O Fio da Meada:
A doutrina cristã estabelece uma distinção fundamental entre o Reino de Deus — focado na transcendência, na transformação do indivíduo e no amor ao próximo — e os sistemas de governo humanos, que lidam com a gestão do poder temporal e as leis civis. São fronteiras bem distintas, em tese, mas que, na prática, quando são ignoradas ou intencionalmente dissolvidas pela retórica partidária, instauram uma confusão que prejudica a integridade da fé assim como o exercício da cidadania.
O equívoco central reside na tentativa de conferir um selo de sacralidade a projetos políticos falíveis. Ao tratar a plataforma de um candidato ou a agenda de um partido como extensão da vontade divina, o discurso religioso perde sua força profética e libertadora. A fé, que deveria oferecer uma perspectiva crítica e de acolhimento, acaba aprisionada na lógica da eficácia eleitoral, tornando-se tão efêmera e mutável quanto as próprias instituições humanas.
O exercício da cidadania, focado na justiça, na equidade e no bem comum, ocorre em uma dimensão secular. É um terreno de debates, de busca por consenso e de administração de recursos públicos. A esperança cristã, por sua vez, habita uma esfera que transcende sistemas eleitorais. Quando o cristão confunde a lealdade ao Reino de Deus com a lealdade a siglas partidárias, ele desloca o foco da missão original: a defesa dos vulneráveis e a busca pela dignidade humana, independentemente de quem ocupa o poder.
No limite, essa confusão cria um cenário onde a Política (como já disse, com P maiúsculo), vocacionada ao serviço ao cidadão, é reduzida a um embate ideológico em nome de um “Deus” feito à imagem e semelhança de quem deseja vender um suposto projeto de “salvação”. Os “milagres” anunciados não se sustentam quando são os mesmos “protagonistas” que repetem “juras” em busca de um novo mandato e de manter seus benefícios, que ficam distantes da vida do cidadão comum.
Para o fiel, o desafio consiste em participar da vida pública sem abdicar da autonomia da sua consciência e sem transformar a espiritualidade em um apêndice do Estado ou de projetos de poder. A lealdade ao Reino de Jesus (aquele mesmo que defendeu o “amai-vos uns aos outros” com a própria vida) exige que se reconheça, com sobriedade, que nenhum governo humano é o objetivo final da jornada de um cristão. No entanto, a política é o caminho para a realização humana e social que tem sido sonegada ao eleitor…
(Revisão e imagem: Gemini)

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