Quartas com gosto de poesia:
A rua era um quintal sem muro.
Cada casa exalava seu próprio perfume -
jasmim na beira da cerca, café na cozinha,
vozes atravessando portões sem tranca
como quem entra em casa de parente.
O tempo morava ali, de porta aberta.
Depois, levantaram-se paredes mais altas.
Ergueram-se muros, desceu a tranca,
e a família encolheu dentro de cômodos amplos.
O silêncio da segurança isolou -
a rua virou fronteira,
e cada um se tornou ilha no seu próprio mar.
Hoje, o chão se ergueu em torres.
Apartamentos-dormitório, números sem nome,
onde o elevador engole os encontros
e o tempo não espera ninguém na calçada.
A casa perdeu a raiz,
e, sem perceber, perdemos o chão.
Mas ainda carrego as três moradas.
Camadas de uma mesma existência -
a varanda, o muro, o andar alto -
sedimentos de quem fui, de quem me tornei,
e a rua, ainda viva, lembra do que já fomos.
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"A casa perdeu a raiz,
e, sem perceber, perdemos o chão..."
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(Revisão: Kimi. Imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/Mz1f_kNiUxE)




