terça-feira, 29 de agosto de 2023

A dor que era do outro...

Creio que Martin é o seu nome. O menino é atendido pela Associação de Pais e Amigos de Excepcionais de Bagé. Não sei detalhar os equipamentos que são utilizados para que consiga melhorar sua capacidade motora. Mas, em síntese: com muitas dificuldades, em todos os sentidos, o pequeno teve o apoio de técnicos para alcançar alguns movimentos básicos. Porém, chamou a atenção do familiar (a avó, no caso) que informou: consegue se aprumar, já não tem medo de tentar alguma mobilidade, ganhou mais confiança.


O Banco de Alimentos do Estado lançou o selo “empresas heróis”. Isto significa que os produtos que você encontrar no supermercado e tiverem esta marca destinam parcela dos seus lucros para uma instituição tradicional que trabalha com voluntários e abastece com o básico a mesa de muitas famílias pobres. Responsável pelo evento “corrida pela vida”, deixou sua marca quando, na pandemia, precisou aumentar seus esforços para alcançar o mínimo necessário para sobrevivência da fatia mais pobre da população.

Gosto de acompanhar noticiários ao meio-dia. Especialmente quando trabalham com matérias de cunho humano e motivacionais. Embora, parece, os telejornais estejam dedicando excesso de tempo ao casos de polícia. Esta morbidez é justificada por ser o tipo de informação “que a população gosta”. Confesso que me parece mais o “fácil que está à mão” e não exige grande pesquisa e produção. Mas discutir estas explicações é como tentar definir quem vem antes na história do ovo e da galinha. Quase impossível.

Associações que atendem crianças e jovens com algum transtorno ou deficiência estão permanentemente correndo atrás do prejuízo. Muitos anônimos (familiares, educadores, técnicos, amigos...) doam a vida por uma causa. Com um objetivo: oferecer a quem é atendido o direito de ter um lugar na sociedade. “Manter a cabeça em pé” significa que, de alguma forma, existe um apoio físico ou moral, que, para além das palavras e discursos, está impregnado do “estamos contigo, não desiste, a gente vai conseguir!”

Os bancos de alimentos (aqui ainda lembro o Madre Tereza de Calcutá e o Banco de Alimentos de Pelotas) têm, na luta pela dignidade humana, que inicia sim, pelo direito básico à alimentação, uma batalha difícil. Fazer parcerias é uma das formas de injetar os recursos tão necessários, como, no caso, em que grandes, pequenas e médias empresas dão o seu quinhão por uma causa (confira em heroisbancodealimentos.com.br). Pessoas que estão exercendo um direito e um dever: de alguma forma, fazer alguém feliz!

Do menino que ganha “firmeza para ficar em pé” por mãos de voluntários, aos pobres que recebem cesta básica, atendidos por quem é solidário, está o ganho de confiança, que não permite desistir da esperança. Parece expressão batida. Nos dois casos, dispensa explicações, se transforma em gesto, na maior parte das vezes, sem reconhecimento público. Aprendem que a dor que era do outro não precisava ser apenas dele, mas tornou-se a dor de quem ainda tem sensibilidade e carinho pela pessoa humana...

domingo, 27 de agosto de 2023

Amizade ao envelhecer, sem chorar o passado...

Ouvi com atenção a pessoa que desabafava: “a velhice nos leva quase tudo”. Havia falado a respeito de épocas passadas e o quanto havia perdido com o avanço dos anos, especialmente nos seus relacionamentos. Afora aqueles que já partiram para a Eternidade, ainda se referia aos que se afastaram, muitas vezes, mesmo morando nas proximidades. O tempo fizera com que fossem apoucando ainda mais as amizades que restaram do que se pensou que fossem tempos áureos da infância e da juventude.

Ao telefone, deu-se conta de que, quando se é criança ou jovem, não se precisa contar os amigos. As relações são naturais na vizinhança, no colégio, nas igrejas, ou, até, na rua. Formam-se grupos e, sem qualquer pretensão de se dar uma definição, se cuida, procura, se preocupa. Exercemos a solidariedade sem a necessidade de conhecimento semântico. Sabe-se em quem se pode confiar e com quem se pode contar. Os amigos são contados nos dedos das mãos. Pena é que também estes dedos vão minguando...


Morando sozinho, precisou fazer uma cirurgia. Quase sem parentes na cidade, todos trabalhando ou em outras atividades, programou contratar cuidadores. Foi quando recebeu o telefonema de um velho conhecido de juventude. Morava em Porto Alegre, trabalhava com assistência remota em internet e soube do seu problema. Podia vir tirar alguns dias com ele, ficando na sua casa ou em um hotel. Ficou surpreso, até pensou em recusar, mas a graça era tanta... Esperava que o Santo não se assustasse! Deu tudo certo.

Contou também que, em viagem ao Rio de Janeiro, novamente, foi ao Cristo Redentor e, para surpresa, encontrou um daqueles “parceiraços” de todas as horas durante o seu período universitário. Feliz, armou o melhor sorriso e foi cumprimentá-lo. A recepção foi seca do tipo “realmente te conheço?”, sem muita conversa, desanimando qualquer modo de aproximação. Foi quase um abano ao passar. No hotel pensou que havia sido o reencontro mais frio que tivera: o ponto e o contraponto da amizade em pouco tempo...

A mãe envelheceu com a presença de pouco amigos. Morreu lúcida, dentro do possível. Pessoas chegavam e perguntavam: “ela tá bem?” Olhava para ela que, quase sempre, sorria, e eu dizia: “ela tá idosa, mas não tá gagá. Pode conversar com ela!” Queria ter sido mais amigo da minha mãe. Dei-me conta de que tanto ela quanto o pai e meus irmãos sempre formamos um grupo familiar, mas pouco fomos capazes de superar o elemento cultural que apenas dá papeis aos seus integrantes, com poucos laços afetivos.

A amizade é fundamental em qualquer fase da vida. A perda da vida ativa, depois dos 60 anos, é um prato cheio para que um bom número se acomode e passe a reclamar de que não é mais necessário ou querido... Encontrar pessoas, poucas que sejam, revigora o bem-estar emocional e físico. Não adianta chorar a infância e a adolescência passadas, fomos agraciados com novos tempos, novas formas de relacionamento. E, afinal, embora possa parecer, se quer estar longe do dia em que se parta desta para melhor...

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Aportar no destino dos meus sonhos

Tem ocasiões em que o destino

Parece uma brincadeira torturante.

É quando a brisa do mar sussurra palavras

Que inebriam, sem que se alcance o sentido.

É o correr do tempo pelo dorso

De cada uma de nossas mãos calejadas,

Que fazem com que se descubra

Aquilo que é pura expectativa.

 

No arcabouço de verdades e mentiras,

Se precisa proteger os sonhos que restam,

Encontrar lugar para aconchegá-los,

Onde tenham a liberdade de flutuar

Livremente por suas próprias finitudes,

Como a gaivota que grasna e faz companhia...

 

No sacolejar das ondas,

O encantamento das memórias:

Como a música que assobias

Na melodia que faz duo com o teu olhar...

O jeito como deitas o braço sobre a cadeira

E com as mãos apoias a face...

Quando provocas a

Encostar o rosto sobre a mesa,

Fazes o mesmo, sem palavras,

E apenas os olharas se encontram...

 

Entre o mar e a terra, acontece

O desejo de não se precisar de um adeus.

Tu sabes que um até logo dói menos,

É luz que se esquiva pela fresta da janela,

Brinca pelos cantos mais longínquos,

Revelando a preciosidade do carmim

Que aconchega a alvura dos lençóis...

 

O porto onde atracam meus devaneios

Tem o aconchego das águas tranquilas da baia

Onde uma jangada encerra a jornada.

Entre a partida e o retorno, vencendo ventos,

Ondas, tempestades, acontece a vida.

 

Quando se traz cicatrizes que são

Embalsamadas por quem sopra sobre a pele,

Garantindo a cura

E as feridas recebem dedos

Encantados assegurando que

A dor já passou...

Marcas que sucumbem no cais,

Cúmplice na necessidade de aportar

Novamente no desejo de um abraço!

 

Sonhos que concretizam anseios

E diluem sofrimentos.

A chegada é o entardecer da vida,

A possibilidade de encontrar

O lugar de cada uma das minhas aspirações.

 

Quando tudo parece que acaba,

A mochila pesa com as saudades e

A Eternidade é o abrigo que se busca no

Interior de um coração.

No compasso lento do andar,

É preciso afastar-se do porto,

Sentir a falta das marés,

Descobrir os derradeiros rumos das águas,

Aqueles que já singramos em sonhos,

Em que se almeja, apenas, a própria paz...

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Vacina: as lições que já foram esquecidas

Semana passada, ganhou destaque nos noticiários um possível retorno do coronavírus, agora com uma cepa do vírus conhecida por Éris, com seu primeiro caso identificado no Brasil. A paciente estava com o esquema vacinal completo, a melhor forma de evitar a doença e, quando infectado, suavizar os sintomas. Além do que muitos adotam o hábito saudável de, se estiverem em situação de risco ou contaminados por vírus, inclusive o de uma simples gripe, utilizar a máscara para a própria proteção e de quem os cerca.

Infelizmente, no Brasil, se teve um movimento antivacina que tem, sim, fortemente, um componente político, mas também uma longa história por trás. Pesquisador britânico publicou ainda no final do século passado um estudo em revista científica apontando uma possível relação entre a vacina tríplice viral e o desenvolvimento do autismo. Foi o que bastou para que o terrorismo da ignorância, rapidamente, causasse uma queda alarmante nas vacinações, situação que foi acirrada no Brasil pelo viés do partidarismo.

O estudo foi desmentido e classificado de fake, mas o estrago estava feito. O conselho de médicos do Reino Unido desautorizou e desmentiu diversas vezes, mas é a velha teoria do travesseiro de penas que se joga da torre da igreja... depois de lançadas ao vento, não tem mais como recolher todas elas. Imagine, então, se isto acontece em países desenvolvidos, o que sobra para nós, terceiro-mundistas? O que já foi um processo de vacinação bem encaminhado na rede pública, literalmente, travou...

Por aqui, as autoridades da saúde estão de olho em quatro doenças que já foram consideradas extirpadas. Com fortes indícios de que podem retornar, em especial aos grotões, os lugares com menor densidade demográfica, regiões distantes dos grandes centros, onde há a falta do básico para o atendimento de saúde. É o caso do Sarampo, considerado erradicado em 2016, e que, infelizmente, teve seu quadro alterado a partir de 2018, com a Organização Mundial da Saúde apontando um surto no país.

A Poliomielite recebeu alerta do Ministério da Saúde em 312 cidades onde houve diagnóstico. A Difteria, doença bacteriana aguda localizada frequentemente nas amígdalas, laringe e nariz, ameaça voltar. E, por fim, a Rubéola, transmitida por pessoa portadoras ao tossir, falar ou, até, respirar. Para se ter uma ideia, em 2018, a meta de imunização era de 95% mas, na maior parte do Brasil, não chegou a 76%”. A vantagem da vacina tríplice viral é que protege contra o sarampo, a caxumba e a rubéola...

Pessoas que deixam de se vacinar ficam expostas: perdem qualidade de saúde, perdem, também, qualidade de vida. Se você, como eu, passou dos 50 anos sabe o quanto se sofreu com as doenças e suas sequelas. Esta vacina foi introduzida no Brasil na década de 90, entre crianças entre 0 e 11 anos. É o motivo pelo qual quem está na casa dos 30 anos não tem ideia do quanto as pessoas já sofreram com as marcas que deixavam... Infelizmente, nossa memória é curta. São as lições da dor que já foram esquecidas!

domingo, 20 de agosto de 2023

A caverna do mito e da “ogrice”...

Meu interesse por comunicação vem desde os tempos em que os meios que se utilizam hoje sequer engatinhavam. Fui criado na cultura do rádio e do cinema. Ainda criança, o transmissor à pilha incentivava a imaginação, com as novelas que depois estariam na televisão; os programas infantis, especialmente contadores de histórias; os shows de calouros em emissoras que tivessem auditório para apresentações públicas; assim como tocar os discos gravados que utilizavam este veículo e o circo para se popularizar.


O cinema era iguaria à parte. Em especial as sessões de fim de semana e as já contadas e cantadas matinés, aos domingos à tarde. A melhor calça curta, melhor camisa, sapatos e meias, cabelo lambidinho e a recomendação de que não se sujasse, tanto na ida, quanto na volta. Reunir os amigos e ir até a porta da casa de espetáculos para, antes, trocar gibis. Em alguns casos eram tantos garotos sedentos por novas leituras que os porteiros tinham que apressar o ingresso e continuar com as negociações depois da sessão.

No início da década de 60 não tinha ideia do que estava por acontecer. De que, neste início de século, a discussão seria em torno da internet, inteligência artificial, robótica e holografia. Tenho que reconhecer que me sinto fascinado pelas possibilidades que se abrem com as transformações e os avanços que a ciência conseguiu. A comunicação se transformou na maior possibilidade e na maior arma já criada pelo homem. Ao ponto de se discutir formas de restringir o seu avanço, em especial na inteligência artificial...

Necessário repetir que toda a forma que amplia a capacidade de utilizar a inteligência humana não existe por si só. É, exatamente, um “meio”, portanto a serviço do homem, utilizado de forma certa ou não. Os meios não são bons ou maus por excelência. São apenas meios, que dependem de uma mente capaz de utilizá-los. Se aproximam ou afastam? Bem, esta é outra história. Em tempos de alta circulação de informações e de dados, nunca tantas pessoas se sentiram tão só, com sintomas de ansiedade e depressão.

Batizei como “síndrome do Ogro” ou “de Shrek”, uma das sensações do nosso tempo. O Paulo Sérgio, vizinho, amigo e dono de uma boa comida, ficou preocupado que eu repita que já estou velho e tem certas coisas que não quero fazer. Enquanto um cantor, creio que o Gilberto Gil, com mais de 80 anos, anda serelepe pelos palcos. Verdade, a “ogrice” se caracteriza, especialmente, pelo desejo de não sair da “caverna”, diante dos recursos que se tem em casa, no intuito de não incomodar e não ser incomodado...

Meios eletrônicos, hoje, são mais do que meios de comunicação. Transformam onde se está num centro de autossuficiência: se pedem alimentos, remédios, movimenta conta bancária, enfim, o que se precisa chega até a porta. Aumentou a capacidade empática? Não. Ao contrário, vê-se que promessas de conversas, visitas, passeios vão minguando. O sonho da criança do século passado esmaece, como no mito de Platão, no fundo da caverna, por onde sombras apenas parecem com a vida que, de alguma forma, já se foi...

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

A imagem das palavras esquecidas

O tempo em que as fotografias desbotam

É o mesmo em que se sentem as marcas

Que definem nossas histórias.

Os retratos que esmaecem

São amores que aos poucos ficam etéreos,

Desejando que não se percam

E, se possível, virem lendas...

 


Não têm e não necessitam de explicação.

O que fica na lembrança 

Precisa ser contado e cantado,

Até que se transforme em memória,

Que, mesmo assim,

Vai se toldando e toma o rumo do esquecimento.

 

Lá vão ficando rostos, corpos, expressões

O sentimento de que amores

Não precisam ser eternos...

Até podem. Mas não precisam,

Pela própria finitude humana.

O que resta são os registros físicos

E precisam, sim, ser intensos!

 

Amor não pode ser confundido com paixão.

Amor atende às necessidades primárias do espírito.

Depois de vividos,

Impregnam cada fibra do corpo.

São receptores de energia

Que transpiram pela sofreguidão da vida.

Ilusão pensar que

Amores se escondem no peito.

Ali apenas renovam-se, voltam a pulsar

E partem quando precisam de espaço,

E suspiram pelo brilho da luz.

 

Emergem,

Como as fotografias que, com o passar do tempo,

Silenciosamente, vão ocupando os móveis.

Tornam-se lembranças,

Que se apropriam das palavras

E se refazem no interior dos pensamentos.

São testemunhas e, ao mesmo tempo, companhias...

 

No entardecer da vida, quando eu as esquecer,

Preciso que me ajudes

A criar novas ou revisitar lembranças.

Rever álbuns onde dormita o meu passado,

No silêncio da noite, quando um relógio tiquetaquear,

Ainda marcando o compasso do coração.

 

Do mesmo jeito que os registros fotográficos,

Algumas coisas são inevitáveis,

Como as palavras que morrem porque são esquecidas.

Fotografias sussurram mistérios e silêncios,

Andam de braços dados com as horas,

Fazem parte de um relógio que eterniza a memória.

Mas que também se esvai,

Como a ampulheta que não mede o próprio tempo,

Sem que suas areias saibam que tornam refém a Eternidade.

Alimentada por presenças que murmuram carinhos

Pelos balcões, cômodas, bidês, estandes,

O agridoce sabor da vida que embala as minhas saudades...

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Família: entre o colo e o abraço...

Sempre achei que datas especiais – como recentemente o dia dos Pais, mas também dia das Mães, do Irmão, dos Avós (tem do cunhado?) – deveria ser pensado como Dia da Família. O dia existe, mas fica estranho olhar para as figuras separadamente num tempo em que a referência maior também é a mais questionada: a família. Os novos tempos afastaram as pessoas não apenas pelo distanciamento físico, mas também, embora pareça contraditório, pelo isolamento que propiciam os instrumentos de comunicação.

A busca por diferentes modelos de relacionamento questionaram os papeis já existentes sem muitas certezas do que se colocaria no lugar. Ouvi recentemente que “pais do século passado não eram bons pais”. Como assim: quem disse que no próximo século se poderá dizer que “pais do século XXI foram bons pais”? Esta virada de século colocou não apenas a instituição família em xeque, mas, especialmente, os papeis que se davam aos componentes deste grupo, em especial o masculino. O pai sendo um deles.


Mães descobriram que, para além de serem genitoras, têm lugar no mercado de trabalho. Em alguns casos, por realização pessoal, em outros por necessidade econômica. Sem que se tenha encontrado solução para a questão do acompanhamento dos filhos, no complexo mundo da educação, especialmente na criação de valores e referências. O questionamento da estrutura familiar não coloca no lugar algo que substitua um pilar da formação da criança, que deveria ser complementado pela escola e o entorno social.

Avós perdem o espaço de ser apoio familiar por estarem distantes ou em casas de repouso. Diferenças de geração não são a explicação para que netos sejam afastados do privilégio de conviverem com os mais idosos. Não é só discurso, mas necessidade tanto para crianças e jovens, quanto para quem está em idade avançada. Quem nunca teve a oportunidade de “ir para a casa dos avós” não tem ideia do quanto uma mudança de visão ajuda, também, aos filhos a entenderem como os próprios pais envelhecem.

Numa destas muitas séries coreanas (Desgraça às suas ordens – pode ser vista pela Netflix. Vale a pena), lá pelas tantas o personagem é amassado pelo cunhadinho que fica feliz por ter alguém que cuida da irmã. Então, diz para um tio com quem estava conversando: “ele vem no pacote?”. Embora todas as piadas sobre cunhados e sogras, ou cunhadas e sogros, existem os “porqueiras”, como diria uma tia, mas muitos daqueles que se tornam irmãos ou irmãs e, de outro lado, pais e mães de coração.

Em muitos destes grupos falta um agregador familiar. Como o pai que reúne filhos, filhas, genros, noras e netos todos os domingos para uma feijoada e arroz com galinha, seguido de uma roda de música, que ninguém é de ferro. Dificilmente, alguém não vai. É a esperança de se encontrar, por menor que seja, o valor de pessoas que, próximas ou não, partilhem o possível. Que acolham e protejam a vida que se desenvolve, deem suporte em momentos de crises e de carências. O que resta da família é alguém que personaliza a acolhida: braços abertos para consolar, colo perfeito para não desistir...