sábado, 20 de junho de 2026

Deixar-se levar pelo Infinito…

Crônica Poética:

Recentemente, assisti a um vídeo no canal Melhores Destinos, apresentado por Sandro Kurovski, sobre os Caminhos de Caravaggio. O trajeto conecta Canela a Farroupilha, ligando os santuários dedicados à mesma santa em um percurso de cerca de 200 quilômetros pela Serra Gaúcha. Um itinerário semelhante também mobiliza peregrinos que partem de Caxias do Sul, percorrendo uma distância menor — 19 km —, especialmente durante as celebrações de maio.

Quando minha sobrinha Daniele morava em Caxias, sonhamos com esse percurso. Fomos até lá de carro e nos encantamos com o templo, no alto da serra, emoldurado por vales que oferecem uma vista panorâmica, digna de um lugar abençoado. As demonstrações de fé pelo caminho podem ser individuais ou em grupos, com muitos peregrinos caracterizados. A caminhada é profundamente democrática: reúne cristãos e todos aqueles que buscam o consolo do Divino.

Não consigo enfrentar uma caminhada de 200 km de uma só vez. Mas, e se o percurso for "parcelado"? Não em meses, mas em dez dias, com paradas em pousadas pelo interior, em lugares aprazíveis e cercados de belas paisagens? É aí que o sonho de peregrinar com familiares e amigos ganha forma. "Caminhar juntos" deixa de ser apenas um conceito social ou religioso; torna-se um convite de parceria para dividir a estrada, no silêncio em que cabem todas as demonstrações de atenção e respeito.

De Caravaggio a Santiago de Compostela, muitos caminhos se transformam em espaços de peregrinação. Há quem os percorra para desestressar — um momento de paz consigo mesmo —, para buscar uma bênção ou para reencontrar o sentido da própria fé: aquele silêncio que cura feridas e anima a alma.

Um caminho que, em tudo, se mostra diferente. "Inenarrável" é como os peregrinos definem sua jornada. Quem sabe, exatamente porque, nas coisas de Deus, os caminhos sejam o lugar de liberdade das convenções para, apenas e tão somente, nos deixarmos levar pelo Infinito…

(Revisão e imagens: Gemini)


A Princesa Perdida, de Maha Akhtar

Janelas do Tempo:


Embora Maha Akhtar seja reconhecida pela força de sua narrativa, é importante notar que
A Princesa Perdida, A Avó e Mel e Amêndoas não formam uma trilogia planejada, mas sim um conjunto de obras independentes que compartilham o mesmo cenário e a mesma sensibilidade. Elas se conectam como janelas diferentes de uma mesma casa: a alma libanesa e a diáspora. 

Vivemos um momento em que o Ocidente finalmente começa a ler, respeitar e admirar a literatura do Oriente Médio com um olhar menos enviesado pelo noticiário e mais atento à complexidade humana. E é nessa onda de descoberta que mergulhamos hoje na jornada de A Princesa Perdida.

Maha Akhtar parte de uma premissa quase cinematográfica: a descoberta de uma linhagem real esquecida. A trama segue a busca da protagonista por entender a própria história, revelando que por trás da fachada de uma família aristocrática, escondem-se traumas, segredos guardados a sete chaves e a busca constante por uma identidade que a guerra e o exílio tentaram apagar. É um livro sobre o peso de carregar um nome e a coragem necessária para confrontar os espectros do passado.

A literatura continua sendo a ferramenta mais eficaz para desconstruir preconceitos. Ao ler A Princesa Perdida, o leitor ocidental não encontra o "exótico", mas dilemas universais — a família, a perda, o direito de saber quem somos. A "princesa" do título não é apenas alguém de sangue real, mas uma metáfora para a dignidade que tentamos preservar em meio ao caos. A autora questiona: quanto da nossa história nos pertence e quanto é uma construção das expectativas alheias?

A Princesa Perdida é o primeiro passo para mergulhar na obra de Maha Akhtar e de autores que lutam para mostrar que não se pode apagar os rastros de humanidade que atravessam as fronteiras. Nas próximas semanas, abriremos outras janelas com 'A Avó' e 'Mel e Amêndoas', completando este mosaico de um Oriente Médio que é, acima de tudo, lugar onde as pessoas tentam viver a sua própria realidade cultural.

(Revisão e imagens: Gemini)


quinta-feira, 18 de junho de 2026

O canto da sereia e a ilha da fantasia (A verdadeira face do poder)

 

O Fio da Meada

Não se engane.
A engrenagem política é mestre em criar ilusões. O candidato que você elegeu — depositando na urna a esperança de ver suas dores, necessidades e a realidade do seu bairro ou distrito representadas nas instâncias parlamentares e administrativas — frequentemente sofre de amnésia conveniente assim que assume o cargo. Recentemente, a “briga” de bastidores para manter ganhos acima do permitido (Judiciário), a farra das emendas no orçamento público (Legislativo) e a sangria da Previdência Social (Executivo) apontam para uma máquina descontrolada por ter perdido o senso de serviços prestados ao país.

Uma vez lá dentro, o conhecimento da realidade comum deixa de funcionar. O político eleito ouve o canto da sereia e passa a dançar conforme a música que embala os sonhos na ilha da fantasia. E, para deixar claro, não se está falando da famosa série de televisão dos anos 70, mas sim da representação federal encravada no planalto central: Brasília. Essa desconexão com a realidade do cidadão comum não acontece por acaso.

Ela é sustentada por uma máquina de comunicação e marketing azeitada. Por trás dos discursos inflamados e das postagens em redes sociais que simulam proximidade com o povo, operam as engrenagens do lobby. O objetivo principal dessa estrutura raramente é o bem-estar coletivo. Na prática, o que vemos é uma articulação feroz e coordenada para favorecer a melhoria de vencimentos, privilégios e benefícios dos Três Poderes em suas instâncias superiores.

Enquanto o topo da pirâmide garante seus reajustes, penduricalhos e blindagens, o país assiste ao espetáculo de mãos vazias. As demandas da cúpula do poder tramitam em regime de urgência e velocidade recorde; ao revés, o destino das reivindicações populares é o oposto. Saúde, educação, segurança e infraestrutura — o que realmente mudaria a vida do cidadão — são sistematicamente colocadas em banho-maria. Enrola-se o povo com promessas de longo prazo e debates ideológicos infinitos e polarizados, ao passo que as prioridades de quem está no poder são resolvidas a portas fechadas.

O maior erro do eleitor é acreditar que o voto é o fim do processo, quando na verdade é apenas o começo. Ao aceitar passivamente a coreografia dessa ilha da fantasia, continua-se financiando um espetáculo que só traz retorno para os próprios atores. Resta quebrar o encanto do canto da sereia (nas eleições de outubro). A cobrança deve ser tão “profissional, azeitada e constante” quanto o marketing que usam para convencer. Afinal, o poder emana do povo — e já passou da hora de Brasília lembrar que a classe política foi eleita exatamente para defender esta máxima, tão básica quanto necessária.

(Revisão e imagem: Gemini)


terça-feira, 16 de junho de 2026

Eu perdi…

Quartas com gosto de poesia:



Eu perdi os sonhos que embalaram a infância,

As cores que o tempo teimou em desbotar.

Ficou no ontem, a leveza e a doce ignorância

De quem não compreendia a pressa em chegar.


​Perdi os amores que encantaram a juventude,

Fugazes chamas que o vento extinguiu.

Naquelas juras, faltou-me serenidade

E no peito, aos poucos, a chama se consumiu.


​Perdi a vontade de vencer entre os adultos,

Onde o sucesso é um fardo difícil de carregar.

O cansaço então se revelou um tom oculto,

Na alma exausta que já não via porque lutar.


​Perdi o direito de crer que os sonhos pesaram

Na balança onde a vida cobrou seu valor.

Fiquei à sombra do que os anos trouxeram 

E o silêncio implacável consumiu meu fervor…


(Revisão e imagens: Gemini)


sábado, 13 de junho de 2026

Em Busca de um Novo Sol

 

Crônica Poética:


​Minha juventude foi um tempo bom, daqueles que parecem ter sido desenhados sob medida para dar felicidade. Naquela época, vivia a rigidez do Seminário Diocesano, o que não me impedia de cruzar a fronteira na paróquia Santa Teresinha para conviver com um grupo de jovens. O nome era pura poesia e promessa: Em Busca de um Novo Sol. Por muito tempo, as manhãs de atividades religiosas e as tardes de encontros sociais eram o pretexto perfeito que inventávamos para despistar a solidão e, simplesmente, estarmos juntos.


Tudo isso desabou sobre os meus olhos recentemente. Fui almoçar no restaurante Rancho da Vovó, na Vila Maciel. Mais de cinquenta anos depois, lá estava eu, cruzando o mesmo cenário. Revi a bela igreja, contemplei o cemitério onde repousa o Padre Reinaldo — que a fé do povo, à revelia dos altares, já decretou santo — e, no instante em que passei pela porta do restaurante, o tempo recuou. Pude sentir, nítido e teimoso, o cheiro de cebolas.

Era ali que o grupo de jovens da localidade realizava os "bailinhos" de outrora. O nosso jeito de arrecadar alguns trocados para financiar os sonhos do grupo. O proprietário, num gesto de generosidade cúmplice, cedia o espaço: um velho depósito de sacos de cebola. Quanta água rolou sob as pontes da vida desde então... Hoje, o prédio mantém a mesma estrutura básica de armazém, mas com os arranjos que o transformam em um acolhedor refúgio para degustar a culinária da terra. O paladar de hoje, no entanto, pedia licença ao olfato de ontem.

​Caminhar pela estrada que corta a Vila Maciel foi andar por um misto de memória e nostalgia. Os bailinhos do depósito de cebola eram o nosso microcosmo: ali aprendíamos a conviver, a ensaiar os primeiros passos no mundo, a estabelecer parcerias e a tropeçar nos primeiros — e tão preciosos — amores.

​Olhando para trás, sei que nem tudo saiu como a gente esperava da vida. O tempo é mestre em desviar nossos planos. Mas os sentidos... ah, os sentidos são teimosos. Ficaram impregnados de cheiros, músicas e texturas que, ainda hoje, emergem do passado. Um passado que ressurge com o gosto agridoce daquilo que a gente não desejava, jamais, ter perdido.

(Revisão e imagens: Gemini)

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Mar de Glória, de Nathaniel Philbrick

Janelas do Tempo: 

O livro Mar de Glória, de Nathaniel Philbrick, narra a impressionante e tumultuada jornada da Expedição de Exploração dos Estados Unidos (conhecida como Ex. Ex.), que partiu em 1838 com seis navios de madeira e quase 350 homens. O objetivo era mapear o Oceano Pacífico, os arquipélagos da Oceania e a então desconhecida Antártica, posicionando os jovens Estados Unidos no mapa das grandes potências científicas e imperiais do século XIX.

Sob o comando do ambicioso — e paranoico — tenente Charles Wilkes, a expedição realizou feitos extraordinários ao longo de quatro anos:

  • Mapeou centenas de ilhas no Pacífico com uma precisão impressionante para a época;

  • Navegou ao longo de mais de 2.400 quilômetros da costa da Antártica, provando definitivamente que o local se tratava de um continente, e não apenas de um amontoado de gelo flutuante;

  • Coletou milhares de espécimes naturais e artefatos antropológicos que, mais tarde, formaram a base de fundação do renomado Instituto Smithsonian.

No entanto, o preço humano e psicológico foi devastador. Wilkes, um líder autoritário e instável, transformou a viagem em um inferno de desconfiança, chegando ao ponto de prender seus próprios oficiais, punir marinheiros com violência excessiva e travar conflitos sangrentos com populações nativas nas ilhas Fiji. Ao retornarem, em 1842, em vez de celebrarem a glória, os tripulantes mergulharam em um mar de processos judiciais e cortes marciais, o que fez com que o governo americano tentasse esquecer o episódio por décadas.

O ponto alto de Mar de Glória não está apenas na precisão dos mapas ou no heroísmo dos marinheiros que enfrentaram icebergs gigantes com cascos de madeira. O verdadeiro brilho da escrita de Philbrick está no estudo do comportamento humano sob pressão.

A obra funciona como uma metáfora perfeita sobre os limites da ambição. Enquanto os cientistas a bordo (chamados pejorativamente de "cientistas-marotos" pelos marinheiros) tentavam iluminar o mundo com a razão, o convés dos navios era tomado pela escuridão do orgulho, do isolamento e da obsessão pelo poder.

Assim, o que era para ser uma das maiores conquistas científicas da humanidade acabou apagado da memória coletiva por causa de vaidades pessoais. Mais ainda, o choque cultural entre os exploradores ocidentais e os povos do Pacífico, marcado pela incompreensão mútua, terminou em tragédia em diversos momentos. Tudo isso tornou Charles Wilkes uma figura fundamentalmente trágica: o homem que possuía a visão de um gênio, também tinha a incapacidade empática de um tirano, destruindo a própria glória que tanto perseguiu.

(Revisão e imagens: Gemini)

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Porque ler a encíclica Magnifica Humanitas?

O Fio da Meada:

A encíclica "Magnifica Humanitas", promulgada pelo Papa Leão XIV, posiciona a Igreja como um farol ético frente aos desafios da era da inteligência artificial. Em um momento de transformações profundas na tecnologia, o documento convida católicos e cristãos a um aprofundamento crítico sobre a dignidade humana no ambiente algorítmico. O pontífice dirige-se, com igual ênfase, a todos os homens e mulheres de boa vontade, de quaisquer credos ou convicções, para um pacto em defesa da consciência humana.

O pensamento papal centra-se na necessidade urgente de garantir que a inteligência artificial permaneça subordinada ao bem integral do ser humano. Leão XIV argumenta que nenhum avanço técnico possui validade se não respeitar a subjetividade e a liberdade das pessoas, alertando contra a substituição do discernimento ético pelo cálculo automatizado. A encíclica defende que a fraternidade universal deve ser o eixo norteador dessas tecnologias, evitando que a lógica binária fragilize o tecido social e a dignidade do indivíduo.

A Igreja reafirma sua autoridade como referência indispensável para o debate, oferecendo uma perspectiva que transcende as disputas de mercado sobre a IA. Ao abordar a automação e a gestão de dados, o texto papal estabelece pontes de diálogo entre tecnólogos, gestores e a sociedade, buscando um equilíbrio necessário entre inovação e justiça. Nota-se um esforço deliberado em aplicar valores perenes a problemas inéditos, provando a capacidade da instituição em iluminar os dilemas complexos da nova ordem digital.

O documento destaca o perigo de estruturas que desumanizam o trabalho e silenciam a voz comunitária sob o pretexto de otimização sistêmica via inteligência artificial. Leão XIV recorda que o progresso só é legítimo quando promove a elevação ética da humanidade, sem permitir que o "algoritmo" se sobreponha à justiça. A análise oferece um contraponto necessário à cultura do descarte, defendendo políticas que protejam os mais vulneráveis em um cenário global cada vez mais mediado por máquinas.

Por fim, a encíclica consolida o magistério como um guia seguro para transitar por esta incerteza civilizatória gerada pelo avanço da IA. Ao convocar todos os cidadãos para uma responsabilidade compartilhada, o Papa não apenas descreve os riscos tecnológicos, mas aponta caminhos concretos para a construção de um futuro mais digno e solidário. O texto torna-se, portanto, uma leitura fundamental para compreender o lugar do homem e a ética da responsabilidade que se exige na era da inteligência artificial.

(Revisão e imagens: Gemini)