sábado, 8 de agosto de 2026

Doçuras de outrora e a infância reencontrada

Crônica Poética:

No dia dos Pais, meu abraço carinhoso a todos os que são pais. Tive o privilégio de ter meu pai, seu Manoel, como alguém muito especial na minha vida. Dele, entre as boas lembranças, guardo o zelo por atender a toda a vizinhança no Bar e Armazém Raulim. Um lugar de comércio, mas também de encontros. Onde a primeira imagem que se tinha ao entrar era, para mim, criança, um “enorme” baleiro, com todas as delícias possíveis… Meu texto de hoje é uma justa e perene homenagem a quem Deus me deu a graça de poder chamar de “Pai”!


“Entrar na padaria de bairro foi atravessar um portal que a correria dos dias teima em manter trancado. Não me deteve o cheiro do pão recém-assado, tampouco a urgência matinal que rege o relógio dos adultos. Foi uma trindade sutil, enfileirada no vidro do balcão, esperando paciente o resgate: a língua de sogra, o suspiro e o sorvete de maria-mole. Basta um olhar para que a lógica do tempo desabe. De repente, os anos encolhem e eu me vejo outra vez naquela altura em que o balcão da mercearia parecia o altar de um templo sagrado.

A língua de sogra sempre teve ares de nuvem engarrafada no coco ralado. Desafiava a gravidade com sua consistência fofa, vacilante, etérea — promessa de que o açúcar podia ser leve, quase impalpável, derretendo na boca antes mesmo que a gente soubesse o que era pressa. Era o doce do recreio, do domingo à tarde, da textura que abraçava a língua na doçura sem pressa de acabar. Ao lado, os suspiros — grandes, rosados e brancos, pontiagudos como pequenas montanhas de açúcar. Havia neles um pacto de delicadeza: morder exigia cuidado para não estilhaçar o doce em mil farelos, transformando o ato em farejo de contentamento.

E, coroando a memória, o sorvete. Que não era gelado, mas uma casquinha comestível recheada com a mesma base da maria-mole tradicional, ou do suspiro de merengue. Tinha textura de espuma firme, aerada, em temperatura ambiente — como se o céu decidisse descansar numa câmara de wafer. Muitas vezes, embrulhado em papel celofane colorido, guardando dentro de si a ilusão de que o frio era só uma ideia que a infância inventara. 

Encontrar os três ali, reunidos numa prateleira comum de padaria, não foi apenas um achado gastronômico. Foi um abraço no menino que fui. Porque crescer, no fundo, é aprender a saborear de novo aquilo que a infância já sabia de cor: a felicidade cabe inteira num pedaço de suspiro, na maciez de uma maria-mole, na simplicidade de um doce que nunca precisou de freezer para virar cúmplice da saudade…”

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O Forte de Nome Torres, de Qais Akbar Omar

Janelas do Tempo:

"O Forte de Nome Torres", de Qais Akbar Omar, é uma memória urgente que
reconstrói a infância do autor em Cabul durante as décadas de conflitos que devastaram o Afeganistão. Escrito originalmente em inglês como uma ferramenta de sobrevivência e catarse, o livro narra com precisão a transição traumática entre a retirada soviética e a subsequente ascensão do regime talibã. Não se trata apenas de uma análise geopolítica fria, mas de um testemunho honesto sobre a resiliência humana em meio ao fogo cruzado e às ruínas de uma nação em constante guerra.


A narrativa conduz o leitor pela fuga desesperada da família em direção à Qala-e-Noborja, um antigo palacete de nove torres que serve como um refúgio precário contra snipers e bombardeios constantes. Nesse cenário claustrofóbico, o jovem Omar presencia a rápida degradação de uma cidade outrora elegante, agora transformada em um cemitério a céu aberto, onde o silêncio é a única defesa dos sobreviventes. A dor das separações familiares, exemplificada pela perda do primo Wakeel e do avô, deixa cicatrizes profundas que permeiam cada capítulo da obra.


O estilo literário de Omar impressiona pelo contraste entre a brutalidade dos fatos e uma prosa direta, por vezes ingênua, que reflete o uso da língua estrangeira como um filtro terapêutico para o luto. Essa escolha linguística permitiu ao autor criar uma distância emocional necessária para transformar traumas em um relato acessível, sem perder a força de sua verdade brutal. O texto oscila habilmente entre a realidade crua da guerra civil e interlúdios de sensibilidade, revelando a complexidade de uma mente infantil tentando compreender o caos absoluto ao seu redor.


Existem momentos na obra em que a infância é recordada com um tom quase idílico, especialmente durante os períodos nômades vividos nas cavernas de Bamiyan, antes da trágica destruição dos budas gigantes. Embora alguns críticos sugiram uma certa idealização nessas passagens, essa tensão entre o sonho bucólico e o pesadelo real é precisamente o que confere à narrativa sua alma ferida e autenticidade. Essa alternância entre o horror e a beleza efêmera serve para humanizar as vítimas e destacar a importância de preservar a identidade cultural sob ameaça.


Em última análise, este livro funciona como um poderoso ato de fé na memória como forma de resistência contra os relatos superficiais frequentemente divulgados por observadores externos sobre o Afeganistão. Ao abrir as portas de seu "forte" particular, Omar oferece ao mundo o privilégio de testemunhar, através da varanda de uma infância roubada, como a esperança persiste onde a guerra tenta apagar tudo. É uma leitura essencial que desafia o leitor a tornar-se mais humano e crítico perante as complexidades de um país que pulsa para além de todas as manchetes.

(Revisão e imagem: Gemini)

O Fio da Meada:

Encerrando esta série sobre fé e política, agradeço a todos que debateram comigo este tema. Em especial, aos grupos religiosos, sociais e políticos que utilizaram textos e vídeos como subsídio para a reflexão.

Hoje, convido a olhar para o futuro com uma prioridade inegociável: a preservação do espaço religioso contra a instrumentalização partidária.


A autonomia das comunidades de crença não é apenas um direito institucional. É a garantia de que a transcendência e a esperança não sejam sufocadas pelos cálculos do governo da vez. Quando o altar se confunde com o palanque, quem perde é a própria dimensão espiritual. Ela se reduz a moeda de troca e a meio de controle eleitoral.

Resguardar a liberdade do fiel significa assegurar que a vivência da espiritualidade mantenha sua força profética. Uma força capaz de iluminar a sociedade sem se corromper pelas rodas do aparelho estatal. O engajamento cívico dos cidadãos movidos por suas crenças deve acontecer a partir da coerência de suas vidas e da busca pelo bem comum. Jamais pela transformação de templos e celebrações em salas de comitê de campanha.

A separação saudável entre o culto e o governo não enfraquece a crença. Ao contrário: é justamente isso que a protege de toda tentativa de domesticação ideológica.

A história e a experiência recente advertem sobre os perigos da apropriação da dimensão transcendente por interesses partidários de qualquer matiz. Quando a espiritualidade se torna refém de uma legenda, o contraditório é banido. A comunidade eclesial corre o risco de se transformar em tribo fechada, incapaz de acolher a pluralidade humana. O verdadeiro santuário é aquele que acolhe, questiona e reconcilia. Ele transcende as polarizações mesquinhas que empobrecem o debate público e ferem a dignidade da pessoa humana.

Essa autonomia reivindicada pelo ambiente de culto exige maturidade dos líderes e dos fiéis ao discernir os limites entre doutrina e campanha eleitoral. O Evangelho e as grandes tradições espirituais convocam à justiça, à solidariedade e à verdade. Mas recusam a pecha de propriedade exclusiva de qualquer corrente partidária. Invocar o nome divino para legitimar projetos de dominação é um desvio grave. Desacredita o testemunho das tradições e manipula a boa-fé daqueles que buscam no mistério refúgio de paz e sentido.

Por fim, a integridade desse espaço de transcendência é o reflexo de uma sociedade que respeita a liberdade de consciência e a pluralidade democrática. Que possamos seguir construindo um caminho onde a crença seja fermento de transformação social e respeito à vida. Nunca arma de opressão ou divisão. Preservar o núcleo sagrado em sua pureza original é garantir que o fio da nossa convivência democrática permaneça forte, livre e comprometido com a dignidade de todos os cidadãos.

(Revisão: Kimi. Imagem: Canva)

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A névoa dos meus desejos

Quartas com gosto de poesia:

Creio que existe vida depois da cerração…

No inverno, uma gente cabisbaixa percorre 

Ruas sem horizontes.

E sem horizontes, também se perde o rumo,

Parecendo que já não existe um fim possível.



O sol se esconde

Por detrás das nuvens.

Brinca com o contorno

de objetos que recebem luz

Permeando o imaginário e as sombras…





Lugares entristecidos

onde as cores foram apagadas.

O cinza do silêncio tragou os sentidos,

Quebrado por pés

que teimam em manter o ritmo da existência.


Os pássaros esqueceram do seu voo.

Perde-se o rumo na névoa

que oculta quase todos os destinos.

Eco de passos que não chegam.

O amanhã é um porto ainda deserto onde 

O tempo se faz senhor dos meus desejos.…


(Revisão e imagem: Gemini)

sábado, 1 de agosto de 2026

Aqui é o meu tempo possível

Crônicas Poéticas:

​Já sonhei acordado com muitas paisagens etéreas, daquelas que parecem saltar da tela de um filme. Imaginei estar nos braços da beldade que enchia os olhos na perfeição do rosto e nas curvas do corpo. E, não poucas vezes, precisei sacudir a cabeça para regressar à realidade, compreendendo que aquilo que se apresentava como ideal não passava de mera divagação.


​O tempo fez-me perceber que o "aqui possível" não mora na imaginação, mas na capacidade de enviesar o olhar, de encontrar um novo ângulo que torne a existência capaz de iluminar a própria realidade.
A vida é feita de sonhos possíveis. O passar dos anos não nos livra das tentações da juventude; apenas nos torna mais precavidos. 

Olho para quem julga suas desventuras problemas sem solução e, com a calma de quem já percorreu mais algumas léguas, consigo ver que, logo adiante, já existe a perspectiva de um novo caminho. É uma questão de espera… e de paciência. Três comportamentos que não se consegue argumentos para explicar, apenas um sorriso enviasado que diga: “dá um tempo!”

​Quando era criança, as maiores ameaças eram o "já para o quarto" ou o "come tudo". Os anos passaram e, hoje, bate um desejo de que estas ordens se repitam: para aproveitar a privacidade e o silêncio de um canto que seja somente meu, ou para demorar mais tempo a mastigar sabores e texturas, deixando na boca a lembrança de sentimentos partilhados. A certeza de que no aqui e agora é o meu tempo possível…

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sem Fronteiras, de Nayan Chanda

Janelas do Tempo:


No livro Sem Fronteiras, a tese central de Nayan Chanda é audaciosa e desafiadora:
a globalização não é uma invenção recente da era digital ou do capitalismo financeiro contemporâneo, mas sim uma condição inerente à própria trajetória humana. 

Para comprovar essa premissa, o autor recua dezenas de milhares de anos no tempo — muito antes da invenção da escrita ou da cunhagem de moedas —, partindo da África pré-histórica para rastrear os passos dos primeiros grupos humanos que decidiram abandonar seus habitats originais movidos pelo instinto de sobrevivência e pela busca de uma vida melhor.

O livro organiza essa longa jornada histórica através de quatro grandes arquétipos ou "agentes da globalização" que moldaram o intercâmbio entre os povos ao longo dos séculos:

  1. Os Mercadores: Movidos pelo lucro e pela escassez de recursos locais, abriram as primeiras rotas comerciais terrestres e marítimas, conectando civilizações distantes e fazendo circular especiarias, tecidos, metais e inovações tecnológicas.

  2. Os Aventureiros e Navegadores: Impulsionados pela curiosidade e pelo desejo de desbravar o desconhecido (como Fernão de Magalhães e tantos outros), reduziram as distâncias do planeta e desenharam o mapa-múndi.

  3. Os Missionários: Movidos pela fé e pelo proselitismo, viajaram para além de suas fronteiras culturais para espalhar crenças, filosofias e visões de mundo (como a expansão do islamismo, do cristianismo e do budismo), criando laços espirituais transnacionais.

  4. Os Guerreiros: Conquistadores que, através da força e da dominação territorial, unificaram impérios, impuseram leis, misturaram sangues e reconfiguraram fronteiras.

Na transição para o mundo moderno, Chanda observa como esses papéis tradicionais se metamorfosearam: os mercadores deram lugar às corporações multinacionais, os missionários transformaram-se em Organizações Não Governamentais (ONGs) e os antigos aventureiros hoje respondem pelo nome de turistas.

O grande mérito de Nayan Chanda, em termos narrativos, é desideologizar a palavra "globalização". Vivemos em uma época em que o termo costuma vir carregado de ranço político, sendo associado apenas à exclusão social, à homogeneização cultural ou ao domínio de grandes potências econômicas. Chanda lembra, com sensibilidade e erudição, que a globalização é, antes de tudo, uma expressão do inconformismo humano.

É o reflexo daquele ancestral que olhou para o horizonte além de sua colina e se perguntou: "O que há do outro lado?".

A obra de Chanda ressoa profundamente porque trata, no fundo, de pertencimento e alteridade. Cada xícara de café que consumimos pela manhã, cada palavra de origem estrangeira que incorporamos ao vocabulário e cada livro que abriga vozes de outras geografias em nossas estantes são testemunhas vivas de que nenhum de nós é uma ilha autossuficiente.

O livro oferece uma metáfora reconfortante: por mais que governos e crises tentem erguer muros, a história humana é, em sua essência, um movimento contínuo de derrubá-los — seja pelas rotas das especiarias, pelos versos de um poeta ou pelas conexões da rede mundial. É um lembrete poético de que, no grande mosaico do mundo, somos todos herdeiros de uma imensa e incessante viagem coletiva.

(Revisão e imagem: Gemini)

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Democracia se constroi no dia a dia

O Fio da Meada:

A vida em sociedade exige de cada um
o discernimento de que a política não é um campo para a inimizade, mas o espaço efetivo da busca pelo bem comum. Quando o debate público se corrompe pelo fanatismo — especialmente quando se têm “políticos de estimação” —, perde-se a capacidade essencial de enxergar o outro como um semelhante digno de respeito e consideração. A responsabilidade democrática, portanto, começa na recusa de qualquer projeto de confronto que pretenda anular a alteridade em nome de pretensas certezas ideológicas.

Nesse horizonte, a ética do cuidado revela-se como o verdadeiro critério de validade para a ação humana e social. Cuidar do espaço coletivo (a “polis”, em política) significa zelar pelas condições que garantem a dignidade, a justiça e a paz para todos, sem exceções ou privilégios sectários. A verdadeira cidadania não se esgota no voto ou na disputa partidária; ela se mede pela forma concreta como a comunidade protege e acolhe aqueles que carregam o peso da vulnerabilidade, e que muitas vezes servem de massa de manobra na política partidária.

Para quem pauta a caminhada em valores maiores, o compromisso com os mais frágeis é inegociável e sobressai a qualquer alinhamento partidário. A história comprova que nenhuma ideologia que sacrifique o bem-estar dos vulneráveis em favor de projetos de poder pode reivindicar legitimidade ética. Respeitar o próximo e defender os marginalizados são imperativos que superam as divisões estreitas e exigem coerência constante em cada tomada de posição pública. Este é o lugar onde as religiões e organizações sociais têm espaço privilegiado para atuar.

O fanatismo ideológico atua sempre como um divisor cego, que substitui o diálogo pela hostilidade e converte o divergente em um inimigo a ser abatido. Em contrapartida, a convivência democrática madura sustenta-se na tolerância ativa, no respeito às leis e na disposição sincera de construir pontes sobre as diferenças. É preciso resgatar a política como vocação para a paz, onde a diversidade de opiniões enriquece o tecido social em vez de rasgá-lo com ódios estéreis, que beiram a irracionalidade.

Democracia se constroi no dia a dia, dependendo diretamente da coragem cívica com que escolhermos cultivar a solidariedade e a justiça cotidiana. Lideranças políticas, sociais e religiosas podem — e devem — alimentar a rejeição aos extremismos que desumanizam, abraçando a responsabilidade de ser agentes de conciliação e cuidado onde quer que estejam. A verdadeira grandeza de uma nação mede-se pelo modo como ela, e aqueles que a servem, trata e protege os seus cidadãos: todos, sem reservas e sem, absolutamente, qualquer exceção.

(Revisão e imagem: Gemini)