sábado, 13 de junho de 2026

Em Busca de um Novo Sol

 

Crônica Poética:


​Minha juventude foi um tempo bom, daqueles que parecem ter sido desenhados sob medida para dar felicidade. Naquela época, vivia a rigidez do Seminário Diocesano, o que não me impedia de cruzar a fronteira na paróquia Santa Teresinha para conviver com um grupo de jovens. O nome era pura poesia e promessa: Em Busca de um Novo Sol. Por muito tempo, as manhãs de atividades religiosas e as tardes de encontros sociais eram o pretexto perfeito que inventávamos para despistar a solidão e, simplesmente, estarmos juntos.

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Tudo isso desabou sobre os meus olhos recentemente. Fui almoçar no restaurante Rancho da Vovó, na Vila Maciel. Mais de cinquenta anos depois, lá estava eu, cruzando o mesmo cenário. Revi a bela igreja, contemplei o cemitério onde repousa o Padre Reinaldo — que a fé do povo, à revelia dos altares, já decretou santo — e, no instante em que passei pela porta do restaurante, o tempo recuou. Pude sentir, nítido e teimoso, o cheiro de cebolas.

​Era ali que o grupo de jovens da localidade realizava os "bailinhos" de outrora. O nosso jeito de arrecadar alguns trocados para financiar os sonhos do grupo. O proprietário, num gesto de generosidade cúmplice, cedia o espaço: um velho depósito de sacos de cebola. Quanta água rolou sob as pontes da vida desde então... Hoje, o prédio mantém a mesma estrutura básica de armazém, mas com os arranjos que o transformam em um acolhedor refúgio para degustar a culinária da terra. O paladar de hoje, no entanto, pedia licença ao olfato de ontem.

​Caminhar pela estrada que corta a Vila Maciel foi andar por um misto de memória e nostalgia. Os bailinhos do depósito de cebola eram o nosso microcosmo: ali aprendíamos a conviver, a ensaiar os primeiros passos no mundo, a estabelecer parcerias e a tropeçar nos primeiros — e tão preciosos — amores.

​Olhando para trás, sei que nem tudo saiu como a gente esperava da vida. O tempo é mestre em desviar nossos planos. Mas os sentidos... ah, os sentidos são teimosos. Ficaram impregnados de cheiros, músicas e texturas que, ainda hoje, emergem do passado. Um passado que ressurge com o gosto agridoce daquilo que a gente não desejava, jamais, ter perdido.

(Revisão e imagens: Gemini)

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