sexta-feira, 29 de abril de 2022

Senhor do meu próprio Destino...

Era apenas o sonho de uma noite de Outono.

A lua foi chegando, ainda durante a tarde,

sem alarde e sem que alguém prestasse atenção.

Antecedeu o desfile de corpos celestes

que pontuariam o firmamento.



Aqui e ali um pássaro se acomodou na copa de uma árvore,

para dormir ou procurando um lugar melhor

que permitisse contemplar o espetáculo que se anunciava.

Na barra que tingiu o horizonte,

o Sol insistia em se manter presente,

multicolorindo a sua despedida.



A curiosidade e o encanto

não permitiam que tirasse os olhos dos céus.

Quedei-me em silêncio,

ao pressentir a grandiosidade dos

astros e estrelas que venciam o breu da noite.



Por horas fugidias, a Lua se apresentou como protagonista,

tendo, no seu corpo de baile, artistas que

não se importavam se tinham brilho próprio ou não.

Apenas desfilaram as Três Marias, a Menina, a Carina, a Maya, a Mira...

E, por fim, quando já ameaçam os primeiros raios do Sol,

a eterna dama da madrugada, a Estrela Dalva.



Quando o sono pesou os meus olhos,

o melhor caminho foi seguir, dentro da noite.

À espera de que, do outro lado da escuridão, surgisse a aurora,

com a promessa de um novo dia.



No tempo em que a escuridão adensa e a noite se despede,

o sereno da manhã me encontrou preso no meu próprio abraço.

No limiar do sonho, o derradeiro encanto:

faço parte desta imensidão que beira ao Infinito.

O Universo que me acolhe murmura:

o caminho por entre astros e estrelas

é o desafio de me tornar Senhor... do meu próprio Destino!

terça-feira, 26 de abril de 2022

Educação: o lugar onde se concretizam sonhos

As recentes denúncias de que “pastores” intermediavam verbas do Ministério da Educação com prefeituras, mediante propina, deveria ser chamada de “ponta do iceberg” para tornar transparente (republicana) a forma como se faz política (e politicagem) no Brasil. Nos últimos anos se viu uma promiscuidade entre o setor público e lideranças religiosas – tradicionais ou não - que se deixaram seduzir pelo apelo do dinheiro e do poder. Podem até ser “bem-intencionados”, mas não se pode esquecer que, no ditado popular, se diz: “de bem-intencionados, até o inferno está cheio!”

Homens e mulheres ditos “consagrados” – sem importar o tamanho de sua igreja - não podem priorizar atividades administrativas e financeiras. As religiões cristãs tradicionais demonstram que não conseguiram formar adequadamente novas lideranças, mesmo com escolas e universidades confessionais. Com isto, funções elementares de controle foram assumidas por seus líderes. A proliferação de igrejas neopentecostais, com menos quadros ainda, expôs as fragilidades de uma atividade centralizadora, sem o compromisso de prestar e tornar as contas transparentes.

Infelizmente, não existem políticas reais de preparação de lideranças. O que leva, em alguns casos, a buscar, no mercado, profissionais que respondam pelo processo administrativo e financeiro. Eles têm os vícios e as manhas de origem, consequentemente, até podem ser cristãos, mas não têm visão cristã de responsabilidade social. Alguns podem até ter, mas é exceção, não a regra. No caso das igrejas tradicionais, o fato de que os líderes ocupem tal função significa que não confiam na competência dos leigos, por um lado, e que não foram capazes de formar lideranças, por outro.

Passando pela discussão ética e moral, para além da religiosa, estão sendo expostas as entranhas de negócios sujos que possuem a bênção de alguns mercenários da fé. O mais difícil, nesta hora, é vestir a túnica da humildade. Talvez a veste mais “apertada” (questionadora) de se colocar sobre o corpo, já que é comum que mais próximos os coloquem em patamares onde se julgam sabedores de todos os assuntos e capazes de dirigir qualquer atividade. Hoje, não é assim. Lideranças mais antigas sentem-se perdidas num tempo em que são ouvidas de menos e atendidas menos ainda.

O aparelhamento do Ministério da Educação e Cultura por supostos religiosos é danoso ao país e às religiões, em todos os sentidos. Infelizmente, os gastos com o setor público têm se mostrado bem maior do que os investimentos que efetivamente retornam aos alunos e às escolas. Gasta-se com a máquina – mal ou bem – aquilo que não se gasta com o cidadão. O país já vinha de mal a pior antes da pandemia e o fechamento das escolas por mais de 200 dias transformou-se num recorde da incompetência e do descaso, longe de alcançar uma média de qualidade sofrível.

Homens e mulheres que se dizem “crentes” deveriam se preocupar com as previsões negativas da educação, que deve ser leiga, a serviço de toda e qualquer pessoa, com ou sem religião. Aumentou em 60% o número de crianças não alfabetizadas e as mais velhas, em Português e Matemática, voltam dez anos atrás. Quem deveria testemunhar a palavra de Deus, como instrumento de denúncia e transformação, torna-se algoz da sua própria gente. Solapam um ministério que deveria ser o lugar onde se concretizam sonhos. Hoje, torna-se, dolorosamente, o lugar onde morrem as esperanças…

domingo, 24 de abril de 2022

Precisa-se de uma família...

Não era sequer um caminho, apenas um trilho formado no arrastar dos pés por sobre a grama que ainda viceja na encosta, ligando os bairros Quartier e Quinta do Lago. Embora acidentado e irregular, fiz passagem, na caminhada, lugar bom para fortalecer as pernas. Na manhã de sábado, vi um casal que descia acompanhado de um menino e esperei. Quando a criança me viu, soltou-se na encosta e desceu rápido, com os bracinhos abertos. Segurei-o e os pais se mostraram surpresos: “ele nunca fez isto!”. Respondi: “pensou que era o avô”. E o pai, sentido: “mas ele não tem avós!”

No dia 5 de junho, completo 67 anos. Na mesma data, completaria 80 anos meu primo e padrinho, o Valdemar. Poderia brincar que fui o presente de 13 anos para ele. Próximo da mãe, convidaram para ser meu dindo. Por toda a vida, ganhei um amigo e um anjo que acompanhou, especialmente a dona França, até o seu finalzinho. Daqueles “padrinhos” que assumem o compromisso em auxiliar os pais, no meio rural, zelando por seu afilhado. Na véspera do dia em que seu coração parou, pude tomar um chimarrão, sozinho com ele, para aquilo que mais gostava: uma boa e gostosa conversa.

A live Partilhando recebeu o casal Carlos André e Adriana. Referências para a Pastoral Familiar e o Movimento Familiar Cristão de Rio Grande e, hoje, em nível nacional. Quando falaram do material para trabalhar com futuros casais, confesso, fiquei preocupado. Achei “burocrata”, mas, também, com uma pulga atrás da orelha ao dizerem que eram “catequistas”. Como assim? Foi um belo testemunho, ao mostrarem que transformam teoria em prática, acolhem um casal em suas casas para que conheçam, na realidade do dia a dia, como se acerta e como se erra em constituir uma família.

O Movimento Familiar Cristão de Pelotas está programando a sua volta às atividades presenciais e tem um grande desafio que foi sintetizado na proposta do encontro que pretendem fazer no final de junho: “A volta das famílias à Igreja e aos Movimentos, no pós-pandemia”. Pensando que muitos querem voltar, outros ainda tem receios e alguns acabaram ficando ao longo do caminho… Atividades religiosas são marcadamente presenciais, o que não impede que se busquem formas adequadas de tratar de doentes e idosos, por exemplo, que ainda precisam de resguardo e atenção.

A família, hoje, não é formada apenas por pais e filhos. Quando este grupo se restringe, perde o sentido, especialmente do que é o afeto de avós, primos, tios, dindos, “agregados”, com ou sem laços de sangue. Em muitos casos, quem vive sob um mesmo teto divide a responsabilidade de cuidar uns dos outros. Aprende o respeito pelo espaço alheio e defender o grupo com o qual eu até posso brigar, mas que ninguém se julgue no direito de fazer o mesmo! Ali, as conquistas da vida iniciam por pequenos reconhecimento de acertos, mas também no consolo dos erros que se cometem.

Precisa-se de um grupo de acolhida e de referência para uma sociedade que emerge desta pandemia fragmentada e fragilizada. O pós-pandemia confirma problemas que se tinha e que grupos sociais – incluídas igrejas – precisam focar na educação e na família. Educação é o lugar para recuperar referências do conhecimento, em especial, os profissionais. Na família, encontra-se o necessário suporte afetivo. Não é fácil. Família não vem com manual de instruções. Entre rusgas e colos, é o porto seguro onde se recarregam energias e se encontra o sentido para fazer a vida valer a pena!

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Fragmentos de memórias esquecidas...



São muitas as vozes que emergem com as minhas lembranças.

São muitos os risos que voltam com as minhas memórias.

Trazem junto os rostos, as expressões, o jeito de ser

de cada um daqueles que cruzaram e marcaram minha vida.



De todas as idades, de muitos lugares, em variadas circunstâncias.

São etéreos os sinais que deixaram em meus sentidos.

Não dão explicações do porquê das suas aparições,

apenas se fazem presente e acalentam o meu espírito.



Inebriam meus sonhos,

brincam com os meus silêncios,

surgem quando entristeço,

me fazem pedir desculpas quando espero por um rosto

que não mais se pode fazer presente.



Trago a tatuagem inconfundível das lembranças

por sobre todo o meu corpo.

Não tenho o poder de controlar sua presença,

apenas me conformo em saber que

são bálsamo para as minhas feridas

e não me deixam esquecer de que existiram.



Tenho as marcas do fogo da saudade,

que não queimam, apenas aquecem,

e entalham sobre meus olhos a certeza de que pertenço

a um mundo que confunde as fronteiras do tempo,

entre o que é o presente e o que sonhei no passado.



Não importa para onde partiram.

Importa o que me deixaram,

foram muitas as histórias que ficaram guardadas,

confinadas ao sentimento de que ainda estão incompletas.

E que, nas dobras do tempo, escondem-se

fragmentos das memórias que eu não poderia ter esquecido…

terça-feira, 19 de abril de 2022

De novo: alerta aos aposentados!

A partir do dia 25 de abril, o governo federal repete o que já fez recentemente: antecipa o pagamento do 13º salário para aposentados e pensionistas. O mesmo esquema que usou nos últimos dois anos: duas parcelas depositadas em meses subsequentes, iniciando por quem tem vencimentos de um salário e, no início do mês seguinte, aqueles que recebem mais do que este valor. Este é o primeiro alerta necessário: prepare-se para receber agora a metade e a outra metade depois de um mês. Serão parcelas pagas com os vencimentos dos meses de abril e maio, respectivamente.

É necessário não confundir: alguns pensam que é o 14º salário, em tramitação no Congresso, e que, por todas as sinalizações, não sai este ano, sendo um dos fatos mais concretos a própria antecipação do 13º. Na real, é preciso que o aposentado se dê conta de que o dinheiro depositado agora não é nenhum recurso extra, mas o que estava previsto para o final do ano, quando não terá mais nada para receber. Então, se não for necessário, especialmente para saldar dívidas, não caia no canto da sereia de bancos que falam na oportunidade de fazer uma boa compra ou aquela viagem sonhada…

O alerta se deve à experiência realizada em 2020 e 2021. A antecipação é boa para o governo que, em tempos de vacas magras, injeta na economia um volume grande de recursos. Quanto mais dinheiro em circulação, mais negócios são feitos, aumentando a produção. Sabendo que será um dinheiro que vem em plena campanha eleitoral, supostamente, “beneficiando” aposentados. Sem que se tenha aprendido a lição de que gastar com antecedência significa a necessidade de encontrar fonte para, no fim do ano, pagar IPTU, IPVA, além do material para a educação de filhos e netos.

O que é bom para os economistas nem sempre é bom para o cidadão. É o caso da antecipação do 13º para aposentados e pensionistas. Pode até ser vendido com a ideia de que ajuda, mas, com certeza, não resolve os problemas. Especialmente quando as populações de baixa renda veem o seu real valor de compra diminuir com a inflação que não é mais uma perspectiva rondando nossos bolsos, mas a realidade que diminui o poder de compra e a qualidade de vida. Com as experiências mais preocupantes nas compras que são feitas em supermercados, serviços públicos básicos e saúde.

Não se engane com relação à questão política. O governo não está sendo um papai noel antecipado. Os noticiários de economia foram pródigos em salientar que a arrecadação dos cofres públicos nos primeiros meses do ano foram acima do esperado. “Sobrou dinheiro”, o que viabilizou esta antecipação. Não entro aqui na discussão de que outros não fizeram, mas é uma medida oportunista que demonstra o quanto é uma questão de política decidir que o cidadão também tem o direito de receber o retorno dos impostos escorchantes que, compulsoriamente, é obrigado a pagar.

Aposentado e pensionista pense duas vezes antes de gastar seu dinheiro. Nem caia em tentação de ir a um banco negociar a antecipação do 14º. É furada. Não saindo, precisa voltar e renegociar com as regras deles. Meus pêsames! Se está endividado, paciência, use o 13º e pague as dívidas, ganhando algum fôlego. Senão, guarde até embaixo do colchão, longe dos mais gastadores da casa. A pandemia ainda vai mostrar uma face perversa: a conta para restaurar a economia, para que todos nós paguemos. E o que estava ruim, infelizmente, tem todo o jeito de que ainda vai ficar pior…

domingo, 17 de abril de 2022

Páscoa: foi o coelho ou foi Jesus?

Uma das minhas primeiras dúvidas existenciais (deveria ter consultado o professor Jandir Zanotelli, que tenho como referência filosófica) foi na época de Páscoa – a bela tradição cristã que rememora a ressurreição de Jesus, inspirada na festa judaica de Pesach, memória da libertação do povo Hebreu, ao sair do Egito. Para o cristão, é a culminância da Quaresma (40 dias após a Quarta-feira de Cinzas) e, mais próximo, da Semana Santa, iniciada na significativa cerimônia do Domingo de Ramos quando o Rei dos Reis, em toda a sua “glória”, entra em Jerusalém montado num jumento.

Mas voltemos. O meu problema está com o coelho, que considero injustiçado pela tradição “cristã popular”. Na minha infância não existia o Google e sequer sabia como consultar uma enciclopédia. Somente mais tarde fui saber que o dito animalzinho era referência pela sua fertilidade, o que – numa interpretação que eu considero elástica demais – era figura representativa para a capacidade do Cristianismo de semear e disseminar a palavra de Deus, fazendo novos discípulos para a fé cristã. Com todo o respeito, como diziam as crianças: “coitado do senhor coelho!”

Então, vamos ao meu problema. Quando chegamos em Pelotas, eu estava com 4 anos. Fui para a escola com 6. Neste intervalo, ajudava a cuidar dos bichos que andavam pelo pátio, ou num pequeno cercado. Além do cachorro, o Leão, já idoso, desdentado, sem juba e sem urro… haviam as galinhas e um porco. Não sei quem disse para meus pais que uma carne muito boa seria a de coelho. Prontamente, arranjaram um casal que, depois de pouco tempo, apareceu grávido. Foi um susto quando começaram a nascer os filhotinhos… Era coelho que não acabava mais.

Ainda não se tinha acesso a muitas informações e, para nós, as guloseimas de hoje, com chocolate, não existiam. As cestinhas eram de vime, com “barba de velho” ou papel picado, e as especiarias feitas com ovos de galinha esvaziados, secos, pintados e recheados com amendoim recoberto com açúcar em calda. Os chocolates, assim como os ovos de açúcar, apareceram quando já estava na Escola. E o dilema: como é que as professoras diziam que os ovinhos eram dos coelhos? Já tinha ajudado a criar alguns e esta história, com certeza, não estava bem contada…

Os tempos passando trouxeram novas formas de viver a Páscoa, especialmente em família, ou nos meios sociais em que se vive. Gostava de ver os pais fazendo as trilhas que levavam até o lugar onde o coelho (coitado!) tinha deixado seus ovos. Por dentro de casa, ou nos pátios, eram momentos aguardados e farejados com a brincadeira do “tá quente, tá frio”, que faziam mais a felicidade dos adultos do que das crianças. Depois, os festejos organizados em escolas ou igrejas, onde professores e equipes de catequese se esmeravam em juntar aos doces o gosto da festa cristã.

Fico com a impressão de que o coelho “entrou de gaiato no navio”. Mais ou menos como o pai que – emburrado - é “obrigado” a se vestir de papai noel no Natal para que haja a representação do bom velhinho. Como diria um amigo: “faz parte”. Muitas das nossas tradições desapareceram ou estão desaparecendo. É bom quando se vê que alguns destes eventos voltam e, mesmo que seja no espírito da brincadeira, se faça a “festa” que aproxima pais, filhos, vizinhos e amigos. Nestas “grutas” que se chamam família e comunidade é o lugar onde Deus gesta a ressurreição do Seu próprio Filho!

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Sexta-feira de todas as paixões...

Às vezes, me estranho com as palavras.

Confesso que em muitas ocasiões as usei

- e delas judiei – como quem tenta controlar a sua forma,

sem conseguir me apropriar da sua essência.


Foi um tempo em que dizer ou escrever demais era fútil

e as esparramava ao vento,

negando-lhes o direito de existirem livres e soltas.

Presas aos excessos de textos, registros, falas...

Lutando pela própria identidade,

pelo prazer de saborear o seu sentido.


Essência e sentido que estão naquilo que as precede:

o silêncio, grávido de todos os significados.

Não os significados dos dicionários que desnudam as palavras,

mas das humanidades que os revestem com a pureza da alma,

que ama saber o quanto elas precisam ser valorizadas -

quando são ditas ou silenciadas.


A sexta-feira de todas as paixões, é um tempo de escuta.

A “paixão” da velhice, que aumenta as minhas perdas;

a “paixão” da ausência, que lateja nos meus sentidos;

a “paixão” do corpo definhando,

que encontra arrimo nas minhas lembranças…


A alma não tem idade e a mente pode não envelhecer,

mesmo que o corpo dê sinais de que

é necessário se libertar da tirania da beleza,

aceitar que o tempo marcou nossas faces e saber

que as paixões já não serão arrebatadoras como na juventude.


Com o tempo, as palavras fazem um pacto com a solidão.

Relógio implacável mostrando que a natureza segue o seu curso.

No tic-tac das horas, resta um coração em busca de um afago,

mendigando o direito de compartilhar sonhos

que não permitam que a alma envelheça…