Crônica Poética:
Foi um acordar em que a realidade beirava o pesadelo. Na madrugada de uma segunda-feira, a fúria da mãe natureza interrompeu o silêncio com o vento uivando pelas frestas das portas e janelas, trazendo da rua o barulho do que era puro terror, seguido pela dança de raios e trovões. A expressão "no olho do furacão" deixou de ser um abrigo metafórico para situações difíceis e assumiu um rosto literal, violento e assustadoramente real.
No dia seguinte, as conversas nas portas das casas revelavam os contrastes: desde os que se encolheram em cantos protegidos até os agregadores que tomaram o comando para salvaguardar as famílias. Mas não foi a ação que me chamou a atenção, e sim uma confissão quase coletiva. Quando o vento calou e todos se viram salvos, o que desabou sobre os ombros não foi o alívio imediato, mas um cansaço denso e um desânimo inexplicável.
O rastro de destruição deixou marcas que feriram as coberturas da cidade e retorceram as raízes na terra, mas a dor, de fato, entrou pelos olhos e atingiu a própria alma. São feridas profundas, daquelas em que se precisa recuperar a carne e a pele lentamente, pelas bordas — na infinita paciência de quem sabe que desistir não é possível, e que a lágrima derramada hoje pode regar a semente da reconstrução do próprio amanhã…
(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/jzoRbYKys5E)




