Crônica Poética:
Faltou coragem para ultrapassar o portão. Os anos se passaram e fiquei em dúvida: por detrás daquela varanda, depois daquela porta, o que teria mudado? Da sala à cozinha, restaram ainda os lugares sagrados do convívio familiar? A sala onde sempre cabia mais um? A mesa onde fazíamos o dever da escola, sentindo, aflitos, o cheiro da comida ou do café tomar conta do ambiente.
A tramela que trancava o portão ainda era a mesma. Será que ainda rangia ao ser usada? Bastava um giro para liberar a passagem. Mas era o seu ruído que denunciava nossas escapadas para os jogos de rua. Muitas vezes, seguido das broncas e dos castigos. Os anos se foram, mas a cerca viva, que fazia fronteira entre a calçada e o pátio, ainda testemunhava o movimento da rua.
Atravessei a calçada com a esperança de que voltasse o alarido de crianças brincando, no buliço do entra e sai, em que se ouvia a advertência: “Fecha o portão. Não deixe os bichos entrarem.” Fechei os olhos, lembrando da saída para a escola, de manhãzinha, quando, na rua, sentia o aroma do café passado e do pão recém-saído do forno, comum às casas da vizinhança.
Minha antiga morada se manteve num silêncio respeitoso. Percorrer aqueles caminhos já não era um direito meu. No último olhar, gravei a imagem que, por toda a vida, voltou em meus sonhos. Ali escorreram os anos mais lindos da minha infância. Ultrapassar aquele portão era, antes, só o tempo de ir e voltar. Até o dia em que precisei me despedir e guardei, no peito e na mente, a certeza de que o lugar onde ficaram minhas raízes também seria, para sempre, o lugar dos meus encantos e das minhas saudades…
(Revisão e imagem: Gemini)






