sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sem Fronteiras, de Nayan Chanda

Janelas do Tempo:


No livro Sem Fronteiras, a tese central de Nayan Chanda é audaciosa e desafiadora:
a globalização não é uma invenção recente da era digital ou do capitalismo financeiro contemporâneo, mas sim uma condição inerente à própria trajetória humana. 

Para comprovar essa premissa, o autor recua dezenas de milhares de anos no tempo — muito antes da invenção da escrita ou da cunhagem de moedas —, partindo da África pré-histórica para rastrear os passos dos primeiros grupos humanos que decidiram abandonar seus habitats originais movidos pelo instinto de sobrevivência e pela busca de uma vida melhor.

O livro organiza essa longa jornada histórica através de quatro grandes arquétipos ou "agentes da globalização" que moldaram o intercâmbio entre os povos ao longo dos séculos:

  1. Os Mercadores: Movidos pelo lucro e pela escassez de recursos locais, abriram as primeiras rotas comerciais terrestres e marítimas, conectando civilizações distantes e fazendo circular especiarias, tecidos, metais e inovações tecnológicas.

  2. Os Aventureiros e Navegadores: Impulsionados pela curiosidade e pelo desejo de desbravar o desconhecido (como Fernão de Magalhães e tantos outros), reduziram as distâncias do planeta e desenharam o mapa-múndi.

  3. Os Missionários: Movidos pela fé e pelo proselitismo, viajaram para além de suas fronteiras culturais para espalhar crenças, filosofias e visões de mundo (como a expansão do islamismo, do cristianismo e do budismo), criando laços espirituais transnacionais.

  4. Os Guerreiros: Conquistadores que, através da força e da dominação territorial, unificaram impérios, impuseram leis, misturaram sangues e reconfiguraram fronteiras.

Na transição para o mundo moderno, Chanda observa como esses papéis tradicionais se metamorfosearam: os mercadores deram lugar às corporações multinacionais, os missionários transformaram-se em Organizações Não Governamentais (ONGs) e os antigos aventureiros hoje respondem pelo nome de turistas.

O grande mérito de Nayan Chanda, em termos narrativos, é desideologizar a palavra "globalização". Vivemos em uma época em que o termo costuma vir carregado de ranço político, sendo associado apenas à exclusão social, à homogeneização cultural ou ao domínio de grandes potências econômicas. Chanda lembra, com sensibilidade e erudição, que a globalização é, antes de tudo, uma expressão do inconformismo humano.

É o reflexo daquele ancestral que olhou para o horizonte além de sua colina e se perguntou: "O que há do outro lado?".

A obra de Chanda ressoa profundamente porque trata, no fundo, de pertencimento e alteridade. Cada xícara de café que consumimos pela manhã, cada palavra de origem estrangeira que incorporamos ao vocabulário e cada livro que abriga vozes de outras geografias em nossas estantes são testemunhas vivas de que nenhum de nós é uma ilha autossuficiente.

O livro oferece uma metáfora reconfortante: por mais que governos e crises tentem erguer muros, a história humana é, em sua essência, um movimento contínuo de derrubá-los — seja pelas rotas das especiarias, pelos versos de um poeta ou pelas conexões da rede mundial. É um lembrete poético de que, no grande mosaico do mundo, somos todos herdeiros de uma imensa e incessante viagem coletiva.

(Revisão e imagem: Gemini)

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Democracia se constroi no dia a dia

O Fio da Meada:

A vida em sociedade exige de cada um
o discernimento de que a política não é um campo para a inimizade, mas o espaço efetivo da busca pelo bem comum. Quando o debate público se corrompe pelo fanatismo — especialmente quando se têm “políticos de estimação” —, perde-se a capacidade essencial de enxergar o outro como um semelhante digno de respeito e consideração. A responsabilidade democrática, portanto, começa na recusa de qualquer projeto de confronto que pretenda anular a alteridade em nome de pretensas certezas ideológicas.

Nesse horizonte, a ética do cuidado revela-se como o verdadeiro critério de validade para a ação humana e social. Cuidar do espaço coletivo (a “polis”, em política) significa zelar pelas condições que garantem a dignidade, a justiça e a paz para todos, sem exceções ou privilégios sectários. A verdadeira cidadania não se esgota no voto ou na disputa partidária; ela se mede pela forma concreta como a comunidade protege e acolhe aqueles que carregam o peso da vulnerabilidade, e que muitas vezes servem de massa de manobra na política partidária.

Para quem pauta a caminhada em valores maiores, o compromisso com os mais frágeis é inegociável e sobressai a qualquer alinhamento partidário. A história comprova que nenhuma ideologia que sacrifique o bem-estar dos vulneráveis em favor de projetos de poder pode reivindicar legitimidade ética. Respeitar o próximo e defender os marginalizados são imperativos que superam as divisões estreitas e exigem coerência constante em cada tomada de posição pública. Este é o lugar onde as religiões e organizações sociais têm espaço privilegiado para atuar.

O fanatismo ideológico atua sempre como um divisor cego, que substitui o diálogo pela hostilidade e converte o divergente em um inimigo a ser abatido. Em contrapartida, a convivência democrática madura sustenta-se na tolerância ativa, no respeito às leis e na disposição sincera de construir pontes sobre as diferenças. É preciso resgatar a política como vocação para a paz, onde a diversidade de opiniões enriquece o tecido social em vez de rasgá-lo com ódios estéreis, que beiram a irracionalidade.

Democracia se constroi no dia a dia, dependendo diretamente da coragem cívica com que escolhermos cultivar a solidariedade e a justiça cotidiana. Lideranças políticas, sociais e religiosas podem — e devem — alimentar a rejeição aos extremismos que desumanizam, abraçando a responsabilidade de ser agentes de conciliação e cuidado onde quer que estejam. A verdadeira grandeza de uma nação mede-se pelo modo como ela, e aqueles que a servem, trata e protege os seus cidadãos: todos, sem reservas e sem, absolutamente, qualquer exceção.

(Revisão e imagem: Gemini)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

O teu olhar

Quartas com gosto de poesia:

​Sentado à sombra da figueira, tiveste

Um instante de descanso e contemplação.

A solidez dos galhos, a frondosidade, a acolhida.

A árvore erguia-se como um templo de paz

Em meio ao buliço dos carros e da vida urbana.


​O descanso se transformou em encanto

Quando o olhar encontrou a copa que te encobriu e acolheu. 

Não era apenas ver, era

O mergulho profundo no mais absoluto silencio.


​Na quietude do teu mundo interior,

O detalhe revelou o tamanho do teu espanto:

A tartaruga de pano escorregou por entre os dedos,

Como se o tempo e o brinquedo fossem um só.



Eu e a figueira, guardiões de um momento sagrado,

Testemunhas da surpresa diante da magnitude

Que te fez, por um instante, parte de um momento místico. 

A imersão no mundo onde a fantasia transcende 

o ruído de conceitos para transpirar no suspiro de uma criança…


(Revisão e imagem: Gemini)

sábado, 25 de julho de 2026

O mais belo espetáculo da terra

Crônica poética:

Um bombril aceso foi a primeira e mais pura experiência de iluminar os céus. Na infância, longe dos foguetes sonoros que sempre evitei por medo dos estrondos, encontrava refúgio na simplicidade da brincadeira inocente. Era solidário com crianças, pessoas especiais, idosos e animais, pois sentia que a verdadeira celebração não deveria causar o medo ou o susto de quem, como eu, buscavam apenas a diversão e a paz.

​A brincadeira preferida nas festas de São João, São Pedro e Santo Antônio era colocar um bombril na ponta de uma vara e acendê-lo na fogueira. Depois, correr ao redor, girando aquele fogo nas mãos enquanto vertia centelhas, transformadas em estrelinhas, no que considerava o mais belo espetáculo da Terra. A magia criada por nossas mãos, iluminando os olhos das crianças, sem ferir o silêncio da noite ou a tranquilidade de quem quer que fosse.

​Nas festas de final de ano, ainda hoje, ouve-se o lamento de alguns rojões insistentes. No entanto, prefiro observar quando os céus se vestem com o colorido dos fogos de artifício silenciosos, que não agridem a sensibilidade. A luz que floresce no alto, sem o peso do barulho, tem a vocação mais nobre para acolher o olhar e propiciar o descanso.

Melhor ainda quando as luzes desenham no firmamento imagens que alimentam sentimentos mais profundos. O espetáculo que ilumina sem ferir acaba sendo, ele próprio, uma tela de aconchego para quem se encanta. Nos pátios das igrejas, das escolas ou nas ruas, no fim das contas, a beleza que perdura é aquela que desenha esperança sem precisar tirar o sono de ninguém.

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Uma espiada pelas alcovas do tempo

Janelas do Tempo: 

Quem um dia não teve a tentação de espiar pela fresta de uma janela? Como diziam minhas tias, lá no interior de Canguçu: “quem espia é um bagaceira”. Queriam dizer que se estava invadindo a privacidade alheia. Pois é essa a ideia que se tem ao ler a obra Amantes, de Leigh Eduardo. O livro resgata as trajetórias de oito mulheres que, em diferentes épocas e contextos, desafiaram as convenções de um mundo dominado por homens.

Longe de serem apenas "coadjuvantes" de figuras poderosas, a obra as apresenta como protagonistas de suas próprias histórias — mulheres dotadas de uma mistura notável de coragem, oportunismo e ambição. O livro percorre perfis fascinantes, como:

  • La Belle Otero, que, através da dança, conquistou uma ilha no Pacífico do imperador japonês.

  • Emma Hamilton, cuja influência sobre Lorde Horatio Nelson foi imortalizada na célebre frase sobre a posse de sua alma e corpo.

  • Lola Montez, descrita como "fatal para quem ouse amá-la".

  • Madame de Montespan, cujo envolvimento com o ocultismo para manter o afeto de Luís XIV é um ponto alto do relato.

  • Eva Braun, que seguiu seu parceiro até o fim trágico no bunker.

O autor utiliza o "buraco da fechadura" — ou, quem sabe, a fresta na janela — para revelar a intimidade do poder. Leigh Eduardo não busca apenas o escândalo; ele provoca uma reflexão sobre como, embora os costumes mudem, a natureza humana em torno do desejo e da busca por influência permanece, muitas vezes, inalterada.

O subtítulo já é suficientemente claro: "histórias reais de sedução, poder e ambição". Um livro que combina rigor histórico com a fluidez de uma crônica sobre a sobrevivência feminina em contextos hostis. As histórias de alcova podem mudar os personagens e protagonistas, mas se repetem onde se instala o poder ou a força do dinheiro. Uma marca de que as fronteiras políticas e ideológicas são mais tênues do que se pode imaginar…

(Revisão e imagem: Gemini)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

O altar e o voto: A demarcação do limite sagrado

O Fio da Meada:

Há algo de profundamente restaurador na recente decisão da Justiça Eleitoral que retringe o uso de templos e espaços religiosos para a defesa de partidos ou candidaturas. Por muito tempo, assistimos, com alguma perplexidade, ao avanço das disputas partidárias sobre o solo sagrado. O que deveria ser um ambiente de encontro com o transcendente, de reflexão íntima e de acolhimento universal, foi sendo, pouco a pouco, ocupado pelas cores e pelos slogans de projetos de poder.

​Não se trata aqui de cercear a voz das instituições, mas de salvaguardar a natureza do púlpito. A Igreja Católica, por intermédio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, já vinha manifestando esse compromisso, entendendo que o sagrado não pode ser moeda de troca ou palanque para agendas eleitorais. Agora, a norma se expande como um imperativo de cidadania, atingindo todas as denominações.

​Essa medida é, antes de tudo, um divisor de águas. Ao retirar o peso da máquina político-partidária do ambiente religioso, a Justiça Eleitoral promove uma necessária equidade. Quando a fé deixa de ser instrumentalizada como um "cabo de guerra eleitoral", o campo da disputa política volta a ser, pelo menos em tese, o das propostas, dos projetos para o bem comum e da trajetória de vida dos candidatos. A regra traz uma equiparação vital: o fiel, ao cruzar o limiar de um templo, deve encontrar a paz do Reino - e não o ruído das urnas.

​Há um risco silencioso na confusão entre estas duas dimensões. Quando a lealdade ao Reino de Deus é misturada à lealdade a um candidato, corre-se o risco de transformar o apoio político em um dogma de fé. Isso não só fragiliza a democracia, ao criar clivagens intransponíveis, como também esvazia a autoridade moral da religião, que se vê atrelada aos fracassos e aos tropeços dos homens públicos.

​A proibição é, portanto, um ato de proteção. Ela protege o Estado, que deve permanecer laico e plural, mas protege, sobretudo, a própria religiosidade. Os templos voltam a ser o que nunca deveriam ter deixado de ser: espaços de silêncio, de escuta e de esperança. A democracia só tem a ganhar quando o voto, fruto do discernimento do cidadão, nasce da liberdade da consciência, e não da pressão do palanque camuflado de altar…

(Revisão e imagem: Gemini)


terça-feira, 21 de julho de 2026

​Sabes ler poesia?

Quartas com Gosto de Poesia:


​A poesia é um mundo encantado de palavras…

A lava ardente que escorre pelos sentidos,

Resvalando pela encosta íngreme da frase,

Longe das amarras da literalidade.

Segue seu curso, mirando os sentimentos.



O beabá de um poema camaleoa-se

Como o fogo que violenta a rocha

Para, no final, sentir-se fortalecido,

Exposto ao rigor das estações,

No confronto com o vento e o mar.


Poemar navega pelas fendas das palavras,

No lugar privilegiado da escuta.

Enquanto as ondas declamam sonoridades,

Convidando a te entregares ao prazer

Furtivo do que faz rima com o silêncio.


​Sabes ler poesia?

Teus dedos desfiam contas em que

Cada letra compõe uma súplica,

Em que o dito transcende as possibilidades.

A marca da pena desenhando uma fresta

Por onde suspiram todos os teus sonhos!


(Revisão e imagem: Gemini)

sábado, 18 de julho de 2026

A tramela dos meus encantos

 Crônica Poética:

Faltou coragem para ultrapassar o portão. Os anos se passaram e fiquei em dúvida: por detrás daquela varanda, depois daquela porta, o que teria mudado? Da sala à cozinha, restaram ainda os lugares sagrados do convívio familiar? A sala onde sempre cabia mais um? A mesa onde fazíamos o dever da escola, sentindo, aflitos, o cheiro da comida ou do café tomar conta do ambiente.

A tramela que trancava o portão ainda era a mesma. Será que ainda rangia ao ser usada? Bastava um giro para liberar a passagem. Mas era o seu ruído que denunciava nossas escapadas para os jogos de rua. Muitas vezes, seguido das broncas e dos castigos. Os anos se foram, mas a cerca viva, que fazia fronteira entre a calçada e o pátio, ainda testemunhava o movimento da rua.


Atravessei a calçada com a esperança de que voltasse o alarido de crianças brincando, no buliço do entra e sai, em que se ouvia a advertência: “Fecha o portão. Não deixe os bichos entrarem.” Fechei os olhos, lembrando da saída para a escola, de manhãzinha, quando, na rua, sentia o aroma do café passado e do pão recém-saído do forno, comum às casas da vizinhança.

Minha antiga morada se manteve num silêncio respeitoso. Percorrer aqueles caminhos já não era um direito meu. No último olhar, gravei a imagem que, por toda a vida, voltou em meus sonhos. Ali escorreram os anos mais lindos da minha infância. Ultrapassar aquele portão era, antes, só o tempo de ir e voltar. Até o dia em que precisei me despedir e guardei, no peito e na mente, a certeza de que o lugar onde ficaram minhas raízes também seria, para sempre, o lugar dos meus encantos e das minhas saudades…

(Revisão e imagem: Gemini)

A Peste, de Albert Camus

 

Janelas do Tempo: 

Muitas vezes, afastamo-nos dos clássicos porque os associamos apenas a exigências acadêmicas ou a exames de conhecimento geral que, na verdade, pouco nos dizem sobre o presente. Contudo, ao revisitar A Peste, de Albert Camus, percebemos que a sua densidade é o antídoto perfeito para a rapidez superficial que domina os nossos dias. Esta obra, longe de ser apenas um relato histórico ou um exercício de ficção, funciona como um espelho rigoroso da condição humana em momentos de ruptura absoluta.

A história desenrola-se na cidade de Oran, isolada por uma epidemia, onde o quotidiano é subitamente suspenso e a normalidade se dissolve. Camus, com uma escrita extremamente objetiva e despida de artifícios desnecessários, conduz-nos através das reações dos habitantes perante o inevitável. Não há heróis grandiosos ou melodramas; há apenas o dever, a exaustão e a luta persistente contra o absurdo que se instala quando a rotina é brutalmente interrompida.

Para quem se dedica às ciências humanas e sociais, esta leitura é uma aula de observação sobre o comportamento coletivo e a resiliência institucional. O autor questiona como os valores se transfiguram perante a crise e de que forma o isolamento altera a nossa perceção de justiça e solidariedade. É fascinante notar como os dilemas enfrentados pelas personagens, décadas atrás, ecoam com uma precisão quase inquietante nas dinâmicas das nossas próprias sociedades contemporâneas.

Ao ler Camus, recordamos que a literatura clássica não é um objeto de museu, mas um instrumento vivo de análise. Obriga-nos a parar, a observar as engrenagens invisíveis do mundo e a compreender que os desafios humanos são cíclicos, mudando apenas de cenário. É, por isso, uma leitura indispensável para o jovem que deseja aprofundar o seu pensamento crítico e para todos nós, que buscamos sentido num tempo tão fragmentado.

Que o convite à leitura de A Peste sirva de mote para muitas conversas desta semana. É uma obra que não oferece respostas fáceis, mas que deixa as perguntas certas. Afinal, revisitar estes clássicos é um exercício de sobrevivência intelectual, um lembrete constante de que, mesmo na incerteza, a lucidez e o trabalho persistente continuam a ser as ferramentas mais eficazes para enfrentar o inesperado.


(Revisão e imagens: Gemini)

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A instrumentalização da fé e o marketing eleitoral

O Fio da Meada: 

A estratégia de branding político contemporâneo (a gestão estratégica de uma marca) tem incorporado elementos da linguagem religiosa como ferramentas de persuasão. Esse fenômeno consiste na
adaptação de símbolos, terminologias e valores cristãos para o contexto do marketing eleitoral. Seu objetivo é consolidar as possíveis bases de apoio, especialmente em lugares (os espaços religiosos) onde as pessoas estão sensíveis ao apelo de seus líderes.

A transformação de valores éticos — tradicionalmente fundamentados no cuidado ao próximo e na sobriedade — em ativos de marketing político/partidário ocorre por meio da descontextualização dos ensinamentos básicos do Cristianismo. A mensagem, originalmente voltada à transformação interior e ao serviço (especialmente a prática da caridade), é convertida em um instrumento de validação de projetos de poder.

Se muitas vezes, para as pessoas mais simples que frequentam os templos, as doutrinas já são complexas e de difícil entendimento, agora passam a ser utilizadas para conferir legitimidade a candidatos ou siglas específicas. Consequentemente, o conteúdo ético da crença é subordinado às demandas de competitividade eleitoral, o que altera a natureza da mensagem espiritual, convertendo-a em um produto voltado para o consumo do pretenso eleitorado religioso.

O impacto dessa estratégia é a polarização, visto que a fé, ao ser integrada à dinâmica partidária, perde a capacidade de atuar como elemento de convergência e passa a ser operada como divisor de grupos. O olhar por sobre as campanhas eleitorais recentes, no Brasil, mostra que a autonomia do espaço religioso, em muitos casos, foi suprimida diante de estratégias eleitorais. A contaminação virou promiscuidade. No frigir dos ovos, perdem todos: o meio religioso, porque se contamina com a descrença da política partidária. E a Política (sim, com P maiúsculo) porque não consegue sustentar a sua vocação de serviço ao cidadão e ao bem comum.

(Revisão e imagem: Gemini)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

O ritual do amargo

 Quartas com gosto de poesia:

​A água chia, avisando o ponto.

Não é fervura, é calor que abraça a erva,

desperta o verde que dormita no escuro,

Acalma a manhã que no horizonte observa.



O primeiro gole é batismo do silêncio.

O gosto amargo que limpa o pensamento,

enquanto a mão, num gesto repetido,

ajusta a bomba e serena o tormento.


Um poço de lembranças no fundo da cuia:

Sabendo que o que se doa, sempre retorna.

O calor renova a próxima vertente,

O amor é libertado e ao peito torna.


​Beber o tempo se faz uma ciência.

Rito que desconhece o que seja a pressa,

onde é possível encontrar o Infinito,

Tornando cada gole um ritual de promessa.


(Revisão e imagem: Gemini)

terça-feira, 14 de julho de 2026

Meu livro (ebook): O Aprendiz e o Mestre

 Meu livro:

Um convite ao silêncio e à descoberta

Queridos amigos, queridas amigas,

Ao longo dos últimos tempos, tenho mergulhado em reflexões sobre os encontros que dão sentido à caminhada de cada um de nós. Hoje, compartilho contigo um pouco do resultado desse processo: meu livro, um ebook, "O Aprendiz e o Mestre: Crônicas Contemplativas".

Não é um manual de lições, mas sim um espelho da experiência de quem já percorreu longos caminhos e a esperança de quem, com coragem, inicia sua própria travessia. Entre o silêncio das montanhas e os gestos simples do dia a dia, descobri que somos, simultaneamente, quem ensina e quem aprende.

Espero que estas páginas possam ser, para ti, um convite à pausa, à escuta e ao reencontro com o que há de essencial em nossa própria natureza. É um presente de coração, para que possamos caminhar com mais leveza.

Convido a que leias. Mas também a que compartilhes com teus amigos, familiares, conhecidos…

📖 O Aprendiz e o Mestre

Que a leitura te guie, também, rumo à tua própria alameda de acácias...

Com o carinho do Manoel Jesus

sábado, 11 de julho de 2026

O doce perfume do pessegueiro

Crônica Poética:

As folhas estavam tenras, delicadas como um primeiro carinho, quando um galho tímido alinhou seus brotos, na expectativa de que, juntos, explodissem em flor. Na perfeição do efêmero, guardou sua beleza para eclodir no cacho que embeleza o dia e marca a noite com o seu perfume.

O tempo cumpre sua sina e transforma o botão em fruta. A pele, antes aveludada, agora ganha tons avermelhados sob a luz do sol. O ciclo segue um rito que a terra compreende, enquanto o pomar observa a mudança silenciosa de cada estrutura, preparando-se para o momento em que vai saciar o prazer de quem se senta à mesa.

O perfume atravessa a janela e alcança a varanda. Invade o ambiente, liberta-se da cozinha onde se misturou ao aroma do café. A presença marca a transição das horas, criando laços entre o que floresce lá fora e o que se organiza aqui dentro, onde os sentidos se fundem aos livros e às notas de rodapé.

Na colheita, o fruto cede ao toque. Num balaio que guarda a lembrança da primeira flor, resta o aroma, como marco da estação. O galho descansa, cumprindo o seu papel. E a natureza reinicia o próximo ciclo. O milagre da vida, guardando na pele o perfume da flor; na carne, o gosto que escorre pelos lábios e, no guardião da semente, a certeza de que a eternidade é somente o tempo de voltar a primavera…

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata

Janelas do Tempo: 

Publicado entre 1949 e 1954, O Som da Montanha, de Yasunari Kawabata, permanece como um dos marcos fundamentais para que se compreenda a sensibilidade japonesa do pós-guerra. A narrativa situa-se em Kamakura e acompanha Shingo Ogata, um homem de 62 anos que, diante do declínio físico e da desagregação dos laços familiares, passa a escutar um som vindo da montanha — um presságio, ou talvez o eco de sua própria finitude.

Este livro integra uma leva recente de literatura oriental que se tem o privilégio de explorar no Brasil. A leitura exige um exercício de paciência: é preciso aprender a decifrar os meandros de uma escrita que não se apoia no clímax, mas na contemplação. É um convite para compreender o que não é dito, o silêncio que pontua as relações e a importância do vazio na construção narrativa.

Um ponto central na obra é a relação de Shingo com sua nora, Kikuko. Diferente de uma interpretação que buscaria elementos puramente eróticos ou comportamentais — algo comum sob uma lente ocidental — Kawabata apresenta algo mais complexo:

  • Sublimação: O interesse de Shingo por Kikuko não é uma paixão vulgar, mas a busca por beleza e pureza em um cotidiano marcado pela aridez.

  • Contenção: A figura da nora torna-se um refúgio estético. O desejo de Shingo é latente e contido; é a melancolia de quem, aproximando-se da morte, ancora-se na juventude e na integridade de Kikuko para lidar com a transitoriedade de todas as coisas e da sua própria humanidade.

Kawabata ensina que a vida doméstica, aparentemente banal, é onde residem os maiores dramas. Ao ler O Som da Montanha, não se está apenas lendo uma história japonesa da década de 50, mas sim treinando o olhar para perceber a fragilidade das relações humanas e a força do que permanece oculto naquilo que, por educação ou pudor, prefere se manter em silêncio.

(Revisão e imagem: Gemini)

O Reino de Jesus x “projetos de poder”

 

O Fio da Meada: 

A doutrina cristã estabelece uma distinção fundamental entre
o Reino de Deus — focado na transcendência, na transformação do indivíduo e no amor ao próximo — e os sistemas de governo humanos, que lidam com a gestão do poder temporal e as leis civis. São fronteiras bem distintas, em tese, mas que, na prática, quando são ignoradas ou intencionalmente dissolvidas pela retórica partidária, instauram uma confusão que prejudica a integridade da fé assim como o exercício da cidadania.

O equívoco central reside na tentativa de conferir um selo de sacralidade a projetos políticos falíveis. Ao tratar a plataforma de um candidato ou a agenda de um partido como extensão da vontade divina, o discurso religioso perde sua força profética e libertadora. A fé, que deveria oferecer uma perspectiva crítica e de acolhimento, acaba aprisionada na lógica da eficácia eleitoral, tornando-se tão efêmera e mutável quanto as próprias instituições humanas.

O exercício da cidadania, focado na justiça, na equidade e no bem comum, ocorre em uma dimensão secular. É um terreno de debates, de busca por consenso e de administração de recursos públicos. A esperança cristã, por sua vez, habita uma esfera que transcende sistemas eleitorais. Quando o cristão confunde a lealdade ao Reino de Deus com a lealdade a siglas partidárias, ele desloca o foco da missão original: a defesa dos vulneráveis e a busca pela dignidade humana, independentemente de quem ocupa o poder.

No limite, essa confusão cria um cenário onde a Política (como já disse, com P maiúsculo), vocacionada ao serviço ao cidadão, é reduzida a um embate ideológico em nome de um “Deus” feito à imagem e semelhança de quem deseja vender um suposto projeto de “salvação”. Os “milagres” anunciados não se sustentam quando são os mesmos “protagonistas” que repetem “juras” em busca de um novo mandato e de manter seus benefícios, que ficam distantes da vida do cidadão comum.

Para o fiel, o desafio consiste em participar da vida pública sem abdicar da autonomia da sua consciência e sem transformar a espiritualidade em um apêndice do Estado ou de projetos de poder. A lealdade ao Reino de Jesus (aquele mesmo que defendeu o “amai-vos uns aos outros” com a própria vida) exige que se reconheça, com sobriedade, que nenhum governo humano é o objetivo final da jornada de um cristão. No entanto, a política é o caminho para a realização humana e social que tem sido sonegada ao eleitor…

(Revisão e imagem: Gemini)