sábado, 14 de agosto de 2010

Crenças e superstições

Recentemente, passamos por uma sexta-feira, 13 de agosto. Serve para refletirmos que o advento da luz elétrica e o aumento do número das pessoas que podem acessar o conhecimento diminuíram significativamente o número das pessoas que reconhecem ainda ter alguma crença ou superstição. A crença se distingue da fé por não ser algo ligado a uma religião, mas uma construção pessoal, com uma espécie de “lógica” para cada um. E a superstição, bem, esta é muito engraçada, pois é mais comum do que se pensa, mas não se reconhece que existe.
As superstições mais comuns passam por evitar números como o 7 e o 13 (dizem que alguns países, inclusive, não numeram o décimo terceiro andar); passar longe de gato preto, não cruzar embaixo de uma escada. Mas as mais modernas estão na cueca, camiseta, abrigo etc. utilizadas em alguma partida de futebol e que “deram sorte” e a vitória para o nosso time. A partir daí, precisa ser repetida sempre, mas, se acontecer algo em contrário, arruma-se uma desculpa para não culpar a peça de roupa. Segue-se a máxima de que “não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”.
Mesmo as pessoas que estudam os processos religiosos não conseguem explicar como estas coisas acontecem. Talvez porque não existam explicações, mesmo. É uma necessidade do ser humano mais simples de ter amuletos que o aproximem do Divino, por elementos que somente ele reconhece e entende. Crenças e superstições podem não ser aceitas, mas, desde que respeitem os demais, devem ser respeitadas.
As crenças estabelecem juízos populares que dão como verdade um conjunto de coincidências. Por exemplo: “agosto é o mês do desgosto”. Muitas desgraças aconteceram neste mês, assim como em todos os outros do ano, mas o consenso popular é de que ele atrai energias negativas e põe fim na vida de muitas pessoas idosas (coincidência com o final de Inverno). O pai conta a história de um vizinho alemão que tinha medo deste mês. Em 31 de agosto afirmou, contente, para os familiares que estava quase vencido o “adversário”. Morreu no dia 1º de setembro.

domingo, 8 de agosto de 2010

Receita para uma família feliz

A receita é relativamente simples, talvez o complicado seja o jeito de tratar os elementos: todos querem ter uma família feliz. Mas como fazer com que isto aconteça? A receita: fazendo pessoas felizes. Os elementos, nesta Semana da Família: crianças desajustadas, jovens sem identidade, adultos amargurados e idosos definhando por serem considerados um incômodo a ser tolerado.
Ainda bem que estes casos não são a regra, mas a exceção, aparecendo mais porque demonstram nossas fraquezas e, em muitos casos, a incapacidade para enfrentar problemas. A tentação é negar que, exatamente embaixo de nossos narizes, as coisas estão acontecendo e tentamos deixar que se resolvam “naturalmente”.
Pensar que uma palmada é o mesmo que uma ação constante de violência é desconhecer por completo as relações de família. Ninguém aceita a violência, por não ser natural nas relações, mas fruto de uma mente doentia. Acompanhar um jovem enquanto define sua personalidade é um jogo de acertos e erros, que precisa ser enfrentado com um olhar que, ao mesmo tempo, signifique firmeza, solidariedade e carinho.
Embora sempre se pense que adultos, por estarem muito ocupados, estejam livres de problemas, o que se percebe é o contrário: Não deixar fluir os sentimentos faz com que se chegue a um momento em que se transborda e todo o processo de reconstrução é muito doloroso. E, numa sociedade em que se trata o outro como objeto útil, o idoso é algo descartável, porque não há muito mais o que possa oferecer em troca.
Estas idades formam a família: a criança em busca de caminhos, o jovem sedimentando conceitos, o adulto carente de acolhida e o idoso, porto seguro onde se ancora na espera de passar a tempestade e chegar a bonança. A receita da família feliz não existe. Mas há elementos a serem vividos quando resta um abraço, uma lágrima ou um sorriso maroto no rosto do idoso que reencontra a neta e lhe falta a palavra, mas escorrem sentimentos represados de saudade e ternura no que há de mais sublime na vida: laços que não se desfazem com a distância física ou o passar do tempo.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Um homem bom

Os mais antigos tinham clara a definição do que era um “homem bom”: temente a Deus (uma religiosidade bem definida), bom marido, bom pai de família e com posição bem definida na vizinhança, o que significava ser alguém que valia a pena ouvir ou consultar quando necessário.
É no que penso quando vejo tantas dificuldades para entender como os homens públicos pregam um tipo de comportamento e agem de forma diferente. Não vale a pena personalizar, mas olhem para a política e vejam o que dizem e o que fazem, ou, em nível internacional, o que, por exemplo, se noticia a respeito deste último derramamento de petróleo no mar: a preocupação é com os milhões de dólares que a empresa perdeu e sobra pouco espaço para ver a ferida que se abriu no meio ambiente.
Esta conduta é a mesma que, vista por nossas crianças e jovens, vai pautar o seu jeito de se comportar, não apenas no futuro, mas já no presente: se minha mãe pode xingar alguém no trânsito, porque não posso fazer o mesmo com meu colega na Escola? Se meu pai pode ameaçar agredir alguém na rua por uma ninharia, porque não posso descontar a minha raiva no irmãozinho ou irmãzinha em casa?
Este procedimento que parece banal está causando mais danos do que imaginamos. Regras de comportamento somente são assimiladas se antes vierem acompanhadas de exemplos. Não é à toa que se diz que “conselhos são bem vistos, mas exemplos arrastam”. Não é necessário que nos transformemos em modelos absolutos de integridade – porque os santos, hoje, são raros – mas que façamos do nosso agir um jeito de dizer que somos homens do bem.
Em família, na escola, na religião, no trabalho ou na diversão, a preocupação deve ser apenas uma: não faço ao outro o que não quero que me façam, respeitada a máxima de que a minha liberdade acaba quando inicia o nariz do outro. É o melhor jeito de pacificarmos as relações e descobrir que ainda podemos ser, ao jeito antigo, um “homem bom”.

sábado, 24 de julho de 2010

Uma boneca e uma prece

Estava jogada ali fazia um bom tempo. Ninguém voltou para buscá-la. Esquecida, depois de todo o carinho que deu e recebeu, de afagos e juras. Ficou sobre o travesseiro que já não seria utilizado. Quase sempre é objeto da cobiça de crianças, mas conheci pessoas idosas que também alimentavam recordações, transferiam sentimentos, transformavam um objeto em algo mais do que humano, quase divino.
Uma pequena boneca de pano, as mãozinhas juntas e um chapéu ao estilo germânico. Ao apertar suas mãos, inicia a prece do Pai Nosso. A doença havia feito com que ela fosse parar no Hospital, acompanhando a dona. Quem sabe quantos momentos de dor foram superados pelo olhar carinhoso da boneca que, apenas, podia, em troca, acolher juras, confidências, e fazer uma oração tão simples: “pai nosso, que estás nos céus...”
Mas agora ficou para trás. Só pode significar que sua dona já não consegue mais aceitar a sua silenciosa solidariedade. Deixou no passado, possivelmente, também as dores, tristezas e desilusões. Em outro plano, encontra todas as compensações que lhe foram negadas e a companhia que tanto desejou.
Também dei bonecas destas para pessoas amigas. Mas nunca esperei encontrar uma nesta situação. O ato de presentear é um afago, para a pessoa saber que não está sozinha, deixa-se um sinal de que estaremos juntos, por maiores que sejam as dificuldades, mesmo que não fisicamente. Sempre me surpreendi quando dava uma delas a pessoas idosas. O sorriso de uma criança, ao receber, é de satisfação pelo agrado, mas, o de um idoso é, entre lágrimas, de quem espera mais do que apenas um presente, uma presença de carinho.
Pode-se dizer que uma boneca é apenas uma boneca, um objeto que, algum dia, será descartado. Será? Aquela, no travesseiro da enfermaria, carregava a afetividade de uma pessoa desconhecida que deve, muitas vezes, ter unido as mãozinhas para murmurar uma prece: ouvida por Deus, que serenou um coração e o recebeu como o suave perfume das almas capazes de transcender o objeto e dar-lhe um sentido na oração.

domingo, 18 de julho de 2010

A bengala da fé

A Esfinge cortava o caminho do viajante e propunha um enigma: “qual é o animal que anda com quatro patas, pela manhã; duas ao meio-dia e três ao entardecer”. E punha contra a parede: “ou resolves, ou te devoro!”. A resposta parece simples: o homem, pela manhã (início da vida) engatinha; ao meio-dia (em sua plenitude) em pé; e ao entardecer (velhice), auxiliado por uma bengala. Não há estatística de quantos foram devorados.
Em casa, compramos uma bengala de madeira, clara (creio que é bege), que foi utilizada por dona França (minha mãe), quando restaurava uma bacia lascada; hoje o seu Manoel (meu pai), faz uso dela, enquanto se recupera das aplicações de radioterapia. Propus que marcássemos a bengala com a primeira letra de todos os que a utilizaram e que já começássemos a organizar a fila daqueles que ainda vão utilizá-la.
Mas a bengala que auxilia a caminhar e uma ideia muito próxima das bengalas que utilizamos: há uma para a memória; outra para os sentimentos e, até, para a religião. Foi exatamente esta que me impressionou quando ouvi o que as pessoas fazem na relação com o Divino, independente de religião: um Deus refém. “Eu faço tal coisa, mas tens que me retribuir”. Também com seus Santos de devoção: há uma lenda de que Santo Antônio, para os casamenteiros, deve ter o corpo separado da cabeça, ou mergulhado em água, até que arrume marido ou mulher.
Estranho jeito de fé. Fé é exatamente isto: colocar-se nas mãos de Deus e também possíveis problemas. Não há exigências, para que também não haja desilusão quando as coisas não acontecem como queríamos. A resposta de Deus é sempre uma graça, alcançada não por merecimento, mas por ter colocado a vida em suas mãos. Seduziu-me uma frase: “não apresente o seu problema para Deus, mas apresente Deus para o seu problema”. Ele é bem maior. Não é apenas um jogo de palavras, mas uma verdade: mesmo que não entendamos, em determinado momento, o que se passa, a melhor forma de enfrentar o destino é repetir o já gasto refrão: “segura na mão de Deus. E vai”.

domingo, 11 de julho de 2010

Torrei o amendoim

A expressão é: “rei morto, viva o rei!” Significando que acabado com um é preciso que o trono não tenha vacância e se escolha um novo. Pois a África do Sul cumpriu seu papel ao realizar a Copa do Mundo de Futebol da FIFA. Agora é a vez do Brasil, em quatro anos, aperfeiçoar o que tem e criar o que é necessário, especialmente em infra-estrutura, para atender a milhares de profissionais e turistas que acompanharão o evento.
Mas não são apenas os governos, em todas as instâncias, mais as instituições ligadas ao futebol, que podem ganhar com esta realização. É um espetáculo que exige investimentos macros: estradas, transporte, comunicações, saúde; mas também em áreas bem mais simples: como pedreiros, copeiras, recepcionistas, motoristas, etc.
O ingrediente fundamental é a capacidade de investir e de ousar para encontrar nichos que possam ser ocupados. Na África, até o pessoal que vendia nas ruas: lanches, lembranças e bandeiras ou chapéus (inclusive a malfadada vuvuzela), foram instruídos em como receber e tratar os turistas. E isto não vai se dar apenas nas 12 sedes que terão os jogos, mas em muitas cidades de médio e pequeno porte que também poderão abrigar as preparações e... Investimentos, grandes investimentos.
Porém, é necessário mostrar serviço, que inicia agora quando a tempo de preparar projetos e candidatar as sedes. O desenvolvimento das diversas áreas do Estado permite que muitas micro-regiões se candidatem, até em conjunto, buscando prestar um serviço e receber benefícios. Há recursos públicos, que devem ser bem fiscalizados, e privados que tem razão em esperar retorno, mas sem a ganância que inviabiliza bons serviços.
O professor Sílvio tem razão: não sou um bom cozinheiro. A brincadeira foi porque, no artigo anterior, contei que aprendi a fazer pão. Recentemente, seguindo o aprendizado da cozinha: torrei o amendoim. Sou um cozinheiro burocrático, repito receitas, e me falta ousadia para aventurar em ingredientes diferentes. Esta será a diferença entre aqueles que apenas assistirão à Copa de 2014 e aos que encontrarão brechas criativas para seus negócios e municípios, em quatro anos que prometem modificar o Brasil. Tomara. Que venha a Copa e sejam bons e comoventes momentos para todos nós.

domingo, 4 de julho de 2010

O pão nosso de cada dia

Quando criança, gostava de sentar à mesa da cozinha (elas eram enormes - talvez a perspectiva da visão da infância) e ver minha mãe e tias sovarem a massa do pão. Era preciso paciência, não podia haver nervosismo, nem outro problema (com o qual as mulheres convivem periodicamente), porque, então, a massa “desandava”. Depois, era preciso um tempo para a massa descansar, coberta por um pano, e, só então, ir ao forno.
Foi a lembrança que me veio quando fiz, aos 55 anos, pela primeira vez, um pão. Claro, não tinha todo aquele ritual, porque feito numa máquina elétrica, mas respeita as mesmas etapas: é preciso sovar a massa, para unir todos os elementos; segue-se um tempo de descanso em que a máquina se mantém em silêncio; e o processo de assar, em que a massa branca vai tomando forma e mostrando a coloração peculiar a um pão, crescendo e tornando-se o alimento pelo qual lutamos no nosso dia a dia.
Aqui em casa, o piloto oficial da máquina de pão é o meu pai. Neste momento, ele está provisoriamente liberado desta função para poder se preocupar com a sua saúde. Então, entrei em ação e aprendi a fazer pão e, até – invejem! – a cozinhar pinhão! Tornei-me um autêntico dono de casa. Não sei se sou o número dois, três ou quatro, na ordem daqueles que executam as tarefas domésticas, mas isto não está me preocupando.
Fazer estas pequenas coisas tão necessárias a uma rotina de nossas vidas tem feito a diferença em não desperdiçar aquilo que outros fazem e que não valorizamos: o pão à mesa é obrigação de alguém; o leite aquecido surge do nada; a criatividade em procurar um cardápio diferente todos os dias não é minha preocupação.
Quem lida com esta rotina sabe que alimentar uma família com criatividade é um calvário de todos os dias. Eu estou aprendendo a ser enfermeiro, acompanhante e, até, cozinheiro. Estou aprendendo a ter a tolerância (poderia ser paciência?), que nunca foi o meu forte. Cada pequena vitória ensina algo muito simples: como esquentar um alimento, alcançar uma medicação, ou simplesmente valorizar uma máquina que desliga e me oferece um alimento novinho, apenas pedindo uma cobertura de manteiga e uma xícara de café: o pão nosso de cada dia.