sexta-feira, 10 de julho de 2026

O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata

Janelas do Tempo: 

Publicado entre 1949 e 1954, O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata, permanece como um dos marcos fundamentais para que se compreenda a sensibilidade japonesa do pós-guerra. A narrativa situa-se em Kamakura e acompanha Shingo Ogata, um homem de 62 anos que, diante do declínio físico e da desagregação dos laços familiares, passa a escutar um som vindo da montanha — um presságio, ou talvez o eco de sua própria finitude.

Este livro integra uma leva recente de literatura oriental que se tem o privilégio de explorar no Brasil. A leitura exige um exercício de paciência: é preciso aprender a decifrar os meandros de uma escrita que não se apoia no clímax, mas na contemplação. É um convite para compreender o que não é dito, o silêncio que pontua as relações e a importância do vazio na construção narrativa.

Um ponto central na obra é a relação de Shingo com sua nora, Kikuko. Diferente de uma interpretação que buscaria elementos puramente eróticos ou comportamentais — algo comum sob uma lente ocidental — Kawabata apresenta algo mais complexo:

  • Sublimação: O interesse de Shingo por Kikuko não é uma paixão vulgar, mas a busca por beleza e pureza em um cotidiano marcado pela aridez.

  • Contenção: A figura da nora torna-se um refúgio estético. O desejo de Shingo é latente e contido; é a melancolia de quem, aproximando-se da morte, ancora-se na juventude e na integridade de Kikuko para lidar com a transitoriedade de todas as coisas e da sua própria humanidade.

Kawabata ensina que a vida doméstica, aparentemente banal, é onde residem os maiores dramas. Ao ler O Som da Montanha, não se está apenas lendo uma história japonesa da década de 50, mas sim treinando o olhar para perceber a fragilidade das relações humanas e a força do que permanece oculto naquilo que, por educação ou pudor, prefere se manter em silêncio.

(Revisão e imagem: Gemini)

Nenhum comentário: