sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Reflexões sobre o ato de ler

Janelas do Tempo

Hoje não pretendo dar incentivo à leitura de uma obra de forma específica. Minha reflexão é sobre o ato de ler. Há uma urgência silenciosa que impele à pressa, como se o tempo fosse um adversário a ser vencido a cada relance no relógio. É na contramão dessa pressa que nos socorre o velho e bom hábito de abrir um livro. Não se trata de uma leitura apressada, das que apenas buscam o fim da linha ou a informação imediata. 

Refiro-me a
pausa verdadeira e plena de sentido: o ato de leitura como quem desacelara o passo para contemplar uma paisagem. Quando decides parar e abrir as páginas de um livro, algo extraordinário acontece. O espaço ao redor se redimensiona. O barulho lá fora esmaece, e o tempo — antes tirano — estica-se, acolhedor. Esse intervalo que se cria no meio da rotina não é um tempo ocioso; é um tempo habitado teu silêncio.

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"A leitura é um diálogo íntimo, um sussurro cúmplice entre quem escreve e tu, que emprestas os teus olhos e a tua sensibilidade para dar vida à história."

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Cada obra que se escolhe carregar na mão, seja ela encontrada com paciência nas estantes empoeiradas de um sebo ou recebida como um presente, traz consigo uma geografia invisível. Há livros que devolvem o cheiro da infância, que transportam para épocas que não vivenciamos ou que simplesmente colocam em palavras e sentidos aquilo que nós mesmos intuímos, mas não sabíamos nomear.

Nessa pausa, o livro deixa de ser um mero amontoado de papel e tinta para se converter em um território de encontro. Encontramos o autor, decerto, mas encontramos, sobretudo, a nós mesmos. Descobrimos que a leitura é um diálogo íntimo, um sussurro cúmplice entre quem escreve e tu, que emprestas os teus olhos e a tua sensibilidade para dar vida à história.

Então, vale a pena reivindicar esse direito à uma pausa. Fechar a porta por alguns instantes, acolher-se ao aconchego de uma poltrona preferida, quem sabe com a companhia de uma boa infusão de chá ou de um café para aquecer a tarde, e permitir que as páginas se revelem. Porque, no fundo - bem no fundo, parar para ler é um ato de resistência poética: escolher, ainda que por breves capítulos, habitar o mundo com mais vagar, mais intensidade da alma e mais inteireza do próprio ser.

(Revisão e imagem: Gemini)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Humanidade do papa Leão XIV

O Fio da Meada:

A figura do papa Leão XIV destaca-se no cenário contemporâneo não apenas pelo rigor de sua missão pastoral, mas por uma profunda e pulsante humanidade que transborda em lágrimas e gestos viscerais. Enquanto pontífices do passado mantinham uma postura de atenta e solene compostura institucional diante dos fiéis, Leão quebra o protocolo com uma vulnerabilidade genuína. Sua sensibilidade não é apenas uma virtude privada, mas a essência de seu pontificado, transformando cada aparição pública em canal direto de afeto sincero e desarmado.

Essa marca ficou evidente no recente e comovente
encontro com os jovens em Assis, onde a intensidade da acolhida fê-lo chorar abertamente diante da multidão. Diferente de líderes que observam as dores do mundo com distanciamento compassivo, Leão mergulha nelas, permitindo que o sofrimento alheio o afete a ponto de embargar-lhe a voz e marejar-lhe os olhos. Não se trata de uma mera estratégia de empatia treinada, mas da reação de um pastor que sofre com o seu rebanho e sente, na própria pele, o peso das aflições humanas.

Outros momentos marcantes, como a vigília no Estádio Olímpico de Barcelona ou o abraço aos marginalizados em Pompeia, revelam essa urgência de contato real e sem filtros. Enquanto figuras eclesiásticas tradicionais ofereciam conforto através de discursos doutrinais e aceno distante, Leão escolhe o toque físico, o silêncio partilhado e a lágrima conjunta. Compreende que a verdadeira consolação cristã exige a coragem de se expor, de deixar o coração vulnerável às intempéries da dor alheia e de humanizar o sagrado através do pranto espontâneo.

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"Ao não temer demonstrar fragilidade diante de câmeras e multidões, o pontífice valida a dor dos oprimidos e o sentimento como parte legítima da vivência da fé."

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Essa capacidade de se emocionar genuinamente redefine a autoridade moral, substituindo a rigidez do trono pela proximidade afetiva de quem caminha ao lado. Ao não temer demonstrar fragilidade diante de câmeras e multidões, o pontífice valida a dor dos oprimidos e o sentimento como parte legítima da vivência da fé. O diferencial do papa Leão está justamente em não esconder sua humanidade sob mantos de impassibilidade, provando que a verdadeira grandeza espiritual reside na coragem de se comover profundamente com o outro.

Essa sensibilidade faz com que o papa Leão XIV seja percebido não apenas como um chefe de Estado ou líder religioso, mas como um pai espiritual autêntico. Em um mundo anestesiado pela dureza das relações, suas lágrimas em Assis e em tantos outros altares e praças funcionam como um bálsamo que também reumaniza a Igreja. É essa disposição rara de deixar o coração sangrar e transbordar diante da dor e da alegria alheia que o coloca como um pastor singular, cuja maior força repousa na inegável beleza de sua própria humanidade.

(Revisão: Gemini. Imagem: Internet - La Via Italia)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Pela fresta da janela

Quartas com gosto de poesia:

Espia pela janela, apenas por um momento. 

Imaginas que alguém vai passar e 

A luz errante se esgueira pela fresta, 

Tecendo o rastro que o olhar acolhe.


Pensa apenas que acompanhas 

O movimento e os andarilhos. 

Ao te envolverem com seus passos, 

Ouves o murmúrio de suas vozes.



Sem saber o que dizem, 

Na moldura que se abre, 

Tua intuição diz que estão por ali. 

A certeza de que, em algum momento, 

Cruzarão pelo teu campo de visão.




Basta que te encorajes a ultrapassar a porta,

O risco da travessia, pois,

Do outro lado, a vida sempre te espera. 

Pelo leito da rua, ou na borda da calçada, 

A procissão dos que acenam, 

Estendem a mão, e não desistem do caminhar…


(Revisão e imagem: Gemini)

domingo, 16 de agosto de 2026

A Mão Negra, de Stephan Talty

Janelas do Tempo:

No início do século XX, a cidade de Nova York mergulhou em uma onda de terror sem precedentes.
A obra A Mão Negra, escrita pelo jornalista Stephan Talty, retrata com precisão documental esse período sombrio da história norte-americana. Cartas anônimas estampadas com símbolos macabros e ameaças de morte amedrontavam a comunidade de imigrantes italianos. O enredo expõe como o submundo do crime encontrou solo fértil em meio à pobreza e à marginalização social da época.

O eixo central da narrativa gira em torno da figura ímpar do detetive ítalo-americano Joseph Petrosino. Conhecido como o "Sherlock Holmes italiano", ele liderou um esquadrão corajoso contra a brutalidade da Sociedade da Mão Negra. Com uma inteligência perspicaz e métodos inovadores, o policial enfrentou o medo generalizado e a pressão da opinião pública. A investigação minuciosa descortinou uma estrutura criminosa que chocou a sociedade e desafiou as forças da lei.

O grande mérito do livro reside na capacidade de transformar uma pesquisa histórica rigorosa em um thriller eletrizante. Talty conduz o leitor por labirintos urbanos onde a linha entre a justiça e a barbárie parecia tênue e maleável. Cada capítulo revela as táticas implacáveis dos extorsionários e o desespero de famílias acuadas pelo silêncio imposto. A atmosfera de romance policial noir ganha densidade por se tratar de um relato verídico e implacável.

Encarar esta leitura convida a refletir sobre as raízes profundas da criminalidade organizada transnacional. O autor demonstra que o fenômeno mafioso não nasceu nos grandes gabinetes, mas nas frestas da exclusão e do preconceito cotidiano. A luta de Petrosino transcende a mera captura de marginais, simbolizando a defesa intransigente da dignidade humana. É um painel sociológico vigoroso que ilumina as zonas mais escuras da experiência moderna nos Estados Unidos.

A Mão Negra consolida-se como uma leitura indispensável para os apreciadores de narrativas históricas densas e envolventes. Stephan Talty entrega um panorama cinematográfico que prende a atenção do início ao fim com sua prosa fluida. Mais do que uma crônica sobre o medo, o livro consagra a memória de heróis esquecidos que arriscaram a vida pela ordem. Uma viagem literária memorável pelas janelas do tempo que antecederam a era de ouro do que viria a ser a máfia e os grandes gângsteres do século XX.

(Revisão e imagem: Gemini)

sábado, 15 de agosto de 2026

A geração que ouvia rádio

Crônica Poética:

Ao completar 15 anos, vivendo como interno no Seminário Diocesano, ganhei um presente inesquecível: um radinho de pilha. Havia pedido aos meus pais, mas tinha quase certeza de que não ganharia. Hoje, imagino o esforço que fizeram. Éramos uma família pobre e o sustento vinha de um pequeno "bar e armazém", a “venda do seu Manoel”. Ter o aparelho era luxo para um adolescente animado para ouvir os jogos da Seleção na Copa de 1970.

Podem imaginar o quando eu me sentia importante! “Desfilava” com o radinho, por dentro das notícias e dos esportes, sintonizando a Rádio Guaíba, na época líder de audiência no estado, ou a Gaúcha, mais tarde. E tinha o lado romântico também: à noite, com o rádio colado no ouvido, com o testemunho do travesseiro, ouvir as vozes aveludadas sincronizando com as músicas que embalaram meus sonhos e devaneios…


Um radinho no começo dos anos 70 era bem
diferente de um celular atual, que já está nas mãos de qualquer criança. Um abismo tecnológico. Naquela época, o sinal era precário e vivia caindo, sendo que, à noite, buscando por emissoras de fora do país, ainda se tinha a “fuga” de sintonia, o que permitia ouvir uma parte e torcer para entender o que viria depois. Hoje, é possível assistir aos fatos acontecendo praticamente ao vivo, na palma da mão.

Procurar um lugar na casa onde pegasse o sinal; as narrações de futebol ou do mergulho nas radionovelas — que iam de romances - passando por ação, aventura e suspense - a histórias de terror. Um período em que o mundo cabia no chiado das ondas curtas. No fim, ficou a saudade de uma época em que escutar exigia paciência e silêncio. E a interrogação: como a tecnologia, que prometia ajudar na aproximação de todos, acabou nos deixando tão sós?

(Revisão e imagem: Gemini)

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A Epidemia Silenciosa das Bets

O Fio da Meada: 

A paisagem contemporânea tem sido redefinida por um fenômeno alarmante:
a proliferação avassaladora das plataformas de apostas esportivas, as bets. Enquanto empresários do entretenimento acumulam lucros bilionários e influenciadores (incluindo artistas e esportistas) ostentam vidas de luxo patrocinadas, o tecido social assiste, atônito, ao avanço de uma nova e devastadora forma de dependência comportamental.

Se o uso excessivo de redes sociais já alertava para os perigos da captura da atenção e da dopamina rápida, as bets operam num patamar muito mais perigoso. O comprometimento financeiro direto e a ruína de famílias inteiras mostram que, se as plataformas digitais comuns são viciantes, os jogos de azar online revelam-se infinitamente mais destrutivos.

O grande motor dessa engrenagem é a publicidade agressiva exercida por figuras públicas que naturalizam o apostar como mero entretenimento. Mostram-se os ganhos, mas ocultam-se as perdas, atingindo impunemente públicos vulneráveis, como jovens e pessoas de baixa renda, sob a complacência de uma inércia regulamentação estatal e ética.

Enquanto outras tecnologias consomem apenas o tempo, o vício em apostas ataca diretamente a subsistência material do indivíduo através da promessa de recompensa imediata. O smartphone no bolso transformou qualquer cidadão em frequentador de um cassino virtual global, acessível a qualquer hora, sem barreiras físicas, sociais ou freios morais eficazes.

Trata-se de uma patologia tão nefasta quanto qualquer dependência química, exigindo políticas públicas firmes de prevenção, acolhimento e tratamento. O lucro não pode continuar privatizado enquanto os prejuízos sociais são absorvidos pelas famílias e a sociedade. A denúncia e o debate a respeito de expor as entranhas dessa engrenagem não é apenas um exercício crítico, mas um dever ético diante daqueles que se perdem — junto com  os recursos necessários à sobrevivência — na tentadora roleta dos algoritmos.

(Revisão e imagem: Gemini)

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Ausências e ressentimento

Quartas com gosto de poesia:

Nossos encontros foram ficando distantes,

As conversas perderam o compasso.

Os meios eletrônicos silenciaram,

Na ausência que magoa e cria ressentimentos.


Conviver foi um tempo em que havia

Pouco silêncio e ainda menos privacidade.

A infância e a juventude não demandavam

Senão as juras de amizade e amores eternos.


As palavras que antes transbordavam

Hoje repousam em caixas de memórias,

No pó de dias que se tornaram cinzentos,

Onde o tempo insiste em compassar a vida.



Há uma beleza triste nessa nostalgia,

Um modo de pertencer ao que já se foi,

Tecendo, com fios de saudades,

O manto que encobre a própria solidão.


O silêncio são ausências doloridas.

No conforto de saber que fomos

Inteiros em cada afeto e em cada riso,

Pois o tempo que afasta e isola

É o mesmo que consagra o que já se viveu…


(Revisão e imagem: Gemini)