Crônica Poética:
A chuva chegou sem avisar. Não aquela chuva de verão que passa rápido e deixa o ar limpo. Veio carregada, escura, como quem traz conta antiga para cobrar. O granizo bateu no telhado com som de pedra contra lata, e, da janela, vi o quintal enxarcado em poucos minutos. A terra que ontem sustentava o pé firme hoje virou lama que escorre sem rumo — e lembrei de que nunca a paguei por isso.
Por muito tempo, a gente achou que bastava pavimentar e erguer muros. Domar rios, retificar encostas, plantar concreto onde havia mato. Como se a natureza fosse hóspede indesejada numa casa que construímos sozinhos. Esquecemos que somos herdeiros de um jardim que não plantamos, guardiões de uma morada que nos precedeu.
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" A chuva não é injusta, mas a cidade o é.
O desequilíbrio não está no céu. Está no chão que pisamos
e que deveríamos pisar com mais gratidão."
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O chão que cede hoje é o mesmo que sustentava o trabalho de muitos. A água que entra pelas portas não escolhe endereço, mas quem tem muro alto sofre menos. Quem vive na beira da vala, perde o teto. E aí a gente vê: a chuva não é injusta, mas a cidade o é. O desequilíbrio não está no céu. Está no chão que pisamos — e que deveríamos pisar com mais gratidão.
Cada temporal deixa uma lição molhada. Não é sobre dominar, é sobre habitar. Não é sobre erguer muros, é sobre costurar o tecido fino que nos liga à terra — essa trama frágil entre a sobrevivência e o cuidado do que recebemos como bênção…
(Revisão: Kimi. Imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/8YjVfw4LeZ4)



