sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Os limites e os sonhos das promessas eleitorais

 O Fio da Meada:

Passado o primeiro turno das eleições, é necessário reconhecer que, a cada ciclo eleitoral, o eleitor é bombardeado por um catálogo de promessas que fariam inveja a muitos contos de fadas. Prometem-se revoluções na saúde, na segurança, pontes onde não há rios e o fim imediato da desigualdade. A campanha aceita tudo, e o papel dos planos de governo aceita ainda mais. Infelizmente, porque o brasileiro é iludido por desconhecer as artimanhas da política.


Contudo, há um componente fundamental que raramente entra no discurso dos palanques: a gravidade do orçamento e os limites legais da caneta de um ocupante de cargo público. A desmistificação do processo eleitoral passa por entender a diferença entre o desejo e a viabilidade técnica. Municípios e estados não imprimem dinheiro e não legislam sobre o código penal. 

**********

Avaliar um candidato exige observar como ele lida com a escassez, não como ele distribui a abundância imaginária.

**********

A administração opera com recursos finitos, engessados por despesas obrigatórias que deixam margem minúscula para inovações faraônicas. Votar com os pés no chão significa filtrar as propostas não pela grandiosidade retórica, mas a matemática fria que as sustenta. Quem promete o impossível não é um visionário; é, na melhor das hipóteses, um desinformado, e na pior, um estelionatário eleitoral.

Avaliar um candidato exige observar como ele lida com a escassez, não como ele distribui a abundância imaginária. O bom gestor público é aquele que domina a burocracia para fazê-la trabalhar a favor da cidade, que entende de licitações, cronogramas de obras e gestão de contratos. Ao trocar a ilusão das promessas milagrosas pela exigência de planos viáveis, o eleitor protege a si mesmo da frustração garantida e eleva o nível do debate. No fim das contas, a cidade não precisa de mágicos, mas de administradores competentes.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/FnnRq84HlwE)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A centelha de uma súplica

Quartas com gosto de poesia:

Ergue os olhos em prece.

Cerra a visão para o mundo.

Em qualquer dos casos,

Restarão o silêncio, a paz e um sorriso.

Rezar é esse instante singular

Em que tudo o mais desaparece.



Apenas tu estás na presença do Pai.

Esta hora é uma preciosidade;

Não permitas que nada a perturbe.

Ela não pode ser compartilhada,

Mas transborda na energia

Que ilumina tua jornada.




Deixa o temporal rugir lá fora.

O tempo aqui dentro aquieta-se.

Onde o espírito acolhe a calma,

A tempestade não rouba a esperança.

Respira fundo e abraça este agora.


Ao abrires os olhos, a centelha de

Uma súplica pulsará em teu peito.

Será teu escudo contra o vendaval,

O calor manso que desfaz o frio,

O sentido maior para a tua própria vida.


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/cFKBKq7XTsU)

sábado, 3 de outubro de 2026

O sofá da minha casa

Crônica Poética:

O sofá ainda é o mesmo. Largo, revestido de um tecido aconchegante, carregando a impressão de ter se moldado aos corpos que por ali passaram ao longo do tempo. Testemunha de longas conversas, de tardes em frente à televisão ou do esforço inútil de provar para as crianças que ele não era uma cama elástica.

**********

"O espaço onde os olhos iam pesando, vagarosamente, até que restasse apenas o ronronar de um sono sereno e profundo..."

**********

Ali repousaram confidências em dias em que os sorrisos tinham o poder de um bálsamo. Suficiente, talvez, não para apagar todas as dores, mas para lembrar que nenhuma ferida é tão funda que não mereça a bênção da cura.

Nas noites de festa do pijama ou nas maratonas intermináveis de doramas, ele formava o território do refúgio. O espaço onde os olhos iam pesando, vagarosamente, até que restasse apenas o ronronar de um sono sereno e profundo.


Nunca quis me desfazer do velho sofá-cama que peregrinou por diversos recantos. Hoje, instalado no escritório — meu refúgio de trabalho e silêncio —, descansa sossegado. Funciona como um álbum de fotografias vivo, a recordar que o passado guarda momentos inesquecíveis. Nele, as lembranças não atormentam; ao contrário, embalam a alma como um doce e terno acalento…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/e0RiBwbTfgo)

O Físico, de Noah Gordon

Janelas do Tempo:

O século XI europeu não era exatamente um palco de refinamento. Entre sangrias duvidosas, feitiçarias curandeiras e a crença inabalável de que qualquer febre passageira era um castigo divino irrevogável, a sociedade ocidental chafurdava na lama de sua própria prepotência. É neste cenário de trevas e vaidade ignorante que a narrativa de O Físico, de Noah Gordon, traça a extraordinária jornada de Rob J. Cole, um jovem inglês que decide cruzar o mundo conhecido em busca do verdadeiro ofício de curar.

**********

"O Físico é muito mais do que um épico sobre a medicina; é um diagnóstico preciso da estupidez humana..."

**********

A ironia fina da obra repousa justamente no choque de civilizações que expõe a falácia do "homem civilizado" europeu. Para aprender medicina de verdade com o lendário mestre Ibn Sina (Avicena), Rob precisa abandonar a Inglaterra escura e viajar até a distante Pérsia. Ao chegar ao Oriente, o contraste é um tapa com luva de pelica na arrogância ocidental: enquanto a Europa proíbe a dissecação de corpos e condena mentes brilhantes à fogueira, Isfahan ostenta bibliotecas monumentais, hospitais organizados, esgotos, banhos regulares e um debate científico efervescente. 

O mundo supostamente bárbaro era, na realidade, o berço da luz. A narrativa ainda desnuda com extrema habilidade as eternas contradições humanas e os malabarismos do fanatismo. Para ser aceito na academia de Ibn Sina, onde cristãos são sumariamente proibidos, o protagonista precisa se disfarçar de judeu. 

O conhecimento, descobre-se rapidamente, nunca foi livre de pedágios ideológicos. A religião, que deveria elevar o espírito, atua com frequência como um muro alfandegário que decide quem tem ou não o direito de aprender, revelando que a intolerância é, infelizmente, o idioma mais fluente e universal da humanidade.

O Físico é muito mais do que um épico sobre a medicina; é um diagnóstico preciso da estupidez humana. Noah Gordon oferece um lembrete elegantemente ácido de que a ignorância, quando travestida de superioridade moral ou religiosa, é sempre a doença mais letal de qualquer civilização. E a cura, ontem como hoje, raramente agrada aos donos do poder.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/C4V7hdm3Prk)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Política sem arquibancada

O Fio da Meada: 

O período eleitoral costuma despertar no eleitor um comportamento curioso e, muitas vezes, prejudicial: a lógica das arquibancadas, típica do futebol. Vestem-se as cores de um candidato, decoram-se os gritos de guerra e passa-se a tratar a política, em todos os níveis, como um campeonato cujo objetivo principal é aniquilar o adversário.


O problema dessa abordagem é que, diferentemente do esporte, em que a vitória do seu time garante a taça e a alegria do domingo,
na administração pública o troféu é a responsabilidade de gerir os impostos e a infraestrutura de todos — inclusive dos derrotados. Tratar a política como esporte reduz o debate a um maniqueísmo estéril.

Quando o cidadão se porta como um torcedor fanático, ele abre mão do seu maior poder: o senso crítico. O político de estimação torna-se imune a cobranças, enquanto qualquer proposta do lado oposto é descartada sumariamente. Essa polarização cega é o cenário dos sonhos para gestores ineficientes e incompetentes, que passam a ser avaliados pela lealdade ideológica e não pela capacidade de tapar buracos, equipar escolas ou garantir remédios nos postos de saúde.

**********

"Quando o cidadão se porta como um torcedor fanático, ele abre mão do seu maior poder: o senso crítico."

**********

É urgente aposentar a camisa da torcida organizada (de todas as cores e matizes) antes de digitar na urna. O candidato não é um ídolo a ser venerado, tampouco um inimigo a ser abatido em uma praça pública virtual. Ele é um proponente a uma vaga de emprego cujas referências e histórico precisam ser checados com uma lupa. A vitória democrática não acontece quando o "nosso lado" ganha, mas quando a sociedade amadurece, exigindo excelência de quem quer que tenha se candidatado a um cargo público e sido escolhido pelo voto direto da maioria dos cidadãos.

(Revisão e imagem: Gemini. Àudio e vídeo em https://youtu.be/KqUsoAyz0C8)

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Quem sabe mais tarde…

Quarta com gosto de poesia:

O tempo é estranho com as marcas 

Que traça em nossos destinos.

Ilude-nos com a promessa do depois, 

E, na fé de que o outro sempre espera, 

Protela-se a urgência do agora.



Poderia ser hoje o dia de dar flores, 

O instante do primeiro beijo, 

De enxugar a lágrima que se provocou. 

Mas calamos a palavra essencial, 

E o carinho, negado, nos definha.


Nossas mil construções mentais 

Fazem-nos pensar em demasia, 

Sem sentir que o aqui e o agora 

Nem sempre precisam de sentido, 

Apenas clamam pela entrega.


"Quem sabe mais tarde", 

Carrega o peso de ressentimentos, 

Dores e amores não vividos. 

A fria distância que, aos poucos, carrega 

Quem nunca deveria ter deixado o meu lado…


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/eWHWmwMVQMo)


sábado, 26 de setembro de 2026

As feridas que precisam sarar

Crônica Poética:

Foi um acordar em que a realidade beirava o pesadelo. Na madrugada de uma segunda-feira, a fúria da mãe natureza interrompeu o silêncio com o vento uivando pelas frestas das portas e janelas, trazendo da rua o barulho do que era puro terror, seguido pela dança de raios e trovões. A expressão "no olho do furacão" deixou de ser um abrigo metafórico para situações difíceis e assumiu um rosto literal, violento e assustadoramente real.


Após as comemorações do 20 de setembro, temporais rasgaram o Rio Grande do Sul e devolveram a incômoda certeza de que as intempéries da natureza são incontroláveis. Quem viveu aquela noite sentiu na pele o medo diante do imponderável. Contemplar a força impiedosa com que os ventos açoitavam as árvores e desnudavam as moradias de seus telhados carregava um contorno de insanidade que as palavras não conseguiam traduzir.
**********
O rastro de destruição deixou marcas que feriram as coberturas da cidade e retorceram as raízes na terra, mas a dor, de fato, entrou pelos olhos e atingiu a própria alma..."
**********

No dia seguinte, as conversas nas portas das casas revelavam os contrastes: desde os que se encolheram em cantos protegidos até os agregadores que tomaram o comando para salvaguardar as famílias. Mas não foi a ação que me chamou a atenção, e sim uma confissão quase coletiva. Quando o vento calou e todos se viram salvos, o que desabou sobre os ombros não foi o alívio imediato, mas um cansaço denso e um desânimo inexplicável.

O rastro de destruição deixou marcas que feriram as coberturas da cidade e retorceram as raízes na terra, mas a dor, de fato, entrou pelos olhos e atingiu a própria alma. São feridas profundas, daquelas em que se precisa recuperar a carne e a pele lentamente, pelas bordas — na infinita paciência de quem sabe que desistir não é possível, e que a lágrima derramada hoje pode regar a semente da reconstrução do próprio amanhã…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/jzoRbYKys5E)