quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Acidentes e sobressaltos

Presenciei hoje pela manhã um acidente no centro da cidade. Um carro com dois idosos estava numa preferencial, quando um jovem cortou a rua. Não houve feridos, mas os carros ficaram, praticamente, demolidos. O que me chamou a atenção foi o fato de que os idosos estavam sob uma marquise - chovia bastante - trêmulos, ligando para o filho e repetindo, catatonicamente, "bateram no nosso carro, bateram no nosso carro".
Embora a culpa não fosse do senhor idoso, fica sempre a preocupação com relação a dirigir após uma certa idade, não somente pelo fato de que as reações ficam mais demoradas, mas pelo trauma e a dor que certas situações acabam causando.
Aqueles que estavam à sua volta queriam consolá-los de qualquer forma, mas não havia como: foram vítimas de uma violência e estavam perdendo, possivelmente por um bom tempo, um bem que deveria ser valioso para eles.
Creio que cuidar dos idosos não significa que devemos colocá-los numa redoma de vidro e tirá-los da sociedade. Mas também, numa situação caótica de trânsito, preservá-los de situações traumáticas. Infelizmente, aqueles idosos vão levar um longo tempo para esquecer, se é que vão esquecer. Um acidente assim deixa feridas que não cicatrizam na pele, mas causam sobressaltos pelo resto de uma vida.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Gentileza para compartilhar vida

Sou até chato quando registro o quanto faz a diferença, pessoal e socialmente, quando "cometemos" atos de gentileza. Tive que sorrir, hoje, pela manhã, quando o carro na minha frente parou para dar passagem a um idoso que andava com muitas dificuldades. Do outro lado, um motoqueiro (quase sempre responsabilizados por todos os problemas de trânsito e de incivilidades) também trancou o trânsito para que aquele senhor fizesse o seu percurso com toda a segurança.
Dias atrás fui passado, pela direita e pela esquerda, por quatro motoqueiros. Em seguida, havia uma faixa de pedestres, onde se preparava para atravessar uma mãe com o filho pela mão, sendo que o filho segurava um boneco. Pensei: "estes filhos da .... não vão parar". Queimei a língua: os quatro pararam! E mais, quando já estavam quase do outro lado, o boneco caiu e a criança deu um safanão na mão da mãe, libertou-se e correu para apanhar o objeto. Quase fechei os olhos, pensando na desgraça anunciada. Mas nada aconteceu, os quatro permaneceram esperando que a criança apanhasse o objeto do seu desejo e que a mãe - estresse puro e desespero - alcançasse o pequeno.
Meu ex-colega de escola, Marcos Medronha, escreveu sobre um personagem do Rio de Janeiro, alcunhado de Gentileza, pois encontrou no interiorzão de Canguçu alguém com o mesmo sobrenome, acreditando que o nome também tornava a pessoa portadora das mesmas qualidades. Que bom que fosse, pois precisamos da gentileza para fazer a vida melhor. Precisamos da gentileza para gastar mais tempo com as pessoas do que com nossas preocupações e objetos. A graça da vida está exatamente aí: compartilhar vida.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

"Não foi meu aluno"

Sábado assisti ao último capítulo da novela Fina Estampa, pois, a partir desta semana, minhas noites são tomadas por aulas. Fiquei indignado com a participação de um jornalista, Beto Júnior (personagem de Danilo Sacramento), que anda muito perto de deixar a ética e percorrer o território maldito do jornalismo de espetáculo.
Em duas ocasiões, ele violou os códigos mais elementares do jornalismo: ao invadir um apartamento para forçar uma fonte a lhe dar uma entrevista e, ao realizar a entrevista, distorcendo o que a fonte dizia, além de dizer que já tinha opinião formada, contrária à pessoa que estava ouvindo.
Fiquei chocado e tive que pensar: "não foi meu aluno". Logo, tive que voltar atrás, ao lembrar de muitas ocasiões em que alunos já no mercado diziam que "na prática, a teoria é outra". Um quadro surreal em que narravam situações em que tinham sido orientados para exacerbar uma situação emocional, de tal forma que pudessem registrar lágrimas, muitas lágrimas.
Ouvi outras pessoas, que também disseram algo semelhante: Danilo Sacramento conseguiu um personagem que deixa uma boa parcela da população indignada. Mas é claro, jornalistas assim não são a regra, mas exceções: agredir as normas da ética não fazem um bom jornalismo, mas criam, ao contrário, o constrangimento e a descrença, o que é ruim para todos. Na verdade, tenho o prazer de dizer que a maior parte daqueles que passaram por nossas salas de aula dão exemplo de um jornalismo que deseja colaborar para tornar a sociedade melhor e mais solidária.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Dinheiro fácil


Artigo de maio de 2005. Infelizmente, a realidade não mudou muito.
Nos últimos dias tem se tornado uma constante o anúncio de instituições que oferecem dinheiro fácil. É o caso de bancos que emprestam para idosos, como também o do governo querendo institucionalizar mais uma loteria com a finalidade de auxiliar os grandes clubes de futebol.
Não consegui desvincular esta informação de uma outra, também muito comum, que é o caso do golpe da premiação, que aparece das mais variadas formas, hoje, inclusive, por telefone ou por internet.
O que tem em comum? O oferecimento de dinheiro fácil. Mas a que custo? Aí é que está o problema.
Com relação aos golpes, é sempre bom prevenir, especialmente os mais idosos, de que premiações desproporcionais ao investimento não existem. Ou são muito difíceis. Não passem dados por telefone e liguem para alguém pedindo orientação. Se for o caso, até para a polícia. E quem tem familiares idosos, previnam. É o melhor remédio.
No caso de oferecimento de empréstimos para aposentados, é bom que se dê conta de que, a partir daquele momento, uma parcela fixa do seu salário vai ser automaticamente descontada. Não tem como voltar atrás. E tem juros. Portanto, usem somente se precisarem, numa emergência. Se não for o caso, a velha dica ainda vale: poupar, juntar dinheiro para fazer aquela viagem ou comprar algo com o que estão sonhando.
Já a nova loteria é um atentado. Seguindo este raciocínio de que os clubes precisam de auxílio, quantas outras loterias precisariam ser criadas, já que grande parte da população está enfrentando problemas com as suas finanças.
Infelizmente, há uma cultura do brasileiro de que poderá solucionar seus problemas financeiros por um milagre vindo de uma loteria. Esqueçam. Não há milagres para resolver problemas econômicos.
Há esforço, muito esforço para resgatar o cheque especial, conseguir uma poupança para os investimentos que se deseja. Nada é para ontem. Bem pelo contrário, deve ser uma programação a médio e longo prazo.
Mas não desista, o contrário é naufragar na insegurança e na angústia que se vive quando desajustamos nossa saúde financeira.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Porque devemos silenciar mais?


Do meu livro "Remendos e arranjos", a segunda história sobre um Mestre e seu Aprendiz.
O Aprendiz estava à beira do pequeno lago e brincava atirando pequenas pedras contra o espelho d’água. Ele alternava formas rápidas e precisas, com outras vezes em que jogava para o alto as pequenas contas que, igualmente, iam mergulhar de encontro aos seixos. Observando à distância, o Mestre pensou que somente podia ser uma brincadeira de criança. Aproximou-se, dizendo:
- Também sou bom em atirar pedras na água. Quando era da sua idade, no mosteiro em que morávamos, tínhamos um grande lago, onde, quando nos era permitido, gostávamos de chapinhar com as pedras, vendo quem conseguir fazer com que elas deslizassem mais até mergulhar. Você está gostando de brincar com as pedras na água?
- Meu amado Mestre, eu não estou brincando com as pedras na água.
O Mestre fez-se de sério e perguntou:
- Então o que foi que eu vi, vindo por este caminho, e com estes olhos que a natureza vai pedir de volta um dia?
Tranquilamente, o pequeno garoto apanhou uma nova pedra e jogou-a na água, agora quase a soltando, fazendo com que a agitação da água fosse pouca e o barulho menor ainda.
- Posso saber, então o que fazes?
- Eu me preparo para ouvi-lo.
- Creio que não entendi!
- É muito simples. Quando estou agitado, o que o senhor diz é como a pedra que lanço muito alto e quando ela cai faz mais barulho e buliço do que sentido.
- E quando você a solta como agora a pouco?
- É como se eu estivesse me preparando a longo tempo para ouvi-lo. Neste caso, estou preparado e o que diz cala dentro de mim, pois eu envolvo suas palavras com todos os meus sentidos.
Era melhor pensar em alguma coisa para argumentar. Mas não encontrou. Teve vontade de experimentar jogar uma pedra das duas maneiras, para ver como estava se comportando nos últimos tempos. Mas já sabia que havia muito agito e pouca serenidade; muito buliço e pouca capacidade de silenciar. Quem lá em cima prepara esta pequena estrela para dizer estas verdades? Quando lá chegasse iria precisar de uma pequena cadeirinha, sentar-se diante do Deus e pedir-lhe explicação.
- Mestre, porque o senhor quer explicações de quem já lhe deu todas as chances de compreender? Quando chegar lá em cima, não vai precisar de explicações. Você já vai ter entendido tudo!
Era uma grande verdade. Mas também era verdade que estava precisando, com urgência, controlar seus pensamentos. Mas era hora de voltar aos demais meninos e aprender como é difícil ser pai.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"É tudo tão simples"

O programa Mais Você (Rede Globo, Ana Maria Braga e Louro José) entrevistou na manhã desta sexta a jornalista e escritora Danuza Leão. Uma agradável surpresa para quem conhecia a socialite e desconhecia a autora de "É tudo tão simples", que já se transformou numa espécie de livro de autoajuda para quem deseja exatamente isto, uma vida mais simples.
Dando por exemplo a própria vida de quem saiu de um super apartamento para um apartamento de um quarto, vai mostrando o quanto a vida fica mais leve se somos capazes do desapego e de seguir uma certa normatização de etiqueta.
O desapego vai num exemplo concreto, onde um objeto ou roupa que não se usa durante um ano inteiro (um ciclo que se completa com todas as estações), pode ser descartado: doado ou encaminhado para vender.
A etiqueta, que definiu como "pequena ética", são as normas de boas maneiras e de bom relacionamento, capaz de tornar nossas relações mais fáceis. Lembrei da novela Fina Estampa, de ontem, onde Danielle Fraser (personagem de Renata Sorrah) tenta ensinar etiqueta ao seu namorado Enzo (Júlio Rocha), como o jeito de abrir uma garrafa de vinho ou de utilizar os talheres.
Achei que o filho do peixeiro iria debochar, mas aconteceu exatamente o que Danuza apregoa: a etiqueta não é apenas para tornar chique algum tipo de evento, mas estabelecer normas que sejam assumidas por todos e facilite a vida de todos.
Ao fazer uma revisão, claro que todos nós encontramos momentos de apegos desnecessários, assim como da vivência de normas de etiqueta, traduzidas em atos simples, como o segurar uma porta aberta para alguém, respeitar a faixa de pedestre ou um simples "bom dia". "É tudo tão simples" e a vida merece ser descomplicada.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Grenal e o dia seguinte

Uma olhada rápida no Facebook e lá está a deitação dos gremistas sobre os colorados pela vitória de ontem, que eliminou o Internacional. Tem coisas muito criativas e tem, também, muita gente com dor de cabeça, não pensando em sair ao sol, nem encontrar o adversário corneteiro.
Já fui um colorado mais praticante. Hoje, nem terminar de ver um jogo tenho paciência. Para mim, que vi apenas o primeiro tempo, o jogo terminou empatado. Consolo-me com isto.
Mas, em outros tempos, meados de 1970, estava em Porto Alegre e acompanhei as duas disputas finais do Brasileirão. Na flor dos meus 20 anos, entrávamos para o estádio no meio da manhã para um jogo que iria iniciar apenas às cinco da tarde. Dia seguinte, óbvio, não havia voz! Mas era uma festa que deixava o Beira Rio e se estendia até a Glória Gruta, onde sempre ficava.
Na infância, torcedor do Pelotas, confesso, não sei porquê. Quando fui para o Seminário, descobri que existia Grêmio e Inter, por um simples motivo: numa turma de 18 alunos, 16 eram gremistas, um (o Cleiton, de Pedro Osório) era colorado e eu, que não sabia da existência dos dois times. Por solidariedade, fiquei colorado e foi o último campeonato do Grêmio, que ficou hepta. No ano seguinte, o Inter iniciou a sequência que o levaria a ser oito vezes campeão gaúcho.
Para muitos, futebol é como religião. Há uma liturgia até na forma de se preparar para ir ao estádio: mesmo relógio, mesma roupa, sentar no mesmo lugar, ouvir a mesma rádio e sofrer. Mas é uma sofrimento que, entre lágrimas e risos, sempre gera uma boa discussão, uma boa flauta, aquele agito que os antigos já advertiam: "religião, mulher e futebol, não se discute". Atualizando: "se lamenta", especialmente o caso dos adversários.