terça-feira, 22 de setembro de 2026

Como fogo que se torna semente

Quartas com gosto de poesia:


A pirotecnia das imagens incendeia os céus, 

Úteros que gestam surpresas. 

A receita perfeita contempla 

O colorido, a vivacidade, a forma, 

O tempo que duram, 

O espaço que as moldura.


Tudo conspira para que a criação 

Tenha o tempo de um suspiro. 

Mesmo assim, parece por uma eternidade. 

Os olhos se deslumbram. 

Paralisam as emoções, na intensidade 

Com que agitam o espírito e serenam a alma.


Desanuviam as preocupações mais cinzentas 

E as cores, que se infiltram pela retina, 

Percorrem cada pedacinho do corpo. 

Aos poucos, desfazem as tormentas e tornam 

O firmamento, não mais o anuviado das dores, 

Mas o suporte do que seja a esperança.


Como fogo que se torna semente, 

Assim, a faísca desperta a terra, 

O seio que viu nascer a luz e o ardor, 

Onde o calor penetra pelo

Silêncio que busca o rumo do peito. 

E da centelha que repousa nas sombras, 

A vida, mansa, aprende a germinar…


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/crxgcAX_AFU)

sábado, 19 de setembro de 2026

À luz do lampião de meu pai

Crônica poética:

Era um período de final de ano, em plena primavera. Havia tido dificuldade em alguma matéria do currículo escolar e precisei das chamadas aulas de reforço. Elas aconteciam no declinar da tarde e, quando acabavam, já era noite. Da escola paroquial que frequentava até a minha casa eram quatro quadras. Na primeira, havia iluminação pública. Depois, para mim, ainda criança, restava a escuridão.


Era uma época de poucas casas no flanco direito da vila, enquanto um sítio se alongava por toda a margem esquerda. No pedaço de terra em que se plantavam verduras e hortaliças não havia cercas; a proteção era feita com maricás e outros arbustos espinhentos. A rua era de chão batido, com valetas e calçadas servindo como prolongamento dos pátios.

O silêncio absoluto era quebrado apenas pelo piado tardio de uma ave (que eu julgava agourenta) ou pelo ladrar de um cachorro que fazia a ronda ao redor de sua morada e pressentia a presença de estranhos. Parecia uma distância infindável. Eu apenas ansiava pelo aconchego do meu lugar de referência: meu lar, meu porto seguro.

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" Era o suficiente para esboçar um sorriso e sentir que ali residia o meu lugar, cercado pela família, por amigos e pela doce compreensão de que a vida havia sido gentil comigo… E com a minha história!"

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O coração desacelerava ao vislumbrar a tênue luz de lampião que saía pela porta do Bar e Armazém Raulin, a venda de meu pai. Já mais próximo, era possível ouvir as vozes dos vizinhos que paravam para um aperitivo antes de se recolherem. Aquilo era o suficiente para esboçar um sorriso e sentir que ali residia o meu lugar, cercado pela família, por amigos e pela doce compreensão de que a vida havia sido gentil comigo… E com a minha história!


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/79e2sOLwCdE)

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

São Francisco de Assis, de G. K. Chesterton

Janelas do Tempo:

O livro São Francisco de Assis, de G. K. Chesterton, é uma das interpretações mais luminosas e originais sobre o Poverello. sem adotar o tom solene e exaustivo de biografias tradicionais, o autor aproxima-se de seu biografado com a leveza de quem compreende a poesia dos atos humanos. Chesterton enxerga em Francisco não apenas um santo medieval enclausurado em altares, mas um revolucionário do espírito, movido pela alegria e a liberdade radical. A obra traduz a complexidade da Idade Média em um relato fluido, onde a conversão do jovem burguês de Assis ganha ares de um despertar artístico e místico.

O coração do ensaio reside na tese de que
a essência franciscana se fundamenta na gratidão e no deslumbramento diante da criação divina, rompendo com o cinismo da época. Chesterton argumenta que Francisco foi o grande poeta do seu século, transformando a pobreza absoluta em uma escolha apaixonada por uma noiva invisível, a Dama Pobreza. Através de metáforas vivas e de um estilo irônico e reverente ao mesmo tempo, o escritor demonstra como o santo devolveu à Igreja a juventude e a leveza do Evangelho. O texto evita o academicismo árido, preferindo dialogar diretamente com o leitor moderno por meio de imagens universais e profunda intuição espiritual.

Um ponto alto da narrativa é como o autor retrata o encontro entre Francisco e o Papa Inocêncio III, um momento em que a simplicidade desafiou as estruturas do poder terreno. Chesterton destaca o carisma magnético do santo, capaz de amansar lobos e discursar para sultões com a mesma coragem mansa que utilizava para acolher os marginalizados nas estradas. Para o escritor inglês, a vida de Francisco assemelha-se a uma peça de teatro divino ou a uma canção de gesta, onde cada episódio reflete uma vitória da graça sobre o egoísmo humano. Essa abordagem transforma a biografia em um manifesto literário em defesa da beleza, da fraternidade e do respeito à natureza.

A atmosfera do livro pinta com tintas vívidas o contexto social e cultural da Úmbria medieval, dando relevo às cores, aos campos e à brisa que embalavam os passos dos primeiros frades. Chesterton sublinha que o franciscanismo nunca foi um fúnebre culto ao sofrimento, mas uma exultante celebração da vida, onde o sofrimento era apenas a consequência de amar o mundo sem reservas. O leitor percebe, página após página, que a santidade de Francisco consistia em enxergar as criaturas como irmãs, desde o sol que ilumina os campos até a morte corporal. 

Uma reflexão sobre a urgência de valores essenciais em tempos de pressa e desencontro. O livro recorda que a simplicidade voluntária e o amor desinteressado pelas coisas simples continuam a ser uma provocação incômoda e necessária para o homem contemporâneo. Ao encerrar as páginas deste ensaio biográfico, fica a certeza de que a figura de Francisco de Assis, filtrada pela genialidade de Chesterton, permanece viva como um farol de esperança. Trata-se de uma leitura indispensável que enobrece o espírito e renova a sensibilidade de quem se detém a contemplar o mistério da existência.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/yf90M2NC92g)

As mãos que não se fecham

O Fio da Meada:

É um dorama (kdrama, como quiserem), uma novelinha asiática. Na estrada de um país em guerra, o carro do casal atravessa o silêncio e o lixo. Pessoas recolhem restos de comida como quem cata pedras preciosas. E a ficção vira espelho. A mocinha desce com o que restava nas mãos e uma procissão silenciosa marcha em sua direção: fila ordenada, resignada, como se a fome ensinasse uma etiqueta que o mundo nunca lhes ofereceu. O carro se esvazia, cada migalha é entregue, e quando acaba ainda sobra gente. Esperando a vez que não virá.

O primeiro da fila é um menino, com a irmã ao lado. Mãos estendidas, vazias, sem possibilidade de conseguir o que já não existe. As mãos da protagonista se fecham em frustração; as das crianças, devagar, no conformismo com a dor. Não choram, nem reclamam. Cerram os dedos e aprendem que a palma estendida nem sempre encontra o que busca. Esse gesto — duas mãos que se fecham por razões diferentes — é a imagem que fica. A que dói.

A seguir, num baixo astral que não precisa de explicação, o casal contempla oliveiras brancas no horizonte. Uma miragem, quem sabe. Ou
o único lugar onde a cor da paz resiste à poeira da guerra. A função dele é desarmar bombas. Ela descreve as atrocidades como repórter. E a ficção faz o que sabe de melhor: não dá respostas, obriga a perguntar para que serve testemunhar, registrar, desarmar, se a fila não acaba e as mãos se fecham.

A série não para por aí. Num outro momento, uma criança refém aparece com uma bomba amarrada ao corpo. Na luta por salvá-la, o militar vê flores no chão e lembra que deixou o garoto fugir de uma área militar onde colhia margaridas com outras crianças. Agora, elas jazem em meio às pedras. O soldado as recolhe, coloca nas mãos dele e garante que não vai desistir de salvá-lo. Para aliviar a tensão, pergunta: "Você sabe cantar?"

A resposta não está em gestos heróicos, mas na persistência: na mão que desce do carro, na palavra escrita, na flor entregue a criança com bomba amarrada ao corpo... A série A Oliveira Branca está nos streamings e, em algum momento, deixa de ser entretenimento. Vira oásis. Aquilo que a ficção oferece quando a realidade pesa demais: a lembrança de que ainda é possível sentir indignação. De estender a mão mesmo sabendo que ela voltará vazia. De não deixar que as nossas se fechem no conformismo de uma existência sem sentido…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/0zwxiYQ_LGg)

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Um gosto amargo de incompletude

Quartas com gosto de poesia:


Quando a madrugada desperta 

E se vislumbram os primeiros raios do sol, 

Acontecem os sonhos que deixam na boca 

Um gosto amargo de incompletude.


Daqueles que a gente recorda e 

Parecem fadados como uma profecia. 

Dos que não se tem lembranças e 

A sensação é de que o destino avisou, 

Sem que se conseguisse entender.



A trajetória dos sonhos é sinuosa, 

Percorrendo recônditos de memórias 

Que, até então, se acreditou 

Estivessem apagadas. 

No desejo de esquecer ou ainda 

Deixaram rastros sem uma plena compreensão.


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"Dos que não se tem lembranças e a sensação é de que o destino avisou, 
sem que se conseguisse entender..."

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No limiar entre a realidade e o devaneio, 

Acompanham-se os passos de um encantamento. 

Marcas profundas de um passado engavetado, 

Lembranças de sentimentos que permanecem, 

No que o onírico é apenas uma ponta de saudade…


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/aAVeefuFoPs)


sábado, 12 de setembro de 2026

No balanço das ondas do mar

Crônica Poética:

As ondas quebram de encontro às encostas já salgadas dos paredões de pedra. Um barulho ensurdecedor no desejo de escalar as costas íngremes dos rochedos: a busca por superar a barreira da altura que as impede de chegar ao topo. Ali, onde não há praia. O oceano despende sua energia para romper os arrecifes, preparando-se para o desafio da escala.

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" Ao fim do dia, quando o sol se esconde no horizonte, o murmúrio das vagas transforma-se em prece...."

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Uma persistência teimosa de quem sabe o que deseja, mas também conhece as barreiras que precisa vencer. A água recua, toma fôlego, desenhando espumas alvas sobre a rocha escura e fria. Um diálogo antigo, quase eterno, entre a fluidez do tempo e a rigidez da pedra, onde cada golpe molda lentamente o contorno do invisível.

Nada ali permanece intacto após o toque incessante das águas. Nessa dança bruta, o tempo deixa de ser contado em horas para ser medido em marcas na rocha. A maré insiste, paciente e ao mesmo tempo feroz, sabendo que até o granito mais duro cede ao seu abraço continuado. Há uma beleza silenciosa e arrepiante no esforço de quem nunca desiste.


No balanço das ondas do mar, pensamentos batem contra as paredes da mente na tentativa de transbordar. Ao fim do dia, quando o sol se esconde no horizonte, o murmúrio das vagas transforma-se em prece. As pedras continuam lá, imponentes, mas já não são as mesmas. O oceano, em sua infinitude, transforma tudo o que ousa tocar…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/a0peLke_t1o)

O nome da Rosa, de Umberto Eco

Janelas do Tempo:

O Nome da Rosa, de Umberto Eco, transporta o leitor para o final de novembro de 1327, em uma abadia franciscana isolada no norte da Itália. A trama central acompanha o frade franciscano William de Baskerville e seu jovem noviço Adso de Melk, que chegam ao mosteiro para participar de um importante debate teológico. No entanto, a atmosfera de serenidade acadêmica logo se dissipa com a ocorrência de uma série de mortes misteriosas e violentas entre os monges. 

William, aplicando métodos de dedução lógica inspirados na filosofia e na nascente ciência empírica, é encarregado pelo abade de desvendar os enigmas antes que a Inquisição intervenha. O epicentro de todo o mistério revela-se ser a imensa e labiríntica biblioteca da abadia. William e Adso enfrentam armadilhas intelectuais, perigos físicos e o fanatismo religioso de figuras marcantes, como o cego Jorge de Burgos. 

O livro ergue-se como um ensaio sobre a semiótica, a filosofia da linguagem e a circulação do saber humano. Eco utiliza o gênero do mistério para discutir a censura, o riso como elemento subversivo e a fragilidade das certezas dogmáticas que dominaram a Idade Média. A célebre discussão sobre a existência de um tratado perdido de Aristóteles dedicado à comédia funciona como metáfora central para o temor que o poder estabelecido nutre pela liberdade de pensamento. 

Através da voz narradora de Adso, a narrativa evoca a fragilidade da memória e a permanente tensão entre a fé dogmática e a investigação racional. O autor constrói um painel vivo e multifacetado de um período histórico fascinante, marcado por disputas de poder entre o papado, o império e as ordens mendicantes. Longe de ser um mero exercício de erudição árida, O Nome da Rosa cativa o leitor moderno pela força de seus personagens e pela atualidade de suas indagações sobre a verdade e a manipulação da informação. 

É um livro que exige atenção, mas que premia generosamente quem se dispõe a atravessar seus portais de mistério e reflexão filosófica. Para o leitor contemporâneo, a obra permanece como um alerta inesgotável sobre os perigos do fanatismo e a importância intransigível da preservação do livre acesso ao conhecimento. A célebre frase final sobre a rosa que resta apenas pelo seu nome sintetiza a melancolia e a beleza de um texto que sobrevive ao tempo. 

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/NzmpVivb1l8)