domingo, 17 de maio de 2026

Crônica Poética: A joia no chão batido

O Diabo, dizem, NÃO perdeu as botas lá para as bandas do rio Camaquã, no quinto distrito de Canguçu. Ele foi esperto: voltou antes... Não aguentou o peso da distância ou, quem sabe, a braveza de quem precisava tirar o sustento de trinta hectares para alimentar doze bocas. Em 1958, a estrada foi o único remédio. Minha família deixou para trás a terra que, de tão dividida, já não cabia nos sonhos dos mais novos.

​Ainda tenho lembranças do asseio que desafiava a escassez. Na casa de chão batido, a limpeza não era luxo, era oração. Varria-se a terra até que ela brilhasse como assoalho de palácio. E sobre a mesa, ou num canto da sala, o adorno por excelência: um arranjo com a flor “Brinco-de-Princesa”.


​Pendente, com suas pétalas de sangue e coração roxo, era a nossa joia de estimação. Não era ouro de ourives, era o ouro de pátio. Quando a casa estava em ordem, o chão varrido e o vaso florido, dizia-se com orgulho: "Está um brinco!".

​Hoje, longe das antigas e saudosas Três Porteiras, percebo que a dignidade morava naquele vaso. Ser "um brinco" era a resistência da beleza frente à miséria. O capricho de quem, mesmo tendo quase nada, fazia questão de oferecer o melhor aos olhos de quem compartilhava um lar.

​Minha história começou ali, naquele chão de terra batida e flores de pingente. E até hoje, quando busco a perfeição num texto ou na vida, é para aquele vaso que volto o olhar das minhas saudades. A vida vai ensinando que não há joia maior do que o cuidado que a gente coloca no que é simples, com o sentido de pertença: ser família no chão batido da própria existência.

(Revisão e imagens: Gemini)


sábado, 16 de maio de 2026

Os Senhores do Século, de Luiz Antonio de Assis Brasil

 Janelas do tempo:

Os Senhores do Século
, de Luiz Antonio Assis Brasil, encerra uma trilogia que consolida uma vasta arquitetura narrativa sobre o poder e a decadência das estâncias sul-rio-grandenses. 📖 O autor transporta o leitor para o final do século XIX e início do XX, período de transição em que o prestígio da terra e do gado começa a sofrer as pressões da modernidade e das mudanças políticas. 🌾

  • 🔹 O Crepúsculo dos Patriarcas: A obra explora com precisão cirúrgica o declínio de uma elite que se via como "senhora do tempo". Observa-se a tensão entre a tradição latifundiária e as novas forças urbanas e industriais que começam a emergir.

  • 🔹 Psicologia das Personagens: Assis Brasil evita o maniqueísmo. Suas personagens são construídas com camadas, revelando as contradições de uma classe que, ao mesmo tempo em que ostenta poder, lida com a fragilidade das sucessões familiares e a rigidez de um código de honra que já não encontra eco no novo século.

  • 🔹 A Linguagem: A escrita refinada e técnica é capaz de evocar uma atmosfera do pampa com uma sensibilidade quase táctil. Nota-se a habilidade do autor em transpor pesquisas históricas para uma ficção que pulsa vida e conflito humano.

Os Senhores do Século não apenas encerra a trilogia, mas completa um ciclo de compreensão sobre a identidade gaúcha. 🛡️ Luiz Antonio de Assis Brasil reafirma sua posição como um dos grandes intérpretes da formação social e histórica do Brasil Meridional, entregando uma obra que convida à reflexão sobre a impermanência do poder e a certeza de que o conquistado numa geração pode não ser o desejo de consumo dos seus descendentes. ⏳

(Revisão e imagens: Gemini)


sexta-feira, 15 de maio de 2026

400 anos de uma Herança

O Fio da Meada:













Três de maio de 1626. 🗓️

Mais do que uma data, um marco. Com a chegada do Padre Roque Gonzales e a fundação de São Nicolau, as Missões Jesuíticas lançaram as bases de uma organização que agregou a espiritualidade europeia à alma indígena. Um encontro que, há exatos 400 anos, desenhou a fisionomia do nosso Rio Grande.

O motor dessa revolução? O gado. 🐎

O animal não apenas garantiu o sustento, mas moldou a lida e a identidade do homem do pampa. Do pastoreio nos Sete Povos nasceu a tradição que une Brasil, Uruguai e Argentina — um legado que caminhou sobre os campos muito antes das fronteiras políticas existirem.

A força da cultura e do mate. 🌿

Nas Reduções, a erva-mate deixou de ser a "erva do capeta" para se tornar o ritual de hospitalidade que nos define. Somado à tecelagem e às artes, as Missões demonstraram que o trabalho manual pode ser, sim, uma forma de dignidade comunitária e expressão artística.

Valores que atravessam o tempo. 🕊️

Essa essência jesuítica hoje ecoa em vozes que priorizam a educação e o social. Na memória coletiva, a figura do Papa Francisco; na minha memória pessoal, a convivência com os padres Atílio Hartmann e Martinho Lenz. Eles atualizam essa missão, unindo o projeto de outrora ao pensamento ético de hoje.

A história como organismo vivo.

Quem visita as ruínas dos Sete Povos silencia diante de um patrimônio que desafia o tempo. Ali estão os rastros de quem valorizou o bem comum. Celebrar esses 400 anos é reconhecer que a história não é um túmulo de lembranças, mas um organismo vivo que acalenta o sonho de uma sociedade mais justa e fraterna.

(Revisão e imagem: Gemini)

terça-feira, 12 de maio de 2026

O Refúgio da minha solidão

Quartas com gosto de poesia:


Não me chamem para a festa, 

Pois prefiro o meu rincão; 

Onde o silêncio faz a sesta 

No aconchego do meu chão.


Dizem que sou bicho do mato, 

Que o convívio me faz mal; 

Mas no meu mundo, de fato,

 A paz é um bem principal.


Não é falta de carinho, 

Nem desfeita com ninguém; 

É que aprendi o caminho, 

A morar comigo, também. 


Meu castelo não tem muros, 

Tem apenas o meu querer; 

Entre os afetos mais puros, 

Vou aprendendo a viver!


(Revisão e imagem: Gemini)


domingo, 10 de maio de 2026

Mãe, obrigado por ter me ensinado a amar!

Crônica Poética: 

Difícil definir o que seja “mãe” - assim como a palavra “amor”. É um contorcionismo verbal, uma tentativa sempre acompanhada da impressão de que faltou alguma coisa. Da mesma forma que o “amor”, a "mãe" se experimenta na realidade do dia a dia, em um tempo de vivências tão intensas das quais não se tem noção, até que os anos passem e as memórias sejam depositadas no altar onde incensamos a bênção que foi ter tido o convívio com elas.

Minha mãe era a dona França — como era conhecida na nossa rua, embora se chamasse Francelina. Durante muito tempo, achava engraçado que a chamassem assim, porque, para mim, ela era simplesmente “mãe”. Migrou do interior de Canguçu com meu pai e três filhos por criar, educar, vestir e alimentar. Eram tempos difíceis, e deve ter sido ainda mais para quem sempre viveu tão próxim à família.

Na periferia da cidade (Pelotas/RS), buscaram fugir, como dizia meu pai, “da miséria para viver na pobreza”. Parecia natural que ela cumprisse diversas jornadas de trabalho: cuidadora dos filhos, responsável pela casa e pela alimentação, reserva no atendimento do bar e armazém do seu Manoel. Nunca a vi chorosa, nunca a vi reclamar. Era, literalmente, o porto seguro onde ancorávamos nas nossas muitas voltas ao lar.

Mesmo com apenas a terceira série primária, dizia que era preciso que os filhos “tomassem rumo na vida”. Hoje, sei que num abraço cabem as palavras que eu deveria ter dito e não o fiz. E, se elas já moram na Eternidade, a homenagem se faz na certeza de que o caminho foi iluminado por um ser de luz: o coração de quem amou primeiro e mostrou, com a vida, que o simples ato de amar sempre vale a pena!



Na tua presença, ou na tua saudade,

Mãe, obrigado por me ensinar a amar!

(Revisão e imagem: Gemini)

sábado, 9 de maio de 2026

Pedra da Memória, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Janelas do Tempo: 

Dando continuidade à
trilogia sobre o "Castelo no Pampa", de Luiz Antonio Assis Brasil, chegamos ao segundo volume: Pedra da Memória. Se no primeiro livro testemunhamos a glória da construção, aqui somos convidados a entrar em um cenário mais íntimo e melancólico, onde o tempo começa a cobrar o seu preço sobre as pedras e sobre os homens.

A trama foca na maturidade de Joaquim Francisco, o idealista que tentou plantar um pedaço da Europa no coração do Rio Grande do Sul. O conflito central é humano e profundo: o choque entre o seu sonho de civilização e a realidade da decadência econômica das estâncias gaúchas. Vemos um patriarca que luta para manter a dignidade enquanto o mundo que ele conhece se transforma.

Ao lado dele, destaca-se a figura de Lydia, sua esposa. Ela é o verdadeiro pilar emocional que sustenta a estrutura do castelo diante do isolamento e das incertezas. A relação do casal com os filhos também ganha força, revelando o abismo geracional entre quem construiu o império e quem herdará apenas as suas ruínas e memórias, em um tempo onde a terra já não tem a mesma voz.

O autor utiliza uma linguagem elegante para descrever essa erosão silenciosa. A "Pedra" do título é um símbolo duplo: representa tanto a solidez dos ideais de Joaquim quanto o peso da saudade que imobiliza os personagens. É uma leitura que faz refletir sobre o que realmente permanece de nós quando as luzes dos grandes salões começam, inevitavelmente, a se apagar.

A história une rigor histórico e sensibilidade quase poética sobre a condição humana. Pedra da Memória é uma escolha indispensável, o convite perfeito para uma boa leitura, desvendando segredos dos moradores do castelo em uma narrativa fragmentada. O livro funciona como um retrato íntimo das perplexidades humanas e da ruína de um modo de vida, consolidando a série como uma peça importante do romance histórico sul-rio-grandense.

(Revisão e imagens: Gemini)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Vacinas: As mentiras que podem matar

 O Fio da Meada: 

Ainda precisamos falar sobre vacinação. Parece um tema esgotado, mas a realidade nos impõe o retorno a essa pauta. Todos os anos, a história se repete como uma ladainha persistente: as campanhas de saúde, que deveriam ser celebradas como um pacto de vida, encontram uma barreira feita de indiferença e, em casos mais graves, de hostilidade gratuita. No outono, quando o ar esfria, a proteção deveria ser o nosso agasalho principal.

Olhamos para trás e vemos o rastro de superação que a ciência nos deixou. Doenças que antes mutilavam e matavam em silêncio, como a poliomielite, tornaram-se memórias distantes graças ao esforço de braços estendidos nos postos de saúde. O sarampo, que outrora era uma sentença de medo para os pais, foi domado pela inteligência coletiva. São vitórias da humanidade, marcos de uma evolução que não permitia que o obscurantismo ditasse as regras do jogo.

Entretanto, vivemos um fenômeno curioso e triste. O acesso à informação, em vez de libertar, muitas vezes tem servido para encarcerar mentes em bolhas de negação. Bastou a politização de um tema técnico para que a confiança fosse abalada. Quando transformamos a saúde em um campo de batalha ideológico, os únicos feridos são os cidadãos. Não se trata de direita ou esquerda quando o que está em jogo é o fôlego de um idoso ou a segurança de uma criança.

Não consigo aceitar que políticos de estimação sejam colocados acima do bem-estar social. Priorizar narrativas em detrimento da sobrevivência de quem depende do SUS é uma falha moral profunda. A saúde pública é o último refúgio de quem não tem posses, e enfraquecê-la com dúvidas infundadas é um crime silencioso. Onde foi que perdemos a capacidade de confiar naquilo que nos trouxe até aqui com vida e saúde?

Que este texto sirva como um convite ao pensamento crítico. Vacinar é, antes de tudo, um ato de amor e de civilidade. É entender que o meu corpo faz parte de um corpo social que precisa estar forte. Não permita que o barulho das disputas partidárias ensurdeça o seu instinto de proteção. Procure o posto, busque a vacina e reafirme o seu compromisso com a vida. Afinal, a ciência continua sendo o nosso melhor escudo contra as sombras do passado.

(Imagens e revisão: Gemini)


quarta-feira, 6 de maio de 2026

O mate no renascer da manhã

 Quartas com gosto de poesia:


Na cuia se molda o início do dia,

O verde esperança que o tempo conduz;

A água que aquece e a alma sacia,

Em cada gole, um reflexo de luz.


​Não é só bebida, é silêncio, é prece,

Um trato sagrado com a tradição;

Enquanto o vapor no ambiente floresce,

Se acalmam as batidas do meu coração.


​A mão que sustenta a bomba de prata,

Carrega memórias de um tempo guri;

A lida do mundo, por vezes ingrata,

Se torna mais leve ao sorvê-lo por aqui.


​E quando a manhã se aconchega serena,

Oferecendo o amargo que ensina a viver;

O mate faz a vida valer a pena,

No eterno mistério de se renascer!


(Revisão e imagem: Gemini)


domingo, 3 de maio de 2026

O Manifesto de um Velho Bobo

 

Crônica poética:


​Dizem que sou apenas “um velho bobo”. É um bom título. Aceito sem resistência, pois, no fim das contas, só os “bobos” ainda conseguem enxergar o que é “essencial aos olhos”.

Admiro a criança na sua plena inocência, desconhecendo as convenções e livre de preconceitos. Ela é solidária por natureza. Ainda imune ao vírus predador das relações de exploração e medo que o mundo tenta, precocemente, inocular.


Admiro o jovem que teima em acreditar nas suas potencialidades. Pedem-lhe, com pressa, que amadureça — como se a vida fosse um prazo a vencer — quando ele apenas deseja que não matem os seus sonhos. Resiste para que não lhe privem dos amigos e dos amores, nem engessem sua caminhada, exigindo que abra mão de um tempo de aventuras.

Admiro o idoso que, reconhecendo a finitude, ainda se permite o devaneio. O direito que pede de ser feliz não é para atender a seus interesses, mas irradiar a energia que contamina a família e o meio onde vive. Um farol que pisca, mas teima em não se apagar.

​Minha prece pela humanidade não é uma utopia desprovida de  sentido. Ela encarna no cerne do mundo, sabendo que faz parte da vida: sofrer, surpreender-se e, acima de tudo, ser feliz.

​Sim, sou apenas um velho bobo. Um desses que, apesar de tudo, ainda escolhe acreditar no ser humano, na vida e no amor!

(Revisão e imagem: Gemini)

sábado, 2 de maio de 2026

Perversas Famílias, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Janelas do Tempo:

Perversas Famílias
é a obra que inicia a saga de Um Castelo no Pampa estabelecendo o conflito central entre o desejo e a realidade. A narrativa expõe a construção de uma residência monumental, idealizada por um patriarca, mas concretizada por seu herdeiro, Olímpio. O cenário serve como metáfora para a formação da sociedade gaúcha, onde a solidez das pedras contrasta com a fragilidade das relações humanas. Luiz Antonio de Assis Brasil utiliza esse palco para dissecar a linhagem da família Borges da Fonseca e Menezes em meio ao isolamento do pampa.

A estrutura do romance utiliza um movimento temporal constante para revelar as camadas da hipocrisia familiar. Não há uma linha reta na memória, mas sim um desvelar gradual de mentiras e segredos que sustentam a aparência da honra. O texto demonstra como o projeto de poder latifundiário carrega em si as sementes da própria destruição. A cada capítulo, a imagem do castelo perde seu brilho romântico para se tornar um símbolo de clausura e opressão psicológica para os que ali habitam.

O foco recai sobre a perversidade intrínseca ao sistema de privilégios da época. A convivência entre pais, filhos e irmãos é marcada por uma rigidez que sufoca o afeto em nome da manutenção do nome e da propriedade. O autor evita a glorificação do passado, preferindo mostrar o avesso do mito heroico do estancieiro. Revela-se um ambiente onde a comunicação é falha e os silêncios são tão pesados quanto as paredes da edificação que se ergue na imensidão do campo.

O personagem Dr. Olinto surge como o observador crítico e o fio condutor que atravessa essa turbulência histórica. Sua presença permite ao leitor enxergar as contradições de um Rio Grande do Sul que tentava conciliar a herança tradicionalista com as mudanças da República. A narrativa aponta para a decadência moral de uma classe que se via como eterna, mas que se tornava anacrônica diante dos novos tempos. O olhar do médico funciona como uma lente que amplia as feridas abertas pela ambição desmedida.

O fechamento do primeiro volume, Perversas Famílias, deixa clara a inevitabilidade da queda. O castelo, embora majestoso, é o retrato de uma miragem trágica que consome a energia e o caráter de várias gerações. A obra termina por consolidar a ideia de que a arquitetura do poder é, muitas vezes, uma armadilha para quem a constrói. Prepara-se, assim, o terreno para os desdobramentos futuros que serão explorados em Pedra da Memória, mantendo a tensão entre a história pública e a ruína privada.

(Revisão e imagem: IA Gemini)


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A CNBB e o resgate da “polis”: Fé não se confunde com palanque

O Fio da Meada:

A recente
mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), emitida ao final de sua assembleia, convoca a uma reflexão urgente sobre o conceito de polis. Mais do que um mero aglomerado de edifícios ou vultosos investimentos em infraestrutura, a urbe é, em sua essência, o conjunto vivo de seus cidadãos. Cuidar desse espaço comum, portanto, significa priorizar a dignidade humana e o bem-estar coletivo, resgatando o sentido mais puro da ação política na sociedade.

O documento confere protagonismo à educação pastoral como via para o amadurecimento cívico. Tal formação não pretende ditar escolhas partidárias, mas sim emancipar o indivíduo para que compreenda seu papel na construção de um mundo justo. Trata-se de um convite ao discernimento ético, fornecendo as bases morais para que cada um atue como protagonista na busca por soluções que beneficiem a coletividade, e não apenas segmentos isolados.

É fundamental, como sugere o texto do episcopado, não confundir valores religiosos com militância cega. Enquanto a fé oferece princípios universais de fraternidade, o campo das soluções técnicas e temporais pertence à política. Quando certos grupos instrumentalizam a crença para fins eleitorais, a espiritualidade perde sua essência transcendente e corre-se o risco de transformar o altar em palanque, o que desvirtua ambas as esferas e empobrece o debate público.

Diferente de movimentos que promovem uma verdadeira lavagem cerebral, a mensagem da CNBB foge da dicotomia que paralisou o país. Em vez de alimentar o ódio ou a exclusão do "outro", a Igreja propõe o diálogo e a amizade social como antídotos ao radicalismo. O foco recai na unidade dentro da diversidade, rejeitando discursos messiânicos que prometem salvação em troca de contribuições financeiras, fidelidade absoluta e o acirramento constante de conflitos.

A esperança cristã deve ser um compromisso ativo com a realidade. Educar para a cidadania é, antes de tudo, olhar o próximo com empatia e responsabilidade social. A sociedade em que habitamos só será próspera quando o cuidado com o povo for o alicerce de todas as construções. Afinal, uma população mantida na ignorância torna-se presa fácil da manipulação; e enquanto estivermos longe de uma educação inclusiva, continuaremos a criar "castas" fidelizadas por soluções paliativas, em vez de um projeto comum de nação.

(Revisão: IA Gemini. Imagem: CNBB)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Café com a Palavra: O olhar de Jesus

 

Bom-dia. Sente-se conosco. O café está servido e, com ele, a oportunidade de renovar os sentidos. Hoje, no Café com a Palavra, encerramos um ciclo de encontros. Ao longo deste mês, ouvimos vozes que cruzaram o tempo para nos falar de fé, humanidade e transformação, no episódio conhecido como o “paralítico de Cafarnaum”. Para fechar essa jornada, buscamos a cena de um telhado aberto, de uma maca que se torna desnecessária e de uma palavra que restaura o que estava paralisado. Prepare o seu coração. Vamos ouvir São Lucas contando esta história.


O Evangelho  de Lucas

Certo dia, enquanto ensinava, achavam-se ali sentados fariseus e doutores da Lei, vindos de todos os povoados da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém; e ele tinha um poder do Senhor para operar curas.

Vieram então alguns homens carregando um paralítico numa maca; tentavam levá-lo para dentro e colocá-lo diante dele. E como não encontravam um jeito de introduzi-lo, por causa da multidão, subiram ao terraço e, através das telhas, desceram-no com a maca no meio dos assistentes, diante de Jesus.

Vendo-lhes a fé, ele disse: "Homem, teus pecados estão perdoados".

Os escribas e os fariseus começaram a raciocinar: "Quem é este que diz blasfêmias? Não é só Deus que pode perdoar pecados?" Jesus, porém, percebeu seus raciocínios e respondeu-lhes: "Por que raciocinais em vossos corações? Que é mais fácil dizer: Teus pecados estão perdoados, ou: Levanta-te e anda?

Pois bem! Para que saibais que o Filho do Homem tem o poder de perdoar pecados na terra, eu te ordeno — disse ao paralítico — levanta-te, toma tua maca e vai para tua casa".

E no mesmo instante, levantando-se diante deles, tomou a maca onde estivera deitado e foi para casa, glorificando a Deus. O espanto apoderou-se de todos e glorificavam a Deus. Ficaram cheios de medo e diziam: "Hoje vimos coisas estranhas!"

O Olhar de Jesus: O Teto que se Abre

Senti que o calor dentro daquela casa em Cafarnaum era denso, muito pelo fôlego de tantas pessoas que buscavam respostas. Eu falava sobre o Reino, quando um som que veio de cima interrompeu o meu raciocínio. Não era um ruído comum; eram mãos arrancando o barro e as palhas do teto.

A luz do sol, repentina e intensa, cortou a penumbra da sala. O que vi não foi apenas um buraco na estrutura da casa, mas a fresta da determinação. A poeira baixava sobre todos os presentes, enquanto quatro rostos apareciam no alto, suados e ofegantes. Eles não disseram nada, mas seus olhos comunicavam uma urgência que não pedia licença.

A maca começou a descer, balançando levemente - e perigosamente - sustentada por cordas improvisadas. A assistência, antes barulhenta, mergulhou num silêncio de espanto. Vi os escribas apertarem os olhos, incomodados com a desordem, e vi o povo recuar para dar espaço ao que descia dos céus.

Quando a maca chegou ao chão, junto dos meus pés, vi um homem paralítico, cansado e sofrido. Naquele momento, ele não era apenas um corpo imóvel; era a síntese de uma esperança que atravessou barreiras físicas. O teto estava aberto, mas o que realmente se escancarou ali foi a alteridade: aqueles amigos não buscavam algo para si, mas carregavam o peso do outro.

Olhei para o paralítico e, depois, para o céu visível pelo buraco. A cura havia começado muito antes das palavras que pronunciei. Iniciou na coragem de quem subiu no telhado. Quando ele se levantou, enrolou a maca e caminhou por entre a multidão que antes o bloqueava, o teto continuou aberto. Desleixo ou pressa? Desacomodados, nas discussões que muitas vezes não têm fim, era um lembrete de que, para o amor que age, nenhuma barreira se torna definitiva.

Encerramento

Com essas palavras de vida, fechamos a nossa série especial. Ao longo deste mês, sentamos à mesa com quatro depoimentos marcantes que desafiaram nossa percepção e alimentaram nossa esperança. Agora, a palavra está contigo.

Qual desses encontros mais tocou o teu caminhar? Como essas vozes repercutiram na tua vida? Queremos ouvir tua avaliação sobre esse mês de reflexões. Deixe teu comentário, envie tua mensagem. Afinal, o Café com a Palavra só se completa quando a semente germina no teu coração.

Um abençoado dia, obrigado pelo carinho e até o nosso próximo encontro.

(Revisão e imagem: IA Gemini)

domingo, 26 de abril de 2026

Crônica poética: O avesso da palavra

Espero pelo momento em que aprenderás a ouvir os meus silêncios. O espaço de quietude em que se revela a verdadeira maturidade, quando se passa a dar atenção ao que não precisa ser dito para existir. Entre olhares ligeiros e desatentos que cruzam nosso caminho, busco a mirada sentida, capaz de ressignificar o que ainda não compreendi, a busca por manter-me sempre próximo de ti.

O tempo possui a sabedoria que arrefece a belicosidade dos velhos confrontos verbais. Ensina a ficar à espreita, não para o ataque, mas para resgatar o que restou de valor entre rusgas e controvérsias vividas. A paz verdadeira dispensa o excesso de palavras; nutre-se da cumplicidade silenciosa de quem intui os sentidos e deseja, acima de tudo, restaurar o convívio ansiado.


As palavras podem ferir, calando fundo na pele e na alma, como cicatrizes que, mesmo fechadas, guardam o risco de se reabrir e expor o cerne das muitas desilusões. É um terreno sensível onde o cuidado se faz necessário, pois o que foi dito não pode ser apagado, mas pode ser curado pela intenção de um simples gesto e pela disposição de recomeçar.

Bendito seja o olhar de quem carrega em si a capacidade de não desistir dos próprios sonhos. Que a incompletude não seja vista como um fardo, mas motivo para aprender que construir rumos sozinho é tarefa árdua. No encontro, na aceitação da carência de um pelo outro, o andante abandona a aflição. A estrada sempre tem o sentido de finitude, gestando o Infinito possível.

(Revisão e imagem: IA Gemini)