sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A loucura, a poesia e a felicidade

Enquanto for capaz de sonhar,

Posso acordar como louco ou como poeta. 

Dá no mesmo. 

A loucura e a poesia são cúmplices.

No que se declama e no que se escreve

Tem sempre o desejo de garimpar 

Um gostinho de bem querer...

Um aceno para aqueles com 

Quem a gente se importa em

Compartilhar bons e ternos momentos.


A loucura não nos separa do mundo,

Dos seres que se consideram "normais",

Especialmente, quando

Já não se tem forças para enfrentar a realidade. 

Ela estende a visão até

Onde a poesia tece palavras com 

A angústia da busca por sentidos, 

Mesmo sem alcançar a sensatez da lógica.


Amo os loucos e os poetas.

Não tenho preferência por um ou por outro.

São uma forma de amor não correspondido:

Aquele que se espera de alguém 

Ou o amor próprio que não foi satisfeito. 

Precisando entender 

Que não se deixa de amar alguém,

Apenas se sublima

A incapacidade de cuidar da própria dor.


São os momentos de insanidade e de poesia

Que devolvem o direito de sorrir... 

E de sonhar!

Garimpa-se o tempo em que 

Éramos crianças amando outras crianças...

Foi assim nas amizades, nas paixões

E também quando vieram os filhos.

Buscávamos um estado de espírito 

Que permitisse alcançar e viver em paz.

Nossas ambições contemplavam

Quem ajudava a dar sentido às nossas vidas.


Anestesiados por excessos de sanidade,

Perde-se a noção do que é pura expectativa. 

Ao invés de brincar, sonhar e sorrir,

Corre-se atrás do sucesso, da fortuna e do poder...

É exatamente quando se sufoca

Qualquer uma delas

Que a poesia resiste, insiste

Em dar sentido à própria loucura…

terça-feira, 13 de agosto de 2024

“Onde foram parar minhas lembranças?”

Já evoluímos bastante no conhecimento das atividades do cérebro. No entanto, como em qualquer tratamento do ser humano, doenças ou deficiências desta área do corpo precisam de um diagnóstico individual. Embora a cultura popular induza a que as pessoas acreditem nos "achismos”, automedicar-se ou seguir receitas dos “doutores Google e YouTube” pode ser um perigo que retarda um tratamento adequado, com sequelas que poderiam ter sido evitadas. Afetando, em diversos níveis, todas as formas de convívio.

O aumento na expectativa de vida traz a possibilidade de se viver mais. No entanto, ainda não se consegue estender à maior parte da população a qualidade de vida que todos merecem. Inclusive no que se refere à preservação das memórias. Esquecimentos - ou seus males correlatos - são daqueles que as pessoas e a própria família preferem não comentar. Com idosos ficando cada vez mais reclusos em seus lares, muitas vezes prejudicando o seu convívio social. Um preconceito que restringe a sua própria liberdade.

Os lapsos de memória sãos os mais comuns e podem acontecer em qualquer etapa da vida, mas se intensificam quando se avança em idade. Variam de esquecimentos breves e inocentes, como perder algum objeto ou olvidar o nome de alguém próximo, até casos mais preocupantes, que sinalizam problemas de saúde. Ansiedade, depressão, alterações no sono, infecções ou doenças neurológicas estão entre os motivos de preocupação quando começam a aparecer os primeiros sinais e, depois, ao se tornarem uma constante.

Entre as doenças neurológicas, hoje, se fala bastante no Alzheimer. Uma das formas mais comuns de demência. Ainda não se conhece as suas causas, mas se acredita que sejam geneticamente determinadas. O certo é que a doença se instala quando o processamento de certas proteínas do sistema nervoso central começa a dar errado. E a própria demência, que não é uma doença específica, mas um grupo de sintomas caracterizado pela disfunção de, pelo menos, duas atividades do cérebro: a memória e o discernimento.

Conhecido disse não saber “onde foram parar minhas lembranças”. Elas não afloram, mas estão guardadas na mente que se esforça pelo contato com a realidade, tendo como referência rostos, momentos felizes e o carinho da família e amigos. Treinar a mente e o coração, em qualquer etapa da vida, é o começo para definir melhor o fim de cada um de nós. Quem sabe, fazer “chantagem” e perguntar: “mãe, já te disse, hoje, que te amo?” A senhora responde: “não lembro”. Comprimi-la contra o peito e dizer muitas vezes para quem começa a trilhar a senda do esquecimento: “eu te amo, eu te amo e eu sempre vou te amar…”

domingo, 11 de agosto de 2024

O oleiro e o sonho do que emerge do barro

Já não é mais barro, virou argila.

Descansa sobre a base,

Escolhido para eternizar uma forma.

É necessário um tempo para

Esvaziar os pensamentos,

Concentrar-se na sensação de que 

Os dedos comandam o corpo para, enfim,

Aparecer o que até agora era pura imaginação…


Ganha alma 

Ao desvelar o sonho de quem

Veio do material que era água e terra,

Duas forças propulsoras da natureza.

Perdemo-nos na imensidão do Universo

Onde barro e luz se necessitam para 

Emergir um ser que se deseja humano.

 

Amassado, purificado

E, mesmo assim, 

Pode-se errar na conformação,

Sendo preciso 

Tentar novamente e,

Quem sabe, outra vez.

Quando parece que 

A inspiração desapareceu, deixar

Os dedos acariciarem a massa informe.

No tempo de se olhar para trás

Em busca de todas as origens…

 

Carece de uma paleta de cores,

Ignora seu próprio destino e

Se transforma em simples expectativa.

Na cor que o tempo muda,

No detalhe escurecido,

Mantém-se intacto o desejo do  

Artesão de tirar do material bruto

O vaso, a louça, a telha, o tijolo…


O oleiro é o senhor do sonho.

Zela pelo trabalho e a purificação no fogo.

Faz emergir o encantamento em busca do belo, 

Peça por peça, detalhe por detalhe.

Quando se lastima um vaso lanhado,

Mira-se a dor do que se molda na própria pele:

Dar forma é aceitar deficiências 

Do que deseja alcançar a perfeição…

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Deixa a lenha acesa no fogão

Tarde da noite, era

Quando gostava de voltar à cozinha,

Já com o lampião apagado, e

Testemunhar o estertor das brasas. 

O canto que se tornou especial, onde

Acontecia a magia da roda de chimarrão, 

Nas noites geladas de inverno.


Mais cedo, no entardecer, o frio apertava

E, enquanto o minuano assobiava lá fora,

Puxava-se um cobertor, 

Ouvia-se o chiar da chaleira e o

Pinhão estalava na chapa.

No passar do tempo,

Os olhos teimavam em se fechar,

Mas ninguém abria mão da roda de prosa. 


Pela manhã, quase sempre,

Restavam brasas em meio às cinzas.

Tempo de ajudar no café, 

Passado e recendendo 

O perfume por toda a casa.

Acrescentar mais lenha,   

Colocar o bule com leite sobre o fogo 

E abrir espaço para assar 

O pão nosso de cada manhã. 


Um tempo feliz de infância,

Junto com tios, avós e os primos.

Partir era sempre a certeza de que, ali,

Se deixava uma segunda família. 

Contavam-se os dias 

Até que a carroça cruzasse

A última porteira,

Com a certeza de que, 

Na porta do rancho, 

Um sorriso de felicidade era a acolhida.


Tia Toninha, onde estiveres,

Reúne quem já partiu e

Deixa a lenha acesa no fogão. 

Na medida em que que também nós 

Voltarmos para casa, alguém vai

Arrastar um banco para perto da mesa.


A senhora vai servir a comida 

Que tem gosto de tempos vividos.

Limpar as mãos no avental e,

Mesmo encurvada pelas agruras da lavoura,

Dar um grande abraço na chegada

E outro na despedida.

Será mais fácil de entender

Que os momentos passados juntos 

Já davam um gostinho do próprio Paraíso!

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Jogos Olímpicos e os ganhos da amizade social

Os Jogos Olímpicos de Paris 2024 deveriam ser uma homenagem e incentivo à amizade entre os povos. Tanto na Grécia antiga, ainda antes de Cristo, quanto nos tempos modernos, “ressuscitados” pelo Barão Pierre de Coubertin, no século XIX, pregava-se o congraçamento dos continentes, através dos esportes. Inclusive, com os jogos paraolímpicos. O papa Francisco pediu em redes sociais que o “autêntico espírito olímpico e paraolímpico seja um antídoto para não cair na tragédia da guerra e acabar com as violências.”

O pontífice ainda desejou que “possa o esporte construir pontes, abater barreiras e favorecer relações de paz”, apelando para uma “trégua olímpica”. Francisco gasta cada vez mais do seu tempo de líder religioso idoso falando a respeito de “amizade social”. Quando dá como receita ser “o amor que implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações derivam de uma união que propende cada vez mais para o outro, considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independente das aparências físicas ou morais”.

Especialmente quem vivencia atividades comunitárias em uma igreja, filosofia ou grupo de atividade social, sabe o quanto é importante se falar em amizade pessoal e amizade social. A primeira se estabelece na relação a dois e, a segunda, na relação de grupo. A primeira precisa aprender que sua atuação não depende de “ganhos” externos à própria pessoa, mas de sentir-se feliz com pequenas vitórias. Enquanto a segundo, valoriza o trabalho em equipe, onde é preciso exercitar a tolerância (em especial o respeito) e a paciência. 

As organizações sociais sempre perderam quando vaidades causaram disputas de poder, as declaradas e aquelas que ficaram na surdina. A divisão de um grupo é, no mínimo, ficar aquém das suas potencialidades. Muitas pessoas, especialmente idosos e aposentados, encontram em igrejas e entidades sociais um lugar para continuar atuando, sentindo-se ocupadas e úteis. Mas precisam saber que, mais do que um lugar para derramar seus dissabores, é a oportunidade para se reciclar, deixando em casa as mágoas e as tristezas.

Francisco é uma voz que clama no deserto por homens e mulheres de boa vontade. A polarização dos nossos dias transbordou para as relações sociais o mesmo que se dá na política partidária: o compadrio de interesses. Quem se disponibiliza a servir precisa colocar no horizonte o interesse de quem está fragilizado na sua cidadania. Quando se calcula o que vai "ganhar" no voluntariado, a própria causa fica prejudicada. Um “choro” mesquinho, na prática, ou no discurso, que corrói relações e joga todo um grupo no marasmo…

domingo, 4 de agosto de 2024

O Aprendiz e o "sadhu": uma peregrinação pela vida

Apenas a Lua derramava luz sobre o pátio interno do Mosteiro. Cercado pelos prédios e suas sombras, em alguns intervalos, era possível ver, na penumbra, as grandes árvores centenárias. Silenciosas, como grandes catedrais, durante o dia, tornavam-se abrigos de risadas e brincadeiras para depois, na noite, ocultar mistérios e expectativas...

Bem tarde, o piado de uma coruja quebra o silêncio, enquanto monges e aprendizes se recolhem aos dormitórios e descansam da longa jornada de trabalhos e estudos. Ao abrigo da noite, pássaros se movimentam, de quando em quando, escondidos em meio aos galhos mais altos. 

Num banco, ao fundo de uma cerca coberta pela hera, o Aprendiz encontra um momento de sossego e está imerso em seus pensamentos. Gosta de morar no Mosteiro, das atividades e dos colegas, mas precisa estar sozinho para organizar seus pensamentos. Esperou que não houvesse mais nenhum ruído de seus companheiros e mestres para escapar pelos corredores vazios, iluminados apenas pelos raios da Lua, numa noite morna de verão. 

Naquele dia, o Mestre havia apresentado um "sadhu" peregrino, idoso, que chamou de "mestre" e ao qual se referia como “iluminado”. De fato, mais do que pelas palavras, seus gestos comedidos e seu olhar acolhedor transmitiam uma sensação de paz e serenidade. 

Contava histórias de Sidarta Gautama. Não tinha pressa e lembrou, como se tivesse estado junto, dos ensinamentos de Buda e sua peregrinação. Quando se converteu, após ter sido confrontado com a velhice, a doença e a morte. O momento em que precisou deixar sua zona de conforto, num palácio, para conviver com o dia a dia dos simples mortais.

O Mestre o olhou enquanto estava sentado aos pés do sadhu. Como sempre, lera em seu rosto a preocupação por não entender estes três pilares da compreensão da existência. Ainda eram coisas muito distantes para um menino. Embora sempre tentasse conviver com os monges que habitavam a “casa do sossego”, entender o sentido do tempo passando, da dor e do fim ainda estava fora do seu alcance. 

Conversaria com o Mestre no dia seguinte. Agora, precisava voltar para a cama. Sadhu ficaria no Mosteiro por algum tempo. Não sabia o que perguntar, mas queria ouvi-lo. Muita coisa não entenderia, mas já tinham alertado que sempre que isto acontecesse, depois, "ruminaria" suas lembranças. Não importava. Seu Mestre era o seu "Sadhu": a tocha que encantava seus olhos, aquecia o seu coração e dava sentido à sua própria peregrinação pela vida…

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

O rumo das minhas saudades…

Quero voltar de ônibus para casa.

Sentar à janela e

Ver a paisagem passando, durante o dia,

Ou o desfile das luzes, 

Quando chega a noite.

Compartilhar o sentimento de pertença

Com quem peregrina

Em busca do sustento ou do estudo.


Sabendo que os rostos serão conhecidos,

Nem que seja de passagem.

E, ao final da viagem,

Sentar na beira da calçada

E conversar sem preocupação com o tempo.

Os relógios param e, aos poucos,

A imaginação vai preenchendo as ausências,

Cada um descendo do ônibus seguinte

Ou vindos de casa, numa escapada da família.

 

Desembarcar na parada 

Onde os nomes continuam falquejados

Na placa riscada do abrigo.

Naquela esquina que

Era o ponto de todas as esperas:

Indo para o trabalho, para a escola,

Voltando para casa,

Ou na saideira do fim de semana...

 

O motivo de uma espiada pela janela

Para ver se encontrava um rosto amigo.

Quando passava e não se via alguém

A espera persistia:

Sempre haveria uma nova viagem e

Aguardar não era o problema.

Tínhamos o tempo necessário

Para ansiar pelas companhias que

Davam sentido às nossas vidas.


Minha vila querida.

O fio que interligou nossos destinos

Conduz meu olhar.

Vai em direção ao lugar onde estavam

As casas que abrigaram

Um pouco das nossas histórias.

Onde lágrimas e risos podiam se misturar,

Sabendo que, em algum momento,

Não faltaria um ombro que se faria amigo.


De tudo o que passei, guardo

O desejo de nunca esquecer as tuas ruas.

E, mesmo quando não puder andar,

Que minhas memórias peregrinem,

Percorrendo tuas calçadas,

No rumo das minhas eternas saudades…