Crônica Poética:
No dia dos Pais, meu abraço carinhoso a todos os que são pais. Tive o privilégio de ter meu pai, seu Manoel, como alguém muito especial na minha vida. Dele, entre as boas lembranças, guardo o zelo por atender a toda a vizinhança no Bar e Armazém Raulim. Um lugar de comércio, mas também de encontros. Onde a primeira imagem que se tinha ao entrar era, para mim, criança, um “enorme” baleiro, com todas as delícias possíveis… Meu texto de hoje é uma justa e perene homenagem a quem Deus me deu a graça de poder chamar de “Pai”!
“Entrar na padaria de bairro foi atravessar um portal que a correria dos dias teima em manter trancado. Não me deteve o cheiro do pão recém-assado, tampouco a urgência matinal que rege o relógio dos adultos. Foi uma trindade sutil, enfileirada no vidro do balcão, esperando paciente o resgate: a língua de sogra, o suspiro e o sorvete de maria-mole. Basta um olhar para que a lógica do tempo desabe. De repente, os anos encolhem e eu me vejo outra vez naquela altura em que o balcão da mercearia parecia o altar de um templo sagrado.
A língua de sogra sempre teve ares de nuvem engarrafada no coco ralado. Desafiava a gravidade com sua consistência fofa, vacilante, etérea — promessa de que o açúcar podia ser leve, quase impalpável, derretendo na boca antes mesmo que a gente soubesse o que era pressa. Era o doce do recreio, do domingo à tarde, da textura que abraçava a língua na doçura sem pressa de acabar. Ao lado, os suspiros — grandes, rosados e brancos, pontiagudos como pequenas montanhas de açúcar. Havia neles um pacto de delicadeza: morder exigia cuidado para não estilhaçar o doce em mil farelos, transformando o ato em farejo de contentamento.
E, coroando a memória, o sorvete. Que não era gelado, mas uma casquinha comestível recheada com a mesma base da maria-mole tradicional, ou do suspiro de merengue. Tinha textura de espuma firme, aerada, em temperatura ambiente — como se o céu decidisse descansar numa câmara de wafer. Muitas vezes, embrulhado em papel celofane colorido, guardando dentro de si a ilusão de que o frio era só uma ideia que a infância inventara.
Encontrar os três ali, reunidos numa prateleira comum de padaria, não foi apenas um achado gastronômico. Foi um abraço no menino que fui. Porque crescer, no fundo, é aprender a saborear de novo aquilo que a infância já sabia de cor: a felicidade cabe inteira num pedaço de suspiro, na maciez de uma maria-mole, na simplicidade de um doce que nunca precisou de freezer para virar cúmplice da saudade…”
(Revisão e imagem: Gemini)

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