sexta-feira, 18 de setembro de 2026

São Francisco de Assis, de G. K. Chesterton

Janelas do Tempo:

O livro São Francisco de Assis, de G. K. Chesterton, é uma das interpretações mais luminosas e originais sobre o Poverello. sem adotar o tom solene e exaustivo de biografias tradicionais, o autor aproxima-se de seu biografado com a leveza de quem compreende a poesia dos atos humanos. Chesterton enxerga em Francisco não apenas um santo medieval enclausurado em altares, mas um revolucionário do espírito, movido pela alegria e a liberdade radical. A obra traduz a complexidade da Idade Média em um relato fluido, onde a conversão do jovem burguês de Assis ganha ares de um despertar artístico e místico.

O coração do ensaio reside na tese de que
a essência franciscana se fundamenta na gratidão e no deslumbramento diante da criação divina, rompendo com o cinismo da época. Chesterton argumenta que Francisco foi o grande poeta do seu século, transformando a pobreza absoluta em uma escolha apaixonada por uma noiva invisível, a Dama Pobreza. Através de metáforas vivas e de um estilo irônico e reverente ao mesmo tempo, o escritor demonstra como o santo devolveu à Igreja a juventude e a leveza do Evangelho. O texto evita o academicismo árido, preferindo dialogar diretamente com o leitor moderno por meio de imagens universais e profunda intuição espiritual.

Um ponto alto da narrativa é como o autor retrata o encontro entre Francisco e o Papa Inocêncio III, um momento em que a simplicidade desafiou as estruturas do poder terreno. Chesterton destaca o carisma magnético do santo, capaz de amansar lobos e discursar para sultões com a mesma coragem mansa que utilizava para acolher os marginalizados nas estradas. Para o escritor inglês, a vida de Francisco assemelha-se a uma peça de teatro divino ou a uma canção de gesta, onde cada episódio reflete uma vitória da graça sobre o egoísmo humano. Essa abordagem transforma a biografia em um manifesto literário em defesa da beleza, da fraternidade e do respeito à natureza.

A atmosfera do livro pinta com tintas vívidas o contexto social e cultural da Úmbria medieval, dando relevo às cores, aos campos e à brisa que embalavam os passos dos primeiros frades. Chesterton sublinha que o franciscanismo nunca foi um fúnebre culto ao sofrimento, mas uma exultante celebração da vida, onde o sofrimento era apenas a consequência de amar o mundo sem reservas. O leitor percebe, página após página, que a santidade de Francisco consistia em enxergar as criaturas como irmãs, desde o sol que ilumina os campos até a morte corporal. 

Uma reflexão sobre a urgência de valores essenciais em tempos de pressa e desencontro. O livro recorda que a simplicidade voluntária e o amor desinteressado pelas coisas simples continuam a ser uma provocação incômoda e necessária para o homem contemporâneo. Ao encerrar as páginas deste ensaio biográfico, fica a certeza de que a figura de Francisco de Assis, filtrada pela genialidade de Chesterton, permanece viva como um farol de esperança. Trata-se de uma leitura indispensável que enobrece o espírito e renova a sensibilidade de quem se detém a contemplar o mistério da existência.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/yf90M2NC92g)

As mãos que não se fecham

O Fio da Meada:

É um dorama (kdrama, como quiserem), uma novelinha asiática. Na estrada de um país em guerra, o carro do casal atravessa o silêncio e o lixo. Pessoas recolhem restos de comida como quem cata pedras preciosas. E a ficção vira espelho. A mocinha desce com o que restava nas mãos e uma procissão silenciosa marcha em sua direção: fila ordenada, resignada, como se a fome ensinasse uma etiqueta que o mundo nunca lhes ofereceu. O carro se esvazia, cada migalha é entregue, e quando acaba ainda sobra gente. Esperando a vez que não virá.

O primeiro da fila é um menino, com a irmã ao lado. Mãos estendidas, vazias, sem possibilidade de conseguir o que já não existe. As mãos da protagonista se fecham em frustração; as das crianças, devagar, no conformismo com a dor. Não choram, nem reclamam. Cerram os dedos e aprendem que a palma estendida nem sempre encontra o que busca. Esse gesto — duas mãos que se fecham por razões diferentes — é a imagem que fica. A que dói.

A seguir, num baixo astral que não precisa de explicação, o casal contempla oliveiras brancas no horizonte. Uma miragem, quem sabe. Ou
o único lugar onde a cor da paz resiste à poeira da guerra. A função dele é desarmar bombas. Ela descreve as atrocidades como repórter. E a ficção faz o que sabe de melhor: não dá respostas, obriga a perguntar para que serve testemunhar, registrar, desarmar, se a fila não acaba e as mãos se fecham.

A série não para por aí. Num outro momento, uma criança refém aparece com uma bomba amarrada ao corpo. Na luta por salvá-la, o militar vê flores no chão e lembra que deixou o garoto fugir de uma área militar onde colhia margaridas com outras crianças. Agora, elas jazem em meio às pedras. O soldado as recolhe, coloca nas mãos dele e garante que não vai desistir de salvá-lo. Para aliviar a tensão, pergunta: "Você sabe cantar?"

A resposta não está em gestos heróicos, mas na persistência: na mão que desce do carro, na palavra escrita, na flor entregue a criança com bomba amarrada ao corpo... A série A Oliveira Branca está nos streamings e, em algum momento, deixa de ser entretenimento. Vira oásis. Aquilo que a ficção oferece quando a realidade pesa demais: a lembrança de que ainda é possível sentir indignação. De estender a mão mesmo sabendo que ela voltará vazia. De não deixar que as nossas se fechem no conformismo de uma existência sem sentido…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/0zwxiYQ_LGg)

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Um gosto amargo de incompletude

Quartas com gosto de poesia:


Quando a madrugada desperta 

E se vislumbram os primeiros raios do sol, 

Acontecem os sonhos que deixam na boca 

Um gosto amargo de incompletude.


Daqueles que a gente recorda e 

Parecem fadados como uma profecia. 

Dos que não se tem lembranças e 

A sensação é de que o destino avisou, 

Sem que se conseguisse entender.



A trajetória dos sonhos é sinuosa, 

Percorrendo recônditos de memórias 

Que, até então, se acreditou 

Estivessem apagadas. 

No desejo de esquecer ou ainda 

Deixaram rastros sem uma plena compreensão.


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"Dos que não se tem lembranças e a sensação é de que o destino avisou, 
sem que se conseguisse entender..."

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No limiar entre a realidade e o devaneio, 

Acompanham-se os passos de um encantamento. 

Marcas profundas de um passado engavetado, 

Lembranças de sentimentos que permanecem, 

No que o onírico é apenas uma ponta de saudade…


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/aAVeefuFoPs)


sábado, 12 de setembro de 2026

No balanço das ondas do mar

Crônica Poética:

As ondas quebram de encontro às encostas já salgadas dos paredões de pedra. Um barulho ensurdecedor no desejo de escalar as costas íngremes dos rochedos: a busca por superar a barreira da altura que as impede de chegar ao topo. Ali, onde não há praia. O oceano despende sua energia para romper os arrecifes, preparando-se para o desafio da escala.

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" Ao fim do dia, quando o sol se esconde no horizonte, o murmúrio das vagas transforma-se em prece...."

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Uma persistência teimosa de quem sabe o que deseja, mas também conhece as barreiras que precisa vencer. A água recua, toma fôlego, desenhando espumas alvas sobre a rocha escura e fria. Um diálogo antigo, quase eterno, entre a fluidez do tempo e a rigidez da pedra, onde cada golpe molda lentamente o contorno do invisível.

Nada ali permanece intacto após o toque incessante das águas. Nessa dança bruta, o tempo deixa de ser contado em horas para ser medido em marcas na rocha. A maré insiste, paciente e ao mesmo tempo feroz, sabendo que até o granito mais duro cede ao seu abraço continuado. Há uma beleza silenciosa e arrepiante no esforço de quem nunca desiste.


No balanço das ondas do mar, pensamentos batem contra as paredes da mente na tentativa de transbordar. Ao fim do dia, quando o sol se esconde no horizonte, o murmúrio das vagas transforma-se em prece. As pedras continuam lá, imponentes, mas já não são as mesmas. O oceano, em sua infinitude, transforma tudo o que ousa tocar…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/a0peLke_t1o)

O nome da Rosa, de Umberto Eco

Janelas do Tempo:

O Nome da Rosa, de Umberto Eco, transporta o leitor para o final de novembro de 1327, em uma abadia franciscana isolada no norte da Itália. A trama central acompanha o frade franciscano William de Baskerville e seu jovem noviço Adso de Melk, que chegam ao mosteiro para participar de um importante debate teológico. No entanto, a atmosfera de serenidade acadêmica logo se dissipa com a ocorrência de uma série de mortes misteriosas e violentas entre os monges. 

William, aplicando métodos de dedução lógica inspirados na filosofia e na nascente ciência empírica, é encarregado pelo abade de desvendar os enigmas antes que a Inquisição intervenha. O epicentro de todo o mistério revela-se ser a imensa e labiríntica biblioteca da abadia. William e Adso enfrentam armadilhas intelectuais, perigos físicos e o fanatismo religioso de figuras marcantes, como o cego Jorge de Burgos. 

O livro ergue-se como um ensaio sobre a semiótica, a filosofia da linguagem e a circulação do saber humano. Eco utiliza o gênero do mistério para discutir a censura, o riso como elemento subversivo e a fragilidade das certezas dogmáticas que dominaram a Idade Média. A célebre discussão sobre a existência de um tratado perdido de Aristóteles dedicado à comédia funciona como metáfora central para o temor que o poder estabelecido nutre pela liberdade de pensamento. 

Através da voz narradora de Adso, a narrativa evoca a fragilidade da memória e a permanente tensão entre a fé dogmática e a investigação racional. O autor constrói um painel vivo e multifacetado de um período histórico fascinante, marcado por disputas de poder entre o papado, o império e as ordens mendicantes. Longe de ser um mero exercício de erudição árida, O Nome da Rosa cativa o leitor moderno pela força de seus personagens e pela atualidade de suas indagações sobre a verdade e a manipulação da informação. 

É um livro que exige atenção, mas que premia generosamente quem se dispõe a atravessar seus portais de mistério e reflexão filosófica. Para o leitor contemporâneo, a obra permanece como um alerta inesgotável sobre os perigos do fanatismo e a importância intransigível da preservação do livre acesso ao conhecimento. A célebre frase final sobre a rosa que resta apenas pelo seu nome sintetiza a melancolia e a beleza de um texto que sobrevive ao tempo. 

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/NzmpVivb1l8)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Suicidio: o desafio de ser presença na dor

O Fio da Meada:

Setembro chega em tons de amarelo. Não é o amarelo festivo do verão, nem o dourado das igrejas em outubro: é o amarelo da campanha que lembra, com delicadeza, que existem feridas que não sangram para fora, mas doem por dentro. No Brasil, o mês se tornou símbolo de uma causa que ainda tropeça no próprio nome: falar sobre suicídio. Falar, não gritar. Falar baixinho, como quem acende uma vela em lugar de apitar uma sirene.

Os números não mentem, mas também não precisam ser nosso único espelho. O Brasil ainda ocupa posições alarmantes em estatísticas de suicídio, especialmente entre jovens e idosos. Diante disso, é fácil cair no discurso alarmista ou no silêncio constrangido.
O desafio maior, porém, é outro: é saber olhar para esses números sem transformar vidas em planilhas, e sem transformar dor em espetáculo. Cada dado esconde um nome, uma história interrompida, uma mesa com lugar vazio.

A campanha nasceu da ideia de que prevenir não é apenas informar: é criar espaço. É o vizinho que pergunta "como vai?" e espera a resposta de verdade. É o filho que sente que pode falar sem ser julgado. É o amigo que nota o silêncio diferente e não deixa passar. A cor amarela, nesse sentido, não é um aviso de trânsito: é um sinal de que a estrada ainda pode ser compartilhada, que ninguém precisa dirigir sozinho no escuro.

Há quem diga que a vida é um dom. Para quem acredita, isso não é um bordão: é uma âncora. Mas âncora só segura quem sente que há um barco ao redor, uma tripulação, um porto. A fé, quando é verdadeira, não nega a tempestade: ela oferece companhia dentro dela. Não é sobre prometer céus distantes, mas sobre reconhecer que o hoje de alguém pode ser salvo por um gesto simples, por uma presença que não se importa com a hora.

O Setembro Amarelo convida a ser essa presença. Não é preciso ser psicólogo para ouvir, nem santo para acompanhar. Basta ser humano disponível. A cor amarela, no fim, é a cor da luz que antecede o amanhecer: fraca, mas suficiente para quem está no escuro saber que o dia ainda vai raiar. E raiar — porque nenhuma noite é tão longa que impeça o amanhecer de quem tem uma mão ao seu lado… 

(Revisão: Kimi. Imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/PLFU5rSIIn4)

terça-feira, 8 de setembro de 2026

As camadas da minha rua

Quartas com gosto de poesia:

A rua era um quintal sem muro.

Cada casa exalava seu próprio perfume - 

jasmim na beira da cerca, café na cozinha,

vozes atravessando portões sem tranca

como quem entra em casa de parente.

O tempo morava ali, de porta aberta.


Depois, levantaram-se paredes mais altas.

Ergueram-se muros, desceu a tranca,

e a família encolheu dentro de cômodos amplos.

O silêncio da segurança isolou -

a rua virou fronteira,

e cada um se tornou ilha no seu próprio mar.


Hoje, o chão se ergueu em torres.

Apartamentos-dormitório, números sem nome,

onde o elevador engole os encontros

e o tempo não espera ninguém na calçada.

A casa perdeu a raiz,

e, sem perceber, perdemos o chão.


Mas ainda carrego as três moradas.

Camadas de uma mesma existência -

a varanda, o muro, o andar alto -

sedimentos de quem fui, de quem me tornei,

e a rua, ainda viva, lembra do que já fomos.

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"A casa perdeu a raiz,

e, sem perceber, perdemos o chão..."

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(Revisão: Kimi. Imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/Mz1f_kNiUxE)