Na fila para pegar comida. Atrás, dois rapazes conversavam, acompanhados por um menino na faixa dos 10 anos, que ouvia atento... Discutiam números da violência, em especial de assassinatos, que diminuiu na comparação com o ano passado. O pai do pequeno destacou que o feminicídio aumentou, com uma "pérola": "também, as mulheres querem tanto ir para a rua... e do jeito que vão... só podem se dar mal".
No Dia dos Pais, meios de comunicação destacaram que homens se tornam mais sensíveis quando acompanham o desenvolvimento dos filhos. Foto hilária se tornou símbolo de fofura do rapaz que - para se fazer presente na vida da filha de quase dois anos - vestiu roupa de bailarina e tirou fotos com boas e gostosas risadas...
Ninguém nasce preconceituoso. Aprende-se no convívio da família e grupos sociais. O preconceito com as mulheres é violência que se introjeta na formação de valores e referências. A repetição de discursos como do primeiro pai inculca sentimento de "superioridade", "senhor de todas as coisas" e, ao ser desagradado, o "direito" de resolver à sua maneira, com a cumplicidade omissa de vizinhos e "amigos".
A população se conscientiza enquanto é lembrada, mas tem memória curta. Em seguida, se interessa por outros assuntos e joga estes no esquecimento. Temas fundamentais como prevenção da saúde e uma sociedade sem violência precisam ser repetidos (de forma diferente) todos os dias, todos os meses, todos os anos...
Martin Luther King, falando do preconceito racial, sabia que não veria o momento em que negros e brancos coexistissem em paz. Mas precisava pregar repetidamente para se concretizar um dia... Comparava com o patriarca Moisés, que libertou o povo de Israel do Egito e viu mas não conseguiu entrar na Terra Prometida. Da mesma forma, intuía um novo tempo para seu povo que precisava vencer as próprias limitações.
Falar de feminicídio é mostrar o quanto uma sociedade machista e patriarcal marginalizou o papel da mulher. Respeitar direitos não é "guerra dos sexos", mas dar a cada um a possibilidade da sua realização. Vamos levar muito tempo para que haja uma educação que liberte dos ranços disfarçados de brincadeiras, piadas, descasos...
Homens que choram, brincam, solidários no sofrimento da companheira no parto não perdem a masculinidade. Ao contrário, transformam mulher e filhos em parceiros e amigos por toda uma vida. Uma nova cultura inicia quando existe a consciência de que não há filho perfeito, nem pai perfeito; mas que o primeiro vai ter o segundo como referência... Aceitar e conviver com pequenos e grandes defeitos faz parte do desafio sublime de ajudar a construir a identidade de um novo ser humano!
terça-feira, 13 de agosto de 2019
sábado, 27 de julho de 2019
Filhos especiais do Sagrado Coração de Jesus
Tenho tido a alegria de ser convidado por diversos grupos de pessoas que são formadores de opinião para conversar a respeito de Comunicação (por ser minha área profissional), mas também de situações que relacionam Igreja e Sociedade, no papel de leigo com formação e disposição de auxiliar àqueles que tem marcada atuação em dar sentido ao pedido dos bispos em Aparecida: ser "a presença do Mundo no coração da Igreja e a presença da Igreja no coração do Mundo".
No fim de semana de 20 e 21 de julho trabalhei "comunicador, comunicação e pastoral" com os Diáconos da Arquidiocese de Pelotas. Quando o Hélio Madruga (coordenador diocesano) me convidou, pedi que tivessem na sala onde trabalharíamos uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Armamos um pequeno altar ao lado da mesa principal, para onde convergiu nossa espiritualidade, no início da atividade, assim como ao finalizá-la. Mas, durante todo o tempo, ali estava uma referência tão necessária: o sinal da misericórdia de Deus!
Para ilustrar o que desejava que gravassem do encontro, contei a história do padre Fábio de Mello. Disse que todas as noites a mãe reunia a família em torno do Sagrado Coração de Jesus para rezar. O menino ficava admirado com aquela imagem que tinha o coração do lado de fora do próprio corpo. Um dia resolveu perguntar. A mãe era (e é) pessoa simples, pensou um pouco e disse que não sabia. Mas que o seu próprio coração lhe dizia que o fato de estar pelo lado de fora do peito significava que o seu amor pelas pessoas era tão grande que não podia ser contido dentro do corpo!
Ao longo de toda a tarde, fiz questão de que, novamente, voltassem os olhos para a imagem, pensando que homens que são sagrados como Diáconos Permanentes são filhos especiais do Sagrado Coração de Jesus! A Igreja chama, especialmente casados, que se dedicam a ajudar na vida da Liturgia, da Pastoral, do serviço social e caritativo. Como é dito nos Atos dos Apóstolos; "escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria".
Como resultado, temos hoje a formação de um quadro de pessoas que atuam em diversos setores da Igreja. O alerta é que não são "padres em miniatura", mas sim leigos escolhidos por Deus para serem presença na sociedade. Falávamos da necessidade que têm de andar e fazer presença nos lugares onde moram, trabalham, estudam, convivem com as famílias e amigos...
No mês em que rezamos pelas vocações (agosto), convido a orar pelos Diáconos. Assim como pelos ministros e ministras. Eles têm um papel importante no serviço ao Reino de Deus. Estão no Mundo como sinal da misericórdia do Sagrado Coração de Jesus e é dali que trazem os elementos para que se reze a vida do povo e devem ser a boa e saudável presença que transforma a religião num lugar de esperança!
No fim de semana de 20 e 21 de julho trabalhei "comunicador, comunicação e pastoral" com os Diáconos da Arquidiocese de Pelotas. Quando o Hélio Madruga (coordenador diocesano) me convidou, pedi que tivessem na sala onde trabalharíamos uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Armamos um pequeno altar ao lado da mesa principal, para onde convergiu nossa espiritualidade, no início da atividade, assim como ao finalizá-la. Mas, durante todo o tempo, ali estava uma referência tão necessária: o sinal da misericórdia de Deus!
Para ilustrar o que desejava que gravassem do encontro, contei a história do padre Fábio de Mello. Disse que todas as noites a mãe reunia a família em torno do Sagrado Coração de Jesus para rezar. O menino ficava admirado com aquela imagem que tinha o coração do lado de fora do próprio corpo. Um dia resolveu perguntar. A mãe era (e é) pessoa simples, pensou um pouco e disse que não sabia. Mas que o seu próprio coração lhe dizia que o fato de estar pelo lado de fora do peito significava que o seu amor pelas pessoas era tão grande que não podia ser contido dentro do corpo!
Ao longo de toda a tarde, fiz questão de que, novamente, voltassem os olhos para a imagem, pensando que homens que são sagrados como Diáconos Permanentes são filhos especiais do Sagrado Coração de Jesus! A Igreja chama, especialmente casados, que se dedicam a ajudar na vida da Liturgia, da Pastoral, do serviço social e caritativo. Como é dito nos Atos dos Apóstolos; "escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria".
Como resultado, temos hoje a formação de um quadro de pessoas que atuam em diversos setores da Igreja. O alerta é que não são "padres em miniatura", mas sim leigos escolhidos por Deus para serem presença na sociedade. Falávamos da necessidade que têm de andar e fazer presença nos lugares onde moram, trabalham, estudam, convivem com as famílias e amigos...
No mês em que rezamos pelas vocações (agosto), convido a orar pelos Diáconos. Assim como pelos ministros e ministras. Eles têm um papel importante no serviço ao Reino de Deus. Estão no Mundo como sinal da misericórdia do Sagrado Coração de Jesus e é dali que trazem os elementos para que se reze a vida do povo e devem ser a boa e saudável presença que transforma a religião num lugar de esperança!
terça-feira, 9 de julho de 2019
Frio: mãos que alcançam esperança
O frio dos últimos dias despertou em muitos gaúchos o espírito de solidariedade. Multiplicam-se ações de pessoas e grupos mobilizando a sociedade para dar àqueles que se encontram nas ruas - ou com dificuldades pela pobreza - alimento, roupas e cobertas. Entidades de todos os tipos - como clubes de futebol, grupos religiosos - mostram o que temos de nobre: não basta estar bem se ao redor outros passam mal.
Alguns ainda resmungam que é preciso ensinar a pescar ao invés de dar o peixe. Princípio aplicável a médio e longo prazo, mas que, na iminência das pessoas congelaram ou entrarem em desespero pela fome, o que se pode fazer é atender ao imediato e, depois, cobrar das autoridades públicas que use bem o nosso dinheiro.
Os meios de comunicação encantam com as belas imagens como o crepitar da chama de um fogão, a geada encobrindo os campos e os lagos, a neve pintando de branco ruas, árvores, carros... Ao mesmo tempo, homens e mulheres saem às ruas enquanto quase toda a população dorme ou se diverte para deixar embaixo de uma coberta de papelão ou no costado de um cachorro que aquece seu dono, uma caneca de café ou de sopa, um pedaço de pão e uma oração...
Não importam os nomes, são servidores do bem, identificados por crença religiosa ou valores humanos, acreditam que desapego começa por gastar o próprio tempo prestando serviço a alguém desamparado. Pais contaram de jovens que se reuniam em comunidade para arrecadar donativos, preparar o sopão, acondicionar em caixas de leite e peregrinar por lugares onde encontravam pessoas que obtinham daquela forma a única alimentação decente do dia. Detalhe: aprenderam a também cuidar de suas coisas e do que era comum em casa na experiência de cuidar de alguém na rua...
A Campanha do Agasalho de 2019, do Governo do Estado, diz que "toda a roupa tem uma história e toda a história pode ter um outro final". A solicitação de doações vem acompanhada de um pedido de conscientização: doar o que ainda se pode usar. Isto é, não apenas se livrar de algo indesejado, sobrando ou atrapalhando dentro de casa.
Li em algum lugar que "um simples gesto de carinho cria uma onda sem fim". A onda se chama compaixão, a forma como o ser humano se torna melhor, fazendo uma sociedade diferente onde a poesia também está em valorizar os belos detalhes que a natureza propicia com o frio... e, ainda mais, na paisagem humana onde se aprende com um olhar, um obrigado, um sorriso, que gratidão anda junto com solidariedade. Na prática, talvez não mude a situação social de quem está nas ruas. Mas, com certeza, não deixa morrer a crença no ser humano, de quem já desceu até o mais profundo dos abismos e encontra mãos que lhes alcançam a esperança!
Alguns ainda resmungam que é preciso ensinar a pescar ao invés de dar o peixe. Princípio aplicável a médio e longo prazo, mas que, na iminência das pessoas congelaram ou entrarem em desespero pela fome, o que se pode fazer é atender ao imediato e, depois, cobrar das autoridades públicas que use bem o nosso dinheiro.
Os meios de comunicação encantam com as belas imagens como o crepitar da chama de um fogão, a geada encobrindo os campos e os lagos, a neve pintando de branco ruas, árvores, carros... Ao mesmo tempo, homens e mulheres saem às ruas enquanto quase toda a população dorme ou se diverte para deixar embaixo de uma coberta de papelão ou no costado de um cachorro que aquece seu dono, uma caneca de café ou de sopa, um pedaço de pão e uma oração...
Não importam os nomes, são servidores do bem, identificados por crença religiosa ou valores humanos, acreditam que desapego começa por gastar o próprio tempo prestando serviço a alguém desamparado. Pais contaram de jovens que se reuniam em comunidade para arrecadar donativos, preparar o sopão, acondicionar em caixas de leite e peregrinar por lugares onde encontravam pessoas que obtinham daquela forma a única alimentação decente do dia. Detalhe: aprenderam a também cuidar de suas coisas e do que era comum em casa na experiência de cuidar de alguém na rua...
A Campanha do Agasalho de 2019, do Governo do Estado, diz que "toda a roupa tem uma história e toda a história pode ter um outro final". A solicitação de doações vem acompanhada de um pedido de conscientização: doar o que ainda se pode usar. Isto é, não apenas se livrar de algo indesejado, sobrando ou atrapalhando dentro de casa.
Li em algum lugar que "um simples gesto de carinho cria uma onda sem fim". A onda se chama compaixão, a forma como o ser humano se torna melhor, fazendo uma sociedade diferente onde a poesia também está em valorizar os belos detalhes que a natureza propicia com o frio... e, ainda mais, na paisagem humana onde se aprende com um olhar, um obrigado, um sorriso, que gratidão anda junto com solidariedade. Na prática, talvez não mude a situação social de quem está nas ruas. Mas, com certeza, não deixa morrer a crença no ser humano, de quem já desceu até o mais profundo dos abismos e encontra mãos que lhes alcançam a esperança!
terça-feira, 25 de junho de 2019
Especiais: mundos e caminhos diferentes...
The good doctor (o bom doutor) é daquelas séries de televisão que, periodicamente, nos permitem fazer uma reflexão sobre nossas limitações e o quanto ainda estamos longe de entender as limitações alheias. A síndrome da qual o jovem residente é portador o faz diferente, sem necessidade de rotular se isto é bom ou mau. Apenas que é aspirante a uma carreira, buscando tocar sua vida, encontrar o seu espaço e aprender.
A Síndrome de Savant (como diz a Wikipédia: síndrome do sábio, do idiota-prodígio é distúrbio psíquico com o qual a pessoa possui uma grande habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência) se caracteriza por possuir habilidades ligadas a memória extraordinária, com pouca compreensão do que acontece no seu contexto.
Shaun Murphy vem do interior trabalhar em um famoso hospital. Enfrenta os desafios na área médica, precisando provar sua capacidade para colegas e superiores. Um dos problemas é o de relacionamento com quem trabalha ou mesmo com os pacientes. Afinal, os códigos de linguagem mais sofisticados não fazem parte do seu entendimento. Neste sentido, tem dificuldades de aprendizagem, mas se transforma num desafio para aqueles que entendem o potencial da sua atuação.
Diálogo que demonstra a ausência de maldade é feito com a colega que luta por compreendê-lo: "porque você foi grossa comigo quando nos conhecemos? Depois gentil na segunda vez que nos vimos, e agora quer ser minha amiga? Qual destas partes você estava fingindo?" Não há meios termos, sem as nuances próprias do sarcasmo ou do cinismo. Para ele, o que se diz é textual: pedra é pedra, terra é terra e não existem figuras de linguagem que lhes possam alcançar uma outra significação.
Lembrei de outros casos: a mãe que carregava o bebê especial abordada por vizinha que desejava ver o que chamavam de "doentinho"; os pais que internaram o rapaz com síndrome de down e tiveram dificuldades de que os atendentes tratassem como apenas mais um paciente; o autista agredido porque também na prática de esportes ou nos exercícios do dia a dia sua mente percorria mundos e caminhos diferentes...
Pais de especiais trabalham mais a fim de que suas potencialidades sejam descobertas e atuam numa sociedade culturalmente preconceituosa. Enquanto o jovem Shaun tem sua capacidade colocada à prova, os demais têm as benesses de serem "normais". Sua presença incomoda: abandonar os padrões de comportamento convencionais desafia a fazer uma medicina onde a técnica não exclua o fator humano. E isto vai acontecer, até com alguns percalços, mas tendo as dores amenizadas por muito mais compreensão, mais sorrisos, mais carinhos e, quem sabe, muito mais abraços!
A Síndrome de Savant (como diz a Wikipédia: síndrome do sábio, do idiota-prodígio é distúrbio psíquico com o qual a pessoa possui uma grande habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência) se caracteriza por possuir habilidades ligadas a memória extraordinária, com pouca compreensão do que acontece no seu contexto.
Shaun Murphy vem do interior trabalhar em um famoso hospital. Enfrenta os desafios na área médica, precisando provar sua capacidade para colegas e superiores. Um dos problemas é o de relacionamento com quem trabalha ou mesmo com os pacientes. Afinal, os códigos de linguagem mais sofisticados não fazem parte do seu entendimento. Neste sentido, tem dificuldades de aprendizagem, mas se transforma num desafio para aqueles que entendem o potencial da sua atuação.
Diálogo que demonstra a ausência de maldade é feito com a colega que luta por compreendê-lo: "porque você foi grossa comigo quando nos conhecemos? Depois gentil na segunda vez que nos vimos, e agora quer ser minha amiga? Qual destas partes você estava fingindo?" Não há meios termos, sem as nuances próprias do sarcasmo ou do cinismo. Para ele, o que se diz é textual: pedra é pedra, terra é terra e não existem figuras de linguagem que lhes possam alcançar uma outra significação.
Lembrei de outros casos: a mãe que carregava o bebê especial abordada por vizinha que desejava ver o que chamavam de "doentinho"; os pais que internaram o rapaz com síndrome de down e tiveram dificuldades de que os atendentes tratassem como apenas mais um paciente; o autista agredido porque também na prática de esportes ou nos exercícios do dia a dia sua mente percorria mundos e caminhos diferentes...
Pais de especiais trabalham mais a fim de que suas potencialidades sejam descobertas e atuam numa sociedade culturalmente preconceituosa. Enquanto o jovem Shaun tem sua capacidade colocada à prova, os demais têm as benesses de serem "normais". Sua presença incomoda: abandonar os padrões de comportamento convencionais desafia a fazer uma medicina onde a técnica não exclua o fator humano. E isto vai acontecer, até com alguns percalços, mas tendo as dores amenizadas por muito mais compreensão, mais sorrisos, mais carinhos e, quem sabe, muito mais abraços!
Morrer: o direito a um porto seguro
Quando a mãe faleceu, no início do ano, eu tinha em mente algumas coisas que não desejava que acontecessem: que sofresse, morresse sozinha, dormindo ou em um hospital. Fui abençoado: faleceu pela manhã, em meus braços, tranquila, sem dizer uma palavra, apenas olhando para mim. Não sei se, na realidade, idealizei o que havia pensado ou se já era um pouco por estar marcado por outras mortes.
Fazendo parte da vida, o nascimento e o fim continuam e, seguidamente, ouço conhecidos contarem experiências com pessoas doentes ou idosas. Recentemente, um amigo acompanhou o pai com câncer num hospital. Chegou o momento difícil em que já não há mais nada o que fazer. O idoso se mantinha consciente e pediu: queria voltar para casa. Sabia que não restava muito tempo e desejava morrer em sua cama, no lugar que construíra para viver com a esposa e os filhos.
A família se envolveu na discussão. A maioria contrária a que deixasse o hospital. Mas, em última instância, quem devia endossar ou não o pedido do pai era o filho. Ele esqueceu de tudo o que os "sensatos" lhe disseram. Aprontaram o quarto para dispor de equipamentos básicos e voltou para o que, por toda uma vida, foi um lar. Na porta, uma parada e uma lágrima rolou enquanto o idoso olhava, possivelmente pela última vez, para o jardim onde em tantas ocasiões passara as tardes com sua esposa.
"Tua mãe me espera", ainda comentou. Dali em diante não falou mais, até falecer, uma semana depois. Meu amigo repetiu o que ouço de muitos cuidadores: o pai chamava sua esposa pelo nome de sua mãe; o chamava pelo nome do próprio avô e perguntava quando iriam voltar para casa e onde é que estavam. A memória próxima que se perde e a busca desesperada por um passado onde justificar a própria solidão...
Michael Bublé, na canção "Home" fala de suas andanças pelo mundo (Paris, Roma...), "talvez cercado por um milhão de pessoas, eu ainda me sinto totalmente sozinho. Eu só quero ir para casa. Eu sinto sua falta, sabe?" É o caso de uma pessoa idosa ou doente que se pensa estar melhor num hospital onde, apesar de toda a sofisticação e preparo técnico, não consegue servir como referência emocional e afetiva.
Embora o que se passe já não é o que entendemos por ausência, o "voltar para casa" de uma pessoa que está fragilizada é também um ponto físico, mas, mais do que isto, sentimento de que, em algum lugar, ancorou o coração e este é o porto onde acaba a grande viagem que se chama vida. A saudade do Infinito, como fala o padre Zezinho, é apenas caminhar em direção ao reencontro com tantas pessoas amadas, que fizeram o mesmo caminho e apenas desembarcaram um pouco mais cedo...
Fazendo parte da vida, o nascimento e o fim continuam e, seguidamente, ouço conhecidos contarem experiências com pessoas doentes ou idosas. Recentemente, um amigo acompanhou o pai com câncer num hospital. Chegou o momento difícil em que já não há mais nada o que fazer. O idoso se mantinha consciente e pediu: queria voltar para casa. Sabia que não restava muito tempo e desejava morrer em sua cama, no lugar que construíra para viver com a esposa e os filhos.
A família se envolveu na discussão. A maioria contrária a que deixasse o hospital. Mas, em última instância, quem devia endossar ou não o pedido do pai era o filho. Ele esqueceu de tudo o que os "sensatos" lhe disseram. Aprontaram o quarto para dispor de equipamentos básicos e voltou para o que, por toda uma vida, foi um lar. Na porta, uma parada e uma lágrima rolou enquanto o idoso olhava, possivelmente pela última vez, para o jardim onde em tantas ocasiões passara as tardes com sua esposa.
"Tua mãe me espera", ainda comentou. Dali em diante não falou mais, até falecer, uma semana depois. Meu amigo repetiu o que ouço de muitos cuidadores: o pai chamava sua esposa pelo nome de sua mãe; o chamava pelo nome do próprio avô e perguntava quando iriam voltar para casa e onde é que estavam. A memória próxima que se perde e a busca desesperada por um passado onde justificar a própria solidão...
Michael Bublé, na canção "Home" fala de suas andanças pelo mundo (Paris, Roma...), "talvez cercado por um milhão de pessoas, eu ainda me sinto totalmente sozinho. Eu só quero ir para casa. Eu sinto sua falta, sabe?" É o caso de uma pessoa idosa ou doente que se pensa estar melhor num hospital onde, apesar de toda a sofisticação e preparo técnico, não consegue servir como referência emocional e afetiva.
Embora o que se passe já não é o que entendemos por ausência, o "voltar para casa" de uma pessoa que está fragilizada é também um ponto físico, mas, mais do que isto, sentimento de que, em algum lugar, ancorou o coração e este é o porto onde acaba a grande viagem que se chama vida. A saudade do Infinito, como fala o padre Zezinho, é apenas caminhar em direção ao reencontro com tantas pessoas amadas, que fizeram o mesmo caminho e apenas desembarcaram um pouco mais cedo...
terça-feira, 11 de junho de 2019
Cadeirinha: um direito da criança
Uma das discussões dos últimos dias tem sido a respeito das medidas tomadas pela presidência da República para mudar a penalização para infrações de trânsito. Especialmente a pontuação dos motoristas flagrados em alta velocidade pelos pardais de estrada, assim como deixar sob critério de pais e responsáveis o uso da cadeirinha para crianças com idade em que ainda não possam usar o cinto de segurança.
A respeito dos pardais, já falei: em muitos casos faz parte da indústria da multa. Sua colocação nas estradas atende mais ao intuito da surpresa do que do efeito educativo e preventivo. Mas apenas aumentar o número de pontos é medida simplista que atua na consequência e não na causa do problema. Dá-se o direito de errar mais sem que, de alguma forma, o motorista precise reciclar seu comportamento.
Do que se fala da segurança para os menores, frase marcante veio da deputada federal Christiane Yared, que perdeu um filho: "não sei o valor de uma cadeirinha, mas sei o o valor de um caixão." Verdade nua e crua para situação em que o desleixo e máxima de que "isto sempre se dá com os outros" justifica a imprudência e o pensamento de que em distâncias curtas correr o risco é o de menos... até que o pior aconteça!
Com a morte da mãe, fiquei com os gastos com funerária, enterro, indenização de cuidadoras... Descobri que o preço da morte é tão ou mais caro do que o preço do nascimento. Imaginem, então, para quem age de forma irresponsável ao conduzir os filhos e, num acidente, passa a viver com sequelas... Não são somente recursos despendidos, mas traumas no motorista e naquele que sofreu as consequências do agir insano de quem deveria zelar por sua segurança.
Está comprovado que o processo de educação não se dá apenas no ensino formal. No caso, não é apenas o "direito" dos pais de optarem por utilizar ou não de uma medida de segurança. Mas a atitude de autoridades (ir)responsáveis que precisam respeitar os direitos dos menores, fazendo o regramento que preserve a vida, a integridade física, o direito ao sonhos e ao futuro de uma criança!
Enfraquecer as leis não ajuda o desempenho dos motoristas. Educação para o trânsito pressupõe consciência de quem dirige, com regras claras a respeito do seu comportamento e da sua corresponsabilidade. Veículo de transporte é instrumento que pode ser utilizado para o bem ou para o mal. No caso da cadeirinha para as crianças, as consequências, tristemente, aparecem na campanha que está em outdoors pelas principais cidades do país: "ela não queria... eu aceitei... e nós a perdemos!"
A respeito dos pardais, já falei: em muitos casos faz parte da indústria da multa. Sua colocação nas estradas atende mais ao intuito da surpresa do que do efeito educativo e preventivo. Mas apenas aumentar o número de pontos é medida simplista que atua na consequência e não na causa do problema. Dá-se o direito de errar mais sem que, de alguma forma, o motorista precise reciclar seu comportamento.
Do que se fala da segurança para os menores, frase marcante veio da deputada federal Christiane Yared, que perdeu um filho: "não sei o valor de uma cadeirinha, mas sei o o valor de um caixão." Verdade nua e crua para situação em que o desleixo e máxima de que "isto sempre se dá com os outros" justifica a imprudência e o pensamento de que em distâncias curtas correr o risco é o de menos... até que o pior aconteça!
Com a morte da mãe, fiquei com os gastos com funerária, enterro, indenização de cuidadoras... Descobri que o preço da morte é tão ou mais caro do que o preço do nascimento. Imaginem, então, para quem age de forma irresponsável ao conduzir os filhos e, num acidente, passa a viver com sequelas... Não são somente recursos despendidos, mas traumas no motorista e naquele que sofreu as consequências do agir insano de quem deveria zelar por sua segurança.
Está comprovado que o processo de educação não se dá apenas no ensino formal. No caso, não é apenas o "direito" dos pais de optarem por utilizar ou não de uma medida de segurança. Mas a atitude de autoridades (ir)responsáveis que precisam respeitar os direitos dos menores, fazendo o regramento que preserve a vida, a integridade física, o direito ao sonhos e ao futuro de uma criança!
Enfraquecer as leis não ajuda o desempenho dos motoristas. Educação para o trânsito pressupõe consciência de quem dirige, com regras claras a respeito do seu comportamento e da sua corresponsabilidade. Veículo de transporte é instrumento que pode ser utilizado para o bem ou para o mal. No caso da cadeirinha para as crianças, as consequências, tristemente, aparecem na campanha que está em outdoors pelas principais cidades do país: "ela não queria... eu aceitei... e nós a perdemos!"
terça-feira, 4 de junho de 2019
Vacinação: o direito e o dever à prevenção
Nesta segunda-feira (03), o sistema público de saúde abriu a vacinação contra a gripe para todos. Desde o dia 10 de abril, era para crianças, grávidas, idosos e pessoas que ficavam mais expostas. Infelizmente, a cada ano, aumenta o número daqueles que se negam a procurar a vacina como medida de prevenção a tantos problemas que podem ser causados, sequelando pessoas e chegando, inclusive, à morte.
Já se conhece a síndrome do cachorro vira lata, em que se menospreza o lugar onde se vive e se acha que a grama do quintal do vizinho sempre é melhor. Agora se fala da síndrome do cachorro louco, em que se desconfia de tudo o que vem de pessoa que não seja do nosso grupo. Então se vier de quem participa de religião, partido, associação, sindicato sem a nossa simpatia, é quase como se fosse obra do Demônio!
Fizeram isto com a vacina. Há tantas fake news circulando que os idosos, especialmente, que eram aqueles que mais cedo corriam para os postos, começaram a ficar reticentes, evitar a vacinação e, como consequência, ver sua qualidade de vida diminuída. Coloca-se em dúvida todo um sistema resguardado por pesquisas - nacionais e estrangeiras - que já demonstraram os benefícios da prevenção.
Mas não, se quem estiver no governo não faz parte do nosso grupo, desconfie-se. Mesmo que até pouco tempo atrás quem era situação tenha feito o mesmo. Então, vira gandaia, pois vemos os defeitos que os governos tem mas não nos damos conta de que, eleitos, querendo ou não, tem um período de administração onde torcer contra - nas questões que efetivamente atingem a população - é, no mínimo, burrice.
Posso ser chamado de homem de um discurso só, mas tenho claro o quanto tudo isto tem a ver com educação. Quem aposta no "quanto pior melhor" sabe que a desinformação fragiliza e dificulta aqueles que foram eleitos, sempre pensando que há uma eleição em perspectiva... A prevenção na saúde é um dos elemento mais importantes do processo de educação, que começa em casa, pelo exemplo da família.
A ausência é notada por coisas simples: desrespeito às normas básicas - áreas de segurança, limites de velocidade, faixas de pedestres... - por pessoas arrogantes, acreditando que normas existem para serem quebradas e pequenas infrações não dão em nada... Triste pensamento de quem não entendeu que viver em sociedade é, sim, procurar o bem estar próprio. Mas, mais ainda, que a vacinação é direito, mas também dever: vive-se em sociedade, onde a corresponsabilidade é princípio fundamental, que nos faz parte da grande família que se chama Humanidade!
Já se conhece a síndrome do cachorro vira lata, em que se menospreza o lugar onde se vive e se acha que a grama do quintal do vizinho sempre é melhor. Agora se fala da síndrome do cachorro louco, em que se desconfia de tudo o que vem de pessoa que não seja do nosso grupo. Então se vier de quem participa de religião, partido, associação, sindicato sem a nossa simpatia, é quase como se fosse obra do Demônio!
Fizeram isto com a vacina. Há tantas fake news circulando que os idosos, especialmente, que eram aqueles que mais cedo corriam para os postos, começaram a ficar reticentes, evitar a vacinação e, como consequência, ver sua qualidade de vida diminuída. Coloca-se em dúvida todo um sistema resguardado por pesquisas - nacionais e estrangeiras - que já demonstraram os benefícios da prevenção.
Mas não, se quem estiver no governo não faz parte do nosso grupo, desconfie-se. Mesmo que até pouco tempo atrás quem era situação tenha feito o mesmo. Então, vira gandaia, pois vemos os defeitos que os governos tem mas não nos damos conta de que, eleitos, querendo ou não, tem um período de administração onde torcer contra - nas questões que efetivamente atingem a população - é, no mínimo, burrice.
Posso ser chamado de homem de um discurso só, mas tenho claro o quanto tudo isto tem a ver com educação. Quem aposta no "quanto pior melhor" sabe que a desinformação fragiliza e dificulta aqueles que foram eleitos, sempre pensando que há uma eleição em perspectiva... A prevenção na saúde é um dos elemento mais importantes do processo de educação, que começa em casa, pelo exemplo da família.
A ausência é notada por coisas simples: desrespeito às normas básicas - áreas de segurança, limites de velocidade, faixas de pedestres... - por pessoas arrogantes, acreditando que normas existem para serem quebradas e pequenas infrações não dão em nada... Triste pensamento de quem não entendeu que viver em sociedade é, sim, procurar o bem estar próprio. Mas, mais ainda, que a vacinação é direito, mas também dever: vive-se em sociedade, onde a corresponsabilidade é princípio fundamental, que nos faz parte da grande família que se chama Humanidade!
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