O Diabo, dizem, NÃO perdeu as botas lá para as bandas do rio Camaquã, no quinto distrito de Canguçu. Ele foi esperto: voltou antes... Não aguentou o peso da distância ou, quem sabe, a braveza de quem precisava tirar o sustento de trinta hectares para alimentar doze bocas. Em 1958, a estrada foi o único remédio. Minha família deixou para trás a terra que, de tão dividida, já não cabia nos sonhos dos mais novos.
Ainda tenho lembranças do asseio que desafiava a escassez. Na casa de chão batido, a limpeza não era luxo, era oração. Varria-se a terra até que ela brilhasse como assoalho de palácio. E sobre a mesa, ou num canto da sala, o adorno por excelência: um arranjo com a flor “Brinco-de-Princesa”.
Pendente, com suas pétalas de sangue e coração roxo, era a nossa joia de estimação. Não era ouro de ourives, era o ouro de pátio. Quando a casa estava em ordem, o chão varrido e o vaso florido, dizia-se com orgulho: "Está um brinco!".
Hoje, longe das antigas e saudosas Três Porteiras, percebo que a dignidade morava naquele vaso. Ser "um brinco" era a resistência da beleza frente à miséria. O capricho de quem, mesmo tendo quase nada, fazia questão de oferecer o melhor aos olhos de quem compartilhava um lar.
Minha história começou ali, naquele chão de terra batida e flores de pingente. E até hoje, quando busco a perfeição num texto ou na vida, é para aquele vaso que volto o olhar das minhas saudades. A vida vai ensinando que não há joia maior do que o cuidado que a gente coloca no que é simples, com o sentido de pertença: ser família no chão batido da própria existência.
(Revisão e imagens: Gemini)

Nenhum comentário:
Postar um comentário