casal de namorados, um idoso, gestos de carinho em família... “Passarinhar” é a imersão no grande universo da vida – que não tem preço - e na missão que a humanidade recebeu de preservá-la!

domingo, 1 de outubro de 2023

O Mestre e o Aprendiz: "eu vou cuidar de ti..."

O telhado de uma das alas do Mosteiro foi parcialmente destruído por um ciclone. As constantes chuvas já tinham feito bastante estragos. A estrutura antiga era uma preocupação. Os trabalhadores estavam fazendo de tudo para se antecipar às tormentas comuns na estação que se aproximava. O Mestre resolveu subir até o local, num horário em que os pedreiros descansavam, e visitar as obras. Ficou ainda mais preocupado com a extensão do que era necessário ser feito.


Por sobre algumas estruturas que pareciam seguras, andou durante algum tempo, vendo o que julgou ser preciso fazer. Porém, foi num instante que se descuidou e resvalou na parte em que ainda não haviam recolocado as telhas. Sentiu que perdia o chão e em seguida, o vazio. E o silêncio...

Contaram que o Aprendiz foi o primeiro a encontrá-lo. Quando chegaram, o pequeno estava sentado no chão com a cabeça do seu Mestre no colo. Embalava o religioso desmaiado e chamava baixinho, repetidamente, pelo seu nome. Tiveram muito trabalho em mover o corpo porque o menino ainda não conseguia entender porque o seu amigo não respondia e não falava com ele!

Na enfermaria, deram-se conta de que não haviam recursos suficientes para atendê-lo. Decidiram remover para o hospital da Vila. Ali, crianças não podiam entrar. Foi com bastante dificuldade que contiveram o garoto em casa. Com o passar dos dias, o Aprendiz ficava cada vez mais horas sentado à porta da sala do Mestre. O Prior, preocupado, atravessou o pátio e foi sentar ao seu lado. Para distrai-lo, perguntou:

- Pequeno Aprendiz, o que queres ser quando crescer?

Levou algum tempo para responder:

- Quando eu crescer, vou cuidar do Mestre... Ele sempre cuidou de mim!

A conversa não se alongou porque o menino não respondeu mais.

O Mestre ficou emocionado quando chegaram as notícias com a preocupação dos monges, aprendizes e da sua comunidade. Mas seus olhos marejaram quando detalharam a reação do Aprendiz, nos últimos dias, andando como um zumbi pelas dependências da casa e comendo muito pouco.

Passado quase um mês, ficou sabendo que teria alta. Quando viu chegar o Monge enfermeiro teve a certeza: estava mais próximo de voltar para casa. O religioso entrou no seu quarto devagar, como sempre andava, com as mãos dentro das mangas do hábito. Mas foi quando uma pequena cabeça apareceu por detrás do Monge que seu coração quase parou. Ali estava o Aprendiz. Sério, ainda mais magro, com seu olhar intenso. Encostou o rosto no peito do amigo e murmurou devagarinho, segurando as lágrimas:

- Eu vim te buscar. Não vou te deixar sozinho. Eu vou cuidar de ti!

O Mestre fechou os olhos, ainda se sentindo cansado. Sentiu a mãozinha apertar o seu ombro.

- Por favor não dorme. Senão não me deixam te levar para casa!

Segurou a pequena mão, colocou-a de encontro ao peito e sorriu. Finalmente encontrava alguém que cuidaria dele. Estava envelhecendo e sempre tivera medo de que se tornasse alguém que dependesse dos outros. Ficara o mais próximo possível dos monges que se tornaram idosos e depois morreram, sempre tentando fazer com que se sentissem parte de todas as atividades da casa.

Sempre ouvira o provérbio de que “não se aceita a velhice se não for capaz de agradecer pelo caminho”. Que tempo restava? Não sabia. Nem precisava. Ainda haviam vidas a regar na estrada. Ao se aproximar o anoitecer, não teria medo do ocaso. Na despedida, queria estar tranquilo sabendo que o legado do Ser Supremo tinha sido bem cuidado. Dera-lhe o caminho e agora entendia que os filhos de coração eram anjos que voavam como pirilampos e lhe davam o sentido do que é, realmente, viver em plenitude!