sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Heróis que não usam capa

O Fio da Meada: 

Quando a terra treme e o chão firme vira pó,
o colapso físico é apenas a primeira camada da tragédia. Nas cinzas e nos escombros deixados por sismos e calamidades, a fragilidade humana se expõe sem filtros. Mas é nesse mesmo cenário de desolação que emerge uma das manifestações mais nobres da existência: o impulso espontâneo de estender a mão para salvar quem não se conhece.

A canção "Héroe sin capa — canción a los rescatistas", interpretada pelo menino Kristopher Karezsy, na Venezuela, coloca em evidência esse fenômeno. Em meio a emergências, a música deixa de ser mero entretenimento e assume o papel de crônica emocional da dor e da superação. A melodia dá voz à gratidão coletiva dirigida àqueles que, munidos apenas de lanternas, pás, cães farejadores e uma coragem silenciosa, adentram zonas de risco iminente enquanto o instinto de autopreservação ordena a fuga.

O heroísmo retratado na obra distancia-se dos arquétipos do cinema. Não há capas, armaduras indestrutíveis ou superpoderes. O herói do cotidiano traz as mãos calejadas, o rosto coberto de poeira e o peso nos olhos de quem lida diretamente com o limite entre a vida e a morte. São bombeiros, brigadistas civis e voluntários anônimos cuja força não reside na ausência de medo, mas na decisão ética de superá-lo em nome do próximo.

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"A esperança de que a humanidade ainda saiba ser refúgio para si mesma."

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Canções como essa cumprem uma função essencial na memória social. Quando a poeira assenta e os holofotes dos noticiários migram para novos fatos, o registro musical permanece como testemunho do valor da solidariedade. A arte, portanto, resgata a dimensão humana que as estatísticas de danos costumam ocultar.

O fio condutor dessa narrativa é um lembrete sobre a nossa capacidade de empatia. Em tempos marcados pela fragmentação e pelo individualismo, reconhecer o sacrifício de quem arrisca a própria integridade para reconstruir o que ruiu reafirma a esperança de que a humanidade ainda saiba ser refúgio para si mesma.

(Revisão: Kimi. Imagem: Gemini. Link para a canção: https://youtu.be/wm754BZQAkM?si=BxZdZH3mJDsMuDwn. Áudio e vídeo deste texto em https://youtu.be/f_70sO_-vWQ)


terça-feira, 1 de setembro de 2026

O que sobrou de mim

Quartas com gosto de poesia:


Voltei. Voltei ao cimo da montanha,

Onde, ao partir, deixei apenas uma árvore,

As pedras de onde mirava o horizonte e

A vista que se estendia além do alcance do meu olhar.

Para lá me dirigi, levando os meus sonhos.



Ali, a brisa da tarde ainda me reconhecia.

Murmurando por entre as folhas

Segredos que não entendi.

Até que encontrei a estrada,

No sopé do meu refúgio,

Por onde segui em busca do meu destino.



Fez-me falta aquele lugar de contemplação.

Voltar não significou reencontrar o que vivi:

Era fechar um ciclo de partidas e regressos,

A vida, com suas surpresas e desilusões.

Um lugar para entender e aceitar

Que ali eu encontrava o meu aconchego.



Vê-la, à distância, era um bálsamo,

Onde as minhas memórias encontraram descanso.

Sentir o vento na pele e semicerrar os olhos

Lembrou o que fui e o que sobrou de mim.

O Sol, no ocaso, abraçando o horizonte,

E a penumbra, sem pressa, revela

Que resta o bastante para iluminar

O que sou, o que fui e o que ainda desejo ser…


(Revisão: Kimi. Imagem: Gemini.)

sábado, 29 de agosto de 2026

Um eco doce na alma alheia

Crônicas poéticas:

Quem escreve (ou escreveu) sabe que uma das coisas mais difíceis nesta arte é conseguir um fim que se julgue adequado a qualquer peça literária. Não importa que seja um conto, uma crônica, uma ficção ou mesmo um poema. Na hora de arrematar, surgem dúvidas a respeito da clareza, da concisão e, mesmo, da adequação do que se está dizendo.


Afinal, disse tudo (que nunca significa “tudo” efetivamente, mas o que se julga “tudo” para aquele momento) o que julgava necessário para clarear uma ideia, recriar personagens e cenários na imaginação do leitor? Despertar sentidos e sentimentos que o levem a pensar o quanto teria sido bom se fosse ele mesmo a dizer o que foi escrito?

Confuso? Sim. Escrever, mais do que um ato terapêutico, é a transpiração que ainda busca pela inspiração. Construir um texto literário dispensa a lógica para envolver tudo o que a riqueza da razão, emoção, coração, mente e alma colocam num cadinho, no milagre de uma página em branco que aceita o que se comanda com uma caneta ou um teclado.

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"Encerrar um texto é como fechar uma porta por onde os sentimentos, já em liberdade, ganham o mundo, livres de quem os gestou e, um dia, os viu nascer."

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No fundo, encerrar um texto é como fechar uma porta por onde os sentimentos, já em liberdade, ganham o mundo, livres de quem os gestou e, um dia, os viu nascer. O escritor (o garimpeiro das palavras) apenas entrega o sopro e recolhe o fôlego, torcendo para que a leitura ressoe como um eco doce que afague a alma alheia.

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldwell

Janelas do Tempo:

Em "Médico de Homens e de Almas", Taylor Caldwell presenteia quem lê com uma viagem fascinante à antiguidade, reconstruindo a trajetória de São Lucas, um dos evangelistas. A narrativa não se limita a uma visão puramente religiosa, mas explora a humanidade de Lucano, um médico grego dotado de compaixão e intelecto aguçado. Com uma pesquisa histórica primorosa, a autora recria os cenários do Império Romano e do Oriente, guiando o leitor pelas angústias, perdas e descobertas que forjaram o caráter deste homem singular, muito antes de ele escrever a vida de Jesus de Nazaré.

A obra mergulha nos primeiros anos do protagonista, desde a juventude até a sua consagração como um médico de então que lutava incansavelmente contra a dor e a morte. Inconformado com o sofrimento humano e com as limitações da ciência de sua época, Lucano vivencia um conflito interno constante, chegando a desafiar os desígnios divinos diante da fragilidade do corpo. É essa inquietação profunda, retratada com maestria pela autora, que torna o personagem tão real e próximo de nossas próprias dúvidas, revelando um profissional que buscava curar muito além da carne.

O grande ponto de virada na narrativa ocorre quando o médico, impelido por uma força maior que a sua própria razão, inicia uma jornada em busca do "Deus Desconhecido". Sem ter convivido com Jesus, dedica a maturidade da sua vida a recolher os testemunhos de quem conviveu com o Cristo. A transição da medicina empírica para a fé absoluta é construída de forma gradual e emocionante, mostrando como o rigor investigativo do médico serviu de base para que ele se tornasse o cronista meticuloso de um dos textos mais belos do cristianismo.

Caldwell une a fidelidade dos fatos históricos a uma prosa profundamente cativante. Humaniza a figura de quem hoje chamamos de São Lucas, sem tirar a sua grandeza, mostrando as falhas, lutos dolorosos e a persistência inabalável no amor ao próximo. O leitor é convidado a caminhar lado a lado com Lucano pelas ruas poeirentas de Antioquia, Roma e Jerusalém, sentindo o peso e a glória de uma época em que o mundo passava por uma de suas maiores transformações espirituais e sociais.

"Médico de Homens e de Almas" transcende a classificação de um romance épico para se consolidar como uma verdadeira lição de empatia e de esperança. O livro instiga a refletir sobre a vocação e sobre o cuidado com o outro como atos de doação irrestrita. É uma daquelas leituras imersivas, que acalentam o espírito e aquecem o coração, perfeitas para quem busca na literatura não apenas uma distração passageira, mas uma experiência rica que continua ecoando na alma muito tempo após virarmos a última página.

(Revisão e imagem: Gemini)

A cidadania que vai além das bandeiras

 O Fio da Meada:

O mês de setembro convida a uma profunda reflexão histórica e identitária. O calendário marca o 7 de setembro, data da independência nacional, e, logo a seguir, o 20 de setembro, que pulsa forte na alma gaúcha com a memória da Revolução Farroupilha. Mais do que meras efemérides, esses momentos provocam um olhar para o passado, de onde se pode extrair a inspiração necessária para vislumbrar o que possa ser o futuro.

Especialmente quando políticos enchem a boca para falar em “patriotismo”, compreender o verdadeiro sentido da palavra exige ir além do ato de hastear bandeiras ou entoar hinos de forma mecânica. Trata-se de defender a construção de uma pátria onde todo brasileiro se veja, de fato, incluído e respeitado. É transformar o sentimento abstrato de pertencimento na realização plena da cidadania, garantindo que a sociedade não deixe ninguém para trás e seja um espaço de acolhimento.

A cidadania se revela, por exemplo, quando a população, mesmo cansada, vai às urnas.
O voto é a expressão máxima da democracia, sobretudo com a proximidade do pleito eleitoral no início de outubro, atuando como um instrumento poderoso para equalizar as vozes e desenhar o destino das comunidades. Mesmo diante da desconfiança e da desilusão, escolher um representante vai além da obrigação legal; é um gesto profundo de compromisso com a realidade do dia a dia.

As urnas devem ser encaradas como a grande oportunidade de qualificar a representação política, na busca por líderes que genuinamente compreendam e abracem as necessidades coletivas. Votar com consciência é a forma mais eficaz de honrar as lutas daqueles que forjaram a história do país. Uma escolha responsável transforma o eleitor em um agente ativo na melhoria das políticas públicas e na defesa irrestrita do bem comum.

Votar simplesmente por votar é entregar a cidade, o estado e o país nas mãos de quem apenas quer arrumar um "emprego" público seguro e rentável. Não convém contentar-se apenas com sorrisos e promessas. É preciso cobrar o histórico, especialmente o que foi prometido e não cumprido. Não deve haver receio de renovar todo o Congresso Nacional, se for o caso; afinal, já é sabido que políticos que se agarram a mandatos perdem a noção da sua base. Um tempo sem mandato e de volta às origens talvez seja a lição exata para que reaprendam o sentido de patriotismo e o respeito pela cidadania do eleitor.

(Revisão e imagem: Gemini)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

No riso terno das estrelas

Quartas com gosto de poesia:

Algumas palavras brilham no firmamento. 

Quando se anuncia o entardecer dos sentidos 

Ofusca o brilho do Sol, 

Na cumplicidade de outras que também 

Despontam com o cair da tarde.


Aos poucos, formam a imagem 

De uma vasta constelação de significados. 

E, no despertar dos olhos e da mente, 

Alcançam a imensidão e a sua liberdade.


O desejo de se aproximar 

Daquela que povoa o próprio universo, 

Embevecida pelo mistério, 

Ganhando contornos de um sonho 

Sempre que nos escapa o seu significado.


Craveja sinais, no riso terno das estrelas

De quem já não se preocupa em singrar os céus. 

Testemunha a coreografia dos pirilampos, 

Desafiando o silêncio do imaginário, 

Em que luminares povoam a suavidade da noite…


(Revisão e imagem: Gemini)

domingo, 23 de agosto de 2026

Nas quebradas de uma lágrima

Crônicas Poéticas:

Derramei muitas lágrimas ao longo da vida. Sempre com a impressão de que a alma purga uma apenas — somente uma —, o suficiente para dar sentido à tristeza e à melancolia. Há momentos em que podem faltar as palavras, os gestos e os olhares, mas não pode faltar a presença... São as ausências que a tornam irreversível.

Quando desliza, sentida e incontrolada, através de um terreno já desgastado — uma face sulcada pelos sinais que mapeiam os afetos -, ali onde é impossível detê-la, quando finalmente vence as barreiras da face, é que se encontra o sentido do incalculável.

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"A lágrima que liberta a alma parece perder o sentido quando rompe a represa da razão. Navega em busca dos sentimentos, onde a própria bússola não encontra o seu norte..."

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Basta apenas uma, forjada na dor e no ressentimento, para se transformar na tormenta que já não respeita o silêncio nem a sobriedade. Troa no soluço desencadeado pelo represamento de todos os males sufocados, suportados, vividos na solidão.

A lágrima que liberta a alma parece perder o sentido quando rompe a represa da razão. Navega em busca dos sentimentos, onde a própria bússola não encontra o seu norte. Com os olhos toldados pela emoção, as mãos ficam livres para procurar uma fronte, reencontrando o gosto de mar nas quebradas de um corpo que esqueceu a geografia para perpetuar a sua própria história…

(Revisão e imagem: Gemini)