Janelas do Tempo:
O século XI europeu não era exatamente um palco de refinamento. Entre sangrias duvidosas, feitiçarias curandeiras e a crença inabalável de que qualquer febre passageira era um castigo divino irrevogável, a sociedade ocidental chafurdava na lama de sua própria prepotência. É neste cenário de trevas e vaidade ignorante que a narrativa de O Físico, de Noah Gordon, traça a extraordinária jornada de Rob J. Cole, um jovem inglês que decide cruzar o mundo conhecido em busca do verdadeiro ofício de curar.
**********
"O Físico é muito mais do que um épico sobre a medicina; é um diagnóstico preciso da estupidez humana..."
**********
A ironia fina da obra repousa justamente no choque de civilizações que expõe a falácia do "homem civilizado" europeu. Para aprender medicina de verdade com o lendário mestre Ibn Sina (Avicena), Rob precisa abandonar a Inglaterra escura e viajar até a distante Pérsia. Ao chegar ao Oriente, o contraste é um tapa com luva de pelica na arrogância ocidental: enquanto a Europa proíbe a dissecação de corpos e condena mentes brilhantes à fogueira, Isfahan ostenta bibliotecas monumentais, hospitais organizados, esgotos, banhos regulares e um debate científico efervescente.
O mundo supostamente bárbaro era, na realidade, o berço da luz. A narrativa ainda desnuda com extrema habilidade as eternas contradições humanas e os malabarismos do fanatismo. Para ser aceito na academia de Ibn Sina, onde cristãos são sumariamente proibidos, o protagonista precisa se disfarçar de judeu.
O conhecimento, descobre-se rapidamente, nunca foi livre de pedágios ideológicos. A religião, que deveria elevar o espírito, atua com frequência como um muro alfandegário que decide quem tem ou não o direito de aprender, revelando que a intolerância é, infelizmente, o idioma mais fluente e universal da humanidade.
O Físico é muito mais do que um épico sobre a medicina; é um diagnóstico preciso da estupidez humana. Noah Gordon oferece um lembrete elegantemente ácido de que a ignorância, quando travestida de superioridade moral ou religiosa, é sempre a doença mais letal de qualquer civilização. E a cura, ontem como hoje, raramente agrada aos donos do poder.
(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/C4V7hdm3Prk)
Nenhum comentário:
Postar um comentário