domingo, 8 de março de 2026

Sonhos e Horizontes

Crônica poética:

Quando se almeja o horizonte possível? A realidade restringe o que se idealiza, o que não se pode alcançar na esperança de que vire sonho - e não pesadelo. Mesmo diante do desejável, há uma fronteira: viver o aqui, o agora, assumir as consequências de decisões, acreditando que a estrada do possível não é feita apenas de nuvens que se desfazem com os primeiros ventos do outono.

Os sonhos são imagens que não se alcançam na realidade. Os dedos formigam no desejo de afagar o que ficou perdido em significados. É o instante em que os fantasmas nos visitam e atendem aos desejos não expressos; a liberdade que se alcança apenas no etéreo, onde reside um mundo construído à parte…

Os calos nas mãos e o olhar cansado sedimentam o caminho, garimpado passo a passo. Temos a certeza de que as conquistas não surgem por milagre, mas pela energia acumulada quando se consegue estender a mão para desenhar o horizonte - o lugar de proximidade com o Eterno e a promessa de, enfim, chegar ao sonho da casa comum…

(Revisão e imagem: IA Gemini. https://youtu.be/3R6GVB6IrrU)

sábado, 7 de março de 2026

Ordem Mundial, de Henry Kissinger

Janelas do Tempo: 

Em
Ordem Mundial, Kissinger argumenta que nunca existiu uma "ordem mundial" verdadeiramente global. O que temos hoje é a tentativa de expandir o modelo europeu da Paz de Westfália (de 1648) para o resto do planeta. Mas o mundo não fala uma língua só. O livro percorre quatro grandes visões:

A Europeia: O equilíbrio de poder entre estados.

A Islâmica: A expansão da fé e o conceito de califado.

A Chinesa: O "Império do Meio" como centro de gravidade cultural.

A Americana: O idealismo democrático misturado ao pragmatismo.

A tese central é que a estabilidade exige legitimidade (regras aceitas por todos) e equilíbrio (ninguém forte o suficiente para dominar sozinho).

Se em Sobre a China (que comentamos no ano passado) Kissinger ensinou a estratégia do Wei Qi — o cerco paciente —, em Ordem Mundial ele mostra o choque dessa visão com o Xadrez ocidental. As diferenças são profundas:

A Relatividade do tempo: o Ocidente busca o tratado imediato; a China pensa em séculos e em harmonia hierárquica, não apenas em leis.

O Dilema da coexistência: Kissinger questiona se o sistema onde todos são "iguais" perante a lei sobrevive quando potências preferem sistemas baseados em sua própria relevância histórica. Ele diz:

"O desafio do século XXI não é apenas evitar a guerra, mas reconciliar culturas que possuem conceitos de 'justiça' e 'ordem' radicalmente diferentes."

Kissinger encerra com um alerta sobre a era digital: a velocidade da informação está corroendo a capacidade de reflexão da diplomacia. A paz já não é o estado natural das coisas; é uma construção artificial, frágil e exige vigilância constante.

(Revisão, pesquisa e imagens: IA Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/A3kh7FJrUy0)

sexta-feira, 6 de março de 2026

Com a memória na parede

O fio da meada:

Quem entra na Santa Casa de Misericórdia de Pelotas pela ala da doação de sangue depara-se com um artefato singular em um de seus pilares. Em comemoração aos seus 174 anos (completados em 2021), a instituição - que iniciou suas atividades logo após a Revolução Farroupilha - instalou uma cápsula do tempo para ser aberta em 50 anos. O objetivo é registrar o trabalho dos profissionais de saúde, com ênfase no período da pandemia de Covid-19.

Fiquei surpreso. Sempre ouvi falar ou vi em filmes pessoas e instituições que reuniam acervos de lembranças em recipientes herméticos para serem enterrados, permitindo que futuras gerações compreendessem o modo de vida de então. Mas, ali, a cápsula está na parede, à vista de todos, guardando documentos e itens que narram a história recente da casa.

Provavelmente não estarei vivo quando as pessoas se encantarem com a trajetória deste prédio e desta instituição que sempre caminhou de mãos dadas com a cidade e a região. A Santa Casa atravessou tempos bons e ruins, dificuldades e apertos, mas jamais abandonou sua vocação: ser o porto onde os desfavorecidos encontram abrigo para suas mazelas.

Na saída, olhei para a passarela suspensa que ainda atravessa a rua. Em outros tempos, ela era o caminho para o silêncio, onde se tratavam doenças pulmonares como a tuberculose. Foi por ali que, acompanhado de meu pai, fui visitar um tio que estava “tísico”. Nunca esqueci essa palavra, cujo significado só fui compreender ao sair dali. É difícil, ainda hoje, apagar da memória a figura debilitada que faleceria pouco depois.

Numa coluna de sustentação do prédio quase bicentenário, repousa a memória “oficial”. Carrega as sombras de pessoas que ali encontraram bálsamo para suas dores, despediram-se de entes queridos ou testemunharam o surgimento de novas vidas. É preciso aprender com a história: dos tempos remotos em que a “roda dos expostos” (roda dos enjeitados) era o alento para crianças abandonadas, aos dias de hoje, em que a saúde ainda precisa ser tratada como uma prioridade social…

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Carrega as sombras de pessoas que ali encontraram bálsamo para suas dores, despediram-se de entes queridos ou testemunharam o surgimento de novas vidas…”

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(Revisão: IA Gemini. Imagem: Canva. Áudio e vídeo em https://youtu.be/Hvzb07wlRZY)


domingo, 1 de março de 2026

Cultivar a vida

Crônica poética:

Os girassóis se recusam a ficar no escuro.
Fazem uma eterna peregrinação ao longo do dia. Perseguem a luz do Sol. Sem pressa, seguem o relógio em que o Astro Rei marca os céus com o tom de suas cores e do seu calor. Respeitam a bússola que lhes confere sentido. Acompanham quem lhes dá vigor até que, à noite, voltem ao leste, certos de que haverá um novo alvorecer.

Ao darem bom-dia à existência, alimentam um universo de abelhas e insetos que transmitem o pólen a outras plantas, na sequência de um ciclo de persistência e determinação. Arfam e suspiram na força do tempo em que se expõem ao que é puro e renovado prazer.

Ao florescer e, finalmente, amadurecer, interrompem a sua andança. Ficam, permanentemente, voltados ao nascer do Sol, sedentos pelo calor dos primeiros raios, a fim de nutrir suas sementes e conviver com os seres que ajudaram a gerá-los.

É um tempo em que, na ausência da sua fonte vital, voltam-se aos companheiros em busca de alento e apoio, na angústia por evitar que murchem; mantêm a cabeça erguida, resilientes, fortalecendo o significado da solidariedade.

Diversas fases, diversos tempos, um outro sentido para quem já percorreu uma longa jornada acarinhado pelo Sol. Sabem que a sua plenitude é o sentido do encontro - o sinal de que sua partida alimenta a terra, onde brota o que foi o melhor de si: não desistir de cultivar a própria vida!

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“Sabem que a sua plenitude é o sentido do encontro - o sinal de que sua partida alimenta a terra, onde brota o que foi o melhor de si: não desistir de cultivar a própria vida!

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(Revisão: IA Gemini. Imagem: Canva. Áudio e vídeo em https://youtu.be/7XgdRtVFrCw)


sábado, 28 de fevereiro de 2026

Minha história, de Michelle Obama

Janelas do tempo:

Com Michelle Obama, entramos num registro de confidência que raramente encontramos em figuras públicas dessa envergadura. O que cativa no "Minha História" não é a cronologia dos fatos políticos, mas
a textura da vida quotidiana que ela consegue resgatar. É um livro sobre as camadas que nos compõem. 

Descreve a infância no South Side de Chicago não como um ponto de partida para uma ascensão, mas como o lugar onde seu caráter foi temperado - o som do piano da tia no andar de baixo, o orgulho de um pai que, mesmo doente, nunca faltava ao trabalho, a presença firme da mãe. Há uma poesia sutil na forma como fala dessas raízes, mostrando que, por mais longe que vamos, o chão que pisamos primeiro nunca nos sai dos pés.

Quando o livro chega aos anos da Casa Branca, o que impressiona é a sensação de "estranheza" que ela mantém. Descreve as janelas que não podem ser abertas, a perda da espontaneidade, o peso de ser um símbolo. É um olhar muito humano sobre o isolamento que o poder impõe. Não fala apenas como primeira-dama; fala como mulher, mãe e filha que tenta não se perder no meio de um turbilhão de expectativas alheias.

A pergunta que atravessa toda a obra - "Será que sou suficientemente boa?" - é o grande fio condutor que nos une a ela como leitores. É uma dúvida universal. Ao partilhá-la, deixa de ser uma figura distante num pedestal e torna-se uma companheira de viagem. Faz com que se reflita: o que nos define quando as luzes se apagam e os títulos desaparecem? O que resta de nós quando - por afastamento de função, aposentadoria, doença, velhice - voltamos ao silêncio do nosso próprio nome?

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“O que resta de nós quando

- por afastamento de função, aposentadoria, doença, velhice -

Voltamos ao silêncio do nosso próprio nome?”

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(Revisão e pesquisa: IA Gemini. Imagens: Internet.
Áudio e vídeo em https://youtu.be/Bzegk3GOuqk)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Chinelos, cultura e o tabi

O fio da meada:

Este verão atípico, com algumas manhãs de um frescor inesperado, levou-me a buscar algo mais que o habitual chinelo de dedo. Seguindo o sábio conselho de minhas "conselheiras familiares", rendi-me à
babuche. Para quem não associa o nome ao objeto, é aquela sandália com uma tira traseira versátil: ora firma o pé com segurança, ora repousa sobre o peito do calçado, transformando-o em um prático chinelo.

Ao calçá-la, fui transportado no tempo. Lembrei-me de como, antigamente, adaptávamos borrachas na parte de trás dos calçados das crianças, que ainda não dominavam o equilíbrio dos chinelos de dedo. Era um cuidado instintivo para evitar deslizes e quedas. Hoje, percebo que esse ciclo se fecha: a preocupação com a segurança, que antes focava nos pequenos, agora se estende a nós, idosos. Garantir a estabilidade não é apenas uma questão de conforto, é um ato de preservação.

A reflexão ganhou novos contornos enquanto eu acompanhava a cobertura do Globo de Ouro. Entre os flashes e premiações, vi a celebração do talento brasileiro: a vitória de Wagner Moura como melhor ator de drama por "O Agente Secreto". Mas, para além do troféu, o que me fisgou o olhar foram os sapatos do artista. O design, com o dedão em um compartimento separado, remeteu-me imediatamente à série japonesa "Rikuoh", que narra a saga de uma fábrica tradicional tentando sobreviver ao criar tênis de maratona baseados na anatomia humana.

Ali, descobri a existência das meias tabi. Tradicionais no Japão, elas separam o polegar dos demais dedos, permitindo o uso de calçados de tira com o pé aquecido. Pensei comigo: "Se eu soubesse disso antes, teria mantido meus chinelos de dedo, mesmo nos dias frios!".

O cinema e os grandes eventos, como o Globo de Ouro, são mais que entretenimento; são espelhos culturais. Eles revelam que há beleza e funcionalidade em tradições que, por vezes, ignoramos. Ao ver um brasileiro brilhando no topo do mundo, sinto que nossa persistente "síndrome de vira-lata" finalmente dá lugar ao orgulho e ao reconhecimento.

O Japão ensina, por meio de um simples calçado ou de uma meia centenária, lições de educação, respeito e design voltado ao bem-estar. No fim das contas, seja com uma babuche moderna ou uma milenar meia tabi, o que se busca é o mesmo: a firmeza necessária para caminhar com dignidade e segurança, valorizando o que é nosso e aprendendo com o que o mundo tem a oferecer…

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"Pensei comigo: "Se eu soubesse disso antes, teria mantido meus chinelos de dedo, mesmo nos dias frios!"."

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(Revisão: IA Gemini. Imagem: Canva. Áudio e vídeo em https://youtu.be/aPi3N1i4_GA)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Sou: Rebento

 Crônica poética

Sou o fruto gerado no teu ventre. Fomos cúmplices no tempo de silêncios em que éramos apenas nós dois. Compartilhei tuas dúvidas, entendi tuas angústias. Quis secar a lágrima que selou a notícia da minha chegada. Agora, finalmente, habito os teus braços.

Sou o desejo de tornar perene o sentimento que nos uniu
, o ser que complementa a tua humanidade. Sou fruto da tua vontade e do teu amor. Quando as primeiras imagens revelaram meu corpo, eu ainda não mensurava o carinho que transbordava do teu olhar.

Ao ouvir-te agradecer a Deus pelo rebento que germinava, sentia o doce afago que me envolvia no teu seio. Meu leito será o aconchego do teu corpo, onde caberão os sonhos… e as conquistas… e as decepções… O tempo da espera e, também, o tempo da partida!

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"Meu leito será o aconchego do teu corpo, onde caberão os sonhos… e as conquistas… e as decepções…"

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(Revisão: IA Gemini. Imagem: Canva. Áudio e vídeo em https://youtu.be/QHWD-u0RDnM)