sábado, 29 de agosto de 2026

Um eco doce na alma alheia

Crônicas poéticas:

Quem escreve (ou escreveu) sabe que uma das coisas mais difíceis nesta arte é conseguir um fim que se julgue adequado a qualquer peça literária. Não importa que seja um conto, uma crônica, uma ficção ou mesmo um poema. Na hora de arrematar, surgem dúvidas a respeito da clareza, da concisão e, mesmo, da adequação do que se está dizendo.


Afinal, disse tudo (que nunca significa “tudo” efetivamente, mas o que se julga “tudo” para aquele momento) o que julgava necessário para clarear uma ideia, recriar personagens e cenários na imaginação do leitor? Despertar sentidos e sentimentos que o levem a pensar o quanto teria sido bom se fosse ele mesmo a dizer o que foi escrito?

Confuso? Sim. Escrever, mais do que um ato terapêutico, é a transpiração que ainda busca pela inspiração. Construir um texto literário dispensa a lógica para envolver tudo o que a riqueza da razão, emoção, coração, mente e alma colocam num cadinho, no milagre de uma página em branco que aceita o que se comanda com uma caneta ou um teclado.

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"Encerrar um texto é como fechar uma porta por onde os sentimentos, já em liberdade, ganham o mundo, livres de quem os gestou e, um dia, os viu nascer."

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No fundo, encerrar um texto é como fechar uma porta por onde os sentimentos, já em liberdade, ganham o mundo, livres de quem os gestou e, um dia, os viu nascer. O escritor (o garimpeiro das palavras) apenas entrega o sopro e recolhe o fôlego, torcendo para que a leitura ressoe como um eco doce que afague a alma alheia.

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldwell

Janelas do Tempo:

Em "Médico de Homens e de Almas", Taylor Caldwell presenteia quem lê com uma viagem fascinante à antiguidade, reconstruindo a trajetória de São Lucas, um dos evangelistas. A narrativa não se limita a uma visão puramente religiosa, mas explora a humanidade de Lucano, um médico grego dotado de compaixão e intelecto aguçado. Com uma pesquisa histórica primorosa, a autora recria os cenários do Império Romano e do Oriente, guiando o leitor pelas angústias, perdas e descobertas que forjaram o caráter deste homem singular, muito antes de ele escrever a vida de Jesus de Nazaré.

A obra mergulha nos primeiros anos do protagonista, desde a juventude até a sua consagração como um médico de então que lutava incansavelmente contra a dor e a morte. Inconformado com o sofrimento humano e com as limitações da ciência de sua época, Lucano vivencia um conflito interno constante, chegando a desafiar os desígnios divinos diante da fragilidade do corpo. É essa inquietação profunda, retratada com maestria pela autora, que torna o personagem tão real e próximo de nossas próprias dúvidas, revelando um profissional que buscava curar muito além da carne.

O grande ponto de virada na narrativa ocorre quando o médico, impelido por uma força maior que a sua própria razão, inicia uma jornada em busca do "Deus Desconhecido". Sem ter convivido com Jesus, dedica a maturidade da sua vida a recolher os testemunhos de quem conviveu com o Cristo. A transição da medicina empírica para a fé absoluta é construída de forma gradual e emocionante, mostrando como o rigor investigativo do médico serviu de base para que ele se tornasse o cronista meticuloso de um dos textos mais belos do cristianismo.

Caldwell une a fidelidade dos fatos históricos a uma prosa profundamente cativante. Humaniza a figura de quem hoje chamamos de São Lucas, sem tirar a sua grandeza, mostrando as falhas, lutos dolorosos e a persistência inabalável no amor ao próximo. O leitor é convidado a caminhar lado a lado com Lucano pelas ruas poeirentas de Antioquia, Roma e Jerusalém, sentindo o peso e a glória de uma época em que o mundo passava por uma de suas maiores transformações espirituais e sociais.

"Médico de Homens e de Almas" transcende a classificação de um romance épico para se consolidar como uma verdadeira lição de empatia e de esperança. O livro instiga a refletir sobre a vocação e sobre o cuidado com o outro como atos de doação irrestrita. É uma daquelas leituras imersivas, que acalentam o espírito e aquecem o coração, perfeitas para quem busca na literatura não apenas uma distração passageira, mas uma experiência rica que continua ecoando na alma muito tempo após virarmos a última página.

(Revisão e imagem: Gemini)

A cidadania que vai além das bandeiras

 O Fio da Meada:

O mês de setembro convida a uma profunda reflexão histórica e identitária. O calendário marca o 7 de setembro, data da independência nacional, e, logo a seguir, o 20 de setembro, que pulsa forte na alma gaúcha com a memória da Revolução Farroupilha. Mais do que meras efemérides, esses momentos provocam um olhar para o passado, de onde se pode extrair a inspiração necessária para vislumbrar o que possa ser o futuro.

Especialmente quando políticos enchem a boca para falar em “patriotismo”, compreender o verdadeiro sentido da palavra exige ir além do ato de hastear bandeiras ou entoar hinos de forma mecânica. Trata-se de defender a construção de uma pátria onde todo brasileiro se veja, de fato, incluído e respeitado. É transformar o sentimento abstrato de pertencimento na realização plena da cidadania, garantindo que a sociedade não deixe ninguém para trás e seja um espaço de acolhimento.

A cidadania se revela, por exemplo, quando a população, mesmo cansada, vai às urnas.
O voto é a expressão máxima da democracia, sobretudo com a proximidade do pleito eleitoral no início de outubro, atuando como um instrumento poderoso para equalizar as vozes e desenhar o destino das comunidades. Mesmo diante da desconfiança e da desilusão, escolher um representante vai além da obrigação legal; é um gesto profundo de compromisso com a realidade do dia a dia.

As urnas devem ser encaradas como a grande oportunidade de qualificar a representação política, na busca por líderes que genuinamente compreendam e abracem as necessidades coletivas. Votar com consciência é a forma mais eficaz de honrar as lutas daqueles que forjaram a história do país. Uma escolha responsável transforma o eleitor em um agente ativo na melhoria das políticas públicas e na defesa irrestrita do bem comum.

Votar simplesmente por votar é entregar a cidade, o estado e o país nas mãos de quem apenas quer arrumar um "emprego" público seguro e rentável. Não convém contentar-se apenas com sorrisos e promessas. É preciso cobrar o histórico, especialmente o que foi prometido e não cumprido. Não deve haver receio de renovar todo o Congresso Nacional, se for o caso; afinal, já é sabido que políticos que se agarram a mandatos perdem a noção da sua base. Um tempo sem mandato e de volta às origens talvez seja a lição exata para que reaprendam o sentido de patriotismo e o respeito pela cidadania do eleitor.

(Revisão e imagem: Gemini)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

No riso terno das estrelas

Quartas com gosto de poesia:

Algumas palavras brilham no firmamento. 

Quando se anuncia o entardecer dos sentidos 

Ofusca o brilho do Sol, 

Na cumplicidade de outras que também 

Despontam com o cair da tarde.


Aos poucos, formam a imagem 

De uma vasta constelação de significados. 

E, no despertar dos olhos e da mente, 

Alcançam a imensidão e a sua liberdade.


O desejo de se aproximar 

Daquela que povoa o próprio universo, 

Embevecida pelo mistério, 

Ganhando contornos de um sonho 

Sempre que nos escapa o seu significado.


Craveja sinais, no riso terno das estrelas

De quem já não se preocupa em singrar os céus. 

Testemunha a coreografia dos pirilampos, 

Desafiando o silêncio do imaginário, 

Em que luminares povoam a suavidade da noite…


(Revisão e imagem: Gemini)

domingo, 23 de agosto de 2026

Nas quebradas de uma lágrima

Crônicas Poéticas:

Derramei muitas lágrimas ao longo da vida. Sempre com a impressão de que a alma purga uma apenas — somente uma —, o suficiente para dar sentido à tristeza e à melancolia. Há momentos em que podem faltar as palavras, os gestos e os olhares, mas não pode faltar a presença... São as ausências que a tornam irreversível.

Quando desliza, sentida e incontrolada, através de um terreno já desgastado — uma face sulcada pelos sinais que mapeiam os afetos -, ali onde é impossível detê-la, quando finalmente vence as barreiras da face, é que se encontra o sentido do incalculável.

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"A lágrima que liberta a alma parece perder o sentido quando rompe a represa da razão. Navega em busca dos sentimentos, onde a própria bússola não encontra o seu norte..."

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Basta apenas uma, forjada na dor e no ressentimento, para se transformar na tormenta que já não respeita o silêncio nem a sobriedade. Troa no soluço desencadeado pelo represamento de todos os males sufocados, suportados, vividos na solidão.

A lágrima que liberta a alma parece perder o sentido quando rompe a represa da razão. Navega em busca dos sentimentos, onde a própria bússola não encontra o seu norte. Com os olhos toldados pela emoção, as mãos ficam livres para procurar uma fronte, reencontrando o gosto de mar nas quebradas de um corpo que esqueceu a geografia para perpetuar a sua própria história…

(Revisão e imagem: Gemini)


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Reflexões sobre o ato de ler

Janelas do Tempo

Hoje não pretendo dar incentivo à leitura de uma obra de forma específica. Minha reflexão é sobre o ato de ler. Há uma urgência silenciosa que impele à pressa, como se o tempo fosse um adversário a ser vencido a cada relance no relógio. É na contramão dessa pressa que nos socorre o velho e bom hábito de abrir um livro. Não se trata de uma leitura apressada, das que apenas buscam o fim da linha ou a informação imediata. 

Refiro-me a
pausa verdadeira e plena de sentido: o ato de leitura como quem desacelara o passo para contemplar uma paisagem. Quando decides parar e abrir as páginas de um livro, algo extraordinário acontece. O espaço ao redor se redimensiona. O barulho lá fora esmaece, e o tempo — antes tirano — estica-se, acolhedor. Esse intervalo que se cria no meio da rotina não é um tempo ocioso; é um tempo habitado teu silêncio.

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"A leitura é um diálogo íntimo, um sussurro cúmplice entre quem escreve e tu, que emprestas os teus olhos e a tua sensibilidade para dar vida à história."

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Cada obra que se escolhe carregar na mão, seja ela encontrada com paciência nas estantes empoeiradas de um sebo ou recebida como um presente, traz consigo uma geografia invisível. Há livros que devolvem o cheiro da infância, que transportam para épocas que não vivenciamos ou que simplesmente colocam em palavras e sentidos aquilo que nós mesmos intuímos, mas não sabíamos nomear.

Nessa pausa, o livro deixa de ser um mero amontoado de papel e tinta para se converter em um território de encontro. Encontramos o autor, decerto, mas encontramos, sobretudo, a nós mesmos. Descobrimos que a leitura é um diálogo íntimo, um sussurro cúmplice entre quem escreve e tu, que emprestas os teus olhos e a tua sensibilidade para dar vida à história.

Então, vale a pena reivindicar esse direito à uma pausa. Fechar a porta por alguns instantes, acolher-se ao aconchego de uma poltrona preferida, quem sabe com a companhia de uma boa infusão de chá ou de um café para aquecer a tarde, e permitir que as páginas se revelem. Porque, no fundo - bem no fundo, parar para ler é um ato de resistência poética: escolher, ainda que por breves capítulos, habitar o mundo com mais vagar, mais intensidade da alma e mais inteireza do próprio ser.

(Revisão e imagem: Gemini)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Humanidade do papa Leão XIV

O Fio da Meada:

A figura do papa Leão XIV destaca-se no cenário contemporâneo não apenas pelo rigor de sua missão pastoral, mas por uma profunda e pulsante humanidade que transborda em lágrimas e gestos viscerais. Enquanto pontífices do passado mantinham uma postura de atenta e solene compostura institucional diante dos fiéis, Leão quebra o protocolo com uma vulnerabilidade genuína. Sua sensibilidade não é apenas uma virtude privada, mas a essência de seu pontificado, transformando cada aparição pública em canal direto de afeto sincero e desarmado.

Essa marca ficou evidente no recente e comovente
encontro com os jovens em Assis, onde a intensidade da acolhida fê-lo chorar abertamente diante da multidão. Diferente de líderes que observam as dores do mundo com distanciamento compassivo, Leão mergulha nelas, permitindo que o sofrimento alheio o afete a ponto de embargar-lhe a voz e marejar-lhe os olhos. Não se trata de uma mera estratégia de empatia treinada, mas da reação de um pastor que sofre com o seu rebanho e sente, na própria pele, o peso das aflições humanas.

Outros momentos marcantes, como a vigília no Estádio Olímpico de Barcelona ou o abraço aos marginalizados em Pompeia, revelam essa urgência de contato real e sem filtros. Enquanto figuras eclesiásticas tradicionais ofereciam conforto através de discursos doutrinais e aceno distante, Leão escolhe o toque físico, o silêncio partilhado e a lágrima conjunta. Compreende que a verdadeira consolação cristã exige a coragem de se expor, de deixar o coração vulnerável às intempéries da dor alheia e de humanizar o sagrado através do pranto espontâneo.

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"Ao não temer demonstrar fragilidade diante de câmeras e multidões, o pontífice valida a dor dos oprimidos e o sentimento como parte legítima da vivência da fé."

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Essa capacidade de se emocionar genuinamente redefine a autoridade moral, substituindo a rigidez do trono pela proximidade afetiva de quem caminha ao lado. Ao não temer demonstrar fragilidade diante de câmeras e multidões, o pontífice valida a dor dos oprimidos e o sentimento como parte legítima da vivência da fé. O diferencial do papa Leão está justamente em não esconder sua humanidade sob mantos de impassibilidade, provando que a verdadeira grandeza espiritual reside na coragem de se comover profundamente com o outro.

Essa sensibilidade faz com que o papa Leão XIV seja percebido não apenas como um chefe de Estado ou líder religioso, mas como um pai espiritual autêntico. Em um mundo anestesiado pela dureza das relações, suas lágrimas em Assis e em tantos outros altares e praças funcionam como um bálsamo que também reumaniza a Igreja. É essa disposição rara de deixar o coração sangrar e transbordar diante da dor e da alegria alheia que o coloca como um pastor singular, cuja maior força repousa na inegável beleza de sua própria humanidade.

(Revisão: Gemini. Imagem: Internet - La Via Italia)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Pela fresta da janela

Quartas com gosto de poesia:

Espia pela janela, apenas por um momento. 

Imaginas que alguém vai passar e 

A luz errante se esgueira pela fresta, 

Tecendo o rastro que o olhar acolhe.


Pensa apenas que acompanhas 

O movimento e os andarilhos. 

Ao te envolverem com seus passos, 

Ouves o murmúrio de suas vozes.



Sem saber o que dizem, 

Na moldura que se abre, 

Tua intuição diz que estão por ali. 

A certeza de que, em algum momento, 

Cruzarão pelo teu campo de visão.




Basta que te encorajes a ultrapassar a porta,

O risco da travessia, pois,

Do outro lado, a vida sempre te espera. 

Pelo leito da rua, ou na borda da calçada, 

A procissão dos que acenam, 

Estendem a mão, e não desistem do caminhar…


(Revisão e imagem: Gemini)

domingo, 16 de agosto de 2026

A Mão Negra, de Stephan Talty

Janelas do Tempo:

No início do século XX, a cidade de Nova York mergulhou em uma onda de terror sem precedentes.
A obra A Mão Negra, escrita pelo jornalista Stephan Talty, retrata com precisão documental esse período sombrio da história norte-americana. Cartas anônimas estampadas com símbolos macabros e ameaças de morte amedrontavam a comunidade de imigrantes italianos. O enredo expõe como o submundo do crime encontrou solo fértil em meio à pobreza e à marginalização social da época.

O eixo central da narrativa gira em torno da figura ímpar do detetive ítalo-americano Joseph Petrosino. Conhecido como o "Sherlock Holmes italiano", ele liderou um esquadrão corajoso contra a brutalidade da Sociedade da Mão Negra. Com uma inteligência perspicaz e métodos inovadores, o policial enfrentou o medo generalizado e a pressão da opinião pública. A investigação minuciosa descortinou uma estrutura criminosa que chocou a sociedade e desafiou as forças da lei.

O grande mérito do livro reside na capacidade de transformar uma pesquisa histórica rigorosa em um thriller eletrizante. Talty conduz o leitor por labirintos urbanos onde a linha entre a justiça e a barbárie parecia tênue e maleável. Cada capítulo revela as táticas implacáveis dos extorsionários e o desespero de famílias acuadas pelo silêncio imposto. A atmosfera de romance policial noir ganha densidade por se tratar de um relato verídico e implacável.

Encarar esta leitura convida a refletir sobre as raízes profundas da criminalidade organizada transnacional. O autor demonstra que o fenômeno mafioso não nasceu nos grandes gabinetes, mas nas frestas da exclusão e do preconceito cotidiano. A luta de Petrosino transcende a mera captura de marginais, simbolizando a defesa intransigente da dignidade humana. É um painel sociológico vigoroso que ilumina as zonas mais escuras da experiência moderna nos Estados Unidos.

A Mão Negra consolida-se como uma leitura indispensável para os apreciadores de narrativas históricas densas e envolventes. Stephan Talty entrega um panorama cinematográfico que prende a atenção do início ao fim com sua prosa fluida. Mais do que uma crônica sobre o medo, o livro consagra a memória de heróis esquecidos que arriscaram a vida pela ordem. Uma viagem literária memorável pelas janelas do tempo que antecederam a era de ouro do que viria a ser a máfia e os grandes gângsteres do século XX.

(Revisão e imagem: Gemini)

sábado, 15 de agosto de 2026

A geração que ouvia rádio

Crônica Poética:

Ao completar 15 anos, vivendo como interno no Seminário Diocesano, ganhei um presente inesquecível: um radinho de pilha. Havia pedido aos meus pais, mas tinha quase certeza de que não ganharia. Hoje, imagino o esforço que fizeram. Éramos uma família pobre e o sustento vinha de um pequeno "bar e armazém", a “venda do seu Manoel”. Ter o aparelho era luxo para um adolescente animado para ouvir os jogos da Seleção na Copa de 1970.

Podem imaginar o quando eu me sentia importante! “Desfilava” com o radinho, por dentro das notícias e dos esportes, sintonizando a Rádio Guaíba, na época líder de audiência no estado, ou a Gaúcha, mais tarde. E tinha o lado romântico também: à noite, com o rádio colado no ouvido, com o testemunho do travesseiro, ouvir as vozes aveludadas sincronizando com as músicas que embalaram meus sonhos e devaneios…


Um radinho no começo dos anos 70 era bem
diferente de um celular atual, que já está nas mãos de qualquer criança. Um abismo tecnológico. Naquela época, o sinal era precário e vivia caindo, sendo que, à noite, buscando por emissoras de fora do país, ainda se tinha a “fuga” de sintonia, o que permitia ouvir uma parte e torcer para entender o que viria depois. Hoje, é possível assistir aos fatos acontecendo praticamente ao vivo, na palma da mão.

Procurar um lugar na casa onde pegasse o sinal; as narrações de futebol ou do mergulho nas radionovelas — que iam de romances - passando por ação, aventura e suspense - a histórias de terror. Um período em que o mundo cabia no chiado das ondas curtas. No fim, ficou a saudade de uma época em que escutar exigia paciência e silêncio. E a interrogação: como a tecnologia, que prometia ajudar na aproximação de todos, acabou nos deixando tão sós?

(Revisão e imagem: Gemini)

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A Epidemia Silenciosa das Bets

O Fio da Meada: 

A paisagem contemporânea tem sido redefinida por um fenômeno alarmante:
a proliferação avassaladora das plataformas de apostas esportivas, as bets. Enquanto empresários do entretenimento acumulam lucros bilionários e influenciadores (incluindo artistas e esportistas) ostentam vidas de luxo patrocinadas, o tecido social assiste, atônito, ao avanço de uma nova e devastadora forma de dependência comportamental.

Se o uso excessivo de redes sociais já alertava para os perigos da captura da atenção e da dopamina rápida, as bets operam num patamar muito mais perigoso. O comprometimento financeiro direto e a ruína de famílias inteiras mostram que, se as plataformas digitais comuns são viciantes, os jogos de azar online revelam-se infinitamente mais destrutivos.

O grande motor dessa engrenagem é a publicidade agressiva exercida por figuras públicas que naturalizam o apostar como mero entretenimento. Mostram-se os ganhos, mas ocultam-se as perdas, atingindo impunemente públicos vulneráveis, como jovens e pessoas de baixa renda, sob a complacência de uma inércia regulamentação estatal e ética.

Enquanto outras tecnologias consomem apenas o tempo, o vício em apostas ataca diretamente a subsistência material do indivíduo através da promessa de recompensa imediata. O smartphone no bolso transformou qualquer cidadão em frequentador de um cassino virtual global, acessível a qualquer hora, sem barreiras físicas, sociais ou freios morais eficazes.

Trata-se de uma patologia tão nefasta quanto qualquer dependência química, exigindo políticas públicas firmes de prevenção, acolhimento e tratamento. O lucro não pode continuar privatizado enquanto os prejuízos sociais são absorvidos pelas famílias e a sociedade. A denúncia e o debate a respeito de expor as entranhas dessa engrenagem não é apenas um exercício crítico, mas um dever ético diante daqueles que se perdem — junto com  os recursos necessários à sobrevivência — na tentadora roleta dos algoritmos.

(Revisão e imagem: Gemini)

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Ausências e ressentimento

Quartas com gosto de poesia:

Nossos encontros foram ficando distantes,

As conversas perderam o compasso.

Os meios eletrônicos silenciaram,

Na ausência que magoa e cria ressentimentos.


Conviver foi um tempo em que havia

Pouco silêncio e ainda menos privacidade.

A infância e a juventude não demandavam

Senão as juras de amizade e amores eternos.


As palavras que antes transbordavam

Hoje repousam em caixas de memórias,

No pó de dias que se tornaram cinzentos,

Onde o tempo insiste em compassar a vida.



Há uma beleza triste nessa nostalgia,

Um modo de pertencer ao que já se foi,

Tecendo, com fios de saudades,

O manto que encobre a própria solidão.


O silêncio são ausências doloridas.

No conforto de saber que fomos

Inteiros em cada afeto e em cada riso,

Pois o tempo que afasta e isola

É o mesmo que consagra o que já se viveu…


(Revisão e imagem: Gemini)


sábado, 8 de agosto de 2026

Doçuras de outrora e a infância reencontrada

Crônica Poética:

No dia dos Pais, meu abraço carinhoso a todos os que são pais. Tive o privilégio de ter meu pai, seu Manoel, como alguém muito especial na minha vida. Dele, entre as boas lembranças, guardo o zelo por atender a toda a vizinhança no Bar e Armazém Raulim. Um lugar de comércio, mas também de encontros. Onde a primeira imagem que se tinha ao entrar era, para mim, criança, um “enorme” baleiro, com todas as delícias possíveis… Meu texto de hoje é uma justa e perene homenagem a quem Deus me deu a graça de poder chamar de “Pai”!


“Entrar na padaria de bairro foi atravessar um portal que a correria dos dias teima em manter trancado. Não me deteve o cheiro do pão recém-assado, tampouco a urgência matinal que rege o relógio dos adultos. Foi uma trindade sutil, enfileirada no vidro do balcão, esperando paciente o resgate: a língua de sogra, o suspiro e o sorvete de maria-mole. Basta um olhar para que a lógica do tempo desabe. De repente, os anos encolhem e eu me vejo outra vez naquela altura em que o balcão da mercearia parecia o altar de um templo sagrado.

A língua de sogra sempre teve ares de nuvem engarrafada no coco ralado. Desafiava a gravidade com sua consistência fofa, vacilante, etérea — promessa de que o açúcar podia ser leve, quase impalpável, derretendo na boca antes mesmo que a gente soubesse o que era pressa. Era o doce do recreio, do domingo à tarde, da textura que abraçava a língua na doçura sem pressa de acabar. Ao lado, os suspiros — grandes, rosados e brancos, pontiagudos como pequenas montanhas de açúcar. Havia neles um pacto de delicadeza: morder exigia cuidado para não estilhaçar o doce em mil farelos, transformando o ato em farejo de contentamento.

E, coroando a memória, o sorvete. Que não era gelado, mas uma casquinha comestível recheada com a mesma base da maria-mole tradicional, ou do suspiro de merengue. Tinha textura de espuma firme, aerada, em temperatura ambiente — como se o céu decidisse descansar numa câmara de wafer. Muitas vezes, embrulhado em papel celofane colorido, guardando dentro de si a ilusão de que o frio era só uma ideia que a infância inventara. 

Encontrar os três ali, reunidos numa prateleira comum de padaria, não foi apenas um achado gastronômico. Foi um abraço no menino que fui. Porque crescer, no fundo, é aprender a saborear de novo aquilo que a infância já sabia de cor: a felicidade cabe inteira num pedaço de suspiro, na maciez de uma maria-mole, na simplicidade de um doce que nunca precisou de freezer para virar cúmplice da saudade…”

(Revisão e imagem: Gemini)

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O Forte de Nome Torres, de Qais Akbar Omar

Janelas do Tempo:

"O Forte de Nome Torres", de Qais Akbar Omar, é uma memória urgente que
reconstrói a infância do autor em Cabul durante as décadas de conflitos que devastaram o Afeganistão. Escrito originalmente em inglês como uma ferramenta de sobrevivência e catarse, o livro narra com precisão a transição traumática entre a retirada soviética e a subsequente ascensão do regime talibã. Não se trata apenas de uma análise geopolítica fria, mas de um testemunho honesto sobre a resiliência humana em meio ao fogo cruzado e às ruínas de uma nação em constante guerra.


A narrativa conduz o leitor pela fuga desesperada da família em direção à Qala-e-Noborja, um antigo palacete de nove torres que serve como um refúgio precário contra snipers e bombardeios constantes. Nesse cenário claustrofóbico, o jovem Omar presencia a rápida degradação de uma cidade outrora elegante, agora transformada em um cemitério a céu aberto, onde o silêncio é a única defesa dos sobreviventes. A dor das separações familiares, exemplificada pela perda do primo Wakeel e do avô, deixa cicatrizes profundas que permeiam cada capítulo da obra.


O estilo literário de Omar impressiona pelo contraste entre a brutalidade dos fatos e uma prosa direta, por vezes ingênua, que reflete o uso da língua estrangeira como um filtro terapêutico para o luto. Essa escolha linguística permitiu ao autor criar uma distância emocional necessária para transformar traumas em um relato acessível, sem perder a força de sua verdade brutal. O texto oscila habilmente entre a realidade crua da guerra civil e interlúdios de sensibilidade, revelando a complexidade de uma mente infantil tentando compreender o caos absoluto ao seu redor.


Existem momentos na obra em que a infância é recordada com um tom quase idílico, especialmente durante os períodos nômades vividos nas cavernas de Bamiyan, antes da trágica destruição dos budas gigantes. Embora alguns críticos sugiram uma certa idealização nessas passagens, essa tensão entre o sonho bucólico e o pesadelo real é precisamente o que confere à narrativa sua alma ferida e autenticidade. Essa alternância entre o horror e a beleza efêmera serve para humanizar as vítimas e destacar a importância de preservar a identidade cultural sob ameaça.


Em última análise, este livro funciona como um poderoso ato de fé na memória como forma de resistência contra os relatos superficiais frequentemente divulgados por observadores externos sobre o Afeganistão. Ao abrir as portas de seu "forte" particular, Omar oferece ao mundo o privilégio de testemunhar, através da varanda de uma infância roubada, como a esperança persiste onde a guerra tenta apagar tudo. É uma leitura essencial que desafia o leitor a tornar-se mais humano e crítico perante as complexidades de um país que pulsa para além de todas as manchetes.

(Revisão e imagem: Gemini)