sexta-feira, 21 de março de 2025

Do outro lado da minha janela

Espio pelo postigo da janela.

Por detrás de um vidro embaçado

Desfilam pessoas apressadas,

Com fisionomias cansadas,

Não importando que seja inverno ou verão.

Têm pressa em chegar às casas para

Encontros possíveis e aqueles desejados.

Os passantes se repetem nos mesmos horários,

Na rotina em que se perde o sentido da espera e do aconchego.

 

Pelas esquinas,

As vozes do passado teimam em se fazer presentes.

Agora, há mais gente andando pelas calçadas.

Muitos ainda são conhecidos,

Outros me são indiferentes.

A rua ainda guarda o mesmo jeito.

Alguns rostos são os mesmos

E repetem velhas rotinas.

Os mais velhos de outros tempos já partiram.

Os mais velhos desta geração parecem não acreditar

Que agora são eles que namoram a finitude.

 

Do outro lado da janela entreaberta,

Ouço os ruídos peculiares à cidade dos homens.

Mesmo quando a noite avança e me acomodo ao leito

Não ouvir seus ruídos me angustia.

Para onde foram?

Na incompletude, o silêncio sufoca,

Sua falta predestina a morte, o ocaso,

A ausência de todo e qualquer calor humano…


terça-feira, 18 de março de 2025

“Um terço para Francisco”

Recentemente, a jornalista Andressa Xavier escreveu artigo para o jornal Zero Hora contando uma história familiar titulada “Um terço para Francisco”. Seus tios, Isabel e Jorge, foram pela primeira vez à Europa em 2019, quando a tia completava 60 anos. A data caiu na quarta-feira em que o papa desce ao encontro dos fiéis na praça São Pedro. Os pais da Andressa já conheciam a Itália e serviram de cicerones. Deram um jeito de ficar posicionados próximos aos gradis. A espera valeu a pena. Quando o papa desceu do papamóvel, seu pai gritou: “La signora fa il compleanno oggi”. Diz ela: "Pois ele parou e andou em direção a eles."

Seu tio faz terços (um círculo de contas que serve para a oração do Rosário) e confidenciou que havia feito um com a intenção de entregar ao papa. "Era branco, vermelho e azul, as cores do time de Francisco, o San Lorenzo, da Argentina. Mostrou aquelas contas coloridas com uma alegria e uma ingenuidade que eu não tive coragem de desapontá-lo e dizer que não conseguiria entregar, ou que seria muito difícil. Pensei, mas não disse nada, só encorajei a levar e elogiei o tercinho, que era mesmo bem bonito".

A felicidade ficou completa quando compartilharam a foto no grupo de WhatsApp da família com o papa bem pertinho deles. "Mais do que isso, a ligação em vídeo horas depois foi linda demais. Minha tia, no dia do aniversário, ganhou um terço das mãos do papa. Ela foi surpreendida pelo gesto do Santo Padre, que colocou a mão no bolso e tirou um rosário perolado, numa caixinha".

O mais bonito do texto da Andressa vem a seguir: "Francisco é assim. Um Papa próximo, humano, carismático e fraterno. Transparece isso. Derrubou muros de uma igreja distante e fechada, se aproximando do seu povo. Beija os pés de presidiários e dos pobres na quinta-feira Santa, como fez Jesus na Última Ceia. Recebe fiéis, abraça as pessoas, sem distinção."

Num tempo em que a maioria absoluta das pessoas torce por Francisco (com uma minoria de mal amados vomitando seu mau-humor em torcida pela sua morte) eu queria ter escrito o que ela disse ao concluir:

"Quando a nossa fé eventualmente esmorece, ter um papa como ele traz renovação, inspiração e exemplo. Um dos dias mais emocionantes da minha vida foi um domingo de agosto de 2017, quando vi, de longe, o papa Francisco pela janela no Vaticano. A simples presença dele me encheu os olhos d'água. Ele deu vida nova e esperança de um mundo melhor aos católicos, mas me atrevo a dizer que ao mundo, a pessoas de todas as crenças."

Francisco é assim: um símbolo da presença de Deus. Presentes como o terço são o sinal do carinho de uma população que anseia por referências. Com a emoção de quem o ouve como quem escuta alguém que nos é muito precioso, capaz de dizer as coisas mais simples brotando do coração. Porque transpira pelo rosto, pelos olhos, pelas mãos, pelo abraço, uma alma humilde, em que a fé é espelho da sua empatia e amor ao próximo, a vocação de um autêntico homem de Deus.


domingo, 16 de março de 2025

Simplesmente assim: Arfante

Quando o ar se torna rarefeito e parece acabar,

Erguer a cabeça é um desafio. No entanto,

A energia chega de onde menos se espera.

O corpo fica cansado e qualquer movimento

É a necessidade de vencer as barreiras físicas.

Arfante, todos os sentidos parecem inertes,

Enquanto o vento bate nos olhos e

Teima em secar

Uma lágrima solidária com as minhas carências.

 

A reação dos sentimentos

Para alcançar a liberdade, desatar amarras,

Emergir em cada centímetro de pele.

Arfante, o suor rega a face,

Escorre a maquiagem, retira a máscara,

Revela e expõe os afetos.

O coração apertado bate mais forte,

Com o medo de que um suspiro carregue

O sonho de vencer o que assombra e as aflições…


sábado, 15 de março de 2025

Terra dos Homens

 Leituras e lembranças:

Desde o mês de fevereiro passei a colaborar com as páginas “Que livro estás a ler” e “Clube de leitura”, no Facebook, aos sábados. Resolvi compartilhar minhas leituras também com vocês. Aceito comentários. 

Terra dos Homens

Terra dos homens é obra do escritor e ilustrador Antoine de Saint-Exupéry, publicada no mesmo ano em que a Europa entrou na 2ª Guerra Mundial, 1939. Reúne algumas de suas experiências relatadas em jornais da época, especialmente como aviador, prospectando rotas pela África, América do Sul e no transporte de passageiros e de cargas, especialmente de correspondências.

A impressão que se tem é de que seja preparatória ao seu livro mais famoso, de 1943, o Pequeno Príncipe. De forma descritiva, ali aparecem elementos que estarão presentes na sua grande parábola, como o companheirismo, a pequenez do homem, a solidão, a simplicidade e o sentido da vida. E, claro, elementos físicos, como o deserto e a raposa.

O que disserta em Terra dos homens, vai se transformar em narrativa no Pequeno Príncipe. Relatos de viagens como piloto das vias Aéropostales para, depois, dedicar-se a um livro supostamente de contos infantis… É um laboratório de ideias e sentimentos para a sua obra maior. Pena que não tenha vivido para ver o reconhecimento que granjeou.

Na minha releitura, em função das discussões que tenho feito sobre o Pequeno Príncipe, fui à cata dos comentários de quem se debruçou sobre a obra. Lá encontrei: “O livro faz apelo ao melhor que existe dentro de cada um de nós”. E em outro lugar na internet: “um poema em prosa que celebra a natureza, o sentido da vida, a dignidade do trabalhador.” Com certeza, é isto e muito mais: Como reabrir velhos baús em busca de lembranças que se julgavam perdidas…


sexta-feira, 14 de março de 2025

A tentação das águas profundas

Gostava do teu sorriso, na juventude.

Teu olhar cristalino era um jorro de energia,

Raios contidos no alvorecer de um novo dia.

Gosto ainda mais agora que envelheceste.

As marcas ao redor dos teus lábios são

Vales que convergem a vista para o rio.

Teus olhos têm a tentação das águas profundas,

Que aguardam cautelosas, 

Quando se mira a superfície.

 

Isolam de todos os ruídos ao imergir de um corpo

Na profundidade dos sentimentos.

É quando me perco na geografia do teu rosto.

O tempo passando transbordou teu sorriso,

O espelho da alma, que

Verte doçura, carinho, serenidade,

Memórias que se esgueiram pelos vincos da tua testa.

 

Resumem a existência de quem viveu sua história,

Com a intensidade de um sonho que se fez realidade.

Ali, contemplei o mistério que ronda o teu olhar.

Agora, teu sorriso é o entardecer, quando o 

O dia acomoda-se nos braços da noite.

Não foram as estrelas que deram sentido às tuas andanças.

Teu norte sempre foi a possibilidade de mirar um destino,

Sôfrego por desbravar a tua própria Eternidade…


terça-feira, 11 de março de 2025

“Só queria ganhar um abraço…”

O menino cadeirante que está à margem do campo de basquete recebe uma bola no colo. Quem a recolhe percebe que a outra criança está marginalizada de atividades esportivas. Volta ao jogo e conta para seus colegas. Em seguida, a turma se dispersa. Na tarde seguinte, o cadeirante, ao sair de casa, encontra a bola na varanda. Coloca-a no colo e vai à cancha. Ali já estão os demais, agora, cada um “equipado” com um carrinho ou uma cadeira com rodinhas, de onde, sentados, compartilham a brincadeira com o mais novo jogador.

Seguidamente, aparecem curtas na internet em que pessoa porta cartaz, em plena rua, se oferecendo para receber e dar um abraço. Algumas vezes escrito: “Só queria ganhar um abraço…” A grande maioria passa batida e desconfiada. Mas sempre tem aqueles (e aquelas) que sorriem e aceitam o convite. Infelizmente, não são feitos depoimentos de quem deu ou de quem os recebeu. Superado o receio de fazer fiasco, quebradas as barreiras do preconceito, o abraço se torna uma válvula de escape para muitas “neuras”.

A mulher estava secando a louça na pia, quando se sentiu mal e se apoiou na bancada. O cachorro percebeu que a dona ia ter uma crise epiléptica. Em silêncio, escorou suas costas até que estivesse sentada no chão. Abriu a geladeira e alcançou água. Fechou a geladeira e procurou deixá-la da melhor forma possível para que repousasse. Só então alcançou o interfone e tocou chamando a portaria. Latiu e o porteiro entendeu que havia algum problema, pois tinham conhecimento do histórico de saúde da proprietária do apartamento.

Uma das primeiras frases que marcou a figura de Francisco, quando assumiu a cátedra de Pedro, foi: “Sempre que possível, dê um sorriso a um estranho na rua. Pode ser o único gesto de amor que ele verá no dia”. E também: “É preciso ter bom humor no dia a dia para não tornar-se ‘avinagrado’”. “Só queria ganhar um abraço” pode ser a demonstração de carência ou de ternura. E o cão cuidador demonstrou, por instinto e carinho, o que precisamos: gestos de solidariedade e de empatia, a “fofura” de que estamos carentes. 

A generosidade tem o poder de transformar o dia de alguém. Francisco, com palavras, gestualidade, expressão facial, atitudes, dá exemplo de que momentos de desprendimento tornam mais leve a vida, carregada de rotinas e mesmices. O cadeirante que entrou na quadra para jogar basquete, o desconhecido oferecendo um abraço, o cão convivendo e cuidando da dona foram imersos num estado de fofura (sensibilidade). Hoje, raros, mas necessários para que não se desaprenda que o melhor que ainda temos é a nossa própria humanidade…


domingo, 9 de março de 2025

Simplesmente assim: Ânsias

A ânsia é o desassossego do coração.

Quando os sentidos perdem o controle 

Das nossas possibilidades.

Nos escaldantes dias de verão,

Esperar pela brisa da noite em que

Um cobertor de estrelas aconchega sonhos.

A busca pelo reencontro desejado,

Acalentado em devaneios,

Sentido na penumbra da saudade.

 

Resistir à tortura da indiferença, 

Buscando razão para 

A noite que se fecha em breu.

Ansiar é manter vivas as expectativas,

Sabendo que os lábios ressequidos

E a alma que taquicardia

Esperam pelo direito de serenar.

Na possibilidade de saciar a fome

Dos grãos de trigo que apenas a terra germina,

Garantindo o direito de brotar, 

Desabrochar e, um dia, fenecer em paz…