terça-feira, 8 de setembro de 2026

As camadas da minha rua

Quartas com gosto de poesia:

A rua era um quintal sem muro.

Cada casa exalava seu próprio perfume - 

jasmim na beira da cerca, café na cozinha,

vozes atravessando portões sem tranca

como quem entra em casa de parente.

O tempo morava ali, de porta aberta.


Depois, levantaram-se paredes mais altas.

Ergueram-se muros, desceu a tranca,

e a família encolheu dentro de cômodos amplos.

O silêncio da segurança isolou -

a rua virou fronteira,

e cada um se tornou ilha no seu próprio mar.


Hoje, o chão se ergueu em torres.

Apartamentos-dormitório, números sem nome,

onde o elevador engole os encontros

e o tempo não espera ninguém na calçada.

A casa perdeu a raiz,

e, sem perceber, perdemos o chão.


Mas ainda carrego as três moradas.

Camadas de uma mesma existência -

a varanda, o muro, o andar alto -

sedimentos de quem fui, de quem me tornei,

e a rua, ainda viva, lembra do que já fomos.

**********

"A casa perdeu a raiz,

e, sem perceber, perdemos o chão..."

**********


(Revisão: Kimi. Imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/Mz1f_kNiUxE)


Nenhum comentário: