quarta-feira, 20 de maio de 2026

O avesso da palavra

Quartas com gosto de poesia:

​Quando entenderes porque estou mudo,

O silêncio te fará amadurecer;

No que não digo, entrego quase tudo,

Buscando o olhar que faz o amor valer.



O tempo abranda a voz na tempestade,

Resgata o que a disputa separou;

Na cumplicidade mora a liberdade,

De quem, no gesto, a paz reencontrou.


Palavras ferem fundo, marcam a alma,

Cicatrizes que o tempo teima em expor;

Mas há um sentido novo que acalma,

No querer bem, que vence qualquer dor.


​Bendito o olhar que busca o infinito,

Pois na incompletude a gente se refaz;

Sozinho, o rumo é sempre mais aflito,

É no caminho que o andante encontra a paz!


(Revisão e imagens: Gemini)

domingo, 17 de maio de 2026

Crônica Poética: A joia no chão batido

O Diabo, dizem, NÃO perdeu as botas lá para as bandas do rio Camaquã, no quinto distrito de Canguçu. Ele foi esperto: voltou antes... Não aguentou o peso da distância ou, quem sabe, a braveza de quem precisava tirar o sustento de trinta hectares para alimentar doze bocas. Em 1958, a estrada foi o único remédio. Minha família deixou para trás a terra que, de tão dividida, já não cabia nos sonhos dos mais novos.

​Ainda tenho lembranças do asseio que desafiava a escassez. Na casa de chão batido, a limpeza não era luxo, era oração. Varria-se a terra até que ela brilhasse como assoalho de palácio. E sobre a mesa, ou num canto da sala, o adorno por excelência: um arranjo com a flor “Brinco-de-Princesa”.


​Pendente, com suas pétalas de sangue e coração roxo, era a nossa joia de estimação. Não era ouro de ourives, era o ouro de pátio. Quando a casa estava em ordem, o chão varrido e o vaso florido, dizia-se com orgulho: "Está um brinco!".

​Hoje, longe das antigas e saudosas Três Porteiras, percebo que a dignidade morava naquele vaso. Ser "um brinco" era a resistência da beleza frente à miséria. O capricho de quem, mesmo tendo quase nada, fazia questão de oferecer o melhor aos olhos de quem compartilhava um lar.

​Minha história começou ali, naquele chão de terra batida e flores de pingente. E até hoje, quando busco a perfeição num texto ou na vida, é para aquele vaso que volto o olhar das minhas saudades. A vida vai ensinando que não há joia maior do que o cuidado que a gente coloca no que é simples, com o sentido de pertença: ser família no chão batido da própria existência.

(Revisão e imagens: Gemini)


sábado, 16 de maio de 2026

Os Senhores do Século, de Luiz Antonio de Assis Brasil

 Janelas do tempo:

Os Senhores do Século
, de Luiz Antonio Assis Brasil, encerra uma trilogia que consolida uma vasta arquitetura narrativa sobre o poder e a decadência das estâncias sul-rio-grandenses. 📖 O autor transporta o leitor para o final do século XIX e início do XX, período de transição em que o prestígio da terra e do gado começa a sofrer as pressões da modernidade e das mudanças políticas. 🌾

  • 🔹 O Crepúsculo dos Patriarcas: A obra explora com precisão cirúrgica o declínio de uma elite que se via como "senhora do tempo". Observa-se a tensão entre a tradição latifundiária e as novas forças urbanas e industriais que começam a emergir.

  • 🔹 Psicologia das Personagens: Assis Brasil evita o maniqueísmo. Suas personagens são construídas com camadas, revelando as contradições de uma classe que, ao mesmo tempo em que ostenta poder, lida com a fragilidade das sucessões familiares e a rigidez de um código de honra que já não encontra eco no novo século.

  • 🔹 A Linguagem: A escrita refinada e técnica é capaz de evocar uma atmosfera do pampa com uma sensibilidade quase táctil. Nota-se a habilidade do autor em transpor pesquisas históricas para uma ficção que pulsa vida e conflito humano.

Os Senhores do Século não apenas encerra a trilogia, mas completa um ciclo de compreensão sobre a identidade gaúcha. 🛡️ Luiz Antonio de Assis Brasil reafirma sua posição como um dos grandes intérpretes da formação social e histórica do Brasil Meridional, entregando uma obra que convida à reflexão sobre a impermanência do poder e a certeza de que o conquistado numa geração pode não ser o desejo de consumo dos seus descendentes. ⏳

(Revisão e imagens: Gemini)


sexta-feira, 15 de maio de 2026

400 anos de uma Herança

O Fio da Meada:













Três de maio de 1626. 🗓️

Mais do que uma data, um marco. Com a chegada do Padre Roque Gonzales e a fundação de São Nicolau, as Missões Jesuíticas lançaram as bases de uma organização que agregou a espiritualidade europeia à alma indígena. Um encontro que, há exatos 400 anos, desenhou a fisionomia do nosso Rio Grande.

O motor dessa revolução? O gado. 🐎

O animal não apenas garantiu o sustento, mas moldou a lida e a identidade do homem do pampa. Do pastoreio nos Sete Povos nasceu a tradição que une Brasil, Uruguai e Argentina — um legado que caminhou sobre os campos muito antes das fronteiras políticas existirem.

A força da cultura e do mate. 🌿

Nas Reduções, a erva-mate deixou de ser a "erva do capeta" para se tornar o ritual de hospitalidade que nos define. Somado à tecelagem e às artes, as Missões demonstraram que o trabalho manual pode ser, sim, uma forma de dignidade comunitária e expressão artística.

Valores que atravessam o tempo. 🕊️

Essa essência jesuítica hoje ecoa em vozes que priorizam a educação e o social. Na memória coletiva, a figura do Papa Francisco; na minha memória pessoal, a convivência com os padres Atílio Hartmann e Martinho Lenz. Eles atualizam essa missão, unindo o projeto de outrora ao pensamento ético de hoje.

A história como organismo vivo.

Quem visita as ruínas dos Sete Povos silencia diante de um patrimônio que desafia o tempo. Ali estão os rastros de quem valorizou o bem comum. Celebrar esses 400 anos é reconhecer que a história não é um túmulo de lembranças, mas um organismo vivo que acalenta o sonho de uma sociedade mais justa e fraterna.

(Revisão e imagem: Gemini)

terça-feira, 12 de maio de 2026

O Refúgio da minha solidão

Quartas com gosto de poesia:


Não me chamem para a festa, 

Pois prefiro o meu rincão; 

Onde o silêncio faz a sesta 

No aconchego do meu chão.


Dizem que sou bicho do mato, 

Que o convívio me faz mal; 

Mas no meu mundo, de fato,

 A paz é um bem principal.


Não é falta de carinho, 

Nem desfeita com ninguém; 

É que aprendi o caminho, 

A morar comigo, também. 


Meu castelo não tem muros, 

Tem apenas o meu querer; 

Entre os afetos mais puros, 

Vou aprendendo a viver!


(Revisão e imagem: Gemini)


domingo, 10 de maio de 2026

Mãe, obrigado por ter me ensinado a amar!

Crônica Poética: 

Difícil definir o que seja “mãe” - assim como a palavra “amor”. É um contorcionismo verbal, uma tentativa sempre acompanhada da impressão de que faltou alguma coisa. Da mesma forma que o “amor”, a "mãe" se experimenta na realidade do dia a dia, em um tempo de vivências tão intensas das quais não se tem noção, até que os anos passem e as memórias sejam depositadas no altar onde incensamos a bênção que foi ter tido o convívio com elas.

Minha mãe era a dona França — como era conhecida na nossa rua, embora se chamasse Francelina. Durante muito tempo, achava engraçado que a chamassem assim, porque, para mim, ela era simplesmente “mãe”. Migrou do interior de Canguçu com meu pai e três filhos por criar, educar, vestir e alimentar. Eram tempos difíceis, e deve ter sido ainda mais para quem sempre viveu tão próxim à família.

Na periferia da cidade (Pelotas/RS), buscaram fugir, como dizia meu pai, “da miséria para viver na pobreza”. Parecia natural que ela cumprisse diversas jornadas de trabalho: cuidadora dos filhos, responsável pela casa e pela alimentação, reserva no atendimento do bar e armazém do seu Manoel. Nunca a vi chorosa, nunca a vi reclamar. Era, literalmente, o porto seguro onde ancorávamos nas nossas muitas voltas ao lar.

Mesmo com apenas a terceira série primária, dizia que era preciso que os filhos “tomassem rumo na vida”. Hoje, sei que num abraço cabem as palavras que eu deveria ter dito e não o fiz. E, se elas já moram na Eternidade, a homenagem se faz na certeza de que o caminho foi iluminado por um ser de luz: o coração de quem amou primeiro e mostrou, com a vida, que o simples ato de amar sempre vale a pena!



Na tua presença, ou na tua saudade,

Mãe, obrigado por me ensinar a amar!

(Revisão e imagem: Gemini)

sábado, 9 de maio de 2026

Pedra da Memória, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Janelas do Tempo: 

Dando continuidade à
trilogia sobre o "Castelo no Pampa", de Luiz Antonio Assis Brasil, chegamos ao segundo volume: Pedra da Memória. Se no primeiro livro testemunhamos a glória da construção, aqui somos convidados a entrar em um cenário mais íntimo e melancólico, onde o tempo começa a cobrar o seu preço sobre as pedras e sobre os homens.

A trama foca na maturidade de Joaquim Francisco, o idealista que tentou plantar um pedaço da Europa no coração do Rio Grande do Sul. O conflito central é humano e profundo: o choque entre o seu sonho de civilização e a realidade da decadência econômica das estâncias gaúchas. Vemos um patriarca que luta para manter a dignidade enquanto o mundo que ele conhece se transforma.

Ao lado dele, destaca-se a figura de Lydia, sua esposa. Ela é o verdadeiro pilar emocional que sustenta a estrutura do castelo diante do isolamento e das incertezas. A relação do casal com os filhos também ganha força, revelando o abismo geracional entre quem construiu o império e quem herdará apenas as suas ruínas e memórias, em um tempo onde a terra já não tem a mesma voz.

O autor utiliza uma linguagem elegante para descrever essa erosão silenciosa. A "Pedra" do título é um símbolo duplo: representa tanto a solidez dos ideais de Joaquim quanto o peso da saudade que imobiliza os personagens. É uma leitura que faz refletir sobre o que realmente permanece de nós quando as luzes dos grandes salões começam, inevitavelmente, a se apagar.

A história une rigor histórico e sensibilidade quase poética sobre a condição humana. Pedra da Memória é uma escolha indispensável, o convite perfeito para uma boa leitura, desvendando segredos dos moradores do castelo em uma narrativa fragmentada. O livro funciona como um retrato íntimo das perplexidades humanas e da ruína de um modo de vida, consolidando a série como uma peça importante do romance histórico sul-rio-grandense.

(Revisão e imagens: Gemini)