quarta-feira, 21 de outubro de 2026

As vozes que não ouço mais

Quartas com gosto de poesia:

Tenho medo do silêncio 

Que habita as minhas recordações. 

É um poço profundo onde mergulham

As vozes que me abandonaram.

Eco de um passado

Que teima em roubar presenças

Para transformar afetos em saudades.



Além das vozes, desaparecem 

Risos e sorrisos que abençoaram meu dia a dia.

Na vida plena em que o futuro e suas ausências 

Parecia distante e inatingível. 

Um abismo em que 

o tempo, aos poucos traga as memórias.


Resisto em deixar que rostos esvaneçam,

Corpos se tornem etéreos,

Vozes e risos atormentem meus sonhos

Com o despertar dolorido

 E uma lágrima sentida.

A certeza  de que nunca mais estarão 

Ao alcance dos meus abraços…


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/4iz1AMmOOMk)

sábado, 17 de outubro de 2026

No fundo da geladeira

Crônica Poética:

Achei engraçada a recomendação de que não se guardassem coisas perecíveis na porta da geladeira, como frios e manteiga, por exemplo. O fato de se abrir constantemente a porta faz com que a temperatura oscile. O melhor é colocar o item numa prateleira interna, bem no fundo. A conversa surgiu quando se falava a respeito da conservação da manteiga em outro lugar durante o inverno.

Não tenho dotes culinários e, morando sozinho, preciso aprender com familiares e amigos a gerenciar a casa. O bom é que se ouve de tudo. O melhor é não discutir: se a dica for boa, basta experimentar. É o que tenho feito. Sempre briguei com a manteiga que acaba ficando gelada demais — ou, como diziam os antigos, “empedrada”. Havendo um armário em lugar abrigado, de temperatura amena, é um fato: a conservação acontece sem que seja preciso uma britadeira para separar um pouquinho para o pão.

Fiquei pensando que isso se assemelha aos nossos sentimentos, aos nossos amores e às nossas dores. Sempre que ficam expostos, correm os riscos da instabilidade. Preservá-los no “fundo da geladeira”, ou “num armário climatizado”, pode ser o melhor jeito de protegê-los das intempéries passageiras.

As mesmas reações que o tempo nos torna capazes de contemplar com a serenidade de quem já não tem pressa. Não há mal algum em resguardar emoções em um ambiente abrigado, deixando-as emergir somente em momentos que valham a pena. A exposição desnecessária de sentimentos é caminho para ferir a outros e nos machucarmos com reações intempestivas — daquelas em que o arrependimento tarda, sempre deixando o ranço do que se pode até perdoar, mas não se consegue esquecer…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/mxySk46Vvj0)

O Diamante de Jerusalém, de Noah Gordon

 Janelas do Tempo:

O romance O Diamante de Jerusalém, de Noah Gordon, desenrola-se como uma grande saga épica familiar que atravessa séculos, tendo como fio condutor uma joia de valor inestimável e de forte carga mística: o diamante de Jerusalém. A trama acompanha a estirpe da família Matthews (originalmente descende de lapidários e negociantes judeus, os ben-Solomon), cujas gerações se sucedem desde a Idade Média até o século XX.

A narrativa propõe uma viagem temporal que se inicia nas Cruzadas, passa por Amsterdã, Londres e Antuérpia — tradicionais polos do comércio e lapidação de pedras preciosas —, e culmina no Estado de Israel. 

Acompanhamos a trajetória de diferentes descendentes que, em épocas distintas, guardam, negociam ou lutam para proteger a gema. Cada membro da família vivencia conflitos particulares com a fé, com a identidade judaica, com as perseguições históricas e com a própria ambição, sendo testados pelo poder de fascínio que o diamante exerce sobre aqueles que o possuem.

Se em O Físico e em O Último Judeu Noah Gordon mergulhou profundamente nas dinâmicas da medicina e da intolerância religiosa medieval, em O Diamante de Jerusalém o autor utiliza um objeto inanimado — a pedra preciosa — como um espelho da alma humana. O diamante funciona como uma metáfora polifacetada: ele reflete tanto a cobiça e a violência dos homens quanto a busca incessante pela transcendência, pela herança cultural e pela permanência das raízes familiares.

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"O que é de fato imperecível na história de um povo: a memória, a resiliência e a dignidade transmitidas de geração em geração."

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A genialidade estrutural do romance reside na habilidade de Gordon em conectar episódios históricos díspares sem perder a unidade narrativa. Cada bloco temporal da saga familiar funciona como um painel autônomo e rico em detalhes técnicos sobre o ofício da joalheria e do comércio de gemas, revelando o profundo trabalho de pesquisa do autor. Ao final, a obra consolida-se não apenas como um envolvente painel histórico, mas como uma reflexão profunda sobre o que é de fato imperecível na história de um povo: a memória, a resiliência e a dignidade transmitidas de geração em geração.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/0FzEWrGp5vE)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

As urnas e a ilusão dos algoritmos

O Fio da Meada:

A campanha eleitoral transferiu parcela significativa de sua estrutura dos palanques físicos para o ambiente digital. Nesse cenário, a introdução de ferramentas de inteligência artificial adiciona uma variável complexa ao processo de decisão. Áudios forjados e vídeos manipulados circulam pelas redes de mensagens com a finalidade de alterar a percepção da realidade. A tecnologia, capaz de reproduzir vozes e rostos com precisão, transforma a desinformação em um produto de fácil consumo e rápida disseminação.

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"O resultado das urnas deve refletir a avaliação de propostas concretas, e não a influência de algoritmos manipulando a realidade e ludibriando cidadãos desinformados."

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O ambiente virtual opera sob a lógica do engajamento, em que o conteúdo gerador de impacto imediato ganha alcance ampliado. A manipulação estruturada explora essa mecânica. Desenha-se um cenário em que o eleitor recebe recortes de informação distorcida, elaborados para confirmar vieses ou gerar repulsa contra oponentes. A discussão sobre políticas públicas perde espaço para a contenção de boatos e a constante verificação de fatos.

Diante da sofisticação técnica das fabricações digitais, exige-se do cidadão um rigoroso senso crítico, que o brasileiro, infelizmente, não tem. O consumo passivo de conteúdo torna-se um risco para a integridade do pleito. A responsabilidade de questionar a origem de uma notícia ou a veracidade de uma imagem antes do repasse recai sobre o indivíduo. A checagem de fontes passa a integrar as obrigações da cidadania, no mesmo patamar de responsabilidade do próprio ato de votar.

O processo eleitoral demanda pragmatismo. Identificar a linha divisória entre a proposta administrativa e a ilusão sintética garante a segurança da escolha. Quando o eleitor submete o material de campanha ao crivo da dúvida e da razão, a eficácia da manipulação perde força. O resultado das urnas deve refletir a avaliação de propostas concretas, e não a influência de algoritmos manipulando a realidade e ludibriando cidadãos desinformados.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/hKcFRT_jMhc)

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Pelas janelas do tempo

Quartas com gosto de poesia:


Abre a janela para o tempo que passou, 

Busca nas lembranças um rastro que ficou. 

A página lida torna-se um sopro de eternidade, 

Onde a história simplesmente revela a tua verdade.



O vento do outrora balança a cortina de leve,

Desenha no espaço o tempo que a alma bebe.

São rostos e passos que voltam na saudade,

Tecendo de novo a etérea cumplicidade.


A poeira não encobre o que foi belo,

Revela o contorno do que é doce e singelo.

No fundo dos olhos reside o encanto por inteiro,

De um tempo vivido, sincero e verdadeiro.


E quando a tarde dormita no horizonte,

Bebes da memória como água de uma fonte.

O que o tempo suspira na curva da estrada, 

Deixa na alma resquícios de uma luz abençoada. 

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/W8tbZRAMUZA)

sábado, 10 de outubro de 2026

Bem ao lado do meu travesseiro

 

Crônica Poética:


Desde os meus quinze anos, sou movido por acordes. Tudo começou com o radinho de pilha que ganhei naquele aniversário, inaugurando um ritual que resiste ao tempo. Hoje, seja para um breve repouso à tarde ou para o recolhimento noturno, o celular ou o tablet assume o papel de caixinha de som — uma orquestra particular que marca o compasso do meu descanso, que muitas vezes dispensa o sono e pede apenas silêncio e introspecção.


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"Afinam o tom exato para me conduzir a um horizonte intangível: o limiar entre a terra e o firmamento, o porto seguro do aqui e o deslumbramento do sonho..."
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A melodia me acompanha, embala a rotina, as horas de dono de casa, e os momentos de não fazer nada. Levo-a comigo pelas ruas, enlaçada nos fones de ouvido, ou a bordo do carro. Em verdade, a música desenha a moldura perfeita para alinhavar o pensamento; funciona como a baliza invisível que preserva a minha sanidade mental. Quando as notas vagam pelo ar, sinto o caminho mais nítido para enfrentar qualquer jornada.

Contudo, é na penumbra do quarto, no cair da noite, que exerce seu sortilégio mais profundo. Bem ao lado do meu travesseiro, sintonizo minha emissora preferida, a Studio Web Rádio. Suas trilhas orquestradas afinam o tom exato para me conduzir a um horizonte intangível: o limiar entre a terra e o firmamento, o porto seguro do aqui e o deslumbramento do sonho, o estado de vigília e a doce sonolência que chega trazendo promessas inimagináveis…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/-57QJYAtB94)

O Último Judeu, de Noah Gordon

Janelas do Tempo: 

Publicar textos sobre Noah Gordon constitui um desafio fascinante por despertar no leitor a curiosidade genuína por outros títulos do mesmo autor. O comentário anterior sobre O Físico evidenciou essa repercussão, especialmente pelos relatos de quem se dispôs a redescobrir a obra. Agora, o percurso literário dedica-se a O Último Judeu, romance que acompanha a trajetória marcante do jovem espanhol Yonah Toledano.

O protagonista teve a existência transtornada em 1492 com o decreto de expulsão dos judeus dos reinos da Espanha pelos Reis Católicos. Ainda na infância, testemunhou a família ser destroçada pela violência da Inquisição, perdendo o pai e o irmão mais velho, enquanto os demais parentes partiram para o exílio. Sozinho e compelido a sobreviver num ambiente hostil, Yonah assumiu múltiplos disfarces e identidades ao longo dos anos.

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O protagonista fortalece-se nas fornalhas da adversidade sem jamais perder a essência de suas raízes espirituais e culturais.

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Para escapar da perseguição implacável, dedicou-se à metalurgia e tornou-se ferreiro, além de aprimorar saberes ancestrais de cutelaria, medicina popular e herborista herdados de sua estirpe. Essa peregrinação pela Península Ibérica proporcionou a convivência com cristãos, muçulmanos e judeus conversos, conhecidos como marranos. A jornada testou a sua resiliência, a fé secreta e a busca incessante do protagonista por identidade, pertencimento e dignidade humana.

O autor demonstra uma capacidade ímpar de aliar o rigor histórico à força do melodrama épico e humanista. Em vez de limitar-se a registrar datas e eventos políticos, escolhe a lente da micro-história para focar nas dores, nos silêncios e nas pequenas vitórias cotidianas de um homem comum. Desse modo, evidencia-se o impacto devastador das engrenagens da intolerância religiosa sobre as trajetórias individuais e familiares.

A figura do ferreiro, que transforma o metal bruto, pelo fogo e o esforço, transforma-se numa metáfora para a evolução da personagem. O protagonista fortalece-se nas fornalhas da adversidade sem jamais perder a essência de suas raízes espirituais e culturais. Expõe a complexidade das relações sociais medievais, pontuadas por divisões preconceituosas e por atos inesperados de solidariedade.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/9mDkqvCRMvc)