sábado, 17 de outubro de 2026

No fundo da geladeira

Crônica Poética:

Achei engraçada a recomendação de que não se guardassem coisas perecíveis na porta da geladeira, como frios e manteiga, por exemplo. O fato de se abrir constantemente a porta faz com que a temperatura oscile. O melhor é colocar o item numa prateleira interna, bem no fundo. A conversa surgiu quando se falava a respeito da conservação da manteiga em outro lugar durante o inverno.

Não tenho dotes culinários e, morando sozinho, preciso aprender com familiares e amigos a gerenciar a casa. O bom é que se ouve de tudo. O melhor é não discutir: se a dica for boa, basta experimentar. É o que tenho feito. Sempre briguei com a manteiga que acaba ficando gelada demais — ou, como diziam os antigos, “empedrada”. Havendo um armário em lugar abrigado, de temperatura amena, é um fato: a conservação acontece sem que seja preciso uma britadeira para separar um pouquinho para o pão.

Fiquei pensando que isso se assemelha aos nossos sentimentos, aos nossos amores e às nossas dores. Sempre que ficam expostos, correm os riscos da instabilidade. Preservá-los no “fundo da geladeira”, ou “num armário climatizado”, pode ser o melhor jeito de protegê-los das intempéries passageiras.

As mesmas reações que o tempo nos torna capazes de contemplar com a serenidade de quem já não tem pressa. Não há mal algum em resguardar emoções em um ambiente abrigado, deixando-as emergir somente em momentos que valham a pena. A exposição desnecessária de sentimentos é caminho para ferir a outros e nos machucarmos com reações intempestivas — daquelas em que o arrependimento tarda, sempre deixando o ranço do que se pode até perdoar, mas não se consegue esquecer…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/mxySk46Vvj0)

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