O Fio da Meada:
Há algo de profundamente restaurador na recente decisão da Justiça Eleitoral que retringe o uso de templos e espaços religiosos para a defesa de partidos ou candidaturas. Por muito tempo, assistimos, com alguma perplexidade, ao avanço das disputas partidárias sobre o solo sagrado. O que deveria ser um ambiente de encontro com o transcendente, de reflexão íntima e de acolhimento universal, foi sendo, pouco a pouco, ocupado pelas cores e pelos slogans de projetos de poder.Não se trata aqui de cercear a voz das instituições, mas de salvaguardar a natureza do púlpito. A Igreja Católica, por intermédio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, já vinha manifestando esse compromisso, entendendo que o sagrado não pode ser moeda de troca ou palanque para agendas eleitorais. Agora, a norma se expande como um imperativo de cidadania, atingindo todas as denominações.
Essa medida é, antes de tudo, um divisor de águas. Ao retirar o peso da máquina político-partidária do ambiente religioso, a Justiça Eleitoral promove uma necessária equidade. Quando a fé deixa de ser instrumentalizada como um "cabo de guerra eleitoral", o campo da disputa política volta a ser, pelo menos em tese, o das propostas, dos projetos para o bem comum e da trajetória de vida dos candidatos. A regra traz uma equiparação vital: o fiel, ao cruzar o limiar de um templo, deve encontrar a paz do Reino - e não o ruído das urnas.
Há um risco silencioso na confusão entre estas duas dimensões. Quando a lealdade ao Reino de Deus é misturada à lealdade a um candidato, corre-se o risco de transformar o apoio político em um dogma de fé. Isso não só fragiliza a democracia, ao criar clivagens intransponíveis, como também esvazia a autoridade moral da religião, que se vê atrelada aos fracassos e aos tropeços dos homens públicos.
A proibição é, portanto, um ato de proteção. Ela protege o Estado, que deve permanecer laico e plural, mas protege, sobretudo, a própria religiosidade. Os templos voltam a ser o que nunca deveriam ter deixado de ser: espaços de silêncio, de escuta e de esperança. A democracia só tem a ganhar quando o voto, fruto do discernimento do cidadão, nasce da liberdade da consciência, e não da pressão do palanque camuflado de altar…
(Revisão e imagem: Gemini)

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