sábado, 11 de julho de 2026

O doce perfume do pessegueiro

Crônica Poética:

As folhas estavam tenras, delicadas como um primeiro carinho, quando um galho tímido alinhou seus brotos, na expectativa de que, juntos, explodissem em flor. Na perfeição do efêmero, guardou sua beleza para eclodir no cacho que embeleza o dia e marca a noite com o seu perfume.

O tempo cumpre sua sina e transforma o botão em fruta. A pele, antes aveludada, agora ganha tons avermelhados sob a luz do sol. O ciclo segue um rito que a terra compreende, enquanto o pomar observa a mudança silenciosa de cada estrutura, preparando-se para o momento em que vai saciar o prazer de quem se senta à mesa.

O perfume atravessa a janela e alcança a varanda. Invade o ambiente, liberta-se da cozinha onde se misturou ao aroma do café. A presença marca a transição das horas, criando laços entre o que floresce lá fora e o que se organiza aqui dentro, onde os sentidos se fundem aos livros e às notas de rodapé.

Na colheita, o fruto cede ao toque. Num balaio que guarda a lembrança da primeira flor, resta o aroma, como marco da estação. O galho descansa, cumprindo o seu papel. E a natureza reinicia o próximo ciclo. O milagre da vida, guardando na pele o perfume da flor; na carne, o gosto que escorre pelos lábios e, no guardião da semente, a certeza de que a eternidade é somente o tempo de voltar a primavera…

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata

Janelas do Tempo: 

Publicado entre 1949 e 1954, O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata, permanece como um dos marcos fundamentais para que se compreenda a sensibilidade japonesa do pós-guerra. A narrativa situa-se em Kamakura e acompanha Shingo Ogata, um homem de 62 anos que, diante do declínio físico e da desagregação dos laços familiares, passa a escutar um som vindo da montanha — um presságio, ou talvez o eco de sua própria finitude.

Este livro integra uma leva recente de literatura oriental que se tem o privilégio de explorar no Brasil. A leitura exige um exercício de paciência: é preciso aprender a decifrar os meandros de uma escrita que não se apoia no clímax, mas na contemplação. É um convite para compreender o que não é dito, o silêncio que pontua as relações e a importância do vazio na construção narrativa.

Um ponto central na obra é a relação de Shingo com sua nora, Kikuko. Diferente de uma interpretação que buscaria elementos puramente eróticos ou comportamentais — algo comum sob uma lente ocidental — Kawabata apresenta algo mais complexo:

  • Sublimação: O interesse de Shingo por Kikuko não é uma paixão vulgar, mas a busca por beleza e pureza em um cotidiano marcado pela aridez.

  • Contenção: A figura da nora torna-se um refúgio estético. O desejo de Shingo é latente e contido; é a melancolia de quem, aproximando-se da morte, ancora-se na juventude e na integridade de Kikuko para lidar com a transitoriedade de todas as coisas e da sua própria humanidade.

Kawabata ensina que a vida doméstica, aparentemente banal, é onde residem os maiores dramas. Ao ler O Som da Montanha, não se está apenas lendo uma história japonesa da década de 50, mas sim treinando o olhar para perceber a fragilidade das relações humanas e a força do que permanece oculto naquilo que, por educação ou pudor, prefere se manter em silêncio.

(Revisão e imagem: Gemini)

O Reino de Jesus x “projetos de poder”

 

O Fio da Meada: 

A doutrina cristã estabelece uma distinção fundamental entre
o Reino de Deus — focado na transcendência, na transformação do indivíduo e no amor ao próximo — e os sistemas de governo humanos, que lidam com a gestão do poder temporal e as leis civis. São fronteiras bem distintas, em tese, mas que, na prática, quando são ignoradas ou intencionalmente dissolvidas pela retórica partidária, instauram uma confusão que prejudica a integridade da fé assim como o exercício da cidadania.

O equívoco central reside na tentativa de conferir um selo de sacralidade a projetos políticos falíveis. Ao tratar a plataforma de um candidato ou a agenda de um partido como extensão da vontade divina, o discurso religioso perde sua força profética e libertadora. A fé, que deveria oferecer uma perspectiva crítica e de acolhimento, acaba aprisionada na lógica da eficácia eleitoral, tornando-se tão efêmera e mutável quanto as próprias instituições humanas.

O exercício da cidadania, focado na justiça, na equidade e no bem comum, ocorre em uma dimensão secular. É um terreno de debates, de busca por consenso e de administração de recursos públicos. A esperança cristã, por sua vez, habita uma esfera que transcende sistemas eleitorais. Quando o cristão confunde a lealdade ao Reino de Deus com a lealdade a siglas partidárias, ele desloca o foco da missão original: a defesa dos vulneráveis e a busca pela dignidade humana, independentemente de quem ocupa o poder.

No limite, essa confusão cria um cenário onde a Política (como já disse, com P maiúsculo), vocacionada ao serviço ao cidadão, é reduzida a um embate ideológico em nome de um “Deus” feito à imagem e semelhança de quem deseja vender um suposto projeto de “salvação”. Os “milagres” anunciados não se sustentam quando são os mesmos “protagonistas” que repetem “juras” em busca de um novo mandato e de manter seus benefícios, que ficam distantes da vida do cidadão comum.

Para o fiel, o desafio consiste em participar da vida pública sem abdicar da autonomia da sua consciência e sem transformar a espiritualidade em um apêndice do Estado ou de projetos de poder. A lealdade ao Reino de Jesus (aquele mesmo que defendeu o “amai-vos uns aos outros” com a própria vida) exige que se reconheça, com sobriedade, que nenhum governo humano é o objetivo final da jornada de um cristão. No entanto, a política é o caminho para a realização humana e social que tem sido sonegada ao eleitor…

(Revisão e imagem: Gemini)

terça-feira, 7 de julho de 2026

O mapa que encobre meus olhos

Quartas com gosto de poesia:



Não é preciso motivo para seguir viagem, 

Para esquecer o tempo que não sei medir

Me livrar de todos os pesos inúteis 

Que insisti em carregar antes de partir.


Quando meus calçados estiverem gastos, 

A roupa puída pela marcha alquebrada

Ainda assim, meu corpo exaurido 

Não vai se sentar à beira da estrada.


Se a distância mostra que andei demais, 

E o suor turva os olhos em profusão

A secura dos lábios vira em ferida, 

Igual àquelas que carrego no coração.


A estrada é longa e nem sempre se encontra sentido, 

Desafia quem busca por um porto de destino

Pois o mapa que hoje encobre os meus olhos 

Tem o traçado da dor e do meu próprio desatino


(Revisão e imagem: Gemini)


domingo, 5 de julho de 2026

Teu sorriso, um carinho de Deus

Crônica Poética:

Entregaram um pedacinho de gente nos meus braços. Era um mistério aquele pequenino completamente enrolado, como um casulo a proteger a lagarta que um dia aprenderia a voar. Sorri do que havia pensado e teus olhos encontraram os meus. Eu não sabia o que dizer e não me sentia confortável em te tratar como um ser sem compreensão. 

No meu sorriso travesso e na inocência do teu primeiro olhar, acalentamos a cumplicidade que duraria por todo o tempo em que convivemos. Foi o nosso primeiro sorriso, que ninguém mais entendeu. E embora tenha havido muitos outros momentos em que sorrimos juntos, aquele foi especial. Gravou-se na minha retina como um quadro que se perpetua na galeria das lembranças. 


Enquanto crescias, estiveste em meu colo quando voltavas da escolinha, nos dias de chuva em que nos aconchegávamos para fugir dos pingos e do frio. Depois, veio o tempo em que procuravas por minha mão ao atravessares a rua, em situações de insegurança, quando não querias te afastar.

Por fim, a estrada da vida te levou para as distâncias físicas e do esquecimento. O casulo libertou uma borboleta que não pediu licença para o seu voo. Apenas bateu as asas e alcançou os céus… Eu, ainda hoje, guardo aquele primeiro instante em que te segurei em meu colo. A promessa de uma ternura que dura o tempo suficiente para se imaginar o que seja receber um carinho de Deus!

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Mel e Amêndoas, de Maha Akhtar

 Janelas do Tempo:

Finalizo a tríade de
Maha Akhtar, com o livro Mel e Amêndoas, mergulhando na rotina de Mouna Al-Husseini, que administra um salão de beleza em Beirute. Mais do que um espaço de estética, o salão funciona como um santuário — um refúgio onde seis mulheres se reúnem para compartilhar suas vidas. O pano de fundo continua sendo o Líbano, devastado pela histórica tensão entre seu país e Israel.

Mouna é figura central, desafiada a equilibrar a sobrevivência do negócio com a pressão da família — especialmente da mãe, que tenta impor um destino tradicional (o casamento) que Mouna se recusa a aceitar. O livro entrelaça a resiliência dessas mulheres que, entre cortes de cabelo e conversas, trocam relatos sobre solidão, perdas, amores interrompidos e a busca pela dignidade em meio a uma realidade que muitas vezes insiste em negá-la.

Cada uma dessas amigas carrega cicatrizes, físicas ou emocionais, decorrentes dos conflitos que moldaram sua terra. Diferente das grandes crônicas de guerra, Akhtar utiliza o salão de beleza como um arquivo. Ali, a história não está nos livros de História, mas na voz de quem viveu o trauma. Uma reflexão poderosa sobre como o cotidiano — o espaço, o encontro, a conversa — é onde a humanidade sobrevive às suas próprias tragédias.

A luta de Mouna contra o destino que a mãe deseja para ela (o casamento como única via de segurança) é um tema central, que ainda perpassa muitas sociedades. É o confronto entre o tradicionalismo patriarcal e a busca pela autonomia feminina. Mostra que a guerra, além de destruir cidades e sonhos, também tenta engessar vidas e vontades.

Pode-se até dizer que há algo de poético em encontrar beleza e cuidado em um ambiente marcado por conflitos que a população não criou e, sequer, desejou. O título, Mel e Amêndoas, evoca sabores e aromas que servem de contraste à dureza dos relatos das seis protagonistas. Ressoa com a própria busca por criar materiais aprimorados e esteticamente cuidados: a escolha pela beleza, então, acaba se tornando um ato de resistência contra o caos e a solidão…

(Revisão e imagem: Gemini)

Política partidária: um cristianismo sem Cristo

 O Fio da Meada:

Faltando quase três meses para o primeiro turno das eleições, o debate sobre a presença de entidades e líderes religiosos em defesa de partidos e candidatos intensifica-se. A Igreja Católica estabeleceu a orientação de que discursos e candidaturas não devem ocupar espaços religiosos dedicados a celebrações. Para entender este comportamento, inicio, esta semana, uma série de reflexões sobre a responsabilidade cívica e a integridade do espaço público.

A expressão "cristianismo sem Cristo" na política designa o uso da fé como instrumento para obtenção de poder. Sob essa ótica, símbolos e valores cristãos são dissociados de suas origens — fundamentadas no cuidado ao próximo e na sobriedade — e integrados a estratégias de marketing partidário. Esse processo resulta em polarização e na prevalência de ideologias sobre a doutrina religiosa.

Quais são os pontos de análise: a instrumentalização de dogmas - emprego de ensinamentos religiosos para validar objetivos políticos desloca o foco da mensagem original. O Evangelho passa a ser um meio para o controle institucional, em vez de atuar como guia para a transformação espiritual. O limites da lealdade - a doutrina cristã estabelece uma distinção entre o Reino de Jesus e a gestão de governos ou partidos. O exercício da cidadania, focado na justiça e no bem comum, ocorre em um plano distinto da esperança espiritual, que transcende sistemas políticos humanos.

Por fim, mas não menos importante, a coexistência e democracia: a transformação social, quando orientada pelos princípios cristãos, prioriza o respeito aos vulneráveis. O emprego de discursos de confronto ou fanatismo impacta as bases da democracia e dificulta a manutenção da coexistência pacífica. Para um candidato que se apresenta hoje, não basta apenas discursar de que é honesto, precisa provar que efetivamente tem uma proposta honesta. A fé manifestada pelo povo demanda respeito a sua autonomia.

A utilização de eventos religiosos como palanque para candidaturas altera a natureza desses espaços. Quando conceitos religiosos são apresentados de forma deturpada ou desfocada em campanhas, estabelece-se um cenário de confusão para os fiéis, dificultando a distinção entre a mensagem espiritual e a estratégia eleitoral. Talvez, hoje, seja apenas um sonho, mas a autonomia do espaço religioso é necessária para que a crença não se submeta aos interesses de quem faz mau uso do poder partidário e da própria máquina administrativa.

(Revisão e imagem: Gemini)