terça-feira, 16 de agosto de 2022

Um Santo para as causas políticas?

O período que antecede as eleições de outubro tem a marca da indiferença. As pesquisas junto à população demonstram que ela não acredita que a solução dos problemas esteja nas classes políticas, executivo e legislativo, assim como no poder judiciário. No entanto, estas categorias são, sim, responsáveis pelos seus problemas. Recentemente, o caso do reajuste do poder judiciário, assim como os “super salários” conseguidos por parcela dos militares, demonstra que tudo o que fazem é legal, embora beire o imoral.

Num país em que muita gente não consegue sequer o salário mínimo (R$ 1.212,00), a suprema corte se dá ao direito de colocar como teto salarial (R$ 46.366,00) a importância que referenda diversas categorias públicas, que, rapidamente, se valem da lei para ganharem mais, o que equivale a 38 vezes a referência para as categorias da base. Algo é ilegal? Não, tudo é feito dentro da lei, só que de tal forma que as categorias mais beneficiadas dos agentes públicos aumentam o fosso da desigualdade social.

Uma instância que, até pouco tempo, tinha o respeito da população, os militares, se envolveu em saia justa, com “jeitinhos” jurídicos, e alguns tornaram mais polpudos seus rendimentos, com penduricalhos que, em certos casos, fez com que, de uma única vez, fossem contemplados com quase um milhão de reais! Para tudo se tem explicação, mas não justificativa. Em plena pandemia, com dificuldades na saúde, alimentação e emprego, é deboche para quem se jactou de ser “guardião da Constituição Federal” ...

A indiferença à volta dos políticos às ruas para procurar um suposto apoio popular às suas intenções só não é maior do que o interesse pela copa de futebol, no final do ano. O brasileiro mergulhou de tal forma na descrença que até o seu esporte preferido perdeu a razão e a graça. Escândalos semelhantes aos que envolvem políticos de diversos níveis também permeiam este esporte, demonstrando que, mais do que uma indústria do entretenimento, se tornou um lugar de atividades que pecam pela transparência.

Daqueles que ainda discutem (não agridem) política em pequenos grupos ou pelas redes sociais há a preocupação com o baixo nível a que se chegou, quase sempre culpando a população pelo desinteresse, apatia, pouco ou nenhum conhecimento de causa. O alerta é correto sabendo que vai se ter uma guerra de foice no primeiro turno e, havendo o segundo, será um “salve-se quem puder”. Volta-se a uma tecla batida: a educação política se dá pelo conhecimento e pelos exemplos. E o que se vê?

Dados apresentados podem ser contestados, mas não negados. Pesquisas apresentam o perfil de um brasileiro que, para sobreviver, não vê alternativa senão a indiferença. Embora se considere o sistema representativo o melhor para a prática da democracia, atitudes nada republicanas de políticos e quem gravita no entorno causam desilusão e frustração que levam à apatia. Então, pergunto: além do Santo das Causas Impossíveis, existe algum Santo das Causas Políticas? Se assim for, a hora é agora: “rogai por nós!”

domingo, 14 de agosto de 2022

Ser pai, guia e referência para a vida

(do livro “Remendos e Arranjos”, de 2004)

 O Aprendiz tinha um jeito peculiar de fazer saber, ao Mestre, que ele estava com alguma preocupação. Passava a caminhar na volta da mesa onde seu orientador trabalhava, em silêncio, com a cabeça baixa e as mãos atrás das costas. Até que, num determinado momento, o Mestre parasse com seu trabalho e perguntasse:

- Pequeno menino, o que o preocupa?

Sempre fazia um certo charme.

- Nada, Mestre, nada.

E a insistência.

- Fale, pequeno menino. Algo o preocupa. Sei que você gostaria de perguntar.

Parou de caminhar, colocou-se em frente ao Mestre e, mais do que dizer, murmurou:

- Mestre, como é ter um pai?

Embora aguardasse toda e qualquer pergunta, para esta, especificamente, o Mestre não estava preparado. Levou em consideração que o menino fora abandonado na porta do Mosteiro e nunca soubera o que era ter uma família.

- Porque esta preocupação, pequeno menino?

- É que está chegando o Dia dos Pais e as demais crianças falam muito do que vão fazer para eles. É verdade que eu não tenho um pai?

Já sabia que abrandar a verdade nunca dava certo com aquele garoto. Preferiu ser direto.

- É verdade. Você não tem um pai como os demais meninos.

- E como é ter um pai?

Embora se sentindo incomodado, sabia que tinha que dizer alguma coisa.

- Pequeno menino, ter um pai é uma bênção. Mas também é uma bênção ter um filho. O pai acorda no meio da noite e procura a mãozinha do filho, sua respiração. Quando ele cresce, ouve seus balbucios, acompanha seus primeiros passos desengonçados. Quando se torna jovem, o pai é o ombro parceiro aonde vai se acomodar quando precisa. E sempre, mas sempre mesmo, é um olhar cúmplice e amigo com o qual pode contar. Infelizmente, você não tem um pai.

Os olhos do menino estavam marejados de lágrimas. Contornou a mesa, apoiou sua cabeça no peito do Mestre e sussurrou:

- Engano seu, Mestre querido, tenho no senhor o melhor dos pais. O senhor faz tudo isto por mim!

A cabeça do menino pendida sobre seu peito impedia de ver que as lágrimas também corriam pelo rosto do ancião. Era a revelação de Deus que lhe faltava: sempre se sentira estéril por não ter tido filhos. E Deus colocara em suas mãos muitos, mas muitos filhos para criar. Agora sabia que fora capaz de fazer cada uma daquelas coisas que sempre pregara para os outros. Murmurou uma oração e beijou a cabeça do pequeno menino. Sentia-se pai. E pai tem que fazer a vida continuar, ajudando a encontrar caminhos, alimentando a esperança do filho, carne ou não da sua carne... que Deus colocara em suas mãos!

Feliz e abençoado dia para todos os pais que, de muitas formas, são referência em nossas vidas!

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Uma valsa para a Eternidade...

Não dançamos a última valsa.

Ainda lembro da primeira vez em que

Estendeste a mãozinha e colocaste

Teus pezinhos sobre os meus.

Bailamos pelo Mundo dos sonhos,

Enquanto sorrias com a confiança

De quem enxergava a vida como

Uma longa e bela estrada pela frente...

 

Foste a mais bela das garotas

Que debutaram aos 15 anos.

Tinhas a graça de uma mulher

Que descobre a existência e se encanta

Com cada momento vivido,

Sem a preocupação com ilusões e tristezas.

Bailavas como se a vida se curvasse a teus pés

E o futuro estivesse à tua espera.

 

O tempo, sempre o tempo, fez com que,

De longe, acompanhasse a tua história.

Encontraste um outro companheiro para bailar.

Chegaram os filhos e deves ter feito com eles

O que um dia fiz contigo.

Mas, num reencontro, ainda tinhas

O olhar pleno de ternura e de encanto.

Continuavas fazendo da tua vida um grande baile,

Continuavas acreditando que havia muito

Da tua história ainda por percorrer...

 

Ainda tenho presente o primeiro perfume que usaste.

Aquele em que te apresentaste como mulher,

Com a fragrância que te identificava,

Aquele que te fez amante e mãe.

No nosso reencontro, já havias mudado.

Tinhas o perfume marcante e suave,

Com jeito de quem sabe o seu lugar,

Superando fragilidades e desencontros.

 

Mas partiste.

Não sei que música tocava quando

Cerraste teus olhos.

Ficou o sentimento de que

Não dançamos a última valsa...

Seria a nossa valsa de despedida...

Quando o tempo foge do tempo,

Onde as lembranças chegam

Estimuladas pelo ritmo da saudade,

No compasso de quem segue,

No rumo da Eternidade.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Regar o sentido para a vida

Archie Battersbee estava com 13 anos quando, na semana passada, os equipamentos que o mantinham vivo foram desligados. Em abril, encontraram-no desacordado, com uma corda no pescoço, dentro de casa. Desde então, era mantido por aparelhos, com morte cerebral. Foram inúmeras batalhas judiciais para que continuasse “vivo”. Há suspeitas de que participava de um desafio entre jovens na internet, o “Ligature” (“brincadeira do desmaio”), que consiste em se estrangular durante o maior tempo possível.

Esta temática não é nova, mas precisa ser reprisada constantemente: a necessidade de regar o sentido da vida. Não importa a religião, crença filosófica ou política, é fundamental que se veja a própria vida, assim como a vida do outro, como necessária de ser cuidada, no sentido de ser preservada, mas, também, de ser qualificada. Diversos fatores no processo educacional, especialmente o que acontece em família, tem colocado, literalmente, muitas crianças, adolescentes e jovens em situação de risco.

Também é repetitivo, mas necessário alertar: nesta fase, pais e quem está mais próximo são a referência em todos os sentidos. O fato de que os progenitores, especialmente, não tiveram uma formação adequada não os isenta de suas responsabilidades. Ao contrário, provoca a que, como se diz no futebol, “corram atrás do prejuízo”. Insistindo que são as atitudes que marcam os seus comportamentos: o relacionamento entre o casal, a forma como se relaciona com os amigos, sua capacidade (ou não) de serem solidários...

São marcantes os exemplos quando pais, desde pequenos, comprometem as crianças em atividades domésticas, em cuidados com jardins e hortas; responsabilidade com irmãos, seguirem as regras estabelecidas nos jogos infantis... Mais adiante, fazer parcerias em esportes, como futebol, mas também em atividade sociais, assim como em doação de sangue, de órgãos, medula... E, já adultos, estabelecer vinculação forte com os netos, sem negar a autoridade dos pais e sua responsabilidade pelo processo educacional.

Professores reclamam que jogaram nas suas costas grande parte das responsabilidades pela educação. É verdade. A carga é pesada para muitos que ainda estão despreparados para enfrentar as suas próprias vidas e, ainda, deixar as suas casas, com os seus problemas, e passar um ou dois turnos ajudando a reparar o que se passa em outras famílias. A escola não é o pronto socorro do processo educacional. Ela tem seu quinhão na responsabilidade, mas depende, também, que a sociedade cumpra a sua parte.

Não deixe que um “Archie” esteja dentro da sua casa. A existência é uma graça quando se alimenta o seu sentido. Encontrar razão para não desistir não é apenas uma frase motivacional, do tipo “receita de autoajuda”. Inteiro ou sequelado, jovem ou idoso, em plena posse das faculdades mentais ou não, a incapacidade para conseguir esta motivação é o elemento que faz definhar o gosto por sorver cada etapa desta grande aventura de forma plena. Com certeza, a vida é única, é pessoal... e é intransferível!

domingo, 7 de agosto de 2022

O dia em que me tornei “pai do meu pai”

A semana que inicia é de preparação para o dia dos Pais. Muitos vão dar um abraço e, quem sabe, um presente pela comemoração. Outros, como eu, ficaremos na lembrança do quanto foi feliz se ter uma referência masculina, enquanto pessoa. Porque a ressalva? Simples, porque são muitas e variadas experiências de filhos com progenitores que podem ser de todas as raças, credos, níveis de formação e informação. Não existe (e não existiu) um tipo de pai específico que atende a um modelo pré-estabelecido.

Tive a graça de conhecer desde pais que atenderam quase que integralmente o que penso de ser pai até quem apenas contribuiu com o processo e, se tivesse se mandado em seguida, teriam dado uma boa contribuição... Há uma receita para ser pai? Se existe, eu não sei. Mas existem alguns atributos que são essenciais: carinho, capacidade de ouvir, firmeza em auxiliar no processo educacional, convicções, disposição para ser amigo, mas, quando necessário, também ser aquele que auxilia a estabelecer limites.

Para isto, não é necessária uma grande formação. Qualquer um de nós conhece pais que não passaram da terceira série primária (caso do meu pai), mas que valores e experiência de vida foram fundamentais para que se colocassem como referência. E também tem isto: mesmo que os pais tenham os atributos necessários, as circunstâncias sociais também influenciam para que, numa mesma família, um filho reaja de uma forma, enquanto outro acabe tomando rumo e destino completamente diferentes.

Característica necessária que encontrei em tios e vizinhos foi a do bom humor. Meu pai era o rei das tiradas, aprontando com adultos e crianças, assim como em comentários engraçados. Porém, tinha o lado sério e perspicaz. Numa ocasião em que cheguei de reunião em que tudo o que planejei dera errado, conversamos e ele resumiu numa frase que tenho como mantra até hoje: “o povo é devagar”. O errado não eram eles: eu queria apressar um processo de conscientização para o qual não estavam preparados.

As lembranças de infância: retornar à casa da sua mãe, com longa caminhada beirando o rio Camaquã, onde se tomava banho e, em algum momento, boiava, colocando-nos sobre a barriga... Cuidando do armazém, com lugar reservado embaixo do balcão para decorarmos a tabuada e depois a tomava de cor e salteado... As vezes em que o esperava na frente do Seminário, ao me levar as roupas lavadas, sábado à tarde, e eu preparava o meu coração, como dizia o Pequeno Príncipe, do jeito que se faz com quem se ama...

A primeira vez em que, atravessando uma rua, sentindo que estava confuso, ofereci um braço desocupado (no outro já estava minha mãe) para que se fizesse a passagem em segurança, foi o dia em que me tornei “o pai do meu pai”. Aprendi que o tempo é o senhor dos nossos aprendizados. Ser pai, hoje, é preparar um filho que, um dia, vai lhe dar o apoio necessário para qualificar a sua velhice... este privilégio em que se estende a mão não apenas como um pedinte, mas com a necessidade de partilhar a própria vida.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

O caminho para o mar...

Deixa que eu siga o meu próprio rumo.

Vou precisar contornar obstáculos,

Quem sabe não consiga compreender

O percurso do meu destino,

Posso até ter dificuldade de entender que

O meu horizonte será sempre o caminho do mar.

 

Correr sobre os seixos é murmurar uma sentida oração,

As árvores jogam seus galhos e sombras sobre meu leito

Dando o refrigério de um momento fugaz.

No final do dia, ainda não tenho descanso,

É preciso continuar sempre, sem chance de voltar atrás.

 

Deslizar mansamente sobre um leito de areia

É oferecer um lugar para que alguém descanse seus pés.

Sentado numa pedra, poderá brincar

Mergulhando as mãos, enquanto sigo meu percurso.

Não posso negar o que é um simples carinho.

Ao entardecer, numa pequena queda d'água,

Borboletas farão o encanto oferecendo

A dança que mistura corpos, cores e luzes.

 

Não tente me impedir.

Ao continuar minha jornada

Sou o teu sonho mais profundo,

Que atinas quando é madrugada;

Sou o medo transpirando por teus olhos,

Assustados pela compreensão que não chega;

Sou o sentido de tentar entender o teu presente,

Já que não aceitaste teu passado

e não vislumbras os contornos do teu futuro.

 

Sabes quem sou eu?

Sou o rio que, semelhante à vida,

Não se importa com as curvas e os obstáculos.

Como as lágrimas, que nunca deveriam ser contidas.

O sussurrar do vento...

Que enruga as águas nos momentos difíceis

Ou as torna tépidas e tranquilas

Quando chega a idade em que seguir o próprio caminho

É encontrar a direção para desaguar no oceano...

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Um duro caminho para Francisco

Duas histórias de imagens impactaram, recentemente, os crentes, especialmente da Igreja Católica: a visita do papa Bento XVI ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia. Mais do que as palavras, foram os momentos de silêncio de um idoso, depois de afirmar que “num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode parecer apenas um silêncio aterrorizante, um silêncio que é um grito interior a Deus...  torna-se um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante”.

Semana passada, foi a vez de se receber pela televisão, jornais e redes sociais as imagens do papa Francisco em sua “peregrinação penitencial” pelo Canadá, visitando um cemitério onde renovou o pedido de desculpas pelo papel da Igreja Católica na violência infligida a crianças de povos originários do país. No silêncio da sua prece junto ao campo santo, afirmou: “o lugar que nos encontramos e a lembrança daquelas crianças ecoa um grito de dor. Desperta em mim tristeza, indignação e vergonha”.

Quem convive ou já cuidou de pessoa idosa sabe que alguém com a idade de Francisco, 85 anos, enfrentando dores e dificuldades para se locomover, precisando de uma cadeira de rodas, despende um esforço redobrado para qualquer atividade. Muito mais quando estas ações demandam uma carga emocional negativa por todo o sofrimento causado a pessoas: adultos, no caso da Polônia, e crianças, no Canadá; e por aqueles que, dentro ou fora da Igreja Católica, não concordam com suas atitudes e tentam desmerecê-las.

O papa parece enfrentar uma corrida de obstáculos. Cada uma de suas atitudes é passada no crivo da crítica. Quando não conseguem demovê-lo, a indústria do fake news planta notícias como, das mais recentes, de que sua condição física o levaria a renunciar. Não duvido. Porém, creio, não o fará antes de que, em outubro do próximo ano, coroe o Sínodo que traçará os destinos da Igreja. Ainda será um longo período pela frente, com muitas contendas e dificuldades, que possibilitam uma depuração da própria instituição.

No que vai dar? Só Deus sabe. O certo é que a maior consulta já realizada no seio da Igreja e a gradativa substituição de bispos, arcebispos e cardeais lhe dão um novo rosto. Mais avançada ou conservadora? Nem uma, nem outra. Literalmente, incomodados, de ambos os lados, estão se retirando. O que não significa que venha a se ter “uma paz de cemitério”, com todo mundo rezando pela mesma cartilha, enquanto fervem os desentendimentos internos. Um novo patamar nas relações institucionais e pastorais.

Não se pode negar a história. O presente é tempo de perdão e reconciliação. E mudar a perspectiva do futuro. Um duro caminho para Francisco, em busca de uma Igreja do Evangelho e do Homem de Nazaré, perseguindo o “vede como eles se amam” dos primeiros cristãos. Pensavam da mesma forma? Não. Buscavam o mesmo rumo e eram presença na sociedade. O diferencial? a fé, justificada na prática religiosa; a esperança, como horizonte existencial; e a caridade, a efetiva realização do amor ao próximo.