Crônica Poética:
Ao completar 15 anos, vivendo como interno no Seminário Diocesano, ganhei um presente inesquecível: um radinho de pilha. Havia pedido aos meus pais, mas tinha quase certeza de que não ganharia. Hoje, imagino o esforço que fizeram. Éramos uma família pobre e o sustento vinha de um pequeno "bar e armazém", a “venda do seu Manoel”. Ter o aparelho era luxo para um adolescente animado para ouvir os jogos da Seleção na Copa de 1970.
Podem imaginar o quando eu me sentia importante! “Desfilava” com o radinho, por dentro das notícias e dos esportes, sintonizando a Rádio Guaíba, na época líder de audiência no estado, ou a Gaúcha, mais tarde. E tinha o lado romântico também: à noite, com o rádio colado no ouvido, com o testemunho do travesseiro, ouvir as vozes aveludadas sincronizando com as músicas que embalaram meus sonhos e devaneios…
Um radinho no começo dos anos 70 era bem diferente de um celular atual, que já está nas mãos de qualquer criança. Um abismo tecnológico. Naquela época, o sinal era precário e vivia caindo, sendo que, à noite, buscando por emissoras de fora do país, ainda se tinha a “fuga” de sintonia, o que permitia ouvir uma parte e torcer para entender o que viria depois. Hoje, é possível assistir aos fatos acontecendo praticamente ao vivo, na palma da mão.
Procurar um lugar na casa onde pegasse o sinal; as narrações de futebol ou do mergulho nas radionovelas — que iam de romances - passando por ação, aventura e suspense - a histórias de terror. Um período em que o mundo cabia no chiado das ondas curtas. No fim, ficou a saudade de uma época em que escutar exigia paciência e silêncio. E a interrogação: como a tecnologia, que prometia ajudar na aproximação de todos, acabou nos deixando tão sós?
(Revisão e imagem: Gemini)




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