Crônica Poética:
Minha juventude foi um tempo bom, daqueles que parecem ter sido desenhados sob medida para dar felicidade. Naquela época, vivia a rigidez do Seminário Diocesano, o que não me impedia de cruzar a fronteira na paróquia Santa Teresinha para conviver com um grupo de jovens. O nome era pura poesia e promessa: Em Busca de um Novo Sol. Por muito tempo, as manhãs de atividades religiosas e as tardes de encontros sociais eram o pretexto perfeito que inventávamos para despistar a solidão e, simplesmente, estarmos juntos.
Tudo isso desabou sobre os meus olhos recentemente. Fui almoçar no restaurante Rancho da Vovó, na Vila Maciel. Mais de cinquenta anos depois, lá estava eu, cruzando o mesmo cenário. Revi a bela igreja, contemplei o cemitério onde repousa o Padre Reinaldo — que a fé do povo, à revelia dos altares, já decretou santo — e, no instante em que passei pela porta do restaurante, o tempo recuou. Pude sentir, nítido e teimoso, o cheiro de cebolas.
Era ali que o grupo de jovens da localidade realizava os "bailinhos" de outrora. O nosso jeito de arrecadar alguns trocados para financiar os sonhos do grupo. O proprietário, num gesto de generosidade cúmplice, cedia o espaço: um velho depósito de sacos de cebola. Quanta água rolou sob as pontes da vida desde então... Hoje, o prédio mantém a mesma estrutura básica de armazém, mas com os arranjos que o transformam em um acolhedor refúgio para degustar a culinária da terra. O paladar de hoje, no entanto, pedia licença ao olfato de ontem.
Caminhar pela estrada que corta a Vila Maciel foi andar por um misto de memória e nostalgia. Os bailinhos do depósito de cebola eram o nosso microcosmo: ali aprendíamos a conviver, a ensaiar os primeiros passos no mundo, a estabelecer parcerias e a tropeçar nos primeiros — e tão preciosos — amores.
Olhando para trás, sei que nem tudo saiu como a gente esperava da vida. O tempo é mestre em desviar nossos planos. Mas os sentidos... ah, os sentidos são teimosos. Ficaram impregnados de cheiros, músicas e texturas que, ainda hoje, emergem do passado. Um passado que ressurge com o gosto agridoce daquilo que a gente não desejava, jamais, ter perdido.
(Revisão e imagens: Gemini)

Nenhum comentário:
Postar um comentário