sábado, 23 de maio de 2026

Tamancos: O compasso das minhas memórias


Crônica Poética:




As lembranças, por vezes,
calçam os tamancos da minha infância na tentativa de alcançar as pegadas que marcaram a longa estrada. Houve um tempo em que percorrer a vida não exigia mapas, apenas a luz do olhar materno. Num sorriso mágico, as dúvidas se dissipavam e as dores do crescimento desapareciam. Uma época em que se aprendia a ser enquanto os pés marcavam os gramados em frente à casa ou a poeira das estradas de chão batido.

​Naquele solo ficaram gravados os primeiros sonhos e, inevitavelmente, os primeiros tropeços. Porém, na infância, o futuro era uma abstração distante. O desejo limitava-se ao convívio: ao riso e aos gritos no campinho de futebol, ao voo da pipa, ao estalar das bolinhas de gude. Sons que ainda hoje rompem a neblina do passado e permanecem vivos.

​Meus tamancos marcaram um momento em que éramos felizes sem precisar definir o que era a felicidade. Ela simplesmente acontecia. No entanto, o tempo, artesão rigoroso, mudou o ritmo da marcha. Quem caminhava ao meu lado foi, um a um, tomando outra direção. O gosto amargo da despedida roubou a minha energia; fiquei encurvado, com o olhar mais próximo do chão onde tudo começou.

Não sei em que recanto meus tamancos foram guardados pelo destino. Na solidão habitada dos meus sonhos, ainda ouço o bater seco e constante da madeira no assoalho da velha casa. ​Hoje, eles seguem sozinhos por dentro das minhas recordações. Ditam o ritmo das minhas memórias e embalam, com a precisão das horas, o compasso das minhas memórias.

(Revisão e imagens: Gemini)


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