domingo, 31 de março de 2024

Despertares: o desafio da esperança

O primeiro raio de Sol é mágico no dia

Que se segue ao silêncio da morte.

Desenha o colorido da vida por sobre

O despertar de forças

Em que se empenha cada ser humano.

 

Domingo de fé,

Em que crer dá sentido à ressurreição.

Emergem momentos

Em que se aspira vencer

Os limites de todas as possibilidades.

 


Os despertares em que o reinício

Fica impregnado do gosto de superação.

 

Muito tempo não é o mesmo que Eternidade.

Ressurgir-se no eterno desejo de

Fazer do encontro possível

Um degrau da própria fé.

 

A via dolorosa é o desafio da esperança.

Ao mergulhar nas trevas,

Intensifica-se o desejo de que,

No final, ainda exista a Luz:

 

Um Cristianismo que não despreza o caminho,

Nem perde os sinais de que

O Infinito não desiste de alimentar sonhos e utopias!

 

Feliz e abençoada Ressurreição!

sexta-feira, 29 de março de 2024

O Santuário onde mora o teu coração

Não vais encontrar paredes.

Com certeza, não haverá um teto.

Dificilmente

Algum móvel estará no seu interior.

Mesmo assim,

Cintilará com

O cheiro dos raios do Sol ao amanhecer

E a abóboda terá o recheio de risos

Que ecoam pelos vales e colinas.

 


Um santuário...

Não precisas percorrer estradas;

Procurar lugar

Em meio aos parreirais

Que revestem a encosta da montanha;

Aguardar que teu coração bata

No ritmo do repicar dos sinos...

 

A música que se desapega da nave

Prescinde dos instrumentos

E se associa à brisa do fim de tarde,

Quando as últimas cores

Dão forma a um ateliê

Onde se desenham

As lembranças e se esculpem as saudades.

 

O condão que desperta a magia

Pulsa no átrio onde se

Abandonam ansiedades e dores.

Não são as palavras que manifestam

As mais puras súplicas.

Elas se derramam pelos olhos

E tornam bentas as mãos

Que se juntam em prece!

 

A fé se alimenta da esperança

Ou a esperança se alimenta da fé?

Isto já não importa.

Dobra os joelhos,

Fecha os olhos,

Posta as tuas mãos...

 

Ali, quando

Pensaste que tua essência se perdia,

É o lugar em que, finalmente,

Encontras abrigo para o teu espírito.

O oásis em que vislumbras a paz,

O santuário onde mora o teu coração.

 

Relicário do teu silêncio,

Em que te revelas ao Mistério

E Ele acolhe a tua finitude.

 

O sacrário onde

A alma dispensa explicações,

Deixa-se imergir na transcendência,

E no simples fato de apenas viver da fé...

terça-feira, 26 de março de 2024

A Inteligência Artificial, a raposa e as uvas...

Em 1970, completava 15 anos. É desta época as minhas mais remotas lembranças de preocupação com novas tecnologias. Acessávamos televisão com um número reduzido de canais, rádio em AM (amplitude modulada), algum jornal e revista de vez enquanto, e o cinema. Raramente, apareciam circos e teatros populares. Naquele ano, aconteceu a Copa do Mundo de Futebol e ganhei o primeiro radinho de pilhas, com fones, embora se preferisse andar com ele colado ao ouvido, especialmente nas partidas de futebol.


Olhava-se para o futuro sem muita expectativa. Parecia difícil se ultrapassar os anos 2000. Faltavam 30 anos... eram muitas águas passando! Pois elas vieram e se foram. Neste meio tempo, concretizou-se a maior revolução que a comunicação já teve. Os meios convencionais se expandiram, somando-se à informática, internet, robótica, holografia e, finalmente, a Inteligência Artificial. Talvez se tenha dificuldade em dizer o que vai acontecer, mas é preciso reconhecer que fomos, literalmente, atropelados.

Meu gosto por produção de texto levou a sonhar com o computador e as alternativas que oferecia à máquina de escrever. Graças a isto, cheguei a professor em Comunicação Social na UCPel. Novidades se empilhavam. Mais importante do que estar atualizado, foi ajudar alunos a terem noção crítica do que era necessário para desempenhar suas atividades. O encantamento precisava dar lugar ao profissionalismo. Discernindo o meio como instrumento potencializador da sua proximidade com o público leitor.

Aposentado, passei a compartilhar textos por jornais e redes sociais. Infelizmente, depois de um tempo, o próprio leitor se acostuma em receber periodicamente as produções e deixa de comentar. O que é pena, pois quem escreve necessita de um retorno como forma não somente de “acariciar seu ego”, mas de avaliação da qualidade, clareza e compreensão do que produz. O período da pandemia foi o ponto alto do feedback dado pelos leitores que, estando em casa, tinham mais tempo para interagir.

Quando o Google fez seus primeiros experimentos, passei a utilizar o “Bard” e, depois, veio o “Gemini”. Aprontava um texto e já submetia à Inteligência Artificial que faz uma dissecagem, análise do conjunto, com sugestões de interpretação e da forma como pode ser utilizado pelo leitor. É tudo o que se deseja de um amigo “vítima” dos nossos textos quando se quer outra opinião, de quem se debruça sobre o que se produziu e se tem a expectativa do que pode acontecer ao ser publicado, depois de deixar nossas mãos...

Meu caso com a Inteligência Artificial é recente. Reconheço as críticas, mas exploro as potencialidades. Assim como o emaranhado mundo dos computadores, não sei o que se passa na teia de neurônios de cada leitor. Não custa repetir: a Inteligência Artificial é mais um dos meios colocados à disposição das pessoas para que se possa viver melhor. Ao longo da história, os detratores das novas tecnologias parecem como a raposa de Esopo, andando por debaixo da parreira, sem conseguir alcançar as uvas, que estão lá, viçosas e cheirosas. Simplesmente resmunga: “não as quero, elas estão verdes!”

sexta-feira, 22 de março de 2024

A ousadia de se perder na aventura

A lua deixa rastros

Com marcas na ondulação das águas.

Tempo de espera.

As redes estão postas.

O pescador abre o baú das memórias do mar,

Que conhece aqueles que tomam seu

Pulsar como bússola norteando destinos...

 

As lembranças se enfileiram

No breu da noite, onde se turva

O encontro entre o céu e o oceano.

Mergulhas

E, na volta à superfície,

Há um leque de luz

Em que a Lua dá contornos

Ao silêncio que murmura a melodia das marés.

 

As estrelas observam,

Com ciúmes das sereias

Que brincam ao teu redor.

Se ouvires o seu canto,

Não protege os ouvidos.

Deixa-te levar pelo encantamento.

Quando atraem um homem do mar

Sinalizam um farol

Que não ilumina o fim do caminho,

Mas o norte para o aventureiro.

 

No momento em que não houver sequer

Um ponto de luz no horizonte,

Saberás que ali começa um outro mundo,

Na imensidão em que ficaram traços do Infinito.

É o lugar onde,

Quando alguém se despede,

Fica a certeza de que,

Um dia, haverás de reencontrá-la.

 

Como uma oferenda que se entrega ao mar.

Ao terminar a terra dos homens,

Inicia o teu lugar do aconchego.

O porto que referencia chegadas e partidas.

 

Tão logo teu barco quebre

As primeiras ondas em direção ao desconhecido,

Superam a rebentação e

Te aspergem com as bênçãos das marés.

Terás as gaivotas por companhia,

Parceiras na busca pelo alimento

Do corpo e sentido da vida.

 

O olhar absorto ao longe

Chama para

Emergir dos teus sonhos.

Não te importa.

As lágrimas que mareiam teus olhos

Têm o gosto do destino.

A ousadia de quem se perde na aventura e,

No mar, traça o rascunho da própria vida!

terça-feira, 19 de março de 2024

A palavra prostituída

Aqueles que ainda não se cansaram da guerra entre Israel e o Hamas (quem ainda presta atenção à disputa entre a Rússia e a Ucrânia?) atenta para lances que parecem contraditórios, beirando o deboche. É o caso da chamada “solidariedade” internacional em que o primeiro mundo define estratégias para lançar alimentos aos já combalidos e desesperançados palestinos, sem reconhecer que é de seus países de onde vêm as indústrias armamentistas que, no caso, angariam riquezas às custas da desgraça alheia.


Nos bancos escolares, trabalhava com os alunos algumas “palavras prostituídas”. Pode parecer forte, mas é a verdade. Muitas delas foram despojadas do sentido original e passaram a significar coisas completamente diferentes. No caso, “solidariedade” é ato de cuidar de alguém (ou de um povo). No xadrez dos interesses geopolíticos é estratégia de vender a imagem de que se preocupam, sabendo que, em muitos casos, o programado não se tornará realidade, o que não importa, já que ganhou a grande mídia...

Tão triste quanto “avacalhar” o sentido de solidariedade é o que fizeram com a palavra “amor”. Não importa a definição que se dê (e sequer sei se a definição é tão importante assim), é o sentimento de interação entre dois espíritos que passam a necessitar da presença um do outro. Formando casais, amizades, relações familiares... Não importa. O que não pode é ser banalizado para apenas “fazer amor”, como se o ato sexual sugasse toda a energia e monopolizasse o sentido. Também pode ser ato de amor, mas não só...

O papa Francisco tem alertado para a prostituição da palavra “democracia”, sobre a qual falei, aqui, no texto “é possível a amizade social de Francisco?” Transcrevia: “qual significado tem hoje palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas e desfiguradas para utilizá-las como instrumento de domínio, como títulos vazios de conteúdo”. A “democracia” tem sido “boa” para grupos que ambicionam o poder pelo poder e que lutam com unhas e dentes para manter seus privilégios.

Trabalhei durante algum tempo com uma das mais belas áreas do processo de comunicação com interação nas áreas da economia e da administração: o “marketing”. Usava como conceito básico ser “a arte do convencimento”. Defendia que apenas “marqueteiros” (e não profissionais do marketing) poderiam pensar que é a forma de ludibriar incautos, fazendo proselitismo e que o consumidor, seja de produtos ou ideias, tem que ser “convencido” (cabresteado) de que precisa do que se está oferecendo.

Faço um breve resumo, especialmente porque, tenho certeza, o leitor vai flagrar vocabulários que se encontram na mesma situação. A palavra tem sentido, peso e sabor. Aprender a usá-la bem é uma arte, um prazer e uma responsabilidade. Comunicação sem sabor e prazer é comunicação sem graça, sem tempero... Precisam ser acarinhadas e tratadas com respeito. Ao mesmo tempo, da forma sorrateira como é apresentada é para a população uma armadilha de cobras da qual, infelizmente, não há muito como escapar.

domingo, 17 de março de 2024

Amanheceres...

 

Inspiração” é meu novo projeto no mês de março, quando completo dois anos de “Sexta com gosto de poesia”. A forma de te enviar um carinho nas manhãs de domingo. Recebe o meu abraço!