terça-feira, 1 de setembro de 2026

O que sobrou de mim

Quartas com gosto de poesia:


Voltei. Voltei ao cimo da montanha,

Onde, ao partir, deixei apenas uma árvore,

As pedras de onde mirava o horizonte e

A vista que se estendia além do alcance do meu olhar.

Para lá me dirigi, levando os meus sonhos.



Ali, a brisa da tarde ainda me reconhecia.

Murmurando por entre as folhas

Segredos que não entendi.

Até que encontrei a estrada,

No sopé do meu refúgio,

Por onde segui em busca do meu destino.



Fez-me falta aquele lugar de contemplação.

Voltar não significou reencontrar o que vivi:

Era fechar um ciclo de partidas e regressos,

A vida, com suas surpresas e desilusões.

Um lugar para entender e aceitar

Que ali eu encontrava o meu aconchego.



Vê-la, à distância, era um bálsamo,

Onde as minhas memórias encontraram descanso.

Sentir o vento na pele e semicerrar os olhos

Lembrou o que fui e o que sobrou de mim.

O Sol, no ocaso, abraçando o horizonte,

E a penumbra, sem pressa, revela

Que resta o bastante para iluminar

O que sou, o que fui e o que ainda desejo ser…


(Revisão: Kimi. Imagem: Gemini.)

sábado, 29 de agosto de 2026

Um eco doce na alma alheia

Crônicas poéticas:

Quem escreve (ou escreveu) sabe que uma das coisas mais difíceis nesta arte é conseguir um fim que se julgue adequado a qualquer peça literária. Não importa que seja um conto, uma crônica, uma ficção ou mesmo um poema. Na hora de arrematar, surgem dúvidas a respeito da clareza, da concisão e, mesmo, da adequação do que se está dizendo.


Afinal, disse tudo (que nunca significa “tudo” efetivamente, mas o que se julga “tudo” para aquele momento) o que julgava necessário para clarear uma ideia, recriar personagens e cenários na imaginação do leitor? Despertar sentidos e sentimentos que o levem a pensar o quanto teria sido bom se fosse ele mesmo a dizer o que foi escrito?

Confuso? Sim. Escrever, mais do que um ato terapêutico, é a transpiração que ainda busca pela inspiração. Construir um texto literário dispensa a lógica para envolver tudo o que a riqueza da razão, emoção, coração, mente e alma colocam num cadinho, no milagre de uma página em branco que aceita o que se comanda com uma caneta ou um teclado.

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"Encerrar um texto é como fechar uma porta por onde os sentimentos, já em liberdade, ganham o mundo, livres de quem os gestou e, um dia, os viu nascer."

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No fundo, encerrar um texto é como fechar uma porta por onde os sentimentos, já em liberdade, ganham o mundo, livres de quem os gestou e, um dia, os viu nascer. O escritor (o garimpeiro das palavras) apenas entrega o sopro e recolhe o fôlego, torcendo para que a leitura ressoe como um eco doce que afague a alma alheia.

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldwell

Janelas do Tempo:

Em "Médico de Homens e de Almas", Taylor Caldwell presenteia quem lê com uma viagem fascinante à antiguidade, reconstruindo a trajetória de São Lucas, um dos evangelistas. A narrativa não se limita a uma visão puramente religiosa, mas explora a humanidade de Lucano, um médico grego dotado de compaixão e intelecto aguçado. Com uma pesquisa histórica primorosa, a autora recria os cenários do Império Romano e do Oriente, guiando o leitor pelas angústias, perdas e descobertas que forjaram o caráter deste homem singular, muito antes de ele escrever a vida de Jesus de Nazaré.

A obra mergulha nos primeiros anos do protagonista, desde a juventude até a sua consagração como um médico de então que lutava incansavelmente contra a dor e a morte. Inconformado com o sofrimento humano e com as limitações da ciência de sua época, Lucano vivencia um conflito interno constante, chegando a desafiar os desígnios divinos diante da fragilidade do corpo. É essa inquietação profunda, retratada com maestria pela autora, que torna o personagem tão real e próximo de nossas próprias dúvidas, revelando um profissional que buscava curar muito além da carne.

O grande ponto de virada na narrativa ocorre quando o médico, impelido por uma força maior que a sua própria razão, inicia uma jornada em busca do "Deus Desconhecido". Sem ter convivido com Jesus, dedica a maturidade da sua vida a recolher os testemunhos de quem conviveu com o Cristo. A transição da medicina empírica para a fé absoluta é construída de forma gradual e emocionante, mostrando como o rigor investigativo do médico serviu de base para que ele se tornasse o cronista meticuloso de um dos textos mais belos do cristianismo.

Caldwell une a fidelidade dos fatos históricos a uma prosa profundamente cativante. Humaniza a figura de quem hoje chamamos de São Lucas, sem tirar a sua grandeza, mostrando as falhas, lutos dolorosos e a persistência inabalável no amor ao próximo. O leitor é convidado a caminhar lado a lado com Lucano pelas ruas poeirentas de Antioquia, Roma e Jerusalém, sentindo o peso e a glória de uma época em que o mundo passava por uma de suas maiores transformações espirituais e sociais.

"Médico de Homens e de Almas" transcende a classificação de um romance épico para se consolidar como uma verdadeira lição de empatia e de esperança. O livro instiga a refletir sobre a vocação e sobre o cuidado com o outro como atos de doação irrestrita. É uma daquelas leituras imersivas, que acalentam o espírito e aquecem o coração, perfeitas para quem busca na literatura não apenas uma distração passageira, mas uma experiência rica que continua ecoando na alma muito tempo após virarmos a última página.

(Revisão e imagem: Gemini)

A cidadania que vai além das bandeiras

 O Fio da Meada:

O mês de setembro convida a uma profunda reflexão histórica e identitária. O calendário marca o 7 de setembro, data da independência nacional, e, logo a seguir, o 20 de setembro, que pulsa forte na alma gaúcha com a memória da Revolução Farroupilha. Mais do que meras efemérides, esses momentos provocam um olhar para o passado, de onde se pode extrair a inspiração necessária para vislumbrar o que possa ser o futuro.

Especialmente quando políticos enchem a boca para falar em “patriotismo”, compreender o verdadeiro sentido da palavra exige ir além do ato de hastear bandeiras ou entoar hinos de forma mecânica. Trata-se de defender a construção de uma pátria onde todo brasileiro se veja, de fato, incluído e respeitado. É transformar o sentimento abstrato de pertencimento na realização plena da cidadania, garantindo que a sociedade não deixe ninguém para trás e seja um espaço de acolhimento.

A cidadania se revela, por exemplo, quando a população, mesmo cansada, vai às urnas.
O voto é a expressão máxima da democracia, sobretudo com a proximidade do pleito eleitoral no início de outubro, atuando como um instrumento poderoso para equalizar as vozes e desenhar o destino das comunidades. Mesmo diante da desconfiança e da desilusão, escolher um representante vai além da obrigação legal; é um gesto profundo de compromisso com a realidade do dia a dia.

As urnas devem ser encaradas como a grande oportunidade de qualificar a representação política, na busca por líderes que genuinamente compreendam e abracem as necessidades coletivas. Votar com consciência é a forma mais eficaz de honrar as lutas daqueles que forjaram a história do país. Uma escolha responsável transforma o eleitor em um agente ativo na melhoria das políticas públicas e na defesa irrestrita do bem comum.

Votar simplesmente por votar é entregar a cidade, o estado e o país nas mãos de quem apenas quer arrumar um "emprego" público seguro e rentável. Não convém contentar-se apenas com sorrisos e promessas. É preciso cobrar o histórico, especialmente o que foi prometido e não cumprido. Não deve haver receio de renovar todo o Congresso Nacional, se for o caso; afinal, já é sabido que políticos que se agarram a mandatos perdem a noção da sua base. Um tempo sem mandato e de volta às origens talvez seja a lição exata para que reaprendam o sentido de patriotismo e o respeito pela cidadania do eleitor.

(Revisão e imagem: Gemini)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

No riso terno das estrelas

Quartas com gosto de poesia:

Algumas palavras brilham no firmamento. 

Quando se anuncia o entardecer dos sentidos 

Ofusca o brilho do Sol, 

Na cumplicidade de outras que também 

Despontam com o cair da tarde.


Aos poucos, formam a imagem 

De uma vasta constelação de significados. 

E, no despertar dos olhos e da mente, 

Alcançam a imensidão e a sua liberdade.


O desejo de se aproximar 

Daquela que povoa o próprio universo, 

Embevecida pelo mistério, 

Ganhando contornos de um sonho 

Sempre que nos escapa o seu significado.


Craveja sinais, no riso terno das estrelas

De quem já não se preocupa em singrar os céus. 

Testemunha a coreografia dos pirilampos, 

Desafiando o silêncio do imaginário, 

Em que luminares povoam a suavidade da noite…


(Revisão e imagem: Gemini)

domingo, 23 de agosto de 2026

Nas quebradas de uma lágrima

Crônicas Poéticas:

Derramei muitas lágrimas ao longo da vida. Sempre com a impressão de que a alma purga uma apenas — somente uma —, o suficiente para dar sentido à tristeza e à melancolia. Há momentos em que podem faltar as palavras, os gestos e os olhares, mas não pode faltar a presença... São as ausências que a tornam irreversível.

Quando desliza, sentida e incontrolada, através de um terreno já desgastado — uma face sulcada pelos sinais que mapeiam os afetos -, ali onde é impossível detê-la, quando finalmente vence as barreiras da face, é que se encontra o sentido do incalculável.

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"A lágrima que liberta a alma parece perder o sentido quando rompe a represa da razão. Navega em busca dos sentimentos, onde a própria bússola não encontra o seu norte..."

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Basta apenas uma, forjada na dor e no ressentimento, para se transformar na tormenta que já não respeita o silêncio nem a sobriedade. Troa no soluço desencadeado pelo represamento de todos os males sufocados, suportados, vividos na solidão.

A lágrima que liberta a alma parece perder o sentido quando rompe a represa da razão. Navega em busca dos sentimentos, onde a própria bússola não encontra o seu norte. Com os olhos toldados pela emoção, as mãos ficam livres para procurar uma fronte, reencontrando o gosto de mar nas quebradas de um corpo que esqueceu a geografia para perpetuar a sua própria história…

(Revisão e imagem: Gemini)


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Reflexões sobre o ato de ler

Janelas do Tempo

Hoje não pretendo dar incentivo à leitura de uma obra de forma específica. Minha reflexão é sobre o ato de ler. Há uma urgência silenciosa que impele à pressa, como se o tempo fosse um adversário a ser vencido a cada relance no relógio. É na contramão dessa pressa que nos socorre o velho e bom hábito de abrir um livro. Não se trata de uma leitura apressada, das que apenas buscam o fim da linha ou a informação imediata. 

Refiro-me a
pausa verdadeira e plena de sentido: o ato de leitura como quem desacelara o passo para contemplar uma paisagem. Quando decides parar e abrir as páginas de um livro, algo extraordinário acontece. O espaço ao redor se redimensiona. O barulho lá fora esmaece, e o tempo — antes tirano — estica-se, acolhedor. Esse intervalo que se cria no meio da rotina não é um tempo ocioso; é um tempo habitado teu silêncio.

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"A leitura é um diálogo íntimo, um sussurro cúmplice entre quem escreve e tu, que emprestas os teus olhos e a tua sensibilidade para dar vida à história."

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Cada obra que se escolhe carregar na mão, seja ela encontrada com paciência nas estantes empoeiradas de um sebo ou recebida como um presente, traz consigo uma geografia invisível. Há livros que devolvem o cheiro da infância, que transportam para épocas que não vivenciamos ou que simplesmente colocam em palavras e sentidos aquilo que nós mesmos intuímos, mas não sabíamos nomear.

Nessa pausa, o livro deixa de ser um mero amontoado de papel e tinta para se converter em um território de encontro. Encontramos o autor, decerto, mas encontramos, sobretudo, a nós mesmos. Descobrimos que a leitura é um diálogo íntimo, um sussurro cúmplice entre quem escreve e tu, que emprestas os teus olhos e a tua sensibilidade para dar vida à história.

Então, vale a pena reivindicar esse direito à uma pausa. Fechar a porta por alguns instantes, acolher-se ao aconchego de uma poltrona preferida, quem sabe com a companhia de uma boa infusão de chá ou de um café para aquecer a tarde, e permitir que as páginas se revelem. Porque, no fundo - bem no fundo, parar para ler é um ato de resistência poética: escolher, ainda que por breves capítulos, habitar o mundo com mais vagar, mais intensidade da alma e mais inteireza do próprio ser.

(Revisão e imagem: Gemini)