segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um homem de Deus

Conheço o padre Alberto desde o tempo em que ele era o “irmão Alberto”, atuando no Colégio Gonzaga, na esquina com a Catedral de São Francisco de Paula, em Pelotas, onde atendia crianças da catequese. Mas sempre sobrava um tempinho para atravessar a rua e chegar ao Secretariado de Pastoral, onde mantivemos boas e agradáveis conversas. Depois, cada um seguiu sua vida e fiquei contente quando soube que ele alcançara um sonho: ser ordenado sacerdote. Um padre com discurso claro, forte, sempre incentivando as pessoas a buscarem uma espiritualidade forte, além de uma formação adequada, em especial, no caso, a fundamentação nos documentos da Igreja Católica.
Reencontrei-o nas oportunidades em que fui convidado para palestrar no Cenáculo (um retiro espiritual Mariano), onde foi, até recentemente, orientador espiritual. Continua a sê-lo, mas, agora, com idade avançada, precisa de outro sacerdote que o auxilie, pois a bengala já é um suporte, a energia já demanda maior atenção e a voz e a leitura precisam de cuidados. Num domingo frio pela manhã, encontrei-o lendo um dos documentos do Vaticano, antes de uma palestra. Tirava o sono dos eleitos. Tranqüilo, sereno, passando exatamente aquilo que fez durante toda a vida: a certeza de uma vida bem vivida, na santidade de quem entendeu no homem sua capacidade de superar barreiras, a cada momento, com a fé que se realiza no dia-a-dia.
Fiquei olhando para aquela figura e lembrando as diversas ocasiões em que teve que se afastar de suas atividades para tratamentos, especialmente na luta contra o câncer. Uma luta silenciosa, sem cobertura da imprensa, mas com a oração e o carinho de amigos granjeados ao longo de uma vida de testemunho. Claro que a lembrança me veio a partir do exemplo do vice-presidente José Alencar, que está permanentemente entrando e saindo de hospitais lutando pela vida. Em que os casos são parecidos¿ em ambos há o sentido de lutar pela vida que transcende apenas a duração da existência. Passa pela luta da dignidade própria e dos outros e de valores religiosos e espirituais impregnando a própria existência.
Tenho no padre Alberto um homem de Deus. Sei que foram muitas as lutas para chegar à idade que chegou com a lucidez de enfrentar os problemas próprios e dos outros sempre com a serenidade dos homens especiais. E homens especiais são aqueles que nos marcam pela capacidade de compreensão, pelo testemunho e pela fé que vivem e transpiram.

sábado, 18 de julho de 2009

Braços abertos para a vida

Pode parecer pretensioso que entidades e igrejas de Pelotas direcionem esforços para a realização de um “Fórum de Cultura da Paz”, mas, ao invés de discursos, o que ouvi dos professores Veiga, Marco Antônio e Alessandra foram testemunhos de pessoas que lutam para que ações construam a diferença no dia-a-dia da família, da escola e da religião. Confesso que depois de tantas palestras, mediação em debates ou assistir, fui com o intuito de motivar, mas sem esperar nada de novo. Com um “ritmo quase parando”, o Veiga falou dos acertos e dos erros em família e cada uma de suas palavras calou fundo, passando pela experiência de consumo de droga de pessoas mais próximas e a certeza de que as vitórias são construídas no dia a dia. Com fé e muito carinho.
O professor Marco Antônio mostrou a experiência de sua escola em buscar a inserção em cada disciplina, assim como atividades ao ar livre, de uma cultura de paz. O início pelo próprio colégio e hoje quando outras instituições educacionais somam-se à sua experiência. E o toque final ao contar a experiências de familiares e de alunos, necessitando da família, dos amigos e de apoio na fé.
Quando pensei que mais nada tão comovente poderia ser dito, a professora Alessandra, de estrutura física reduzida, mas de espírito forte e batalhador, contou a experiência passada na Escola Lima e Silva, num dos bairros mais pobres de Pelotas, a Guabiroba. A motivação para as artes, os esportes, o incentivo à cidadania, como elementos fundamentais para ensinar valores e referências e, até mesmo, buscar jovens que experimentaram a droga. Uma das mães presentes deu o seu testemunho com relação ao trabalho na Guabiroba, dizendo que seus filhos passaram pelo crack, mas a persistência da professora Alessandra, dos professores e alunos havia trazido de volta os dois rapazes. E a luta, todos os dias, para se “manterem limpos”.
Não fiquei para a segunda parte dos trabalhos. Não precisava. Já estava envolvido pelo Fórum e disposto a fazer todo o possível para que ações de paz sejam implantadas. Em comum, a luta que precisa, urgentemente, de atenção: contra o consumo de drogas. Ou, como evitar que nossas crianças e jovens fiquem expostas a elas. Em todos os casos, carinho, presença, nada de supostas “lições”. E a certeza de que há uma volta, realizada todos os dias, na esperança de que filhos, sobrinhos, irmãos, netos encontrem Veigas, Marco Antônios e Alessandras de braços abertos para a vida.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O sentimento da indignação

Dona Águeda tem 78 anos. Lúcida, ágil, andava por toda a cidade fazendo as atividades de banco, compras, ou apenas passeando. Mas na semana passada ela teve um braço machucado e a alma ferida. Embora seguindo todas as “normas de segurança” – a bolsa junto ao corpo, zíper para frente, segura com firmeza – foi literalmente atropelada por um assaltante que não teve nenhuma preocupação em seguir os “itens de segurança” e deixou-a com o braço dolorido e, agora, com a perda da confiança de que podia fazer tudo sem temor de que algo lhe acontecesse, nas ruas por onde andou durante toda uma vida.
Roubaram os 465 reais da aposentadoria - e toda a sua documentação - com os quais contava para a alimentação e a compra dos remédios, já que os filhos mantêm os demais gastos. Mais do que isto, ficou em sua cabeça a dúvida e o medo de andar pelas ruas, tornando-a refém em sua própria casa, de onde não quer sair mais, a não ser até as grades que a separam da rua e trancando todas as portas e janelas, tão logo comece a escurecer.
Numa destas manhãs, num programa de televisão, um especialista em segurança apontava os cruzamentos de uma grande cidade – São Paulo – como um dos pontos mais problemáticos e onde acontece o maior número de assaltos. Cético diante destas “autoridades”, fiquei esperando que sugerisse a retirada dos cruzamentos! Mais ou menos como a história de que para não acontecer “algo a mais”, os pais retiram o sofá cama da sala, reduzindo os amassos amorosos!
Uma situação que beira o ridículo. Mas todas as técnicas ensinadas eram para beneficiar o ladrão: como guardar a bolsa, como entregar a carteira, como favorecer que este gastasse o menor tempo possível em sua “atividade profissional”, evitando a sua irritação e, consequentemente, que utilizasse de arma de fogo. Foi então que a apresentadora ficou indignada e colocou exatamente isto: como é que foram invertidos os papeis e aquilo que deveria ser um direito nosso – a segurança – transformou-se num pesadelo? Silenciaram o repórter e o especialista, porque não tinham o que dizer.
Dona Águeda não quer mais andar na rua. As pessoas circulam com os carros fechados, evitando assaltos. Enquanto isto, os meliantes andam livres, leves e soltos. E as nossas autoridades dão conselhos, mas ficam devendo ações efetivas que contenham o sentimento de indignação e de frustração pela futilidade como se perdem vidas e valores que deveríamos ter o direito de ver preservados.

domingo, 5 de julho de 2009

Vencendo o cigarro

Estamos cercados, hoje, por campanhas que combatem as drogas ilícitas, mas são raras as entidades que falam das drogas lícitas. É o caso da Universidade Católica de Pelotas ao desenvolver a campanha “UCPel mais saudável“, mostrando os problemas causados pelo cigarro, tanto para quem consome, quanto para aquele que se torna fumante passivo, além de fazer as pessoas perderem a noção de respeito pelo seu semelhante, jogando fumaça em todas as direções.
“A saúde é minha e faço dela o que eu quiser”, foi o que ouvi de um entrevistado sobre as campanhas contrárias ao tabagismo. Há dois problemas nesta frase: ela é “umbigocêntrica” (coloca o mundo ao redor do seu umbigo) e, nos casos em que o fumante começa a degenerar, faz com que sua família tenha que arcar com responsabilidades desnecessárias numa outra opção de vida. Foi mais inteligente outro depoimento ao falar dos benefícios que conseguira, quando largou o cigarro: “faço de cada dia da minha vida um novo dia para estar longe do vício. E sinto meu corpo revigorado, consigo fazer coisas que não fazia sem palpitação e cansaço. Hoje, recuperei os sentidos do gosto e do odor”.
Tanto entre alunos, quanto entre professores, pude ver a felicidade daqueles que, por conta própria, ou com auxílio, conseguiram ficar livres do tabagismo “apenas por um dia a mais”. E é assim mesmo que acontece. Como em qualquer outro vício, num primeiro momento é preciso passar pela desintoxicação e, em seguida, viver dia a dia com a graça de que se venceu apenas um dia, para poder vencer por toda uma vida.
Quando o professor Roni Quevedo pediu que eu falasse respeito, achei estranho, pois nunca prestara atenção ao assunto. Observando campanhas em meios de comunicação e perguntando a respeito, tive a noção da gravidade do problema. Embora seja uma droga menor, seus efeitos são maléficos para o corpo, assim como para as relações sociais: pois se passa a achar que a fumaça não causa problemas, que “ninguém tem nada que ver com isto”, que eu “largo quando quiser”, ou se sai furtivamente para a rua para “um cigarrinho”...
A campanha está no caminho certo: faz bem à saúde do corpo, faz bem à higiene dos ambientes e libera energia. Energia que utilizada de outra forma pode render mais, quem sabe numa salutar experiência de viver livre de dependências, sentindo todos os gostos e odores oferecidos graciosamente pela natureza.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O fundo do poço

O repórter fazia a entrevista e mostrou-se decepcionado quando o médico que trabalhava com a recuperação de jovens dependentes químicos afirmou que cerca de dez por cento dos que usam drogas são plenamente recuperados: “tão poucos!?” E, da serenidade de quem aprende lições com a vida, vivendo cada dia, recebeu a resposta: “Valeria a pena se apenas um deles pudesse nos dizer que estava a um longo tempo limpo”.
Pois tive esta mesma impressão quando, recentemente, um pai me contou o quanto haviam precisado de cada reserva de suas energias para fazer com que, ao longo de dois penosos anos, vencessem a dependência do filho. Tudo iniciou quando o jovem começou a ter medo de perder o emprego, pois não se julgava preparado para enfrentar os novos desafios que se apresentavam. Depois, foi a vez de se julgar inseguro também na escola; tinha medo de que, sem uma preparação adequada, também não pudesse enfrentar o seu grande desafio: o vestibular. E a saga ficou completa quando recebeu a notícia de que a namorada estava grávida.
A partir dali, tudo desandou. Do álcool passou às drogas leves e destas àquelas mais pesadas. O fundo do poço acabou sendo numa ocasião em que, completamente chapado, conseguiu passar uma mensagem por celular dizendo que estava numa praia e que não tinha condições de retornar para casa. Descreveu-me como “um olhar vazio, num corpo já quase sem vida”. Levaram-no para casa, com muito carinho, sem falar absolutamente nada. E procuraram ajuda. Foram instruídos a tentar ajudá-lo a enfrentar seus traumas, revertendo cada um de seus medos. Sempre com mais ação e menos conselhos, mas com testemunhos de que, em qualquer circunstância, eles estariam ao seu lado.
Foi o que aconteceu: o jovem, amparado pelos pais, irmãos e amigos, procurou a desintoxicação e depois orientação. Mas, em qualquer etapa, mesmo as mais difíceis, aprendeu que, em momento algum, estava sozinho, e que nunca havia sido sufocado. Creio que foi exatamente o que aconteceu com estes dez por cento que entraram em recuperação: mais do que técnicas para uma recuperação, tiveram o amparo, o carinho e o ombro amigo de quem nunca os quis abandonar, nem deixá-los à mercê de seus medos.
Fiquei emocionado ao saber tudo por que tinham passado. Tive que perguntar de onde haviam tirado tanta força para tornarem o filho um vitorioso e recebi um sorriso: “faria isto quantas vezes fosse necessário. Ele é meu filho!”. Nem precisaria ter feito a pergunta. O motivo era bem maior do que a causa.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Um diploma cidadão

Surpresa. E revolta. Não poderia ser outro o sentimento, ao receber o veredito do Supremo Tribunal Federal, por oito votos a um, de que a profissão de jornalista não precisa mais ser exercida apenas por aqueles que alcançaram diploma de curso superior.
Com uma argumentação que beirou o deboche, os ministros liberaram a ponta do iceberg, pois abrem as condições para que outras profissões na área de humanas e sociais, também sejam liberadas de formação superior, ou qualquer tipo de formação.
Já argumentei, anteriormente, que posso atuar na área da psicologia ou do direito. Mas não é só, por conhecimentos adquiridos, também posso lecionar na área da sociologia, filosofia, história, geografia...
É pena que a sociedade não tenha se dado conta de que, mesmo que a formação não seja a melhor que almejamos, ainda adequa mais o profissional à sua atuação em Jornalismo. Podemos questionar, alimentar a discussão e fazer mudanças em currículos, mas entregar à sanha de empresários a definição de quem é competente é muito perigoso.
Ao que tudo indica, exatamente por sua formação, o Jornalismo passou a ser perigoso para o Poder Judiciário, pois resolveu escancarar as suas entranhas. Passando pelo fato de que o Poder Executivo e o Poder Legislativo já vinham sendo denunciados, restou uma mesquinha vingança contra o chamado "quarto poder".
Perdeu o processo democrático. Os homens públicos que fizeram isto esqueceram que são pagos pelo povo para defender os valores dos cidadãos e não os próprios. Abriu-se uma porteira que dificilmente será fechada e que lançou o caos à regulamentação da maior parte das profissões. Por todas as situações de risco que encara, pelos perigos constantes e pela capacidade de denunciar os "cadáveres insepultos", o diploma do jornalista é, com certeza, um diploma cidadão.

domingo, 14 de junho de 2009

O vírus da violência

Nesta transição entre o calor do verão e o frio que já inicia no Outono, é comum a recomendação de que “todo o cuidado é pouco”. Vale utilizar bastante roupa, tomar algo quente para manter o calor do corpo, ou até fazer alguns exercícios. E há, também, a vacina, que ajuda o organismo, aumentando suas defesas e prevenindo das famosas gripes.
Mas já não se fazem mais gripes como antigamente e a mais recente a preocupar o Mundo ganhou um nome científico e popularmente ficou conhecida como “a gripe do porco”. Infelizmente, o porco foi apenas uma “incubadora” de vírus, que ali se instalaram, se misturaram e criaram novos, capazes de assustar não apenas o México, onde surgiu, mas causar mortes em diversos países, continentes a fora.
É interessante que tanto o vírus da gripe quanto o do porco podem, em estado avançado, causar a morte e, por este motivo, tomam-se as preocupações possíveis: autoridades sanitárias fiscalizam, cientistas buscam vacinas eficazes e todos ficam alerta para não se transformar na próxima vítima.
Pena é que ainda não se nomeou devidamente o maior de todos os “vírus” que já apareceu na humanidade: ele se faz presente especialmente nos finais de semana e ceifa a vida especialmente de jovens, a maioria do sexo masculino, contaminados pela violência. Esta já é uma pandemia brasileira, capaz de acabar com mais de 30 vidas num feriadão, entre acidentes de trânsito e uso de armas.
Autoridades e meios de comunicação tentam fazer campanhas para conscientizar motoristas que fazem de suas motos, carros, caminhões, armas que acabam com a esperança de pessoas que morrem ou que têm o futuro comprometido por ficarem com seqüelas. Mas a única campanha que mostrou resultado foi quando começaram a sentir que perderiam carteiras, veículos ou teriam que pagar multas pesadas. Mas estas blitz, infelizmente, não prosperaram.
Aqui no Estado, um grupo de comunicação desencadeou campanha contra o crack, mal que assola as cidades, desde crianças até pessoas adultas. Seguidamente, são mostrados criminosos presos por fornecer a droga, mas o que a polícia aponta como ação inibidora é apenas a ponta do iceberg, um nada comparado ao que circula em porta de colégios, festinhas badaladas e pontos de venda que todo mundo conhece, mas...
Infelizmente, impera a indiferença, que assusta, pois a facilidade em tirar uma vida ou de propiciar elementos para que a própria pessoa se destrua é um caminho difícil de ser revertido. Vivemos um tempo crucial: além de agir, é bom rezar para encontrarmos uma vacina que atue na mente e no coração do próprio homem.