sexta-feira, 3 de julho de 2026

Mel e Amêndoas, de Maha Akhtar

 Janelas do Tempo:

Finalizo a tríade de
Maha Akhtar, com o livro Mel e Amêndoas, mergulhando na rotina de Mouna Al-Husseini, que administra um salão de beleza em Beirute. Mais do que um espaço de estética, o salão funciona como um santuário — um refúgio onde seis mulheres se reúnem para compartilhar suas vidas. O pano de fundo continua sendo o Líbano, devastado pela histórica tensão entre seu país e Israel.

Mouna é figura central, desafiada a equilibrar a sobrevivência do negócio com a pressão da família — especialmente da mãe, que tenta impor um destino tradicional (o casamento) que Mouna se recusa a aceitar. O livro entrelaça a resiliência dessas mulheres que, entre cortes de cabelo e conversas, trocam relatos sobre solidão, perdas, amores interrompidos e a busca pela dignidade em meio a uma realidade que muitas vezes insiste em negá-la.

Cada uma dessas amigas carrega cicatrizes, físicas ou emocionais, decorrentes dos conflitos que moldaram sua terra. Diferente das grandes crônicas de guerra, Akhtar utiliza o salão de beleza como um arquivo. Ali, a história não está nos livros de História, mas na voz de quem viveu o trauma. Uma reflexão poderosa sobre como o cotidiano — o espaço, o encontro, a conversa — é onde a humanidade sobrevive às suas próprias tragédias.

A luta de Mouna contra o destino que a mãe deseja para ela (o casamento como única via de segurança) é um tema central, que ainda perpassa muitas sociedades. É o confronto entre o tradicionalismo patriarcal e a busca pela autonomia feminina. Mostra que a guerra, além de destruir cidades e sonhos, também tenta engessar vidas e vontades.

Pode-se até dizer que há algo de poético em encontrar beleza e cuidado em um ambiente marcado por conflitos que a população não criou e, sequer, desejou. O título, Mel e Amêndoas, evoca sabores e aromas que servem de contraste à dureza dos relatos das seis protagonistas. Ressoa com a própria busca por criar materiais aprimorados e esteticamente cuidados: a escolha pela beleza, então, acaba se tornando um ato de resistência contra o caos e a solidão…

(Revisão e imagem: Gemini)

Política partidária: um cristianismo sem Cristo

 O Fio da Meada:

Faltando quase três meses para o primeiro turno das eleições, o debate sobre a presença de entidades e líderes religiosos em defesa de partidos e candidatos intensifica-se. A Igreja Católica estabeleceu a orientação de que discursos e candidaturas não devem ocupar espaços religiosos dedicados a celebrações. Para entender este comportamento, inicio, esta semana, uma série de reflexões sobre a responsabilidade cívica e a integridade do espaço público.

A expressão "cristianismo sem Cristo" na política designa o uso da fé como instrumento para obtenção de poder. Sob essa ótica, símbolos e valores cristãos são dissociados de suas origens — fundamentadas no cuidado ao próximo e na sobriedade — e integrados a estratégias de marketing partidário. Esse processo resulta em polarização e na prevalência de ideologias sobre a doutrina religiosa.

Quais são os pontos de análise: a instrumentalização de dogmas - emprego de ensinamentos religiosos para validar objetivos políticos desloca o foco da mensagem original. O Evangelho passa a ser um meio para o controle institucional, em vez de atuar como guia para a transformação espiritual. O limites da lealdade - a doutrina cristã estabelece uma distinção entre o Reino de Jesus e a gestão de governos ou partidos. O exercício da cidadania, focado na justiça e no bem comum, ocorre em um plano distinto da esperança espiritual, que transcende sistemas políticos humanos.

Por fim, mas não menos importante, a coexistência e democracia: a transformação social, quando orientada pelos princípios cristãos, prioriza o respeito aos vulneráveis. O emprego de discursos de confronto ou fanatismo impacta as bases da democracia e dificulta a manutenção da coexistência pacífica. Para um candidato que se apresenta hoje, não basta apenas discursar de que é honesto, precisa provar que efetivamente tem uma proposta honesta. A fé manifestada pelo povo demanda respeito a sua autonomia.

A utilização de eventos religiosos como palanque para candidaturas altera a natureza desses espaços. Quando conceitos religiosos são apresentados de forma deturpada ou desfocada em campanhas, estabelece-se um cenário de confusão para os fiéis, dificultando a distinção entre a mensagem espiritual e a estratégia eleitoral. Talvez, hoje, seja apenas um sonho, mas a autonomia do espaço religioso é necessária para que a crença não se submeta aos interesses de quem faz mau uso do poder partidário e da própria máquina administrativa.

(Revisão e imagem: Gemini)

terça-feira, 30 de junho de 2026

Retalhos de memórias

Quartas com gosto de poesia:


Perdi-me nas lembranças da minha rua.

O chão de terra, as valetas limpas,

As calçadas com a grama aparada,

As cercas aconchegando a vizinhança.


Na madrugada das minhas recordações,  

Apenas poucas lâmpadas na rua, 

Espaçadas e respeitando a escuridão, 

Longe dos quintais onde um galo canta.


No silêncio que antecede a aurora,

Range distante a bicicleta 

Do entregador de pão, do leite ou do jornal.

E as primeiras luzes acendem nas cozinhas.


Em algum recanto dos tempos passados, 

Fiquei aprisionado na minha própria história. 

O resgate de sons, cheiros, gostos e desejos.

Trago de volta os caminhos por onde me perdi

E os horizontes que ainda não encontrei…


(Revisão e imagem: Gemini)


sábado, 27 de junho de 2026

A sofreguidão insaciável do destino

Crônica Poética:

A maior parte das pessoas cruzava meu caminho indiferente. Eu havia parado à beira da estrada e, sobre os campos e cerros, a tarde projetava-se, insistindo em ceder lugar ao breu da noite. Eu queria ver o Sol se pôr contigo. Por um momento, apenas. Um instante banhado por cores que se derramam por lugares onde não andei, perdendo-se aonde a vista não alcança.

O momento mágico em que as palavras se dispersam. Os sentidos entram em letargia ao perceber que as ondulações que modulam o horizonte não são a distância, mas a finitude de um encantamento. A magia da espera, com a certeza de que, mesmo ali, distante, ainda havia algo que nos mantinha em comum.


As palavras que perdem o sentido conduzem ao parapeito do mirante, onde a brisa chega por entre os vales e roça meu rosto, minhas mãos, numa ternura etérea que acarinha os olhos, seca a lágrima bendita que me lembra do quanto ainda preciso aprender contigo. O convívio nunca foi suficiente, mas as ausências ensinaram-me a dar valor ao que transformei em rotina — a banalidade na qual esqueci de saborear o quotidiano.

Sei que, onde estiveres, procuras pelos mesmos raios de luz que compartilhamos. No instante em que os contornos do que se avista tornam-se indefinidos, na ausência da luz, recolho-me à certeza de que preciso passar por este tempo de espera. Entender que a noite guardou consigo todos os meus afetos. No lugar em que os sonhos submergem na sofreguidão insaciável do Destino…

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

A Neta de Maharaní, de Maha Akhtar

 Janelas do Tempo: 

Se no primeiro capítulo da nossa série buscamos a identidade nos segredos de um nome, nesta segunda janela, a busca se volta para as raízes e para o chão que nos sustenta. No livro
A Neta de Maharaní, de Maha Akhtar, a narrativa é conduzida por Farah, uma jovem que vive a distância do Líbano, mas que se vê emocionalmente convocada ao passado após a morte de sua avó, Souad. Ao mergulhar nos vestígios deixados por ela, Farah não apenas organiza a herança física, mas desvenda uma complexa tapeçaria de segredos familiares que atravessam décadas.

O livro alterna entre o presente e o passado, revelando a vida de Souad durante o período turbulento do Líbano no século XX. A oliveira da família, localizada em um bosque ancestral, serve como o fio condutor da trama: ela é a testemunha silenciosa das mudanças políticas, das perdas causadas pela guerra e, principalmente, da resiliência das mulheres da família que, através da culinária e das tradições, mantiveram a identidade libanesa viva.

Maha Akhtar mostra que a história de um povo não é composta apenas por grandes fatos ou datas cívicas, mas pela manutenção das tradições domésticas. Este livro é um excelente gancho para discutir como o arquivo familiar é uma forma de resistência. Manter viva a história de sua avó, para Farah, é uma forma de não deixar que a guerra apague a existência de seus antepassados.

A literatura de Akhtar é profundamente sensorial. Para alguém que valoriza a organização doméstica e os rituais diários — como o preparo de sua própria refeição —, este livro ilustra como a cozinha é o lugar onde a cultura se preserva e se transmite. É onde o "tempo" do lado de fora da casa é suspenso.

O livro toca em um ponto muito caro ao leitor contemporâneo: a busca por raízes em um mundo globalizado. Farah vive a dualidade de ser parte de um lugar (o Líbano) e, ao mesmo tempo, ser fruto da diáspora. As vivências da personagem mostram que, como todos nós, sempre buscamos "a nossa oliveira" — um lugar, uma memória, uma tradição que nos ancora quando o mundo à volta parece incapaz de dar as respostas que esperamos…

(Revisão e imagem: Gemini)

Educação, sonho ou mais um pesadelo?

 O Fio da Meada: 

O IBGE divulgou, na semana passada, números que são uma chaga e deveriam envergonhar a sociedade brasileira:
cerca de 5% da população — quase 10 milhões de pessoas — vive na exclusão do analfabetismo. No entanto, essa estatística é apenas a face visível de um problema mais profundo e complexo. O drama real reside no abismo do analfabetismo funcional, que atinge quase 30% dos brasileiros, criando uma massa invisível que, embora frequente a escola, não desenvolve as habilidades necessárias para interpretar o mundo ou exercer a cidadania plenamente.

A desigualdade não é apenas um dado; é um projeto que se reflete na qualidade do ensino, no qual pessoas negras e pardas têm acesso inferior a uma educação qualificada em comparação a homens brancos. O sistema atual, longe de ser neutro, perpetua discriminações de gênero e classe que impedem a ascensão social. O resultado é um esvaziamento de perspectivas, em que os próprios jovens do ensino médio já não acreditam que o estudo seja o caminho para melhorar de vida, desencantados pela omissão do poder público.

Os números frios do censo, por vezes, ocultam a dimensão dessa tragédia devido ao "fator vergonha", já que muitos cidadãos evitam declarar sua real condição de escolaridade por medo do estigma. Essa invisibilidade silencia as necessidades das periferias e dos grotões, onde o ensino regular se tornou uma promessa quebrada. Pais que outrora sonhavam com a escola como o "caminho da roça" — a trilha para o futuro — perderam a convicção de que o ambiente escolar seria o passaporte para que seus filhos conquistassem uma existência digna, superior à que eles próprios suportaram.

Enquanto países como Finlândia, Coreia do Sul e Portugal reverteram cenários críticos transformando a educação em política de Estado e motor de equidade, o Brasil insiste em soluções paliativas. Os discursos sobre investimento não sustentam a precariedade das periferias, pois são desenhados em gabinetes distantes da realidade de quem precisou se "acostumar" a viver à margem. Essas medidas superficiais não atacam a raiz da exclusão e acabam por apenas administrar o fracasso, em vez de promover a real emancipação do cidadão.

O desafio para reconstruir esse "fio da meada" é encarar a educação como um compromisso inegociável, capaz de devolver o direito de sonhar às famílias brasileiras. É um projeto de médio e longo prazo. A constatação é de que não estamos diante de uma geração perdida por fatalidade, mas por negligência de um projeto que precisa ser radicalmente repensado. É urgente fazer a escola chegar onde ela ainda é uma miragem, garantindo a equidade necessária para que a educação volte a ser o motor de transformação social de que o país tanto necessita.

(Revisão e imagem: Gemini)


terça-feira, 23 de junho de 2026

Acolhe-me!

Quartas com gosto de poesia:

O tempo apresentou a conta por 

Uma vida de andanças sem rumo.

A cada curva do caminho, dispensei quem 

Julgava já ter me dado o que precisava.



Receber sem dar era a receita

Acertada para seguir meu destino.

A reciprocidade despertou minha alma 

Quando as carências não encontraram 

O amparo que julguei merecer.





Ao duvidar de mim mesmo,

Teu olhar venceu as barreiras

Do que restou da minha petulância, 

Da arrogância que se fez minha guia.

E mesmo assim, tu te fazias presente…


Hoje, onde estiveres, estende a mão,

Segura a minha. Não a prende, a protege.

Quando desvelo a janela do passado,

As carências assopram a minha insensatez, 

No abrigo onde encontro a doçura do teu abraço…


(Revisão e imagem: Gemini)