terça-feira, 25 de julho de 2023

A injustiça institucionalizada

Na semana passada, acompanhou-se a notícia de que um ministro do Supremo Tribunal Federal teria sido agredido, junto com seu filho, na Itália, onde estava para “palestra”. O chefe do executivo nacional novamente registrou seu descontentamento com o cardápio que é servido, especialmente nos banquetes oferecidos para autoridades estrangeiras. O Tribunal de Justiça do Estado (TJE) tornou pública a sua “necessidade” de atualizar os carros utilizados por suas autoridades máximas, na bagatela de, em torno, 350 mil reais.


A discussão que, parece, teve lance de agressão ao filho do ministro é das situações em que pessoas que erguem a voz, querendo ganhar no grito, perdem a razão. Vivemos esta situação há muito tempo, mas, agora, autoridades travestidas de indignação, querem tornar mais duras as penas contra quem as agride. Infelizmente, a proteção que é dada a elas é negada à população. A afronta a um servidor público, que não pode se diferenciar do seu patrão: o povo. Confirmando-se que “uns são mais iguais do que outros”.

O presidente da República tem reclamado da comida servida no Palácio Itamaraty, onde são recebidos os visitantes estrangeiros. Num dos seus rompantes, afirmou que briga com o Itamaraty, porque “tem dia que a comida não está boa”. O discurso para todo um país onde uma parcela da população sofre com carências alimentares é, no mínimo, falta de sensibilidade. “Sincericídio” é palavra utilizada para quem acha (como o presidente anterior) que pode dizer tudo o que quer e pensa, porque o “povo” gosta disto...

O TJE precisou explicar o inexplicável: vai gastar 1,79 milhões de reais (358 mil, a unidade) para comprar cinco carros que atendam seus dirigentes. A justificativa é mais difícil de entender: “são gastos com recursos do próprio poder”. Um poder que está dentro de um conjunto do Estado que tem grandes dificuldades de manter serviços elementares, exatamente pela falta de recursos. Os mesmos que o Judiciário julga-se no direito de gastar como lhe aprouver, sem qualquer prurido de consciência...

Em comum? O afastamento que as classes dirigentes arquitetaram, ao se enclausurar em distantes gabinetes e criando legislações que os beneficiam. Uma injustiça institucionalizada. A agilidade para o trato da causa pública somente acontece quando está em jogo os seus interesses. Embora se diga que se tem uma legislação que pode atender ao cidadão, criou-se uma teia de artimanhas jurídicas capazes de fazer processos mofarem em gavetas ou acelerar para quem pode pagar ou está próximo.

A justificativa é sempre de que tudo está dentro da lei. E é verdade. Mas não custa repetir: há muita coisa que é legal e, mesmo assim, continua sendo imoral. Infelizmente, perdeu-se a sensibilidade social e a capacidade de indignação. Quem defende privilégio com penas “exemplares”, ao ser agredido; reclama do cardápio em público; se dá o “direito” de gastar o que o povo não tem... São concursados, eleitos ou agregados, que se perpetuam no poder, constituindo-se em castas que se julgam acima do bem e do mal.

domingo, 23 de julho de 2023

As cacimbas e os poços d’água

Nos últimos tempos, em termos de clima, fomos dos “8 aos 800” num piscar de olhos. Situação como a de Bagé, a mais difícil, mas também do abastecimento de água em Pelotas, tem sido problema, em especial quando grande parte da população se concentra no meio urbano. Da estiagem com racionamento ao ciclone e acompanhantes - as cheias dos rios - foi um estalar de dedos para demonstrar o quanto a Natureza é “imprevisível” quando se despreza os sinais que dá e as medidas preventivas são apenas promessas.

Sou ainda do tempo em que se usavam cacimbas e poços como reservatórios de água. Não creio que as pessoas fossem mais previdentes, mas era menos gente, com hábitos diferenciados de consumo. Banhos, por exemplo, eram em menor número. As cacimbas eram poços mais superficiais, escavados, normalmente, de forma manual, para uso doméstico, sempre na proximidade das casas. Os poços usam equipamentos capazes de fazer perfurações mais profundas, alcançando águas mais internas na Terra.


Ao chegarmos em Pelotas, 1959, lembro de duas cacimbas que já não eram exclusivas, mas auxiliavam no caso de falta. Uma ficava na “chácara dos portugueses”, em frente da minha casa, portanto, particular, necessitando da autorização para uso. A outra, ao lado do atual condomínio Granada, que, então, tinha uma sanga. A rede de distribuição era precária. Ainda não existiam recipientes plástico, como hoje, de diversos tamanhos. Então, para nós, crianças, era uma festa juntar baldes, chaleiras, garrafas e ajudar.

Nas casas, os canos que traziam a água da rua passavam para os pátios, onde era instalada uma torneira que atendia a todas as necessidades. Dali saia água para cozinha, banho, banheiro... Alguns ainda vão lembrar dos banhos de “canequinha” ... Por algum tempo, havia resquícios de bebedouros na av. 25 de Julho, que era parte do Corredor das Tropas. Tanques, com uma torneira, que enchiam para saciar a sede dos animais, levados para os abatedouros. Viravam notícia e aglomeração quando apareciam.

Como vim de Canguçu com 4 anos, não lembro de cacimbas no lugar onde moramos. Ao voltar para visita, admirava a da minha avó e da tia Ester, próxima das casas, passando por lavouras e penetrando num mato fechado, sendo que, ao redor do poço, mantinha umidade e o ambiente propício para os cuidados que tinha com as samambaias e avencas. Além de ser um lugar refrescante, também com outras plantas, era onde me encantava com a presença e a diversidade de pássaros da região da Costa do Sapato.

Na passagem do ciclone pela costa gaúcho, quando deu “preferência” para Rio Grande e Pelotas, parece que o setor público foi pego “de calças na mão”. A grita dos usuários pela luz tinha, implícito, um outro grande problema: a falta de água, que faz parte do dia a dia de forma tão natural que nem se percebe a importância. Que bom que se evoluiu para ter estes serviços em casa. Que pena que embora se pague caro ainda se precise mendigar pelo elementar: que não falte e cumpra o papel de ser um serviço público.

sexta-feira, 21 de julho de 2023

O doce acalento da Primavera


Cada parte do meu corpo antecipa a despedida do Inverno. 

Estendo o olhar para além dos dias frios e úmidos: 

Há sementes que foram colocadas em regos no chão, 

Assim como as que fazem seu ciclo natural. 

Ambas, em seguida, começam a se espreguiçar. 

Quando se sentirem prontas, emergem do leito da Terra, 

Brincando ao escolher cores, formas e perfumes... 

 

O sentimento de que o mau tempo não dura para sempre 

Estimula as sensações,  

Afia o desejo de levantar o rosto  

Para o sol ou para a chuva. 

Na roseira, o broto faz a metamorfose da flor, 

Cumprindo o ritual para chegar à fugaz plenitude. 

 

O tempo dos novos perfumes 

Já se vislumbra no horizonte. 

Com a perspectiva de que o cheiro da grama 

Exale dos primeiros pingos, 

Que se transformam em bênçãos dos Céus. 

As abelhas são as fiadoras da mãe Natureza, 

Assegurando que seu toque de carinho 

Transborde a fertilidade e a continuação da vida. 

Testemunha-se frágeis galhos de flores e ramos  

Que se infiltram por pisos quebrados,  

Rachaduras no asfalto,  

Grades que se sobrepõem aos muros. 

O Inverno é tempo de espera, 

Oportunidade de preparar corpo, mente e alma... 

 

Dê-se ao direito de mudar. 

Esfregue as mãos e 

Esqueça a irritação com o nevoeiro à sua frente.  

No horizonte já vai aparecer uma nesga de sol, 

Tímida, como todos os sentimentos  

Que fazem bem e não têm pressa. 

Quando penetrar pelas janelas do teu corpo, 

Chegar em cada fibra do teu ser, 

Vai aquecer cada uma das sensações 

Que, em ti, anseiam pela nova estação... 

 

Então, é tempo de perder a vergonha. 

Sim, perder a vergonha: 

Dance, eleva as tuas mãos para o alto... 

Primaverar-se é o despertar 

Dos sentidos e dos sentimentos. 

O doce acalento da Primavera,  

A energia que somente tu podes compartilhar: 

A vida que se renova e transborda pelo teu sorriso! 

terça-feira, 18 de julho de 2023

A fome de olho na abundância...

Não sou economista. Fui professor e jornalista, hoje aposentado, mas, antes de tudo, sou cidadão que procura ser bem informado e crítico com relação à realidade. Fiquei atento ao acompanhar informações a respeito da queda dos preços ao consumidor, sendo que uma grande parte dos meios de comunicação (em especial a televisão) apontava os números na relação dos dois anos recentes. Como ninguém iniciou a vida no ano passado, minha preocupação passou a ser: tudo bem, diminuíram os preços e daí?

No histórico, não estamos perdendo? Isto é, preços que foram aumentados em 100% (ou mais, por exemplo), nos últimos anos, agora reduziram em 10% e é suficiente para se comemorar? No frigir dos ovos, quem ganha salário ou benefício – trabalhador, aposentado ou segurado – não teve reposto no seu vencimento aquilo que perdeu ao longo deste período. Veja-se a relação do salário mínimo – que é referência – com a cesta básica. Em 2023, dependendo do estado, gastou-se 400 reais para a alimentação.


Podem confirmar na internet: nas capitais do Norte, a cesta mais barata, como em Rio Branco, custa 341 reais. Nas cidades do Sudeste, a mais cara, em São Paulo, em torno de 450 reais. Em média, a cesta básica representa 53,63% do salário mínimo nacional. Como assim? E os demais gastos como moradia, saúde, transporte, educação, para citar alguns? Isto, falando de quem recebe salário, 34,4% da população brasileira, que coloca no bolso $1.320,00. E já de olho naqueles que perderam seus empregos na pandemia.

Voltam ao mercado com vencimentos achatados. A retomada do emprego tem um viés assustador: diminuiu o valor do salário, tendo como consequência cortes nos gastos, um deles: a comida! O Brasil vinha vencendo gradativamente o mapa da fome. Nos últimos anos, retrocedeu. Se for preciso “desenhar” vou me valer de igrejas, associações, sindicatos, voluntários que organizam almoços, jantas e, muitas vezes, um café reforçado para que um número maior de pessoas não durma de barriga vazia...

“A fome tem cara”, “quem tem fome tem pressa” são algumas das frases que nasceram de pessoas com grande envolvimento social e hoje viraram chavões políticos. Naquela história de que quem diz finge que fala a verdade e quem ouve faz de conta que acredita. Uma massa desanimada e indiferente não entende e não tem condições de esperar por discussões teóricas em que quem discursa ganha em cima da fome de outros. Vencer a fome não é para amanhã com novas promessas de políticas públicas.

A fome de olho na abundância... Hoje, o mundo produz alimento suficiente para toda a população. No entanto, a distribuição privilegia alguns e aumenta a desigualdade social. América Latina e Caribe tem um programa para vencer a fome. Neste fórum, o Brasil se compromete em cumprir a meta até 2030. São escolhas políticas que fazem o mapa da fome... Tristemente, somos cúmplices de uma solidariedade incapaz de resolver um problema elementar. Hoje, é um desafio político que clama por uma consciência social.