Janelas do Tempo:
Se no primeiro capítulo da nossa série buscamos a identidade nos segredos de um nome, nesta segunda janela, a busca se volta para as raízes e para o chão que nos sustenta. No livro A Neta de Maharaní, de Maha Akhtar, a narrativa é conduzida por Farah, uma jovem que vive a distância do Líbano, mas que se vê emocionalmente convocada ao passado após a morte de sua avó, Souad. Ao mergulhar nos vestígios deixados por ela, Farah não apenas organiza a herança física, mas desvenda uma complexa tapeçaria de segredos familiares que atravessam décadas.
O livro alterna entre o presente e o passado, revelando a vida de Souad durante o período turbulento do Líbano no século XX. A oliveira da família, localizada em um bosque ancestral, serve como o fio condutor da trama: ela é a testemunha silenciosa das mudanças políticas, das perdas causadas pela guerra e, principalmente, da resiliência das mulheres da família que, através da culinária e das tradições, mantiveram a identidade libanesa viva.
Maha Akhtar mostra que a história de um povo não é composta apenas por grandes fatos ou datas cívicas, mas pela manutenção das tradições domésticas. Este livro é um excelente gancho para discutir como o arquivo familiar é uma forma de resistência. Manter viva a história de sua avó, para Farah, é uma forma de não deixar que a guerra apague a existência de seus antepassados.
A literatura de Akhtar é profundamente sensorial. Para alguém que valoriza a organização doméstica e os rituais diários — como o preparo de sua própria refeição —, este livro ilustra como a cozinha é o lugar onde a cultura se preserva e se transmite. É onde o "tempo" do lado de fora da casa é suspenso.
O livro toca em um ponto muito caro ao leitor contemporâneo: a busca por raízes em um mundo globalizado. Farah vive a dualidade de ser parte de um lugar (o Líbano) e, ao mesmo tempo, ser fruto da diáspora. As vivências da personagem mostram que, como todos nós, sempre buscamos "a nossa oliveira" — um lugar, uma memória, uma tradição que nos ancora quando o mundo à volta parece incapaz de dar as respostas que esperamos…
(Revisão e imagem: Gemini)

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