domingo, 10 de maio de 2026

Mãe, obrigado por ter me ensinado a amar!

Crônica Poética: 

Difícil definir o que seja “mãe” - assim como a palavra “amor”. É um contorcionismo verbal, uma tentativa sempre acompanhada da impressão de que faltou alguma coisa. Da mesma forma que o “amor”, a "mãe" se experimenta na realidade do dia a dia, em um tempo de vivências tão intensas das quais não se tem noção, até que os anos passem e as memórias sejam depositadas no altar onde incensamos a bênção que foi ter tido o convívio com elas.

Minha mãe era a dona França — como era conhecida na nossa rua, embora se chamasse Francelina. Durante muito tempo, achava engraçado que a chamassem assim, porque, para mim, ela era simplesmente “mãe”. Migrou do interior de Canguçu com meu pai e três filhos por criar, educar, vestir e alimentar. Eram tempos difíceis, e deve ter sido ainda mais para quem sempre viveu tão próxim à família.

Na periferia da cidade (Pelotas/RS), buscaram fugir, como dizia meu pai, “da miséria para viver na pobreza”. Parecia natural que ela cumprisse diversas jornadas de trabalho: cuidadora dos filhos, responsável pela casa e pela alimentação, reserva no atendimento do bar e armazém do seu Manoel. Nunca a vi chorosa, nunca a vi reclamar. Era, literalmente, o porto seguro onde ancorávamos nas nossas muitas voltas ao lar.

Mesmo com apenas a terceira série primária, dizia que era preciso que os filhos “tomassem rumo na vida”. Hoje, sei que num abraço cabem as palavras que eu deveria ter dito e não o fiz. E, se elas já moram na Eternidade, a homenagem se faz na certeza de que o caminho foi iluminado por um ser de luz: o coração de quem amou primeiro e mostrou, com a vida, que o simples ato de amar sempre vale a pena!



Na tua presença, ou na tua saudade,

Mãe, obrigado por me ensinar a amar!

(Revisão e imagem: Gemini)

sábado, 9 de maio de 2026

Pedra da Memória, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Janelas do Tempo: 

Dando continuidade à
trilogia sobre o "Castelo no Pampa", de Luiz Antonio Assis Brasil, chegamos ao segundo volume: Pedra da Memória. Se no primeiro livro testemunhamos a glória da construção, aqui somos convidados a entrar em um cenário mais íntimo e melancólico, onde o tempo começa a cobrar o seu preço sobre as pedras e sobre os homens.

A trama foca na maturidade de Joaquim Francisco, o idealista que tentou plantar um pedaço da Europa no coração do Rio Grande do Sul. O conflito central é humano e profundo: o choque entre o seu sonho de civilização e a realidade da decadência econômica das estâncias gaúchas. Vemos um patriarca que luta para manter a dignidade enquanto o mundo que ele conhece se transforma.

Ao lado dele, destaca-se a figura de Lydia, sua esposa. Ela é o verdadeiro pilar emocional que sustenta a estrutura do castelo diante do isolamento e das incertezas. A relação do casal com os filhos também ganha força, revelando o abismo geracional entre quem construiu o império e quem herdará apenas as suas ruínas e memórias, em um tempo onde a terra já não tem a mesma voz.

O autor utiliza uma linguagem elegante para descrever essa erosão silenciosa. A "Pedra" do título é um símbolo duplo: representa tanto a solidez dos ideais de Joaquim quanto o peso da saudade que imobiliza os personagens. É uma leitura que faz refletir sobre o que realmente permanece de nós quando as luzes dos grandes salões começam, inevitavelmente, a se apagar.

A história une rigor histórico e sensibilidade quase poética sobre a condição humana. Pedra da Memória é uma escolha indispensável, o convite perfeito para uma boa leitura, desvendando segredos dos moradores do castelo em uma narrativa fragmentada. O livro funciona como um retrato íntimo das perplexidades humanas e da ruína de um modo de vida, consolidando a série como uma peça importante do romance histórico sul-rio-grandense.

(Revisão e imagens: Gemini)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Vacinas: As mentiras que podem matar

 O Fio da Meada: 

Ainda precisamos falar sobre vacinação. Parece um tema esgotado, mas a realidade nos impõe o retorno a essa pauta. Todos os anos, a história se repete como uma ladainha persistente: as campanhas de saúde, que deveriam ser celebradas como um pacto de vida, encontram uma barreira feita de indiferença e, em casos mais graves, de hostilidade gratuita. No outono, quando o ar esfria, a proteção deveria ser o nosso agasalho principal.

Olhamos para trás e vemos o rastro de superação que a ciência nos deixou. Doenças que antes mutilavam e matavam em silêncio, como a poliomielite, tornaram-se memórias distantes graças ao esforço de braços estendidos nos postos de saúde. O sarampo, que outrora era uma sentença de medo para os pais, foi domado pela inteligência coletiva. São vitórias da humanidade, marcos de uma evolução que não permitia que o obscurantismo ditasse as regras do jogo.

Entretanto, vivemos um fenômeno curioso e triste. O acesso à informação, em vez de libertar, muitas vezes tem servido para encarcerar mentes em bolhas de negação. Bastou a politização de um tema técnico para que a confiança fosse abalada. Quando transformamos a saúde em um campo de batalha ideológico, os únicos feridos são os cidadãos. Não se trata de direita ou esquerda quando o que está em jogo é o fôlego de um idoso ou a segurança de uma criança.

Não consigo aceitar que políticos de estimação sejam colocados acima do bem-estar social. Priorizar narrativas em detrimento da sobrevivência de quem depende do SUS é uma falha moral profunda. A saúde pública é o último refúgio de quem não tem posses, e enfraquecê-la com dúvidas infundadas é um crime silencioso. Onde foi que perdemos a capacidade de confiar naquilo que nos trouxe até aqui com vida e saúde?

Que este texto sirva como um convite ao pensamento crítico. Vacinar é, antes de tudo, um ato de amor e de civilidade. É entender que o meu corpo faz parte de um corpo social que precisa estar forte. Não permita que o barulho das disputas partidárias ensurdeça o seu instinto de proteção. Procure o posto, busque a vacina e reafirme o seu compromisso com a vida. Afinal, a ciência continua sendo o nosso melhor escudo contra as sombras do passado.

(Imagens e revisão: Gemini)


quarta-feira, 6 de maio de 2026

O mate no renascer da manhã

 Quartas com gosto de poesia:


Na cuia se molda o início do dia,

O verde esperança que o tempo conduz;

A água que aquece e a alma sacia,

Em cada gole, um reflexo de luz.


​Não é só bebida, é silêncio, é prece,

Um trato sagrado com a tradição;

Enquanto o vapor no ambiente floresce,

Se acalmam as batidas do meu coração.


​A mão que sustenta a bomba de prata,

Carrega memórias de um tempo guri;

A lida do mundo, por vezes ingrata,

Se torna mais leve ao sorvê-lo por aqui.


​E quando a manhã se aconchega serena,

Oferecendo o amargo que ensina a viver;

O mate faz a vida valer a pena,

No eterno mistério de se renascer!


(Revisão e imagem: Gemini)


domingo, 3 de maio de 2026

O Manifesto de um Velho Bobo

 

Crônica poética:


​Dizem que sou apenas “um velho bobo”. É um bom título. Aceito sem resistência, pois, no fim das contas, só os “bobos” ainda conseguem enxergar o que é “essencial aos olhos”.

Admiro a criança na sua plena inocência, desconhecendo as convenções e livre de preconceitos. Ela é solidária por natureza. Ainda imune ao vírus predador das relações de exploração e medo que o mundo tenta, precocemente, inocular.


Admiro o jovem que teima em acreditar nas suas potencialidades. Pedem-lhe, com pressa, que amadureça — como se a vida fosse um prazo a vencer — quando ele apenas deseja que não matem os seus sonhos. Resiste para que não lhe privem dos amigos e dos amores, nem engessem sua caminhada, exigindo que abra mão de um tempo de aventuras.

Admiro o idoso que, reconhecendo a finitude, ainda se permite o devaneio. O direito que pede de ser feliz não é para atender a seus interesses, mas irradiar a energia que contamina a família e o meio onde vive. Um farol que pisca, mas teima em não se apagar.

​Minha prece pela humanidade não é uma utopia desprovida de  sentido. Ela encarna no cerne do mundo, sabendo que faz parte da vida: sofrer, surpreender-se e, acima de tudo, ser feliz.

​Sim, sou apenas um velho bobo. Um desses que, apesar de tudo, ainda escolhe acreditar no ser humano, na vida e no amor!

(Revisão e imagem: Gemini)

sábado, 2 de maio de 2026

Perversas Famílias, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Janelas do Tempo:

Perversas Famílias
é a obra que inicia a saga de Um Castelo no Pampa estabelecendo o conflito central entre o desejo e a realidade. A narrativa expõe a construção de uma residência monumental, idealizada por um patriarca, mas concretizada por seu herdeiro, Olímpio. O cenário serve como metáfora para a formação da sociedade gaúcha, onde a solidez das pedras contrasta com a fragilidade das relações humanas. Luiz Antonio de Assis Brasil utiliza esse palco para dissecar a linhagem da família Borges da Fonseca e Menezes em meio ao isolamento do pampa.

A estrutura do romance utiliza um movimento temporal constante para revelar as camadas da hipocrisia familiar. Não há uma linha reta na memória, mas sim um desvelar gradual de mentiras e segredos que sustentam a aparência da honra. O texto demonstra como o projeto de poder latifundiário carrega em si as sementes da própria destruição. A cada capítulo, a imagem do castelo perde seu brilho romântico para se tornar um símbolo de clausura e opressão psicológica para os que ali habitam.

O foco recai sobre a perversidade intrínseca ao sistema de privilégios da época. A convivência entre pais, filhos e irmãos é marcada por uma rigidez que sufoca o afeto em nome da manutenção do nome e da propriedade. O autor evita a glorificação do passado, preferindo mostrar o avesso do mito heroico do estancieiro. Revela-se um ambiente onde a comunicação é falha e os silêncios são tão pesados quanto as paredes da edificação que se ergue na imensidão do campo.

O personagem Dr. Olinto surge como o observador crítico e o fio condutor que atravessa essa turbulência histórica. Sua presença permite ao leitor enxergar as contradições de um Rio Grande do Sul que tentava conciliar a herança tradicionalista com as mudanças da República. A narrativa aponta para a decadência moral de uma classe que se via como eterna, mas que se tornava anacrônica diante dos novos tempos. O olhar do médico funciona como uma lente que amplia as feridas abertas pela ambição desmedida.

O fechamento do primeiro volume, Perversas Famílias, deixa clara a inevitabilidade da queda. O castelo, embora majestoso, é o retrato de uma miragem trágica que consome a energia e o caráter de várias gerações. A obra termina por consolidar a ideia de que a arquitetura do poder é, muitas vezes, uma armadilha para quem a constrói. Prepara-se, assim, o terreno para os desdobramentos futuros que serão explorados em Pedra da Memória, mantendo a tensão entre a história pública e a ruína privada.

(Revisão e imagem: IA Gemini)


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A CNBB e o resgate da “polis”: Fé não se confunde com palanque

O Fio da Meada:

A recente
mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), emitida ao final de sua assembleia, convoca a uma reflexão urgente sobre o conceito de polis. Mais do que um mero aglomerado de edifícios ou vultosos investimentos em infraestrutura, a urbe é, em sua essência, o conjunto vivo de seus cidadãos. Cuidar desse espaço comum, portanto, significa priorizar a dignidade humana e o bem-estar coletivo, resgatando o sentido mais puro da ação política na sociedade.

O documento confere protagonismo à educação pastoral como via para o amadurecimento cívico. Tal formação não pretende ditar escolhas partidárias, mas sim emancipar o indivíduo para que compreenda seu papel na construção de um mundo justo. Trata-se de um convite ao discernimento ético, fornecendo as bases morais para que cada um atue como protagonista na busca por soluções que beneficiem a coletividade, e não apenas segmentos isolados.

É fundamental, como sugere o texto do episcopado, não confundir valores religiosos com militância cega. Enquanto a fé oferece princípios universais de fraternidade, o campo das soluções técnicas e temporais pertence à política. Quando certos grupos instrumentalizam a crença para fins eleitorais, a espiritualidade perde sua essência transcendente e corre-se o risco de transformar o altar em palanque, o que desvirtua ambas as esferas e empobrece o debate público.

Diferente de movimentos que promovem uma verdadeira lavagem cerebral, a mensagem da CNBB foge da dicotomia que paralisou o país. Em vez de alimentar o ódio ou a exclusão do "outro", a Igreja propõe o diálogo e a amizade social como antídotos ao radicalismo. O foco recai na unidade dentro da diversidade, rejeitando discursos messiânicos que prometem salvação em troca de contribuições financeiras, fidelidade absoluta e o acirramento constante de conflitos.

A esperança cristã deve ser um compromisso ativo com a realidade. Educar para a cidadania é, antes de tudo, olhar o próximo com empatia e responsabilidade social. A sociedade em que habitamos só será próspera quando o cuidado com o povo for o alicerce de todas as construções. Afinal, uma população mantida na ignorância torna-se presa fácil da manipulação; e enquanto estivermos longe de uma educação inclusiva, continuaremos a criar "castas" fidelizadas por soluções paliativas, em vez de um projeto comum de nação.

(Revisão: IA Gemini. Imagem: CNBB)